segunda-feira, janeiro 05, 2026
Aceitar o dia. O que vier.
domingo, setembro 28, 2025
Vale mais tarde...
Parabéns, ana e CC!
Votos de dias muito felizes.
Hoje só tenho para oferecer uma paisagem do meu paraíso e um poema do transmontano (e muito premiado) A. M. Pires Cabral.
Não me mostres nenhum norte
nem estradas para lá:
são tudo embustes.
Mostra-me antes pedras, folhas mortas
de Outono atapetando o chão das matas,
voos de libelinha rasando o sol poente,
cândidas risadas infantis.
Quero eu dizer: mostra-me coisas
daquelas que se corrompem sem pressa.
sábado, março 22, 2025
Toda a poesia
a mais obscura.
O leitor é que tem às vezes,
em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.
Se regressar
outra vez e outra vez
e outra vez
a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade.
Abençoado seja se lá chegar.
Eugénio de Andrade, Os Sulcos da Sede
Imagens captadas em São Miguel, há alguns anos
domingo, dezembro 29, 2024
Boas Festas e votos de um 2025 feliz...
... para quem (ainda) passa.
Velho, velho, velho
Chegou o Inverno.
Vem de sobretudo,
Vem de cachecol,
O chão onde passa
Parece um lençol.
Esqueceu as luvas
Perto do fogão:
Quando as procurou,
Roubara-as um cão.
Com medo do frio
Encosta-se a nós:
Dai-lhe café quente
Senão perde a voz.
Velho, velho, velho.
Chegou o Inverno.
Eugénio de Andrade, Aquela nuvem e outras
quinta-feira, março 23, 2023
terça-feira, março 21, 2023
sexta-feira, junho 10, 2022
O tempo acaba o ano, o mês e a hora
O tempo acaba o ano, o mês e a hora,
A força, a arte, a manha, a fortaleza;
O tempo acaba a fama e a riqueza,
O tempo o mesmo tempo de si chora.
O tempo busca e acaba o onde mora
Qualquer ingratidão, qualquer dureza;
Mas não pode acabar minha tristeza,
Enquanto não quiserdes vós, Senhora.
O tempo o claro dia torna escuro
E o mais ledo prazer em choro triste;
O tempo, a tempestade em grão bonança.
Mas de abrandar o tempo estou seguro
O peito de diamante, onde consiste
A pena e o prazer desta esperança.
quarta-feira, setembro 22, 2021
Felicidades, muitas...
segunda-feira, julho 12, 2021
Mudar de casa
sexta-feira, junho 18, 2021
O feitiço das mil folhas
Eu vou colher
A erva frágil das mil folhas.Mais radiosa será a minha face
E mais cálidos os meus lábios
Mais jovial a minha voz.
Minha voz será
Um raio de sol
E serão meus lábios
A polpa e o sumo
Dos morangos do bosque.
Eu serei
A ilha no meio do mar
E a colina na pradaria.
Serei a estrela
Ao morrer da lua
E serei bordão dos alquebrados.
Eu estarei acima
De todos os homens
E nenhum haverá
Mais alto que eu.
Poema gaélico escocês, talvez da tradição popular (Poemário Assírio e Alvim 2005)
segunda-feira, maio 17, 2021
Elegia
Às vezes era bom que
tu viesses.
Falavas de tudo com modos naturais:
em ti havia
a harmonia
dos frutos e dos animais.
Maio trouxe cravos
como outrora,
cravos morenos, como tu dizias,
mas cada hora
passa e não se demora
na tristeza das nossas alegrias.
Ainda sabemos
cantar,
só a nossa voz é que mudou:
somos agora mais lentos,
mais amargos,
um novo gesto é igual ao que passou.
Um verso já não é
maravilha,
um corpo já não é a plenitude,
tu quebraste ritmo, o ardor,
ao partires um a um
os ramos todos da tua juventude.
Não estamos sós:
setembro traz ainda
um fruto em cada mão.
Mas os homens, as aves e os ventos
já não bebem em ti a direção.
Eugénio de Andrade
domingo, fevereiro 28, 2021
Hei-de
Hei-de habitar no coração de certos que me amaram;
Ali hei-de ser eu como eles próprios me sonharam;
Irremediavelmente...
Para sempre
Ruy Cinatti
quinta-feira, fevereiro 25, 2021
sexta-feira, fevereiro 12, 2021
Aviso para colar na porta do frigorífico
repara como as urtigas e os freixos
resistem à estação seca
fala a viajantes e examina suas cartas
entra em contacto com navios costeiros
de passagem para mercados longínquos
certifica-te do latir do cão e da pisada do cavalo
perde o fôlego seguindo a nuvem
quando restar dela uma cor apenas
espante-te ainda sua vontade
de recomeçar vezes sem fim
as multidões entretêm-se
com milagres que ocorrem
nos livros de contabilidade
tu ao contrário procura
estrelas distintas
que arrastem às sacudidelas
o peso do teu arado
José Tolentino de Mendonça, Teoria da fronteira
quinta-feira, novembro 26, 2020
sexta-feira, outubro 02, 2020
Ponto de encontro
Continuar a esperar
Que os amigos voltem
Duma viagem sem fim
É assim que percebemos
Que o infinito
É o supremo destino
Do corpo voando nas nuvens
As pegadas que ficam marcadas no chão
Servirão o aço da memória
Continuando outra espera
Num lugar de sementes
Libertadas nas montanhas de origem
Como próximo ponto de encontro
Fernando Reis Luís
quinta-feira, outubro 01, 2020
quarta-feira, setembro 09, 2020
Tempo fluvial
Se eu definisse o tempo como um rio,
a comparação levar-me-ia a tirar-te
de dentro da sua água, e a inventar-te
uma casa. Poria uma escada encostada
à parede, e sentar-te-ias num dos seus
degraus, lendo o livro da vida. Dir-te-ia:
«Não te apresses: também a água deste
rio é vagarosa, como o tempo que os
teus dedos suspendem, antes de virar
cada página.» Passam as nuvens no céu;
nascem e morrem as flores do campo;
partem e regressam as aves; e tu lês
o livro, como se o tempo tivesse parado,
e o rio não corresse pelos teus olhos.
Nuno Júdice