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segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Da Botânica da paixão e do amor (I)

 

Fomos com a Bea e pela mão de Gonçalo M. Tavares à Grécia antiga, na verdade um tempo tão reduzido na história da civilização, quanto marcante. Forjando-se entre deuses e filósofos era genuína a sua sede de explicar o universo, o mundo e os homens. E do tanto que já se explicou, está tudo ainda por explicar.

A paixão.

A paixão é a flor do maracujá. Hipnotizante nas suas matizes e formas complexas, podemos ficar presos lá dentro como numa armadilha. Também é designada como a Flor da Paixão ou Passiflora, dizem que atordoa pelo cheiro  e que a sua morfologia simboliza o martírio de jesus.

É uma luz incandescente que ao vir do outro na nossa direcção nos impele e nos atrai sem que saibamos explicar porquê, queremos só ir e mergulhar. E fazemo-lo vezes sem conta, numa bebedeira feita de pele e sucos. Pode durar dias, pode duras meses, até mais. Mas um dia tudo o que nos parecia só luz mostra uma pequena sombra. Ou a sede que parecia inesgotável mata-se mais rápido. Ou a vida cava um fosso pela distância ou por projetos que não se conciliam. Ou surge uma zanga que não se consegue sanar. E de repente tudo acaba sem remédio, sem modo de voltar ao início, de conseguir evoluir para outra coisa, amor ou amizade, com sorte não acaba em ódio. É o pássaro que esbarrou contra o vidro, a borboleta que se colou à planta, a mosca que entrou na garrafa. Morreu, é já nada, passou. E é assim que para muitos se transita de paixão em paixão, presos da força de Eros, do impulso que gera entusiasmo. Até pode haver paixões em simultâneo já que ela não se faz de compromisso mas de fome.

Mas pode acontecer que essa luz, a princípio incandescente, se torne mais ténue, mais consonante com o crepúsculo e essa transição, se não apaga o fogo dos corpos, deixa que ardam mais lentamente, está-se a caminho do amor. O amor é lúcido, é já casa em construção. Alimentá-lo em simultâneo com luz e com sombra, com desejo e com compromisso, com cuidado e com exigência, saber caminhar em todas as cores do arco-íris sem cair, é algo muito difícil e muito belo. Entramos na dinâmica do Girassol, saber virar o caule para beber a luz que mantém o amarelo da flor.

~CC~

(cont)


domingo, 18 de janeiro de 2026

Musiquinha de Domingo (XVII)

 


Imaginem quando foi gravado?!

Quando tínhamos muito medo...e não é que ele volta, pouco a pouco, o bicho papão anda à solta e já não se denomina vírus. A vacina é bem mais difícil de criar.

~CC~




quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Alguns também são poetas

 

Um raio de sol matinal espreitou no meio das nuvens, tornando o céu numa mescla mais bonita de azul e branco.

Creio que uma parte dele entrou dentro das dores persistentes na parte lombar da coluna que há cerca de um mês se decidiram instalar e não me deixam dormir uma noite plena, atrapalham a condução e os dias e até, por vezes, me secam a voz. Não que tenham passado, mas creio que esta promessa de Primavera será um factor fortemente adjuvante da medicação e talvez atenuante do retrato fiel que o instrumento científico trará em breve. Imagino um neurocirurgião que receitará caminhadas, leituras e banhos de mar ou mesmo termas com piscinas de água quente, talvez tocado por aquela pequena dose de magia que faz com que alguns médicos também sejam poetas. Mas há uns que não: olham direito nos olhos, com o bisturi bem perto de entrar na nossa pele, apontando a solução que consideram ser a certa, desprezando a nossa relação com o universo e os factores adjuvantes do clima. 

~CC~



 

domingo, 11 de janeiro de 2026

Musiquinha de Domingo (XVI)

 



"Onde houver amor, o mal não pode acontecer"


(como a Márcia, sempre fui dos pequenos brilhos, nunca dos incandescentes, sempre a sonhar manhãs belas)

~CC~

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

De tirar da própria terra

 

Trata-se de um espaço amplo, uma casa antiga que a autarquia recuperou e abriu ao público, com uma bonita esplanada interior. Duas mulheres entraram com duas jovens, estava eu a tentar beber do pouco sol que o dia tinha. Uma das mulheres apontou a parede pintada de motivos marinhos ao fundo, considerando que era bonita. Mas a outra mulher retorquiu que nada ali tinha grande interesse, que as miúdas queriam era ver lojas. E as jovens riram, abanaram a cabeça em concordância, ao que as mulher retorquiu alegremente: vamos, vamos!

E assim se enchem os centros comerciais e se compram mais e mais coisas das quais pouco ou nada precisamos. E eu que cada vez gosto menos de comprar, até comida, coisa que por muitos anos comprei em abundância e atafulhei o armário, perdoei-me muitas vezes desse excesso pela exiguidade de alimento na infância e na adolescência. Consciente dos meus mecanismos de compensação, fui procurando corrigi-los. Ainda assim não estou curada, quando um recipiente de detergente vai a meio, se não tiver outro comprado, sinto-me desconfortável. Gostava de saber viver com menos ainda e, sobretudo, de tirar da própria terra uma parte do meu alimento.

~CC~