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domingo, julho 01, 2018

Não me perguntes

Não me perguntes, porque nada sei
Da vida,
Nem do amor,
Nem de Deus,
Nem da morte.
Vivo,
Amo,
Acredito sem crer,
E morro, antecipadamente
Ressuscitando.
O resto são palavras
Que decorei
De tanto as ouvir.
E a palavra
É o orgulho do silêncio envergonhado.
Num tempo de ponteiros, agendado,
Sem nada perguntar,
Vê, sem tempo, o que vês
Acontecer.
E na minha mudez
Aprende a adivinhar
O que de mim não possas entender.
Miguel Torga

quinta-feira, março 30, 2017

O Douro sublimado

«O Douro sublimado. O prodígio de uma paisagem que deixa de o ser à força de se desmedir. Não é um panorama que os olhos contemplam: é um excesso da natureza. (...) Um universo virginal, como se tivesse acabado de nascer, e já eterno pela harmonia, pela serenidade, pelo silêncio que nem o rio se atreve a quebrar, ora a sumir-se furtivo por detrás dos montes, ora pasmado lá no fundo a reflectir o seu próprio assombro. Um poema geológico. A beleza absoluta.»

Miguel Torga, Diário XII

Hoje foi dia de visita ao Parque do Douro Internacional. O céu não se prestava a fotografias, mas fez-se o que se pode. Afinal, o objectivo não era fotografar...

Penedo Durão, Freixo de Espada-à-Cinta


Fraga do Puio, Picote


Miranda do Douro/ Espanha


O "2", que resulta da formaçao de algas, líquenes e leveduras, numa rocha nas arribas espanholas


O Douro visto do barco, que nos levou a ver a fauna e a flora das arribas, numa viagem de uma hora

Miranda do Douro à vista!

quarta-feira, setembro 07, 2016

À proa dum navio de penedos


O Douro visto  a partir do miradouro de S. Leonardo da Galafura

São Leonardo da Galafura

À proa dum navio de penedos,
A navegar num doce mar de mosto,
Capitão no seu posto
De comando,
S. Leonardo vai sulcando
As ondas
Da eternidade,
Sem pressa de chegar ao seu destino.
Ancorado e feliz no cais humano,
É num antecipado desengano
Que ruma em direcção ao cais divino.

Lá não terá socalcos
Nem vinhedos
Na menina dos olhos deslumbrados;
Doiros desaguados
Serão charcos de luz
Envelhecida;
Rasos, todos os montes
Deixarão prolongar os horizontes
Até onde se extinga a cor da vida.

Por isso, é devagar que se aproxima
Da bem-aventurança.
É lentamente que o rabelo avança
Debaixo dos seus pés de marinheiro.
E cada hora a mais que gasta no caminho
É um sorvo a mais de cheiro
A terra e a rosmaninho!

Miguel Torga

segunda-feira, dezembro 02, 2013

Vendaval


("Vendaval" de Pilar Maldonado)

Meu coração quebrou. 
Era um cedro perfeito; 
Mas o vento da vida levantou,
E aquele prumo do céu caiu direito.

Nos bons tempos felizes
Em que ele batia, erguido,
Desde a rama às raízes
Era seiva e sentido.

Agora jaz no chão.
Palpita ainda, e tem
Vida de coração...
Mas não ama ninguém.

Miguel Torga, Diário (1942)

quarta-feira, março 21, 2012

Glória


Depois do Inverno, morte figurada,
A Primavera, uma assunção de flores.
A vida
Renascida
E celebrada
Num festival de pétalas e cores.


Miguel Torga







"All flowers in time bend towards the sun"

quarta-feira, janeiro 18, 2012

Destino


Acordo com os pássaros cativos,
Com a ária da vida nos ouvidos,
acordo sem amarras nos sentidos,
Fiéis à sempiterna liberdade...
Nada pôde vencer a lealdade
que juraram à deusa aventureira.
Nem as grades do sono, nem a severidade
Da noite carcereira.

Acordo e recomeço
O canto interrompido:
O desvairado canto
Da ira irrequieta...
- O canto que o poeta
Se obrigou a cantar
Antes de ter nascido,
Antes de a sua angústia começar.


Miguel Torga


No dia 17 de Janeiro de 1995, partia Adolfo Correia da Rocha. Ficou-nos Miguel Torga.

terça-feira, maio 10, 2011

Guerra civil


("Breogán", La Coruña, Abril/2011)


É contra mim que luto.
Não tenho outro inimigo.
O que penso,
O que sinto,
O que digo
E o que faço,
É que pede castigo
E desespera a lança no meu braço.


Absurda aliança
De criança
E adulto,
O que sou é um insulto
Ao que não sou;
E combato esse vulto
Que à traição me invadiu e me ocupou.


Miguel Torga

sábado, janeiro 08, 2011

Súplica

Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.


Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.

Miguel Torga

É só um poema... nada de ideias!

Bom fim-de-semana para quem ainda passa.

domingo, junho 13, 2010

Parabéns!

(Trás-os-Montes, Junho de 2009)

Brinca enquanto souberes!
Tudo o que é bom e belo
Se desaprende…
A vida compra e vende
A perdição,
Alheado e feliz,
Brinca no mundo da imaginação,
Que nenhum outro mundo contradiz!


Brinca instintivamente
Como um bicho!
Fura os olhos do tempo,
E à volta do seu pasmo alvar
De cabra-cega tonta,
A saltar e a correr,
Desafronta
O adulto que hás-de ser!


Miguel Torga, "Pedagogia"

Para o João, que resolveu trocar as voltas aos santos, nascendo no dia de um e arrecadando o nome de outro, com votos de um dia Muito Feliz!

domingo, janeiro 17, 2010

Regresso

(S. Leonardo de Galafura, Janeiro de 2009)
Regresso às fragas de onde me roubaram.
Ah! minha serra, minha dura infância!
Como os rijos carvalhos me acenaram,
Mal eu surgi, cansado, da distância!

Cantava cada fonte à sua porta:
O poeta voltou!
Atrás ia ficando a terra morta
Dos versos que o desterro esfarelou.

Depois o céu abriu-se num sorriso,
E eu deitei-me no colo dos penedos
A contar aventuras e segredos
Aos deuses do meu velho paraíso.
Miguel Torga

Há precisamente 15 anos, desaparecia um "Orpheu Rebelde"...

Agradeço ao Tsiwari a lembrança.

sexta-feira, janeiro 08, 2010

perto do céu

(O Douro e os socalcos vistos do miradouro de S. Leonardo de Galafura, 07 de Janeiro de 2010)
"S. Leonardo de Galafura, 8 de Abril de 1977 O Doiro sublimado. O prodígio de uma paisagem que deixa de o ser à força de se desmedir. Não é um panorama que os olhos contemplam: é um excesso de natureza. Socalcos que são passadas de homens titânicos a subir as encostas, volumes, cores e modelações que nenhum escultor, pintor ou músico podem traduzir, horizontes dilatados para além dos limiares plausíveis da visão. Um universo virginal, como se tivesse acabado de nascer, e já eterno pela harmonia, pela serenidade, pelo silêncio que nem o rio se atreve a quebrar, ora a sumir-se furtivo por detrás dos montes, ora pasmado lá no fundo a reflectir o seu próprio assombro. Um poema geológico. A beleza absoluta." Miguel Torga, Diário XII
Há lugares assim... onde nos sentimos prestes a tocar o céu, onde o olhar se perde num extâse eterno. Há lugares assim... que limpam a alma e excedem o poder das palavras. Há assim lugares... que fazem parecer menor o ar gélido deste Inverno transmontano que vai peneirando neve sobre as serras próximas.

quinta-feira, novembro 05, 2009

Fuga

Vento que passas, leva-me contigo
Sou poeira também, folha de outono.
Rês tresmalhada que não quer abrigo
No calor do redil de nenhum dono.

Leva-me, e livre deixa-me cair
No deserto de todas as lembranças,
Onde eu possa dormir 
Como no limbo dormem as crianças.



Miguel Torga, Diário, vol. V, 1949

terça-feira, janeiro 06, 2009

Trás-os-Montes... sempre!

(Solar de Mateus, Miradouro de S. Leonardo da Galafura, com vista para o Douro e para os vinhedos)

Não vos trago ouro, incenso e mirra, porque não sou Rei Mago nem vós o Menino Jesus. Em contrapartida, neste dia de Reis, ofereço-vos mais um pedacinho (ou um "catchinho") deste reino maravilhoso. Feliz dia de Reis!

Fotos: deep Janeiro/ 2009

P.S. - O poema de Torga presente numa das imagens aqui.

terça-feira, outubro 28, 2008

café con libros



Agora que o silêncio é um mar sem ondas, 
E que nele posso navegar sem rumo, 
Não respondas 
Às urgentes perguntas 
Que te fiz. 
Deixa-me ser feliz 
Assim, 
Já tão longe de ti como de mim. 

Perde-se a vida a desejá-la tanto. 
Só soubemos sofrer, enquanto 
O nosso amor 
Durou. 
Mas o tempo passou, 
Há calmaria... 
Não perturbes a paz que me foi dada. 
Ouvir de novo a tua voz seria 
Matar a sede com água salgada. 

Miguel Torga, Súplica

domingo, dezembro 16, 2007

porque o que importa é partir

Apesar do adiantado da hora, não resisto a partilhar convosco a modesta experiência da noite que agora termina. Vencendo a timidez e o nervosismo, acedi participar numa tertúlia dedicada a Miguel Torga e que teve como orador Ernesto Rodrigues, professor na Universidade Nova de Lisboa. Coube-me dizer (o termo "declamar" parece-me excessivo), ao som do violoncelo, o poema Viagem (que eu escolhi). Dizem ( eu não tenho noção, porque estava demasiado atordoada) que me saí bem. Fica o link para o poema, que já postei anteriormente.