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quinta-feira, 24 de abril de 2025

No Coração da Montanha - Os muitos mistérios do enigmático Monte Shasta


Desde tempos imemoriais, ao longo da história e das culturas, sempre existiram contos de lugares místicos e mágicos perdidos além do horizonte. A humanidade parece amar intensamente a mitologia que descreve uma civilização esquecida ou cidades perdidas escondidas de nós, além das fronteiras do que conhecemos, além do plausível, além do razoável. 

Tais histórias surgem em lendas de culturas que transcendem limites geográficos. A ideia de que algum lugar maravilhoso possa estar oculto atrai exploradores e aventureiros há séculos e inspira a imaginação dos sonhadores. Uma dessas histórias, que persiste há bastante tempo, é a de uma cidade fantástica escondida nas profundezas do Monte Shasta, na Califórnia, um lugar que se diz ser habitado por uma raça de seres misteriosos com fantástico conhecimento e tecnologia.

Não há dúvida de que o Monte Shasta projeta uma presença formidável para aqueles que o avistam pela primeira vez. Situado no extremo sul da Cordilheira Cascade, no Condado de Siskiyou, Califórnia, o Monte Shasta é um vulcão hoje em dia adormecido que se eleva a 4.322 m sobre o vale florestal circundante, tornando-se o segundo pico mais alto da Cordilheira Cascade e a quinta montanha mais alta de toda a Califórnia. Como o Monte Shasta não está conectado a nenhuma outra montanha próxima, ele se ergue sozinho, irrompendo abruptamente do solo como um gigante solitário místico que se levanta sobre os majestosos vales verdes ao seu redor e domina completamente a paisagem do norte da Califórnia. Diz-se que a enorme e intimidante montanha solitária pode ser vista a até 230 km de distância em um dia claro, tornando-se um impressionante monólito natural que captura a admiração e a imaginação da humanidade há séculos. 

Talvez não seja surpresa que a montanha tenha atraído todo tipo de lendas e histórias estranhas, com os nativos da região tecendo mitos a seu respeito. Uma das histórias mais conhecidas e, de fato, mais bizarras sobre o Monte Shasta é que a montanha abriga uma antiga e secreta cidade perdida, habitada pelos descendentes dos chamados Lemurianos, um povo altamente avançado que se acredita terem sido os primeiros humanos na Terra. Eles viveram em um continente perdido conhecido como Lemúria que teria submergido após uma catástrofe. O nome Lemúria foi cunhado em meados do século XIX para denotar um hipotético continente submerso que outrora conectava o Oceano Índico, e recebeu esse nome porque se especulava que foi por meio desse misterioso continente que os animais chamados lêmures migraram de Madagascar para a Índia. A famosa Madame Helena Blavatsky, uma das teosofistas mais famosas do século XIX escreveu extensivamente sobre os lemurianos e suas façanhas.

A história conta que o continente afundou devido a um evento apocalíptico não especificado de forma semelhante ao que teria acontecido com a mítica Atlântida. À medida que a civilização se desfez, vários lemurianos conseguiram escapar pelo mar encontrando um lugar seguro nos arredores do Monte Shasta. Lá estabeleceram a Cidade de Telos em algum ponto sob a montanha, onde recriaram sua outrora grandiosa sociedade e supostamente continuam a viver até hoje.


Os lemurianos são tipicamente descritos como indivíduos altos, graciosos e magros, que chegam a medir dois metros de altura, com pele alva, quase luminescente, longos cabelos brancos e pescoços anormalmente compridos, adornados com colares feitos de contas, ouro ou pedras preciosas. Os estranhos seres geralmente vestem túnicas esvoaçantes e sandálias amarradas aos tornozelos, embora às vezes se diga que usam túnicas simples ou até que andam nus. 

Diz-se que eles dominavam várias tecnologias avançadas, como energia atômica, magnetismo, eletrônica e, alguns supõem, até mesmo a capacidade de alterar o espaço-tempo há milhares de anos. Seus conhecimentos permitiam a construção de grandes máquinas e engenhos como dirigíveis capazes de levitar e que eram usados para transporte. Algumas lendas dão conta de que eles iluminam seu reino subterrâneo com uma espécie de sol artificial, feito de cristal, alimentado por alguma fonte de energia poderosa e desconhecida, muito além de tudo o que conhecemos. Finalmente, há a crença de que os lemurianos possuem um órgão do tamanho de uma noz que se projeta de suas testas e supostamente os dota de vastos poderes psíquicos, como percepção extra-sensorial, telecinese, telepatia, a capacidade de aparecer e desaparecer à vontade e o poder de influenciar a mente dos outros.

A teoria de que lemurianos vivem no Monte Shasta tem uma história quase tão estranha quanto a dos próprios seres. Tudo remonta a um livro chamado "Morador de Dois Planetas" (Dweller of Two Planets), escrito por Frederick S. Oliver em 1899. No verão de 1883, Oliver, ainda adolescente, ajudava sua família a demarcar os limites de sua área de mineração, o que envolvia cravar estacas de madeira no solo e, em seguida, marcar a localização em um caderno. Em algum momento durante essa árdua tarefa, a mão de Oliver supostamente começou a tremer incontrolavelmente, e ele começou a escrever coisas sem controle. O menino correu para casa em pânico, com a mão continuando a agir por conta própria, escrevendo febrilmente durante todo o caminho como se tivesse vontade própria. Assim que chegou, sua mãe lhe deu mais papel. Ele continuou a escrever, escrever e escrever, rabiscando páginas e mais páginas com palavras, símbolos e desenhos. Essa misteriosa convulsão inicial cessaria revelando o início de um texto. Ao longo dos três anos seguintes, a mão de Oliver seria ocasionalmente dominada por essa força misteriosa, escrevendo várias páginas aqui e ali, até que finalmente, em 1895, ele completou um livro inteiro que narrava e descrevia a existência de uma cidade lemuriana secreta no Monte Shasta bem como sua história. 

Oliver continuaria afirmando que havia sido escolhido pelos lemurianos como uma espécie de porta voz deles, e que todo o livro havia sido canalizado telepaticamente através dele por intermédio de escrita automática através do tempo e espaço.

O rapaz chegou a afirmar ter sido levado astralmente à cidade secreta onde viu com os próprios olhos, descrevendo-a como um lugar maravilhoso nas profundezas da montanha, composta por vastos labirintos de túneis iluminados com portas automáticas, arquitetura elegante e apartamentos banhados a ouro e acarpetados com uma luxuosa substância felpuda. De fato, Oliver disse que toda a cidade era generosamente adornada com cristais brilhantes, metais preciosos e pedras preciosas, alimentada pela energia desses cristais e inacessível a estranhos sem o convite expresso dos próprios Lemurianos. Seus escritos afirmam que alta tecnologia abundava nesta cidade fantástica, com inúmeras menções a vários dispositivos e veículos incríveis empregados pelos moradores da cidade, incluindo grandes naves flutuantes que pairavam sobre suas cabeças. O livro foi bastante inovador e à frente de seu tempo quando foi lançado, fazendo menção detalhada a noções conceituais tão elevadas como mecânica quântica, antigravitacional, trânsito de massa e energia do Ponto Zero, chamada de "energia do lado escuro", conceitos extremamente singulares na época. Mais notável, Oliver não tinha como conhecer a a maioria dessas coisas, sendo um rapaz simples do interior.


Embora tenha morrido em 1899, aos 33 anos, seu livro foi publicado em 1905 por sua mãe, Mary Elizabeth Manley-Oliver. Na época da publicação o livro tornou-se um clássico ocultista instantâneo e uma fonte abertamente reconhecida para muitos sistemas de crenças, seitas e cultos da Nova Era. Ele até geraria uma sequência intitulada "O Retorno de um Morador da Terra", supostamente psicografado do além por um médium teosofista incorporando o relato de Oliver. 

Mas esta seria apenas a primeira menção literária à estranha cidade perdida dos Lemurianos no Monte Shasta. Em 1931, Harvey Spencer Lewis, usando o pseudônimo de Wisar Spenle Cerve, escreveu um livro inteiro sobre a Civilização Perdida, o que impulsionou ainda mais a popularidade de cidades e sociedades perdidas espreitando nas profundezas daquela montanha. A partir daí, os relatos sobre a estranha raça de seres avançados e a sofisticada cidade de Telos ganharam fama.

Muitos outros relatos sobre a suposta civilização lemuriana do Monte Shasta viriam à tona ao longo dos anos, e um deles se destaca por ser particularmente bizarro. A testemunha anônima, conhecida apenas como "M", afirma que sua experiência fantástica começou com a mudança de sua família do deserto de Nebraska para o Monte Shasta, onde passaram muito tempo acampando e se hospedando em um hotel enquanto procuravam um lugar para ficar. Ao longo dos meses, eles frequentemente se hospedavam em um acampamento chamado Panther Meadows, fazendo inúmeras viagens e explorando a área. Ficaram tão apaixonados pelo lugar que continuaram acampando regularmente lá mesmo depois de se instalarem em uma nova casa. Seis meses depois de chegarem a Shasta, estavam novamente em Panther Meadows acampando quando a bizarra odisseia de M teve início. 

Naquela manhã, seu marido e dois filhos tinham saído para explorar enquanto ela limpava a casa depois do café da manhã. Foi quando ela notou um jovem alto e esguio caminhando pelo prado em direção ao acampamento deles. A princípio, M presumiu que fosse apenas mais um campista de um acampamento próximo, já que ele não tinha mochila nem equipamento de caminhada. À medida que se aproximava, acenou e, ao chegar ao acampamento brincou educadamente sobre tomar uma xícara do café pois sentira o cheiro a manhã toda. M não hesitou em lhe dar uma xícara, e ela achou estranho o quão totalmente confortável se sentia em sua presença, conversando como se se conhecessem há anos. Em algum momento, a conversa girou em torno das lendas do Monte Shasta e de como algumas pessoas alegavam ter estado na cidade perdida de Telos. Foi então que o jovem perguntou se ela gostaria de ver tudo isso pessoalmente. A princípio, ela pensou que ele estivesse brincando, mas ele acenou para que ela o seguisse na direção de onde viera. M não esperava muito, mas o seguiu mesmo assim. Era ali que o próximo capítulo de sua estranha aventura se desenrolaria. Ela explica:

"Senti-me estranhamente atraída pelo jovem e perfeitamente segura com ele. Parecia que compartilhávamos interesses e crenças em comum. Ele disse que a entrada para Telos era próxima e que levaria apenas alguns minutos para chegar lá. Ele estava certo. Atravessamos os prados em direção às árvores e em poucos minutos estávamos em uma rocha alta e de formato estranho. Eu diria que tinha provavelmente 3 metros de altura e 1,5 metro de largura. A frente da rocha era plana e os galhos das árvores próximas a escondiam parcialmente. O topo da rocha inclinava-se em direção ao chão na parte de trás, de modo que parecia um triângulo assimétrico. Uma vista lateral era algo como esta frente de rocha. Lembro-me de que o chão ao redor era muito duro em comparação com o chão mais macio sobre o qual havíamos caminhado para chegar lá. Ele caminhou até essa rocha lisa e a tocou revelando uma porta secreta. Ela se abriu e ele fez um gesto para que eu o seguisse, o que fiz. Agora me maravilho por não ter o menor medo de ir com ele, nem sequer me ocorreu não ir."

A narrativa prossegue:

"Ao passar pela porta aberta, vi um conjunto de degraus que desciam até um pequeno patamar e continuavam descendo muito além. Havia um cheiro levemente úmido de mofo indicando que havíamos entrado em uma área que não era frequentemente agraciada com a presença de ar fresco. Era óbvio que estávamos dentro da montanha, pois as paredes eram de rocha. Chegamos a um patamar onde parei para olhar ao redor. Vi que estávamos em uma sala ampla banhada por uma luz suave vinda de uma fonte que eu não conseguia identificar. Não havia sinais de lâmpadas, abajures ou iluminação indireta. Descemos mais alguns níveis e o jovem caminhou até a parede mais distante, tocou-a e uma porta se abriu. A porta se misturava à parede de tal forma que, se você não soubesse exatamente onde ficava, nem imaginaria que havia uma passagem. Segui-o pela porta e me vi em uma sala de pedra muito grande, com teto alto. Essa sala também era bem iluminada por uma luz de fonte indeterminada."


Apesar da perspectiva assustadora de entrar em uma passagem secreta e sombria em uma montanha na presença de um completo estranho, a testemunha afirma repetidamente que não sentiu medo e que até se sentiu calma e confortável com tudo aquilo. Depois de passar por várias passagens mais adentro da montanha, transitando por salas com mobília estranha e "grandes caixas de vidro", eles chegaram a algumas pedras grandes e planas. Em uma das pedras haviam símbolos estranhos que ela não conseguia reconhecer e que não se parecia com nada que ela já tivesse visto antes. Quando ela perguntou ao seu companheiro o que eram, a história ficou ainda mais estranha do que já estava.

"À medida que me aproximava das caixas, vi que havia algum tipo de impressão na superfície. Eu não conseguia reconhecer a língua. Virei-me para perguntar o que as pedras representavam e, antes que eu pudesse perguntar, ele sorriu e disse: "Você não se lembra agora, mas estas são tábuas sagradas que você e seus colegas trouxeram da Lemúria quando as águas subiram para destruir nossa pátria."

Ele continuou explicando que nós (não tinha certeza de quem ele se referia como "nós" na época) tínhamos levado as tábuas para uma caverna e as tínhamos preservado lá. Enquanto ele contava a história, eu podia visualizar mentalmente várias embarcações que se moviam muito rápido em águas profundas. Elas diminuíram gradualmente a velocidade à medida que se aproximavam de uma caverna e, ao entrarem na caverna, eu as vi subindo à superfície. A caverna era muito grande. Quando os ocupantes abriram os veículos para emergir, foram recebidos por outros que rapidamente tomaram posse das tábuas de pedra e desapareceram pelas entradas da caverna. Quando as tábuas foram removidas, os ocupantes retornaram às pequenas embarcações e deixaram a caverna como haviam entrado. Nesse ponto, minha visão terminou... Tive a sensação de ter estado lá. Levei alguns minutos para me recuperar da ansiedade e, ao mesmo tempo, da excitação que experimentei ao observar aquele acontecimento. Senti um grande alívio e realização quando as tábuas foram entregues e pude ouvir agradecimento sendo oferecido.

A narrativa é bem estranha, mas ela é apenas o começo. Finalmente, ocorreu à testemunha, naquele momento, que ela não sabia sequer o nome do jovem e, quando perguntou a ele ouviu um som estranho diferente de tudo que já escutou. M se recorda de ter prosseguido na longa caminhada, algo que parece ter demorado horas. Ela se recorda de estar com seu companheiro em alguns momentos, em outros sozinha. Mesmo assim, apesar de estar num lugar estranho, não sentiu medo ou receio.

Ela tem lembranças vívidas de um grande salão de pedra fria onde haviam outras pessoas trabalhando, indivíduos que não deram a ela atenção e aos quais ela não conseguiu se referir pois pareciam ignorá-la. Nessa sala estavam estocados grandes cilindros verticais, cada um com aproximadamente 3 metros de altura e 1,2 metro de largura feitos de um material que parecia cristal. Em cada um desses cilindros, havia uma substância líquida gelatinosa. As pessoas na sala pareciam ocupadas manipulando aquela substância em um tipo de trabalho que pela concentração deles parecia importante.

M tem uma vaga lembrança do que acontecia ali. "Eles estavam extraindo ou canalizando energia de algum tipo. Algo que era de suma importância para a cidade deles. Era como se aqueles cilindros estivessem gerando uma quantidade absurda de energia. Mas era algo diferente de energia como conhecemos, essa era usada não só para alimentar máquinas e a cidade de Telos, mas tudo e todos. Até os habitantes da cidade recebiam essa energia".

M observou o trabalho por algum tempo até que seu companheiro disse que já era hora dela retornar para casa. Estranhamente M não se recorda de ter feito o caminho de volta, mas de simplesmente acordar em sua casa, como se tivesse sido levada para lá imediatamente.


De volta ao acampamento, a família de M a encontrou levemente confusa, como se tivesse acordado de um sonho desperto. Ela não mencionou sua estranha experiência na montanha achando que realmente tudo aquilo poderia ter sido um sonho. Na semana seguinte, a família fez outra viagem ao mesmo acampamento e, assim como antes naquela manhã, seu marido saiu com as crianças deixando M sozinha com as tarefas domésticas. Ela sentiu uma estranha sensação como se estivesse sendo chamada e se deixou levar por ela, refazendo o caminho que havia tomado anteriormente, mas dessa vez sozinha. Ela se sentia guiada e encontrou todas as portas e passagens como se estivesse familiarizada com tudo aquilo.

M seguiu através das cavernas e passagens conhecendo áreas diferentes da Cidade e do complexo de pedra que existia abaixo da Montanha. Era muito maior do que ela imaginava:

"Nessa segunda visita eu não vi ninguém, embora tenha sentido que uma presença invisível estivesse me guiando pelo caminho todo. Também havia algo diferente no lugar. O complexo além de deserto, parecia ter sido evacuado, tornando-se uma ruína. Haviam restos de mobília e objetos, mas tudo estava coberto de poeira. Eu me recordo de ter visto máquinas estranhas e aquelas estruturas de vidro e cristal, mas tudo parecia abandonado. É estranho mas eu tinha a sensação de um a grande familiaridade com tudo aquilo."

M disse que seguiu pelos corredores pelo que pareceram horas, embora o sentido de tempo no interior do complexo fosse diferente. Eventualmente ela chegou até aquele mesmo salão imenso onde ainda haviam os estranhos cilindros de vidro, mas nem todos eles estavam inteiros ou com aquela substância no interior. Uma voz a compeliu então a mexer naquelas máquinas, como ela havia visto as pessoas fazerem anteriormente. Sem entender exatamente o que fazia, ela percebeu mudanças de cor e sons enquanto operava o complexo maquinário que estava muito além de sua compreensão.

"Eu não posso ousar dizer o que estava fazendo ou qual o significado daquilo, mas em meu íntimo compreendi que de alguma maneira aquela tarefa era extremamente importante e que a primeira visita serviu para que eu me familiarizasse com o básico da operação. Talvez eu tenha sido uma daquelas pessoas no salão na primeira visita, talvez eu tenha realizado esse mesmo trabalho eras atrás... não sei dizer!"

M manteve em segredo essa segunda visita e todas as outras que ela faria posteriormente, sempre que era "convocada" para realizar aquela tarefa misteriosa, mas de suma importância. Ela acredita que de alguma maneira os habitantes da cidadela queriam que ela continuasse fazendo aquilo para ajudá-los. Ela não se recorda quantas outras vezes visitou a cidadela oculta, mas ela acredita tê-lo feito em pelo menos outras três ocasiões. Depois disso, M sentiu que seu trabalho não era mais necessário e que sua tarefa estava concluída.


Mais de dois anos se passaram, até que ela resolveu revelar para sua família e amigos o que havia acontecido. Surpreendentemente M descobriu que não estava sozinha e que outras pessoas ao longo dos anos haviam relatado histórias semelhantes em que se sentiam atraídos pelo Monte Shasta e exploravam seu interior através de portais e passagens que ficavam ocultos para todos os outros. As pessoas contavam histórias parecidas, envolvendo uma exploração do interior labiríntico da montanha que às vezes estava abandonada, mas em outras vezes parecia fervilhar com vida e atividade.

Estudiosos e pesquisadores, entusiastas das teorias sobre a antiga Lemúria acreditam que os habitantes da Montanha dominavam o tempo e o espaço, e que os visitantes escolhidos para conhecer Telos eram descendentes ou a reencarnação de indivíduos que haviam habitado o Monte milênios atrás. Estes eram chamados para executar tarefas que já haviam desempenhado com algum intuito secreto. Além disso, as visitas não seriam físicas, mas viagens astrais nas quais o "eu espiritual" das pessoas escolhidas era lançado no tempo, no passado, presente ou futuro para desempenhar uma função necessária.

Mas que tarefa tão importante seria essa e porque os habitantes do Monte Shasta não estavam mais presentes no lugar que um dia chamaram de Lar?

Há diferentes teorias quanto a isso. Talvez eles tenham desaparecido em algum tipo de catástrofe que os varreu da existência. Algum tipo de acidente, doença ou ainda um evento inesperado decretou o fim da sua civilização. Talvez eles possam ter desaparecido por vontade própria, quem sabe tenham avançado tanto em sua tecnologia e saber que a forma humana não era mais compatível e eles precisavam de pessoas para realizar as tarefas simples que um dia realizavam.

Mas há uma outra hipótese, muito mais incrível e fantástica. Seria possível que os habitantes do Monte Shasta ainda estivessem vivos, preservados em algum tipo de animação suspensa pelas eras? Eles precisariam ainda sobreviver no interior da Montanha que ainda necessitaria produzir energia para manter o lugar funcionando minimamente e é claro, oculto dos olhos curiosos de outras pessoas que poderiam fazer-lhes algum mal.

Nessa hipótese sensacional, os lemurianos estariam apenas esperando o momento de seu despertar, uma promessa feita a muitas pessoas que afirmaram ter recebido o convite para explorar as passagens secretas que conectam o Monte Shasta e supostamente fluem através do tempo de uma maneira diferente de tudo que podemos imaginar.


M não se ressente de não ter sido mais chamada pelos seus amigos no interior do Monte Shasta. Ela acredita que seu trabalho tenha se encerrado, e que por isso, ela não foi mais contatada. Mas mesmo assim ela tem uma sensação de completude: "É claro, eu gostaria de ser chamada novamente e de conhecer a cidadela em detalhes, mas acredito que fiz o que fui designada a fazer e isso encerrou meu trabalho. Talvez um dia eles voltem a falar comigo e me chamem para uma nova visita".

Ela, costuma fazer visitas ao Parque Nacional que cerca o Monte Shasta ao menos uma vez por ano. M afirma que muitas outras pessoas fazem o mesmo, mas que nem todas se recordam inteiramente de sua experiência, tendo uma espécie de deja vu à respeito do local e de seus segredos. Não é raro que turistas venham de longe para conhecer o Monte Shasta afirmando sentir uma enorme conexão com o local, mesmo conhecendo muito pouco à respeito de sua história. "Há pessoas que vem da Austrália, da Europa, da China... pessoas que visitam o lugar e sentem uma estranha conexão com o local. Como se sentissem já ter estado aqui antes em circunstâncias enigmáticas."

Não por acaso o Monte Shasta atrai milhares de visitantes anualmente se convertendo numa espécie de Meca para místicos, esotéricos e alegados magos interessados em desvendar seus segredos milenares. 

Existe a crença de que o Monte Shasta está em um ponto de contato entre poderosas Linhas de Ley - fluxos de energia primordial que correm através do planeta e que se espalham por todo o mundo. Essas áreas, em que as linhas se tocam favorecem a realização de rituais e de prodígios místicos. Para alguns as energias contidas nesses eixos pode ser canalizada para a realização de todo tipo de efeito mágico. Não é algo incomum testemunhar a presença de místicos em peregrinação solitária e de grupos acampando e realizando rituais nos arredores do Parque Nacional.

O Monte Shasta também se tornou famoso nas últimas décadas como um dos pontos de maior atividade de OVNIs na Costa Oeste dos Estados Unidos. Ufólogos relacionam a tecnologia avançada e o saber dos Lemurianos com um contato prolongado com seres alienígenas benevolentes que compartilharam parte de seus segredos - a Teoria dos Deuses Alienígenas. Para os humanos primitivos, os Deuses teriam descido das Estrelas e os abençoado com presentes incríveis. Para alguns, os próprios Lemurianos seriam membros de uma colônia que no passado remoto foi criada pelo cruzamento de humanos e alienígenas avançados, gerando uma raça não inteiramente humana que se perpetua pelo tempo.

As estranhas formações de nuvens que costumam ocorrer no pico nevado do Monte Shasta. em geral com aros nebulosos que parecem envolver o topo chamam a atenção dos observadores. Alguns acreditam que esses eventos ocorrem com o intuito de ocultar a vinda de veículos espaciais que entram e saem da montanha através de portas ocultas. 

Com tantas histórias sensacionais, o Monte Shasta preserva seus mistérios e provavelmente continuará a ser um enigma considerável para as gerações presentes e futuras.

segunda-feira, 14 de abril de 2025

Casa Boleskine - A Morada que o Senhor Crowley construiu


Quem conhece o Mundo Tentacular sabe que o blog tem alguns personagens recorrentes que vez ou outra surgem em nossos artigos. São as tais figurinhas carimbadas que tiveram uma vida tão cheia de reviravoltas que ainda causam fascínio e interesse.

Uma dessas pessoas sem dúvida é o místico, pensador, filósofo, autor e mago Aleister Crowley. Apelidado ainda em vida "o Homem mais Perverso do Mundo", Crowley foi uma figura peculiar que atraiu a atenção pelos seus feitos e desfeitos. Para quem quiser ler à respeito do caríssimo Mister Crowley (sim, esse mesmo da música feita em sua homenagem) basta clicar no link que estará no final da postagem.

Mas nesse artigo em especial falaremos à respeito de sua renomada (ou seria infame?) morada.

Aleister Crowley residiu parte de sua vida, entre 1899 e 1913, em uma Mansão que ele mandou restaurar chamada Casa Boleskine, localizada às margens do Loch Ness. É importante notar que não foi um acaso aleatório que levou o místico também conhecido como "a Grande Besta" ao coração dessa região isolada da Escócia. O fato é que ele via uma importância mística nesse local ermo, algo tão significativo quanto o propósito que ele tinha em mente. Crowley pretendia usar a Casa como cenário para um complexo experimento batizado de Ritual de Magia Sagrada de Abramelin, o Mago. Para realizar com sucesso o tal experimento, Crowley precisava encontrar uma morada que se encaixasse perfeitamente nos requisitos do ritual, uma que precisasse estar especificamente situada em um local isolado e que cumprisse certos requisitos. Há, no entanto, muitos elementos estranhos na história da Casa Boleskine.

Segundo a lenda, a casa foi construída sobre as ruínas de uma igreja do século X que foi destruída por um incêndio durante um culto, matando todos os fiéis que estavam lá dentro. A acontecimento reverberou na história local, não apenas por conta do teor trágico, mas por conta da superstição de que os mortos ali continuava vagando pelas imediações. Não por acaso a fama de assombrado se espalhou rapidamente e os vizinhos do terreno evitavam passar por ali mesmo durante o dia. Uma história recorrente afirmava que figuras sombrias e espectros com queimaduras e ferimentos medonhos podiam ser vistos perambulando por ali. Também havia o cheiro de fumaça e carne queimada que podia ser sentido há quilômetros de distância quando o vento soprava do lado para a terra.


A casa tem vista para o Cemitério Boleskine, no sopé da colina, que há muito tempo é palco de acontecimentos ocultos. O Cemitério teria recebido corpos de bebês indesejados não batizados, de mães que morreram durante aborto, de criminosos executados e claro, de suicidas. Todos os mortos indesejados eram sepultados na faixa de terra escura daquele cemitério maldito. Com ciprestes retorcidos e salgueiros tristonhos o lugar possui uma aura de melancolia.  

A mansão e o cemitério estão inexplicavelmente ligados por um túnel de pedra que se estende do porão da mansão até o sombrio interior da necrópole. Talvez ele tenha sido construído para que um guarda-mor alertasse o dono da casa sobre qualquer roubo de cadáver. Dizem que tal coisa costumava acontecer frequentemente: pregos de caixão, crânios de fetos e a mão esquerda de enforcados eram artigos usados em rituais de magia negra. Também se falava de práticas nefastas de necrofilia e necrofagia acontecendo naquelas premissas. Seja como for, a Casa e o Cemitério estavam conectados não apenas por essa passagem, mas pela história.

Vários dos antigos residentes de Boleskine foram enterrados no cemitério próximo e era uma espécie de tradição que o mais imponente mausoléu despontando na ravina fosse usado para esse fim. A estrutura de pedra cinzenta e ardósia esverdeada reúne os ossos de dezenas de senhores que chamaram a mansão como seu lar.

A mansão também tem vista para o Lago Ness, famoso pelo lendário Monstro do Lago Ness. As janelas do segundo andar e do sótão concedem uma vista magnífica do lago de águas plácidas e escuras. Mais de uma história relata avistamentos estranhos rompendo a linha da água e de borbulhas que surgem perturbando a superfície.  


Aleister Crowley comprou a Casa Boleskine em 1899 para se isolar do mundo e gozar da privacidade que praticar magias demandava. Ele almejava um lugar afastado onde poderia estudar o Livro da Magia Sagrada de Abramelin, o Mago, mal traduzido por seu mentor, o fundador da Ordem Hermética da Aurora Dourada, Samuel Liddell MacGregor Mathers. Crowley era fascinado pela Magia Ritual e acreditava que através dela, o Mundo Real e Espiritual poderiam se conectar.

Foi durante seu tempo em Boleskine que a Grande Besta mergulhou de cabeça no ramo mais obscuro do espiritualismo e nas práticas de magia negra. Crowley acreditava que Boleskine oferecia as condições ideais para seus ritos, fosse pela teatralidade do ambiente soturno ou pelas reverberações sinistras de sua biografia.  

Em algum momento desse período, Mathers, que havia se exilado em Paris, chamou Crowley para a filial da Ordem Hermética da Aurora Dourada que havia criado. Crowley atendeu ao chamado e partiu para se juntar ao seu mentor na França e dali seguiu para outros projetos no campo do misticismo.  

O mago partiu de forma intempestiva, supostamente sem dissipar os "12 Reis e Duques do Inferno" que havia invocado na casa durante os rituais que lá realizou. Pessoas que inspecionaram a casa disseram sentir uma aura esmagadora de ameaça no ar, o que combinava com os muitos altares montados no pátio e símbolos de proteção desenhados no assoalho da sala e quartos. Crowley traçou esses símbolos no chão, no teto, nas portas e nas janelas para confinar o que quer que ele tenha invocado e impedir que estes saíssem. Contudo ele mesmo tinha dúvidas sobre o que havia trazido para a casa e lá aprisionado. 

Muitos moradores locais atribuem a história infeliz da casa aos espíritos malignos deixados para trás. Crowley, que nunca admitia erros, chegou a reconhecer que os rituais que realizava na Casa Boleskine haviam saído do controle. Poderiam representar um perigo real para alguém entrando lá inadvertidamente.


Ainda assim, quando partiu para a França ele deixou uma família para tomar conta da propriedade. A filha de 10 anos e o filho de 1 ano da governanta que lá trabalhava morreram misteriosa e abruptamente. Doenças e acidentes se multiplicavam e a criadagem precisava ser substituída com frequência. As pessoas não queriam ficar lá e logo o staff foi reduzido e restringido apenas a um guarda que morava próximo e que se dispunha a ir uma vez por semana, durante o dia, averiguar se as portas estavam trancadas. Um rumor muito difundido é que esse guarda encontrava janelas e portas abertas mesmo que não houvesse sinal de que viva alma tivesse estado lá. 

Outra história macabra foi contada pelo próprio Crowley a amigos. Ele relatou que um funcionário da propriedade, que havia se abstido de álcool por muito tempo, ficou bêbado e tentou assassinar toda a sua família. O escândalo foi abafado, mas o homem, que posteriormente foi colocado sob os cuidados de um manicômio, acabou cometendo suicídio ao cortar a garganta com uma navalha. 

Eventualmente Crowley decidiu que era o momento de se livrar de Boleskine. Ele chegou a cogitar retornar a Mansão e realizar um grande Ritual de Exorcismo que expulsasse as manifestações ali contidas, contudo tal medida jamais foi levada adiante. A Grande Besta tinha receio de que isso poderia ser perigoso, visto que as forças lá dentro se ressentiam profundamente dele. Até onde se sabe, Crowley jamais retornou para Boleskine e para vendê-la utilizou agentes imobiliários. Seus objetos pessoas, sobretudo a vasta biblioteca, foi encaixotada e despachada de volta para Londres.

Mas mesmo depois da casa mudar de mãos, as energias negativas ali represadas não se dissiparam e tragédias continuaram acontecendo. 

Em 1965, um Major do Exército que havia comprado a casa cometeu suicídio com um tiro de espingarda na boca. Seu corpo foi achado semanas depois e dizem que sua face ficou transfigurada por um terror presenciado antes do ato extremo. Depois disso, um casal recém-casado mudou-se para a casa. A esposa era cega e, depois de um mês, o homem foi embora, deixando a mulher abandonada vagando sem enxergar. Em 1969, Kenneth Anger, um cineasta experimental interessado em ocultismo, soube que a casa estava à venda e a alugou por alguns meses. Ele também partiu alegando não ter suportado o "duro fardo de viver naquele lugar".


O próximo proprietário foi uma celebridade sombria de um tipo diferente: Jimmy Page, da banda Led Zeppelin. Page, que nutria interesse pelo ocultismo comprou a casa cogitando realizar lá algumas experiências ritualísticas em especial as delineadas por Crowley de quem ele era fã. O músico esperava que a aura de Boleskine pudesse contribuir para seu aprimoramento místico. Page passou muito pouco tempo na propriedade, ele a considerou desagradável e alegadamente teve pesadelos que o deixaram aterrorizado. A casa foi passada para um amigo e sua família e este relatou não se importar com os rangidos, gemidos e várias aparições fantasmagóricas inexplicáveis que ocorriam no local. O que mais o incomodava eram os fãs de Crowley e Page que frequentemente tentavam invadir a casa e profanar o terreno.

Proprietários posteriores descartaram qualquer ideia de assombrações ou bruxaria na casa, mas a tragédia continuou a assolar a região. Em 2015, os moradores da casa retornaram de uma ida às compras e encontraram a casa completamente em chamas. Não houve feridos, pois ela se encontrava vazia quando o incêndio começou.

Entre os muitos rumores da casa, persiste a narrativa de que Crowley realmente levou à cabo seu Grande Experimento Místico. Ele decidiu iniciar os preparativos na véspera da Páscoa de 1908, mas estes só se concluíram cerca de seis meses depois. Crowley observou que, devido a certos perigos sobrenaturais que o experimento poderia desencadear seria bom contar com alguém para auxiliá-lo, assim chamou um colega. O homem em questão era Charles Rosher, que, assim como Crowley, era membro da Ordem Hermética da Aurora Dourada e amigo do professor de Crowley, Allan Bennett

Rosher pretendia ficar com Crowley por meses. Acabou partindo – ou melhor, fugindo – em no máximo três semanas. O motivo: a presença de forças malignas invisíveis que Rosher tinha certeza de que haviam se apossado da Casa Boleskine e que pretendiam tornar sua vida um inferno. Tal foi a natureza de sua partida precipitada que Crowley não sabia de nada até que seu mordomo o informasse de que seu amigo havia partido. Os dois não se viram novamente por anos pois Crowley considerou a fuga um ato de covardia extrema.

Não há muitos relatos sobre como transcorreu o ritual de Abramelin, o que é curioso já que Crowley adorava se gabar de suas proezas mágicas. É curioso que ele fosse muito discreto sobre esse experimento em especial, levando muitos a crer que ele tenha sido um fracasso retumbante. Mesmo assim, o sempre enigmático Crowley provocava seus colegas afirmando que certos assuntos não deveriam ser abordados. 


Se algo sobrenatural ou maligno havia descido sobre Boleskine House, não demorou muito para que começasse a afetar e infectar as pessoas que viviam ao redor do lago. Em certa ocasião, logo após se mudar para Boleskine, Crowley retornou à residência após um passeio pelas colinas, apenas para encontrar um padre sentado em seu escritório. Pálido como um fantasma e profundamente preocupado, o sacerdote confidenciou que o zelador da hospedaria, um homem chamado Hugh Gillies tentara matar sua família em um frenesi de violência repentino. 

Em outra ocasião, um velho amigo de Crowley dos tempos de Cambridge, visitou-o — e, como Charles Rosher, pretendia ficar por um longo período. Ele também não suportou a aura de Boleskine partindo em menos de duas semanas, após apresentar sintomas semelhantes aos de um ataque de pânico e dizer a Crowley, em tom de medo, que a Casa Boleskine estava repleta de espíritos terríveis e malévolos.

O próprio Crowley reconheceu existir algo sinistro na casa. Ele decidiu trabalhar no único cômodo que oferecia um grau razoável de luz solar – e que contrastava fortemente com o resto da casa. Era um lugar purificado, segundo o próprio, uma ilha de sanidade naquela mar caótico. Mas mesmo naquele cômodo Crowley foi forçado a introduzir iluminação artificial, tamanha era a atmosfera lúgubre. 

Apesar das dificuldades, a atração magnética do Loch Ness e da Casa Boleskine continuou atraindo a Grande Besta de volta à Escócia, e ele continuou com seus estudos e planos. Ele também se casou.

"Sempre me sentirei um pouco grato a Boleskine por me dar minha esposa", disse Crowley. Ele se referia à sua amada, Rose Edith Kelly, que desposou em 1903. "Embora, anos mais tarde", revelou, "essa união, que tanto significou para nós dois enquanto durou, tenha se tornado uma tragédia doméstica, catalizada pela casa onde decidimos viver. Boleskine não era boa para nosso matrimônio", contou.

O período de Crowley como Lorde e Senhor de Boleskine também foi marcado por graves disputas e desentendimentos. Um "mago rival" teria conjurado energias sobrenaturais que causaram a morte de sua matilha de cães farejadores. Crowley adorava seus cães e ficou furioso com essa ousadia. Ele reagiu através de rituais que visavam contra-atacar seu desafeto. Além disso, seus servos começaram a adoecer ou se demitir pois não gostavam da casa. Doenças e insatisfação eram algo mundano nesse emprego. Então, o pior de tudo aconteceu numa manhã. Crowley ouviu gritos e xingamentos selvagens e histéricos vindos da cozinha. Um empregado havia ficado inexplicavelmente furioso e atacou Rose. Tal era o estado de ferocidade do sujeito, que Crowley e sua equipe foram forçados a trancá-lo no porão e aguardar a chegada da polícia local.


Felizmente, Rose se recuperou, mas ela não se viu livre de infortúnios. Em 1911, Crowley foi forçado a interná-la em um asilo, devido a demência provocada por seu alcoolismo descontrolado. Embora não culpasse a casa por mais esse revés, ele com certeza suspeitava que o ambiente não era bom para a esposa. E de fato, quando deixou a casa em busca de tratamento, ela afirmou que a morada exercia uma forte influencia sobre sua condição geral.

Hoje em dia, a lendária Casa Boleskine segue mantendo um grande apelo popular como "lugar assombrado". Dada a sua tumultuada história, a fama é mais do que merecida ainda que provavelmente haja muitos exageros e invenções. Inegável contanto que o lugar desempenha um papel crucial na biografia de uma das figuras mais controversas e fascinantes do século XX.

quarta-feira, 2 de outubro de 2024

Pânico em Nova Orleans - O Bizarro Caso do Diabo de Algiers


Localizado nos bancos ocidentais do rio Mississippi, em Nova Orleans, Louisiana, encontramos o distrito histórico de Algiers. Registrado no Centro Nacional de Lugares Históricos, ele é o segundo bairro mais antigo da cidade, conhecido por sua arquitetura histórica, igrejas e por ter sido o lar de inúmeros músicos de jazz. Algiers infelizmente sofreu enormes danos durante o Furacão Katrina em 2005, mas que aos poucos se recuperou do desastre.

Nova Orleans sempre foi uma cidade vibrante cheia de história e arte, mas o que muitas pessoas desconhecem é que ela tem uma rica história de tradição e folclore. Uma lenda popular na cidade envolve uma entidade estranha e sinistra que aterrorizou justamente a área de Algiers no final da década de 1930.

Tudo ocorreu no outono de 1938, quando um visitante indesejado bastante estranho começou a rondar as ruas escuras do distrito, sempre à noite. Testemunhas começaram a relatar que se tratava de uma figura alta e corpulenta com "olhos grandes, orelhas pontudas e chifres negros recurvos de carneiro no topo da cabeça". Essa criatura era vista espreitando perto de igrejas e prédios históricos, observando de vielas escuras e becos mal iluminados. Dizia-se que essa figura tinha todo tipo de poder estranho, como a capacidade de levitar, mudar de forma, desaparecer no ar e causar um medo profundo naqueles que o viam. Em muitos casos, as pessoas relataram ter sido confrontadas pelo misterioso ser e sentir como se tivessem temporariamente abandonado seus corpos perdendo a consciência e despertando em outros lugares da cidade horas mais tarde, sem saber como tal coisa havia acontecido. Outras relatavam assistir suas vidas passarem diante de seus olhos como testemunhas silenciosas. Os que viram o estranho também relataram posteriormente sofrer pesadelos pavorosos por várias noites à fio. 

Dizia-se que o estranho assediava as pessoas solitárias, apresentando-se como o diabo em pessoa, oferecendo acordos, lançando obscenidades, insultos e maldições antes de desaparecer na escuridão. Ele buscava principalmente mulheres e casais negros. O tal diabo teria supostamente fechado pactos com interessados em trocar suas almas imortais por dinheiro, poder e fama. Ele também demonstrou possuir força sobre-humana vencendo um conhecido valentão com um único golpe.


Quando os relatos começaram a se espalhar pela população, muitos ficaram céticos, afinal aquilo parecia um absurdo sem sentido. Contudo o grande número de pessoas encontrando a criatura fez com que essa percepção mudasse drasticamente, com muitos afirmando categoricamente que a criatura realmente existia. Ele ganhou apelidos e passou a ser chamado de o Homem com Chifres de Algiers ou ainda de Diabo de Nova Orleans. 

Alguns relatos feitos por testemunhas parecem simplesmente absurdos e inacreditáveis. Um desses incidentes envolve um casal que estava voltando para casa de carro quando foi interpelado por um estranho acenando para eles pararem o veículo. Eles encostaram para ver se o homem estava com problemas, e ele lhes pediu carona. A mulher afirmou ter um mal pressentimento, sobretudo porque sentiu um forte cheiro de enxofre cercando a figura morena e bem vestida. Ela pediu ao marido para irem embora e ele acabou concordando. Alguns quilômetros adiante, passaram pelo mesmo homem, que mais uma vez sinalizou pedindo a eles que parassem e lhe dessem carona. O motorista simplesmente acelerou achando aquilo muito estranho. Eles o encontrariam uma terceira vez perto de Algiers ocasião em que a figura sinistra finalmente revelou sua aparência demoníaca, fazendo seus olhos brilharem com um fulgor sobrenatural e apresentando os chifres que cresciam na sua cabeça.

O casal aterrorizado com aquela visão correu para a polícia que deu início a uma busca pelo misterioso estranho. Eles aparentemente conseguiram encontrá-lo andando pela estrada e um policial deu ordem para que ele parasse. O homem riu e se desmaterializou diante dos olhos incrédulos dos agentes da lei que relataram o bizarro incidente.


Uma história semelhante aconteceu com uma jovem que estava saindo de um salão de dança certa noite e foi confrontada por um homem com chifres na cabeça. Ela gritou por socorro e algumas pessoas apareceram para ajudar. O Diabo de Algiers fez com que quatro dos homens caíssem inconscientes meramente olhando para eles. Outro que resistiu ao estupor teria sacado uma pistola e disparado nele à queima roupa. As testemunhas afirmaram que o tiro não provocou qualquer efeito, após o que o Homem do Diabo desapareceu deixando no ar sua gargalhada sinistra.

Dias mais tarde, o Diabo de Algiers foi visto cavalgando um garanhão preto e com olhos faiscantes, pelas ruas de Algiers. Nessa ocasião ele teria sido visto por dezenas de pessoas que ouviram o som dos cascos do animal ecoando na noite. 

Os relatos continuaram a se multiplicar ganhando repercussão nos principais jornais da Louisiana. Em pouco tempo os rumores, mergulharam a população de Nova Orleans em uma histeria em massa. De fato, as pessoas estavam enlouquecendo. Haviam grupos de vigilantes percorrendo as ruas procurando pelo Homem Diabo o que resultou em mais violência. Foram feitas várias prisões depois que bandos armados espancaram inocentes falsamente acusados. Por pouco um homem não foi linchado depois que uma mulher apontou para um homem que ela achou estava a seguindo. No incidente mais grave um homem foi mortalmente baleado depois de ter sido confundido com a entidade diabólica. Com a situação saindo do controle, as autoridades aconselharam a população a ficar em casa depois do anoitecer.

Veio então uma reviravolta: detetives que trabalhavam no caso receberam uma dica anônima a respeito de um místico, autoproclamado feiticeiro e segundo os rumores, satanista conhecido como "Lord Harold Sorcière". Esse sujeito exuberante, absolutamente folclórico possuía informações vitais sobre o elusivo Diabo de Algiers. Harold, mais tarde identificado pelo nome de Carleton Clark, recebeu os policiais em seu consultório onde realizava seancés, lia cartas de tarô e fazia toda sorte de trabalhos mágicos. Quando interrogado ele confirmou que sabia quem - ou melhor o que - era o Diabo.


Clark alegou que a entidade havia sido invocada por ele próprio com o intuito de firmar um pacto diabólico entre um político da cidade e as forças infernais. O político em questão (cujo nome foi mantido em sigilo) desejava ter uma carreira política de sucesso e pediu a Carleton que intermediasse as condições do tal pacto. Ocorre que logo depois de fazer o demônio se manifestar fisicamente em um círculo de proteção, o político se arrependeu e ficou apavorado. Pior ainda, ele teria inadvertidamente rompido o círculo que restringia a entidade em seus limites. Livre para transitar pelo mundo físico, o Diabo escapou ganhando as ruas para espalhar a confusão pela cidade.

Depois de ouvir essa história inusitada os detetives não sabiam o que pensar! O mais provável é que Carleton fosse apenas um lunático, mas ele gozava de certa fama nos meios paranormais da cidade e muitos creditavam a ele credenciais como um poderoso ocultista. Carleton assegurou em seguida que poderia tentar atrair o demônio e convencê-lo a deixar Algiers para sempre, por um preço. Ele queria que a cidade pagasse 1500 dólares pelo serviço - em valores corrigidos de hoje, cerca de 35 mil dólares.

Num primeiro momento os detetives riram da oferta, mas o místico garantiu que estava falando sério e que aquela seria a única maneira de resolver o problema. 

Dias depois, o Diabo de Algiers apareceu uma vez mais nos arredores da Igreja de Deus em Cristo um dos prédios históricos mais conhecidos do distrito. Ele teria sido visto dirigindo impropérios para duas mulheres que se dirigiam para a missa. A criatura conforme descreveu um jornal local "rescendia a enxofre e carregava um tridente nas suas mãos. Ele soltou uma gargalhada zombeteira quando uma das mulheres apontou para ele a bíblia que levava consigo". Curiosamente o Diabo foi visto quase no mesmo horário a seis quadras dali galopando o mesmo cavalo preto sobre a linha férrea que delimitava o distrito. Essas aparições causaram grande repercussão e fizeram com se iniciasse um movimento popular para arrecadar o valor que Carleton demandava para despachar o Diabo de volta para o lugar de onde veio: as profundezas do Inferno.


Há diferentes versões do que aconteceu em seguida. 

Diz-se que o mago aceitou fazer o trabalho sem cobrar nada depois que foi convencido a corrigir o erro cometido. Outros defendem que uma arrecadação popular levantou a soma de 980 dólares, quantia que foi aceita pelo místico como comissão para o perigoso serviço que se propunha a realizar. O que aconteceu em seguida também divide opiniões. Em algumas narrativas Carleton Clark teria empreendido uma batalha épica contra o Diabo de Algiers atraído até uma encruzilhada à meia-noite pelo sacrifício de sete pombas brancas. Em seguida o místico usou de toda sua perícia arcana para esconjurar a entidade que desapareceu em uma nuvem de enxofre. Outra versão bem mais divertida atesta que o místico convidou o Diabo para vir com ele até um bar onde os dois beberam amistosamente uma garrafa de Bourbon e se tornaram amigos. No fim da noite, o ocultista convenceu a criatura a desistir de sua estadia na cidade e partir de uma vez por todas. 

Não se sabe exatamente o que aconteceu, mas o fato é que o o Homem com Chifres não foi mais visto em Algiers ou mesmo em Nova Orleans, sedimentando a lenda duradoura de que o flamboyant Lord Harold Sorcière teria logrado êxito. Ele se tornou uma figura enigmática, tratado por alguns como um herói, por outros como uma fraude ou mesmo um aproveitador.

É claro, a polícia de Nova Orleans não gostou nem um pouco da história e passou a investigar Carleton Clark suspeitando que ele estivesse por trás das aparições do Diabo desde o início e que tudo aquilo havia sido um plano para explorar a superstição das pessoas e lucrar.

Posteriormente, o místico decidiu deixar Nova Orleans desaparecendo na obscuridade quando a história começou a esfriar. Depois disso a narrativa ganhou tantas interpretações que é quase impossível hoje em dia separar o que é lenda e o que realmente teria acontecido. Mas será que se pode confiar em alguma parte desse relato exótico? Quem teria sido o misterioso Lord Harold Sorcière? Será que ele tinha verdadeiros poderes sobrenaturais ou não passava de um espertalhão e farsante?

É quase impossível saber, mas o interessante sobre as lendas urbanas é justamente isso. Cada um pode acreditar no que quiser, mas que essa história é boa, ah, isso é...

quarta-feira, 14 de junho de 2023

A Casa, o Ator, o Culto e o Terror - Uma incrível história de Casa Assombrada e Fantasmas


Alguns lugares neste mundo parecem ser uma fonte inesgotável para o Paranormal.

São verdadeiros mananciais de Atividade Sobrenatural, gerando rumores duradores que através do tempo crescem como uma verdadeira bola de neve. Um destes lugares insalubres é o foco de nossa pequena exploração aos recessos profundos do Terror.

O ano era 1932 e o bem sucedido ator teatral Ian Davison estava farto dos palcos e holofotes. Ele era uma celebridade em Londres, conhecido e laureado como um dos maiores artistas de seu tempo e um dos maiores dramaturgos vivos. Entretanto, o estresse do trabalho estava ficando demais para ele. Davison estava cansado da carreira, dos contratos e da sua agitada vida social... em resumo, ele queria se distanciar de tudo e de todos. Para tanto, começou a contemplar a possibilidade de ter uma bela e tranquila casa isolada no campo. Acima de qualquer outra coisa, ele desejava ficar longe da cidade grande e das pressões constantes do teatro. Estabelecer uma sintonia com a natureza era algo com que ele sempre sonhou, para tanto, buscou uma propriedade na verdejante paisagem de Kent, onde planejava se aposentar. Ele conseguiu encontrar um lugar, mas suas esperanças de uma casa dos sonhos estavam prestes a se transformar em um pesadelo cercado por fenômenos sobrenaturais estranhos e incidentes aterrorizantes.

A propriedade que Davison adquiriu e onde decidiu se estabelecer era chamada Branden Hall.

O lugar, no entanto, demandava muitas obras e manutenção. A Mansão havia sido erguida há mais de 400 anos e ficava numa área isolada e selvagem coberta de mato. Ninguém habitava ali há décadas e o cenário era de completo abandono. Os amigos de Davison acharam que ele havia enlouquecido, contudo ele garantia que a Casa oferecia tudo aquilo que ele desejava e que torná-la habitável era parte da terapia que ele almejava. A estrutura também sinalizava com um grande desafio. Haviam tábuas podres, paredes desgastadas e um telhado com enormes goteiras. Não havia instalações elétricas ou de água e tudo ali era antigo e impróprio para a habitação humana. Os salões estavam cobertos de lixo e detritos, enquanto os quartos eram o lar de enormes ratos e insetos.

Ainda assim, Davison conseguia ver além daquela aparência decrépita de ruína. Na sua visão, Branden Hall ainda mostrava sinais fugazes de seu passado opulento e luxuoso, quando a mansão havia recebido a nata da sociedade de Kent em festas que entraram para a história local. Nos salões iluminados por lampiões haviam acontecido recitais, soirées e bailes. Nos jardins iluminados por tochas desfilaram indivíduos ilustres e carruagens despejaram visitantes maravilhados com os arredores. Branden Hall era famosa pelas suas belezas e o artista desejava trazer tudo aquilo de volta à tona - com pompa e circunstância.


Mas não seria tarefa simples; demandaria muito trabalho e gastos elevados. Felizmente, o ator tinha recursos suficientes e tempo para operar a transformação que almejava. Davison contratou empreiteiros e estes realizaram as obras preliminares que permitiram que ele se mudasse para o lugar que pretendia consertar, mas logo ele descobriria que ervas daninhas e ratos eram a menor de suas preocupações.

Quase imediatamente após se estabelecer, Davison experimentou várias esquisitices e anomalias bizarras que à princípio ele tentou relativizar. Um dos primeiros acontecimentos inexplicáveis foram as insistentes batidas nas paredes e janelas enquanto ele tentava dormir. Ele vasculhava a sala e olhava pelas janelas, mas nunca conseguia encontrar nenhuma explicação para aquelas batidas secas que ressoavam no meio da madrugada. Seu empreiteiro chefe explicou que podia ser o assentamento da velha casa ou apenas o vento e que eventualmente isso iria cessar. Entretanto, ao invés de diminuir os ruídos misteriosos apenas ganharam em intensidade, progredindo para sons de arranhar, estrondos e o que soava como passos fortes nas escadas, embora não houvesse mais ninguém na casa.

Em certa ocasião, Davison relatou o som do que parecia ser alguém correndo no pátio, seguido de um estrondo tão forte que a casa estremeceu. Pensando que o telhado havia desabado, ele foi ver o que havia acontecido, mas não encontrou nenhum sinal de dano ou qualquer coisa errada. Ele também passou a ouvir coisas mais ameaçadoras à noite: o som de respiração pesada ou ofegante, rosnados selvagens e até gritos, e muitas vezes tinha a impressão inabalável de estar sendo observado. Pior ainda era a sensação de que sua energia estava sendo drenada de seu corpo. Como se algo ali em Branden Hall estivesse se alimentando de suas forças, deixando-o em um estado cada vez mais de fadiga letárgica.

Davison tentava afastar conceitos absurdos sobre assombrações como meras superstições, mas logo ficou claro que ele não era o único incomodado pelos incidentes bizarros na Propriedade. Visitantes, empregados e hóspedes também relatavam ouvir os ruídos e experimentavam fenômenos estranhos. Alguns afirmaram ter pesadelos incrivelmente assustadores após dormir nas dependências, a maioria deles envolvendo estrangulamento e assassinato. Havia uma sala em particular que se dizia estar especialmente imbuída de algum tipo de energia paranormal sinistra. Este aposento, embora não parecesse diferente dos demais, sofreria flutuações extremas de temperatura, às vezes indo de um frio congelante a um calor escaldante em minutos, não importando a estação, e ninguém conseguia ficar na sala muito tempo. Um visitante que lá esteve, acabou perdendo os sentidos, tendo de ser levado para fora. Mais tarde ele contou que sentiu uma força invisível, como se mãos estivessem agarrando sua garganta e apertando com força.

Amigos próximos de Davison também diziam que um dos quartos era especialmente estranho. Nele, o sono não vinha facilmente, pois dizia-se que sopros espectrais, sussurros e odores nauseantes brotavam do nada. Também haviam supostas mãos gélidas que tocavam e empurravam qualquer um tolo o suficiente para tentar dormir naquele aposento. isso sem mencionar os relatos de mordidas que deixavam marcas horríveis na pele. Este quarto viria a ser conhecida como o "depósito", porque era apenas para isso que ele serviria, para o armazenamento de objetos, tão inadequado era para uma habitação real. E mesmo as caixas colocadas ali dentro teimavam em cair e de despedaçar.


Outras salas também tinham uma violenta atividade paranormal. Uma grande sala no andar térreo apresentava misteriosas marcas de pés descalços no assoalho empoeirado e de garras na madeira ou nos móveis que tombavam por conta própria. Esta sala também tinha o hábito de fazer as pessoas desmaiarem sem motivo aparente. O irmão de Davison, que havia vindo passar alguns dias em sua companhia sofreu um desses desmaios espontâneos e teve de ser levado às pressas para um hospital. Ele não se recordava do que havia ocasionado o desmaio, mas sentia que mãos espectrais apertavam seu pescoço. Um médico atônito apontou para marcas semelhantes a dedos na garganta do sujeito que se negou a voltar a Branden Hall e suplicou ao irmão que deixasse aquele lugar maldito o quanto antes.

Os fenômenos continuaram por algum tempo, mas as coisas estavam prestes a progredir para algo ainda mais assustador com o surgimento de aparições. Uma delas era de uma mulher de aparência desamparada em um vestido cinza, que vagava e parecia estar procurando por algo. Aparentemente alheia ao fato de que estava sendo observada, ela desapareceria no ar se alguém tentasse interagir com ela. Essa aparição em particular parecia deixar o ar espesso com desânimo ao seu redor, a ponto de aqueles que a viam serem tomados por uma tristeza repentina e irracional. O fantasma da Mulher Cinzenta (como ficou conhecida) não era, contudo, o único a espreitar pelos corredores sombrios. Havia também um homenzinho feio e atarracado que andava de um lado para o outro e parecia preocupado com alguma coisa e se irritava com facilidade. O sujeito por vezes interagia com os habitantes e perguntava quem eram eles e o que faziam acordados. Qualquer resposta que fosse dada recebia em contrapartida uma série de xingamentos e grosserias. Embora esses espíritos não fossem particularmente malignos, o mesmo não poderia ser dito de outro que dividia aquela velha mansão com eles.

O espectro mais assustador pertencia a um homem corpulento com "lábios grossos e sorridentes" sobre dentes amarelados e irregulares, descrito por Davison como "o homem de aparência mais desagradável sobre o qual pousei os olhos". A entidade usava um traje de cetim verde brilhante, marrom e vermelho, e normalmente aparecia na grande sala do andar de baixo. 

Sempre era anunciado pela aparição de um gato preto fantasmagórico, e quando esse gato aparecia, era um sinal claro de que o homem de aparência maníaca não estava muito longe. A entidade costumava flutuar pela sala e desaparecia na lareira deixando uma trilha de gosma limosa de aspecto e cheiro nauseantes. Também costumava fazer a temperatura da sala cair a níveis insuportáveis, compelindo os presentes a tremerem de frio. Ao contrário da mulher de cinza, essa monstruosidade ameaçadora interagia com testemunhas, como em uma ocasião em que Davison perguntou se ele era um "demônio do inferno". A resposta foi uma gargalhada sibilante e maligna, seguida de uma abrupta queda na temperatura que quase fez o artista desfalecer.

O "Homem Desagradável" como veio a ficar conhecido supostamente era o espectro de Lorde Marcus Cosgrove, um dos primeiros residentes de Branden Hall em meados do século XVI. Ele tinha fama de ser um sujeito intragável tanto em aspecto quanto em personalidade, notório por importunar as moças de um vilarejo próximo e de trazer para sua casa donzelas que eram raptadas e defloradas. Sua fama era tamanha que alguns o tinham como um verdadeiro ogro. Chegavam a cogitar que Cosgrove havia assassinado um bom número de vítimas inocentes e que se livrara de seus cadáveres ordenando que fossem emparedadas no salão. 


Os rumores nunca foram confirmados e as buscas de Davison por ossos misturados ao reboco das paredes não se traduziu em qualquer descoberta significativa. Ainda assim, as lendas davam conta de que Cosgrove pode ter sido um maníaco que supostamente terminou seus dias assassinado por um noivo em busca de vingança. Para tornar tudo ainda mais assustador, o espectro parecia reservar comentários especialmente repulsivos a testemunha do sexo feminino. Certa vez ele teria ameaçado esganar uma parente de Davison e "arrancar a vida de seu corpinho frágil", tudo isso com um sorriso maligno nos lábios. 

Além desse fantasma abjeto haviam outras figuras sombrias menos definíveis à espreita na extensa propriedade rural. Nos campos se ouvia o som de cães e de um misterioso Guarda-Caça conhecido como Robert Muncee que cavalgava um animal negro com olhos de fogo. Um jardineiro misterioso e com uma longa barba grisalha também vagava pelos jardins, deixando um rastro na relva queimada após a sua passagem. 

Tudo aquilo era perturbador demais e Davison decidiu trazer um renomado Investigador Psíquico chamado Ronald Kaulbeck para verificar o que se passava. O primeiro cômodo que Kaulbeck investigou foi o nefasto aposento no térreo, que o impressionou com a sensação pura e esmagadora de malevolência e "pavor em estado bruto" permeando o espaço e vazando dele. O investigador decidiu passar a noite lá, e como havia acontecido com aqueles que haviam tentado antes, ele foi atacado por mãos invisíveis que agarraram sua garganta e puxaram seu cabelo. Quando ele pediu ajuda, três outros vieram correndo, mas a entidade continuou a estrangulá-lo, mesmo quando os homens tentaram ajudá-lo. Ele foi quase morto antes que as mãos fantasmas abandonassem seu aperto para deixá-lo ali se contorcendo ofegante.

Kaulbeck recrutaria alguns outros médiuns para ajudá-lo, e eles chegariam à conclusão de que os espíritos que infestavam a casa faziam parte de um Culto Satânico devoto da Magia Negra que havia usado a casa para vários rituais ocultos. Os investigadores paranormais foram capazes de conjurar a informação de que Marcus Cosgrove não era o único maníaco a ter residido ali. A mansão, de fato, parecia atrair as piores pessoas.

Um destes infames residentes supostamente foi um ocultista famoso chamado George Tarver, que teria sido mestre de um cabala de bruxos e feiticeiras. Tarver ganhou notoriedade no século XVII por alegar controlar demônios e ser capaz de realizar alta feitiçaria. As pessoas não o levavam muito à sério, achando que ele era simplesmente um lunático, mas outros alegam que sua fama de bruxo tinha fundamento e que muitos em Kent o temiam. Havia o boato persistente de que Tarver havia oferecido seu próprio filho como sacrifício num ritual diabólico, o que deixou sua amante louca, após o que, ele a estrangulou até a morte. Essa amante seria a tal mulher cinzenta que buscava o filho oferecido para as forças das trevas. O homem atarracado foi identificado como um serviçal chamado Hunter, um dos seguidores de Tarver até que protestou contra a morte da amante e foi assassinado por estrangulamento também. 


Os investigadores acreditavam que esses espíritos, em particular o de Tarver, estavam zangados e inquietos porque Davison havia invadido seu covil e realizado reformas. Eles recomendaram fortemente que ele desistisse de viver em Branden Hall, mas surpreendentemente, em vez de sair, Davison continuou com seu trabalho de renovação, desafiador diante dos ataques sobrenaturais. 

Os fantasmas aparentemente não gostaram nada disso.

Uma tarde, Davison se retirou para o quarto quando a porta de um dos aposentos se abriu violentamente e revelou a presença de uma figura que até então não havia se manifestado. Era um homem alto e esguio, com cabelos longos grisalhos caindo sobre os ombros e olhos perversos faiscando. Ele não teve dúvida de que estava diante do espectro maligno de George Tarver que decidiu finalmente surgir para afugentá-lo. 

Davison queria correr, mas já estava farto de ser ameaçado pelos espíritos, então disse desafiadoramente à entidade: "Saia dessa casa! Esse lugar agora me pertence! Minha vontade é mais forte que a sua! Não importa o que te prende aqui! Tens de sair! Saia!". O fantasma rosnou e avançou contra ele tentando agarrar sua garganta para esganá-la, mas Davison conseguiu se esquivar, sentindo a presença gélida da assombração.

Na manhã seguinte ele reuniu o mesmo grupo de médiuns, reforçado por mais dois importantes espiritualistas muito recomendados para proceder em uma tentativa de exorcizar a presença maligna que dominava a Propriedade. Eles acreditavam que Tarver havia mantido todos os demais espíritos que estavam presos na casa escravizados e que extraía deles a energia para continuar atormentando o local. O plano seria, portanto, cortar essa influência, libertar os outros fantasmas e só então se voltar contra a aparição mais poderosa.

Segundo os relatos de Davison, o grupo começou a esconjurar os fantasmas do serviçal e do jardineiro, que já eram conhecidos deles. Estes deram pouco trabalho se comparados ao de Cosgrove e de Robert Muncee que ainda galopava seu alazão negro com olhos queimando pelos jardins da casa. Um a um, entretanto, eles foram senso expulsos por uma combinação de esconjuros e ordens que Ian Davison definiu como perfeitamente teatrais e impressionantes. Após dois dias consecutivos desta batalha psíquica, o grupo se voltou para o maior desafio que tinham pela frente, o maligno satanista George Tarver.


Segundo o relato de Davison, seguiu-se uma "batalha de vontades" em que os Investigadores Paranormais tentavam compelir o espírito a desistir da luta. Ao longo de um final de semana inteira, a disputa prosseguiu, com façanhas impressionantes de atividade paranormal, com estrondos, objetos sendo atirados e quebrados e variações drásticas de temperatura. Alguns dos envolvidos se sentiram tão esgotados física e emocionalmente que tiveram de ser substituídos para que pudesse recobrar suas forças antes de entrar novamente na contenda. Ao fim de quase 72 horas ininterruptas, que Ronald Kaulbeck descreveu como uma das mais assustadoras disputas místicas jamais ocorridas, o espírito atormentador acabou por ceder. Ele se manifestou uma última vez e então começou a se desfazer até desaparecer por completo. Imediatamente a forte sensação opressiva que reinava na casa se desanuviou e os presentes sentiram que aquela presença maligna havia enfim sido derrotada.

Nos dias que se seguiram, Davison alegou ter visto o fantasma da Mulher Cinzenta em pelo menos duas ocasiões, mas este não parecia mais atormentado. Parecia, outrossim, agradecido e a última vez que a aparição da mulher foi vista, ela simplesmente se desfazer. 

Depois desse embate, as aparições nunca mais seriam vistas na casa e os fenômenos paranormais cessaram de um todo. Davison continuaria suas reformas e, embora levasse vários anos, ele acabaria transformando Branden Hall em uma propriedade luxuosa e deslumbrante cercada por terras agrícolas, vastos jardins de flores e pomares extensos. De fato, tornou-se conhecida como uma das propriedades agrícolas mais rentáveis e grandiosas da região. Nada mal para uma mistura assustadora e decrépita de ervas daninhas outrora usadas por um culto satânico. 

A narrativa se mantém até os dias atuais como um dos mais incríveis embates entre espiritualistas e as  forças das trevas. Um acontecimento que foi registrado por Kaulbeck em um livro intitulado "A Assombração de Branden Hall - O relato do mais notável embate paranormal da Inglaterra", lançado em 1940.

No final das contas, o que teria ocorrido naquela propriedade isolada nas florestas de Kent? Branden Hall teria sido realmente assombrada pelas forças das trevas, ou tudo não passou de uma bem construída história de fantasmas? Apenas aqueles que estiveram lá, e participaram do evento, podem dizer com propriedade. Para nós, é uma questão de crer ou não. De acreditar ou desacreditar da existência de coisas que não estamos inteiramente preparados para aceitar.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

Policiais Ocultistas - O trabalho de investigadores devotados a combater crimes de cultos


Pergunte a qualquer policial, detetive ou autoridade da lei e ele dirá que não há nenhum caso igual ao outro. 

Na aplicação da lei, em meio a inúmeros crimes convencionais, por vezes surge um que se destaca seja por uma peculiaridade, por uma estranheza ou ainda por alguma bizarrice. Certos casos particularmente estranhos marcam a vida dos investigadores designados para desvendá-los. Pessoas desaparecidas, mortes inexplicáveis, crimes não resolvidos com pistas estranhas, tudo isso faz parte de um tipo inusitado de caso policial que espreita na periferia das investigações. 

Uma área especialmente estranha envolve os crimes onde existe motivação ou componentes de ocultismo. Não é raro que nesses crimes surjam pistas incomuns, rituais estranhos, sacrifícios e coisas para as quais a aplicação da lei tradicional não parece se adequar. São casos que frequentemente marcam a carreira dos investigadores e suas vidas dali em diante. 

No entanto, existem investigadores que mergulharam de cabeça neste reino sombrio, sabendo o que irão encontrar e dispostos emergir com a verdade, custe o que custar.

Um especialista em crimes envolvendo o oculto é o falecido Detetive Marcos Quinones, considerado o maior especialista do Departamento de Polícia de Nova York em cultos religiosos, satanismo e ocultismo. Quinones ingressou na polícia em janeiro de 1982 e, a princípio, era apenas um policial comum fazendo o trabalho policial normal, sem nenhuma conexão particular com crimes envolvendo o oculto. Apenas quando teve contato direto com uma série de crimes macabros que apontavam para rituais de sacrifício que ele começou a se dedicar a investigar tais crimes. Nas três décadas seguintes, ele se tornou uma espécie de especialista em ocultismo, investigando casos onde as evidências apontavam para rituais, feitiçaria ou magia negra.

Seu conhecimento do assunto era tamanho que ele se tornou Consultor do FBI, sendo procurado por agentes sempre que alguma cena do crime apresentava sinais de ocultismo, fosse a presença de parafernália satânica ou animais sacrificados. Quinones estudou à fundo o assunto, formou-se em Antropologia, com PhD em Religião Comparada, mas foram as experiências no dia a dia, investigando tais casos, que lhe forneceram as credenciais de "Especialista no Oculto". Com um olho clínico para casos dessa natureza, ele era chamado para examinar cenas de crime e determinar que tipo de pessoas estavam envolvidos, o que pretendiam e se realmente estavam comprometidas com essas práticas ocultas.  


Quinones conhecia à fundo vários tipos de ocultismo e práticas de magia negra, em particular o Satanismo clássico, Santeria, que é uma mistura de tradições da África Ocidental, caribenha e católica e Palo Mayombe, uma fusão de magia negra e tradições do nativas do Congo. 

Uma das áreas em que Quinones ganhou fama envolvia elucidar roubos de túmulos, um tipo de crime que se tornou muito comum em certas comunidades de Nova York. Sepulturas eram violadas e restos humanos subtraídos para servir de ingredientes em feitiços e rituais. Em 1987, Quinones expôs um mercado negro que negociava crânios, ossos e órgãos humanos que eram usados por feiticeiros em rituais de magia negra. Entre os envolvidos estavam todos os tipos de pessoas: de estrangeiros recém chegados aos EUA a especuladores da Bolsa de Wall Street. Em comum o fato de que eles contratavam alegados feiticeiros para lhes trazer benefícios financeiros. 

Quinones também chefiou uma unidade especial dedicada a investigar mutilações de animais. Entre 1990 e 1992, uma força tarefa comandada por ele investigou o surgimento de carcaças de animais - cabras, bodes e gatos, encontrados sem cabeça na região de Yorktown. Vários animais haviam sido degolados, enforcados ou deixados pendurados em árvores em Yonkers. A polícia tratava o caso como o trabalho de algum demente, mas Quinones usou seu conhecimento de religião e ocultismo para coletar informações. Por fim, ele descobriu uma rede de tráfico de animais que abastecia vários templos dedicados a realizar sacrifícios de animais em rituais de base africana. 

À respeito de seu trabalho, o Detetive Quinones dizia:

"Ao ser chamado eu elimino tudo aquilo que é normal. Se restarem aspectos estranhos, eu me pergunto: isso é algum tipo de ritual? Em última análise, é preciso dissecar os elementos presentes em uma cena de crime com componente oculto. Os símbolos dentro de um ritual constituem um roteiro para identificar qual entidade os envolvidos desejavam satisfazer. Esses símbolos dizem o que eles queriam com a entidade e o que estavam dispostos a dar em troca. Sacrifícios de animais são o tipo mais comum de interação, acontecem em todos os estados e são mais frequentes do que se pode imaginar. Práticas religiosas clandestinas e de magia negra lidam com esses aspectos.

Ele continua em sua explanação:

"Os sacrifícios geralmente são realizados em algum lugar diferente de onde os restos são encontrados posteriormente. Assim, por exemplo, no caso dos animais encontrados perto do reservatório em Yorktown, a oferenda era para uma Entidade da Água e por isso foi deixada próxima a um local onde havia água em abundância. Um pássaro envolto em panos pretos que achei em Mont Vernon era claramente uma oferenda de Palo Mayombe. Continha um símbolo revelador: dois círculos interceptados por flechas costurados no tecido. Sacos contendo gatos pretos degolados indicavam satanismo clássico, uma forma de comunicação com os espíritos. Cada modalidade tinha um modus operandi e um significado que podia ser interpretado".


Quinones treinou policiais na cidade em todo o país, mostrando a eles como reconhecer atividades de ocultismo e a presença de cultos. Ele foi convidado a realizar palestras para agências de segurança na América do Norte, América Latina, Europa e África. Seus cursos formaram mais de 2000 profissionais na aplicação da lei voltada para o reconhecimento do ocultismo em cenas de crime. Ele também escreveu vários livros sobre o tema e até participou de exorcismos.

O caso mais emblemático do Detetive envolveu uma série de crimes realizados por membros de um Cartel de Drogas Mexicano que usavam rituais devotados a La Santa Muerte para aterrorizar seus rivais. As execuções realizadas pelos criminosos continham diversos elementos ritualísticos legítimos. A unidade de Marcos descobriu que um dos membros do Cartel era um ex-adepto de Santeria e que transferiu esse seu conhecimento da crença para o mundo do crime. A descoberta mais macabra feita por Marcos foi uma cena de múltiplos assassinatos nos quais as vítimas (membros de um cartel rival) haviam sido torturadas e cortadas. Por fim, o coração deles foi arrancado e incinerado como uma forma de escravizar a alma dos homens. 

Em disputas de gangues, esse tipo de intimidação era bastante empregada, como forma de aterrorizar os inimigos:

"O caso dos assassinatos ritualísticos em um depósito talvez tenham sido os mais marcantes de minha carreira. Não apenas por ser algo medonho - uma cena de crime simplesmente aterrorizante, mas pela forma como as crenças foram pervertidas e usadas para causar terror nas pessoas. Nada o prepara para a descoberta de quatro corpos mutilados, amarrados e com o coração ausente. O horror daquela cena é algo que me causou pesadelos por muito tempo".   

Graças a ajuda da Unidade de Quinones, os responsáveis por essas mortes foram descobertos, processados e presos. 

Infelizmente, o Detetive Marcos Quinones faleceu em 2021 vítima de câncer passando seu posto para a Doutora Dawn Perlmutter, professora adjunta do Programa Forense do Colégio de Medicina da Filadélfia. É ela quem hoje coordena o Grupo de Inteligência de reconhecimento simbológico e forma profissionais em metodologia criminal, homicídios atípicos e crimes ritualísticos. 


Ela se recorda de seu valioso trabalho na companhia de seu antecessor:

"Marcos Quinones era mais que um colega, era um amigo. Nós nos conhecemos em 1996, quando eu era professora prestando consultoria à respeito de violência ritual, e ele especialista do NYPD em crimes ritualísticos e ocultos. Como não há muitas pessoas com quem você possa conversar sobre assassinatos satânicos, mutilações de animais, cultos violentos destrutivos e roubos de túmulos, nos tornamos amigos imediatamente. Ele conhecia todos os lugares, pessoas e grupos associados à violência oculta na cidade de Nova York. Ele fazia visitas regulares a lojas, cenas e lugares ocultos em Nova York. Fomos a uma Loja que vendia objetos de feitiçaria no Bronx e ele apontou o que cada item significava. Foi uma educação incrível. Acabamos trabalhando em vários casos juntos. Sempre que eu tinha dificuldade em decifrar um símbolo ou ritual particularmente difícil, Marcos sabia o que era. Pouquíssimas pessoas se especializam em crimes ritualísticos e todos nós acabamos nos conhecendo nesse meio. Marcos foi o mais gentil, atencioso e conhecedor de todos nós. Os crimes ritualísticos iam desde mutilações de animais até grandes redes de tráfico de drogas que usavam restos humanos, até os piores casos de homicídio envolvendo tortura e abuso de crianças."

Entre as muitas histórias à respeito de investigações nesse campo macabro, Dawn cita alguns acontecimentos marcantes e bizarros: 

"Nos casos típicos, os criminosos vão amaldiçoar os policiais por prendê-los, mas com crimes ritualísticos ocultos eles podem lançar maldições de verdade. Eles colocam feitiços em você, deixam animais mortos em seu carro e cabeças de cabras na sua porta. Marcos me disse que uma pessoa certa vez gravou o número de seu distintivo em um boneco vodu. Ele recebeu todo tipo de ameaça, algumas absurdas, outras realmente preocupantes. Um assassino certa vez enviou cartas escritas com sangue ameaçando matá-lo. Ele era um homem muito religioso e me dizia que você tinha que estar espiritualmente fundamentado para fazer esse tipo de trabalho. Para ele não era apenas um trabalho, era uma vocação. Ele respeitava outras religiões, dizia que seu papel era combater o abuso da liberdade de culto e separar aquilo que se tornava perverso do que era legítimo". 

Em casos envolvendo o Oculto, é preciso traçar uma linha que separa a ameaça e intimidação do real potencial de perigo. Segundo a Dra. Permutter a maioria dos envolvidos nesse tipo de crime se vale de intimidação para tentar afastar os investigadores.


"Eles sabem manipular as crenças das pessoas e criar o terror. Essas pessoas estabelecem a sua fama como bruxos, feiticeiros e assassinos... criam um personagem apavorante e estão habituadas a serem temidas pelas pessoas que compartilham das mesmas crenças. Elas não admitem que alguém não tenha medo delas e quando encontram uma pessoa treinada que enxerga através de seus artifícios, geralmente elas se sentem desprezadas. Recorrem então à violência e ameaça. Já houve casos de agressão sofrida por detetives designados para investigações do oculto, mas em geral são as ameaças o que mais chama a atenção. Um detetive de Chicago contava que tinha de remover carcaças de animais mortos toda semana da porta de sua casa - galinhas, pombos, gatos. Mas ele se assustou realmente quando encontrou uma cabeça de bode no quarto de sua filha."

A própria Doutora Permutter sofreu com esse tipo de ameaça covarde:

"Não é sempre que acontece, mas quando ocorre é que você realmente percebe como esse tipo de coisa pode ser assustadora. Certa vez estava auxiliando a polícia de Willmington a investigar uma sequência de roubos de cemitério em que restos estavam sendo profanados. De alguma forma os envolvidos descobriram que eu estava envolvida na investigação e decidiram tentar me intimidar. Recebi uma caixa no endereço da minha casa contendo um coração humano mumificado cheio de pregos. Aquilo foi bastante perturbador, mas passado o susto, não me deixei levar pelo medo. No fim, descobrimos o responsável por aquilo e ele foi preso".

Mas o Detetive Quinones e a Dra Permutter não são os únicos policiais que estudam o oculto e buscam conhecer os criminosos que se escondem nas superstições ou que realmente professam esse tipo de crença. Na continuação do artigo conheceremos outros desses policiais ocultistas.