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sexta-feira, setembro 10, 2021

Brilha o céu, tarda a noite

 


Mário de Carvalho, Um Deus passeando pela brisa da tarde

quarta-feira, junho 09, 2021

segunda-feira, novembro 09, 2020

A idade adulta


Juan Gabriel Vasquéz, O barulho das coisas ao cair

 

quinta-feira, novembro 05, 2020

O barulho das coisas ao cair


Leitura em curso.

"Não há mania mais funesta, nem capricho mais perigoso, que a especulação ou a conjectura sobre os caminhos que não percorremos."
Juan Gabriel Vásquez, A barulho das coisas ao cair




 

domingo, setembro 20, 2020

De um fôlego





















«Foram seus detalhes pouco usuais, seus pequenos defeitos que me encheram de vontade de me aproximar (...).»

«A sua liberdade escancarada me comoveu.»

«A realidade aqui, tão evidente, tão majestosa, e eu a perder tempo ensimesmada, presa às complicações apodrecidas dentro de mim.»

«Se eu fizesse um balanço dos anos findos, me daria conta de que aconteceram mais coisas na minha cabeça do que nos meus dias.»

«O desejo de prosseguir esbarra sempre na resistência do meu próprio corpo.»

«Porque eu, como ela, tampouco entendo por que as coisas são como são; porque eu, como ela, também queria poder controlar os acontecimentos e escolher só o que é bom; porque eu, como ela, não entendo por que é tão doída, a vida.»

«E eu, ao seu lado, enquanto choro e a ouço gritar, me pergunto se isso também pode acontecer comigo, se também posso romper a tênue linha que me separa do desespero, se um dia também andarei na rua buscando pisar só no preto ou só no branco (...).»


sábado, setembro 12, 2020

Mais não digo...

Concluída a leitura de A Vida Nova, de Orhan Pamuk, retomei A Odisseia de Penélope, de Margaret Atwood, que deixei em suspenso há algum tempo. Tenho destas coisas: deixar leituras em suspenso e ler vários (demasiados) livros ao mesmo tempo - "uma promiscuidade", como costuma dizer uma amiga, em tom de brincadeira.

No primeiro, há um narrador em primeira pessoa, um jovem universitário de 22 anos, que, depois de ler e reler um determinado livro, decide largar tudo e viajar pela Turquia, em velhos autocarros, numa espécie de viagem de autodescoberta. 

No segundo, quem fala connosco é Penélope que, do Hades, arrisca contar a sua versão da ausência e do regresso de Ulisses a Ítaca. Na sua versão, Ulisses é o bravo herói da Odisseia, mas é também o ardiloso, o adúltero. Nas palavras da esposa recatada e paciente, há perspicácia, ironia e sentido de humor.

Mais não digo...


sábado, julho 18, 2020

A música da fome,


de Le Clézio, foi uma das minhas últimas leituras. Depois deste, terminei Denário do sonho, de Marguerite Yourcenar, cuja leitura se arrastava há algum tempo.

Ambos, por coincidência, tocam as ditaduras europeias - o primeiro, a de Hitler, o segundo, a de Mussolini, sempre referido como o Ditador.

quinta-feira, julho 09, 2020

Caim


Caim, de José Saramago, foi a minha última leitura. Na obra, em que o narrador vai solicitando a atenção e a cumplicidade do leitor, Caim é o protagonista que, depois de matar o irmão, vê a sua vida poupada por Deus, mas condenado a errar pelo mundo e por diferentes épocas, sem uma ordem cronológica. É pelos olhos de Caim, que se rebela contra a divindade, que Saramago desconstrói alguns episódios do Antigo Testamento, sempre no tom irónico e crítico que o caracteriza.

sexta-feira, junho 19, 2020

Léxico da luz e da escuridão


Terminei hoje a leitura de Léxico da luz e da escuridão, que me foi oferecido há dias. Já li muitos livros sobre o Holocausto, mas nenhum cuja ação tenha como palco a Noruega.
Para escrever a obra, o autor, Simon Stranger, inspirou-se em relatos de familiares da sua esposa e em pesquisas que desenvolveu e através das quais procurou conhecer melhor a vida e os motivos de Henry Oliver Rinnan, considerado o maior criminoso norueguês de todos os tempos. Rinnan, que se revelou, durante a infância e a juventude, uma pessoa reservada, cordial e pacífica, acabou por aceitar ser informador dos alemães, aquando da ocupação da Noruega, tendo, ao longo de alguns anos, como líder de um grupo, denunciado e executado impiedosamente um grande número de noruegueses.
Apesar da crueza do tema e da narrativa, o autor construiu a sua obra de uma forma habilidosa e cativante.

RIP, CRZ


Barcelona, 2017

«O destino costuma estar ao virar da esquina. Como se fosse um gatuno, uma rameira ou um vendedor de lotaria: as suas três encarnações mais batidas. Mas o que não faz é visitas ao domicílio. É preciso ir atrás dele.»
Carlos Ruiz Zafón, A Sombra do Vento, Dom Quixote

Além de A sombra do vento, li vários livros do autor  incluindo a sequela, O jogo do anjo, que ofereci a mim própria num aniversário, na versão em castelhano. Depois de ler A sombra do vento, e posteriormente A catedral do mar, de Ildefonso Falcones, que a minha vontade de conhecer Barcelona se tornou uma urgência. Zafón só tinha 55 anos, um jovem nos padrões actuais. Quanto não teria ainda para escrever?

quinta-feira, junho 18, 2020

Saramago


Marc Chagall, "Sobre a cidade"

«Durante nove anos, Blimunda procurou Baltasar. Conheceu todos os caminhos do pó e da lama, a branda areia, a pedra aguda, tantas vezes a geada rangente e assassina, dois nevões de que só saiu viva porque ainda não queria morrer. Tisnou-se de sol como um ramo de árvore retirado do lume antes de lhe chegar a hora das cinzas (...). Onde chegava, perguntava se tinham visto por ali um homem com estes e aqueles sinais, a mão esquerda de menos, e alto como um soldado da guarda real, barba toda grisalha, mas se entretanto a rapou, é uma cara que não se esquece, pelo menos não a esqueci eu (...). Julgavam-na doida, mas, se ela se deixava ficar por ali uns tempos, viam-na tão sensata em todas as mais palavras e acções que duvidavam da primeira suspeita de pouco siso. Por fim já era conhecida de terra em terra, a pontos de não raro a preceder o nome de Voadora.»

José Saramago, Memorial do Convento

José Saramago partiu há 10 anos.

terça-feira, junho 09, 2020

Os últimos companheiros


Acabei de o ler no fim de semana, depois de algum tempo em pausa.


Adquirido e lido há duas semanas.


Leitura concluída há dias, depois de algum tempo de suspensão.


Comprado e lido há duas semanas, de um fôlego.


Em processo de leitura - estou a meio das 704 páginas.

Sim, ao mesmo tempo, tenho (tele)trabalhado e tenho-me esforçado por não descurar as lides domésticas (consegui, finalmente, arrumar livros, filmes e cds!). Tenho - isso sim - suprimido algum tempo à televisão.

Em resposta à pergunta da ana:

O primeiro e o terceiro são romances históricos. O sonho do celta tem por base a vida de Roger Casement, figura real e controversa, que esteve no Congo, no Peru e no Brasil, onde testemunhou as atrocidades cometidas contra os índios, e que pugnou pela independência da Irlanda, sendo, por isso, .acusado de traição pelo governo de Inglaterra. 
A ação de Lillias Fraser começa com a batalha de Culloden, que pôs frente a frente os clãs escoceses, a favor da independência da Escócia, e o exército real britânico e termina em Lisboa, nos anos imediatamente posteriores ao terramoto.
Em Chuva miúda há uma figura central, Aurora, a quem todos os elementos da mesma família procuram para, em conversas torrenciais e intermináveis, confessarem mágoas antigas, alheios às necessidades da própria interlocutora. Dessas conversas, entretece-se a história de três irmãos, apresentada sob diferentes prismas. 
Em Deixa-te de mentiras, há um narrador que, na idade adulta, recorda com saudade - e alguma mágoa - um amor adolescente.
Em Servidão humana, que, como o próprio autor adverte no prefácio, é um romance inspirado nas suas vivências, narra-se a juventude de Philip, que decide estudar arte em Paris, fascinado pelo mundo boémio e artístico, e que, desiludido, regressa a Inglaterra para estudar medicina. Como só ainda vou a meio do romance, não posso adiantar mais.



Faltava este...

domingo, maio 24, 2020

Últimas leituras






Tenho suprimido algum tempo aos filmes e às séries de televisão e dedicado parte desse tempo, sobretudo no fim da tarde e parte da noite à leitura. Tem-me sabido bem viajar por outros lugares e por tempos distantes. 
Confesso que esperava muito mais de Adeus às armas do Hemingway. A tradução não me pareceu adequada, os diálogos soaram tolos e lamechas e o final previsível.

quarta-feira, março 25, 2020

Isto não é um lamento

Queixamo-nos do isolamento, de termos de ficar, sozinhos ou acompanhados, confinados ao espaço de uma casa ou de um apartamento. Alguns têm a sorte de viver numa casa com jardim ou quintal, outros, a sorte de habitarem uma casa com varandas amplas, soalheiras (como eu), outros - melhor ainda - a sorte de viverem no campo e de poderem usufruir desse espaço sem terem de se cruzar com outras pessoas. Muitos de nós estamos ainda, felizmente, de saúde e conectados com o mundo de diversas formas e, por isso, a sensação de isolamento atenua-se. 
Queixamo-nos do isolamento, mas, na verdade, queixamo-nos (ocultando as palavras) do medo - de que a pandemia alastre, de que esta situação não tenha fim, de que o "bicho" se instale em nós e, mais ainda, num dos nossos. 
Não é a sensação de claustrofobia que me assalta e me assusta quando desperto, é esta impressão de pesadelo que não se dissipa, quando saio da cama, ponho os pés no chão e lavo a cara.
Tenho estado diária e quase permanentemente em contacto com as pessoas com as quais trabalho, à distância. Enquanto não nos adaptamos a esta novidade que é o teletrabalho (hoje já tive uma reunião de duas horas), gastamos muito mais tempo do que seria expectável num dia normal de trabalho a comunicar com os outros, porque é preciso testar aplicações e canais de comunicação, que nem sempre funcionam, responder a e-mails e mensagens individuais repetidas vezes. E tudo isto cansa, mas tudo isto nos distrai, sobretudo quem vive só, deste clima pesado que nos caiu em cima.

Nestes dias, tenho-me lembrado de livros como O relato de um náufrago, do Gabriel Garcia Marquez, e Teoria geral do esquecimento, do José Eduardo Agualusa. No primeiro, conta-se a história verídica de um homem que terá estado sozinho numa balsa, em pleno alto mar, durante onze dias. Quando li a resenha, perguntei-me o que teria de novo para contar em cada dia alguém que, durante tantos dias, se vê sozinho rodeado de água. Constatei, depois, que em cada dia havia pormenores que o tornavam diferente do anterior. No segundo, narra-se a história de uma mulher que vive em Luanda e que, na véspera da independência, se barrica no apartamento, onde fica isolada durante quase trinta anos. Durante esse tempo, Ludovica escreve para não enlouquecer e que, quando já não tem papel para o fazer, começa a escrever nas paredes.

Tenho, no fim de cada dia, como Ludovica, escrito um relato de tudo o que fiz e de todas as interações (por telefone ou por escrito) com familiares, amigos ou colegas de trabalho (alguns dos quais são também amigos) - nunca recebi tantos telefonemas, e-mails ou mensagens no WhatsApp em tão pouco tempo. Constato que, como os do náufrago, também  os meus dias têm sido diferentes uns dos outros e que, ao contrário do que aconteceria há alguns anos e ainda acontece hoje com algumas pessoas, estou longe de estar isolada! Bendita tecnologia!

Fiquem todos muito bem! 

domingo, fevereiro 16, 2020

A desconstrução do mito

Ainda as minhas leituras...

«O glorioso Aquiles. O fogoso Aquiles, o valente Aquiles, o divino Aquiles... Ah, como se acumulam os epítetos! [...] para nós, ele era o «carniceiro».
Aquiles de pés velozes. Eis um qualificativo interessante. A sua velocidade definia-o acima de tudo, mais do que a fogosidade ou a grandeza.»

«[...] diz-me a experiência que os homens são estranhamente cegos à agressividade nas mulheres. Eles é que são os guerreiros, com os seus elmos e couraças, as suas espadas e lanças, e parecem não ver as nossas batalhas; ou preferem não as ver. Se tomassem consciência de que não somos as criaturas brandas por que nos tomam, talvez isso lhes perturbasse a paz de espírito.»

Pat Barker, O Silêncio das Mulheres

quarta-feira, fevereiro 12, 2020

Pelo caminho...

 ... e por esta ordem (nos últimos quinze dias, leituras e releituras):





sexta-feira, fevereiro 07, 2020

Promiscuidade

Conversava, ontem à noite, com uma amiga que, não morando muito longe, vejo menos vezes do que gostaria. Dizia-me que tem, como eu, o hábito de ler vários livros ao mesmo tempo, «para os diferentes estados de alma».
Há uma outra amiga que me acusa, a brincar, de ser promiscua nesse meu hábito.
E, não tendo hoje nem tempo nem assunto, deixo-vos com alguns dos livros que actualmente me fazem companhia à cabeceira. Parte deles foram ofertas do último Natal.





sábado, julho 27, 2019

Últimas leituras

 Esta lenta...

Esta em dois dias...

sábado, fevereiro 23, 2019

Yo, señor, no soy malo

«Yo, señor, no soy malo, aunque no me faltarían motivos para serlo.» - assim começa a autobiografia fictícia de Pascual Duarte, figura central da novela de Camilo José Cela, A Família de Pascual Duarte, publicada pela primeira vez em 1942.
                Com o intuito de conferir verosimilhança ao relato de Pascual Duarte, o autor apresenta-o como um manuscrito que o protagonista teria escrito enquanto esteve preso em Badajoz e que teria enviado, em 1937, a um conhecido seu, para que fosse publicado, tornando, assim, públicos os motivos dos vários crimes que cometera. Cela, em notas anteriores e posteriores ao discurso do protagonista, faz-nos acreditar que o manuscrito teria sido encontrado no balcão de uma farmácia na localidade de Almendralejo, pelo próprio transcritor. Entre essas notas, encontra-se a carta em que o prisioneiro recomendava a publicação do seu manuscrito.
                Pascual Duarte, habitante numa pequena aldeia do interior de Espanha, dá-nos conta, no seu relato, de que a vida lhe trouxe mais dissabores do que alegrias. Testemunha de um mundo em que prevalece o trágico, torna-se uma pessoa amarga e intempestiva, a vítima de um destino inexorável, que o conduz à perdição. É, aliás, ao destino que ele atribui a responsabilidade pela sequência de assassinatos que comete, que tem início com a morte da cadela, a Chispa, e que termina com a morte da própria mãe.
                Pela violência das descrições e pela crueza de linguagem que perpassam nas suas páginas, a primeira obra de Cela viu-se, em pleno franquismo, entre os livros proibidos e rotulada como precursora de um estilo literário que, em Espanha, ficou conhecido como “Tremendismo”.
                Camilo José Cela, que nasceu em Iria Flávia (Corunha), em 1916, e faleceu em Madrid, em 2002, foi galardoado, em Espanha, com o Prémio Nacional de Literatura e com o Prémio Príncipe das Astúrias. Em 1989, a academia sueca atribuiu-lhe o Prémio Nobel, pelo conjunto da sua obra.

                Da sua vasta obra, destacam-se, além de A Família de Pascual Duarte, A Colmeia (1951), São Camilo (1969) e Mazurca para Dois Mortos (1983).

[Texto escrito para a rubrica "Os livros que nos devoram" (título inspirado em Os livros que devoraram o meu pai, do Afonso Cruz), do Pomar de Letras]