[go: up one dir, main page]

Mostrar mensagens com a etiqueta poesia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta poesia. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, janeiro 05, 2026

Aceitar o dia. O que vier.


(Imagem captada na Serra de Bornes, em dezembro de 2025)

 2025 não foi um ano bom. Houve demasiadas perdas e mudanças.

Não traço projetos para este ano recém nascido. Só quero que seja mais sereno que o anterior e que eu seja suficientemente forte para aguentar o que vier.

Ocorre-me um poema de Rosa Alice Branco:

Aceitar o dia. O que vier.
Atravessar mais ruas do que casas,
mais gente do que ruas. Atravessar 
a pele até ao outro lado. Enquanto
faço e desfaço o dia. O teu coração
dorme comigo. Agasalha-me as noites
e as manhãs são frias quando me levanto.
E pergunto sempre onde estás e porque
as ruas deixaram de ser rios. Às vezes
uma gota de água cai ao chão
como se fosse uma lágrima. Às vezes
não há chão que baste para a enxugar.


domingo, setembro 28, 2025

Vale mais tarde...

 Parabéns, ana e CC!

Votos de dias muito felizes.

Hoje só tenho para oferecer uma paisagem do meu paraíso e um poema do transmontano (e muito premiado) A. M. Pires Cabral.



Não me mostres nenhum norte
nem estradas para lá:
são tudo embustes.

Mostra-me antes pedras, folhas mortas
de Outono atapetando o chão das matas,
voos de libelinha rasando o sol poente,
cândidas risadas infantis.

Quero eu dizer: mostra-me coisas
daquelas que se corrompem sem pressa.


sábado, março 22, 2025

Toda a poesia

 Toda a poesia

é luminosa, até
a mais obscura.
O leitor é que tem às vezes,
em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.
Se regressar
outra vez e outra vez
e outra vez
a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade.
Abençoado seja se lá chegar.

Eugénio de Andrade, Os Sulcos da Sede

Imagens captadas em São Miguel, há alguns anos

domingo, dezembro 29, 2024

Sei


Reinaldo Ferreira, Poemas
(Trazido da página "O poema ensina a cair - Ainda")

 

Boas Festas e votos de um 2025 feliz...

 ... para quem (ainda) passa.



INVERNO

Velho, velho, velho
Chegou o Inverno.

Vem de sobretudo,
Vem de cachecol,
O chão onde passa
Parece um lençol.

Esqueceu as luvas
Perto do fogão:
Quando as procurou,
Roubara-as um cão.

Com medo do frio
Encosta-se a nós:
Dai-lhe café quente
Senão perde a voz.

Velho, velho, velho.
Chegou o Inverno.

Eugénio de Andrade, Aquela nuvem e outras 

Ver menos


quinta-feira, março 23, 2023

"I've caught poetry"


Monty Python's Flying Circus

(Imagens surripiadas da página da Bertrand Editora)

 

terça-feira, março 21, 2023

Canção


Feliz Dia da Poesia ... e da Árvore!

sexta-feira, junho 10, 2022

O tempo acaba o ano, o mês e a hora

(Desconheço a autoria da imagem)

O tempo acaba o ano, o mês e a hora,
A força, a arte, a manha, a fortaleza;
O tempo acaba a fama e a riqueza,
O tempo o mesmo tempo de si chora.

O tempo busca e acaba o onde mora
Qualquer ingratidão, qualquer dureza;
Mas não pode acabar minha tristeza,
Enquanto não quiserdes vós, Senhora.

O tempo o claro dia torna escuro
E o mais ledo prazer em choro triste;
O tempo, a tempestade em grão bonança.

Mas de abrandar o tempo estou seguro
O peito de diamante, onde consiste
A pena e o prazer desta esperança.

Luís de Camões

quarta-feira, setembro 22, 2021

Felicidades, muitas...

Um nascer do Sol em Trás-os-Montes e um poema para a ana e para a CC, que hoje estão de Parabéns.



Indago a forma definitiva do outono.
Um diálogo pode mudar a paisagem.
Fazer nascer um poema.
Criar obsessões.
Destruir emboscadas.
Cada instante é a metamorfose
de uma asfixia interior.
Confundo os caracteres e um imaginário
se revela numa iconografia fantástica.
Nas entrelinhas, um espectáculo de ironias
reitera entregas e recusas
como um dever por cumprir.
Graça Pires, Outono: lugar frágil, 1994

 

segunda-feira, julho 12, 2021

Mudar de casa


Evgenyi Monahov
 

É bom mudar de casa, de janela,
arrumar de outra maneira as ilusões,
tratar de coisas puras como tintas
e sofás, pôr ordem entre os livros
e a vida, simular a liberdade.
Parece-nos possível voltar a acreditar
na mão que nos estende um pé de salsa,
na pechincha da beleza, quando passa
no poente da razão.
Apetece cometer uma loucura,
comprar um telescópio, decorar
o canto nono dos Lusíadas,
subir umas escadas do avesso,
pensar que nunca mais teremos frio.
José Miguel Silva, Ulisses já não mora aqui & etc.

sexta-feira, junho 18, 2021

O feitiço das mil folhas

 Eu vou colher

A erva frágil das mil folhas.
Mais radiosa será a minha face
E mais cálidos os meus lábios
Mais jovial a minha voz.
Minha voz será
Um raio de sol
E serão meus lábios
A polpa e o sumo
Dos morangos do bosque.

Eu serei
A ilha no meio do mar
E a colina na pradaria.
Serei a estrela
Ao morrer da lua
E serei bordão dos alquebrados.
Eu estarei acima
De todos os homens
E nenhum haverá
Mais alto que eu.

Poema gaélico escocês, talvez da tradição popular (Poemário Assírio e Alvim 2005)

segunda-feira, maio 17, 2021

Elegia

 

Às vezes era bom que tu viesses.
Falavas de tudo com modos naturais:
em ti havia
a harmonia
dos frutos e dos animais.

Maio trouxe cravos como outrora,
cravos morenos, como tu dizias,
mas cada hora
passa e não se demora
na tristeza das nossas alegrias.

Ainda sabemos cantar,
só a nossa voz é que mudou:
somos agora mais lentos,
mais amargos,
um novo gesto é igual ao que passou.

Um verso já não é maravilha,
um corpo já não é a plenitude,
tu quebraste ritmo, o ardor,
ao partires um a um
os ramos todos da tua juventude.

Não estamos sós:
setembro traz ainda
um fruto em cada mão.
Mas os homens, as aves e os ventos
já não bebem em ti a direção.

Eugénio de Andrade

domingo, fevereiro 28, 2021

Hei-de

Hei-de habitar no coração de certos que me amaram;
Ali hei-de ser eu como eles próprios me sonharam;
Irremediavelmente...
Para sempre

Ruy Cinatti

quinta-feira, fevereiro 25, 2021

Apenas


Tenho sido uma antipática. Leio os comentários, sempre simpáticos, de quem passa, mas não tenho respondido. Mea culpa.

 

sexta-feira, fevereiro 12, 2021

Aviso para colar na porta do frigorífico

Ao entardecer no topo da colina
repara como as urtigas e os freixos
resistem à estação seca
 
fala a viajantes e examina suas cartas
entra em contacto com navios costeiros
de passagem para mercados longínquos
certifica-te do latir do cão e da pisada do cavalo
 
perde o fôlego seguindo a nuvem
quando restar dela uma cor apenas
espante-te ainda sua vontade
de recomeçar vezes sem fim
 
as multidões entretêm-se
com milagres que ocorrem
nos livros de contabilidade
tu ao contrário procura
estrelas distintas
que arrastem às sacudidelas
o peso do teu arado
 
José Tolentino de Mendonça, Teoria da fronteira


quinta-feira, novembro 26, 2020

Este par de migalhas na algibeira


Cláudia Lucas Chéu, Beber pela garrafa

 

sexta-feira, outubro 02, 2020

Ponto de encontro

Não é fácil
Continuar a esperar
Que os amigos voltem
Duma viagem sem fim

É assim que percebemos
Que o infinito
É o supremo destino
Do corpo voando nas nuvens

As pegadas que ficam marcadas no chão
Servirão o aço da memória
Continuando outra espera
Num lugar de sementes
Libertadas nas montanhas de origem
Como próximo ponto de encontro

Fernando Reis Luís

quinta-feira, outubro 01, 2020

quarta-feira, setembro 09, 2020

Tempo fluvial

Se eu definisse o tempo como um rio,
a comparação levar-me-ia a tirar-te
de dentro da sua água, e a inventar-te
uma casa. Poria uma escada encostada
à parede, e sentar-te-ias num dos seus
degraus, lendo o livro da vida. Dir-te-ia:
«Não te apresses: também a água deste
rio é vagarosa, como o tempo que os
teus dedos suspendem, antes de virar
cada página.» Passam as nuvens no céu;
nascem e morrem as flores do campo;
partem e regressam as aves; e tu lês
o livro, como se o tempo tivesse parado,
e o rio não corresse pelos teus olhos.


Nuno Júdice

quarta-feira, julho 22, 2020