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terça-feira, 12 de março de 2024

As Leis da Necrofagia - Os Rituais Profanos do Culto de Mordiggian

Além do desejo de sobreviver e expandir suas atividades nefastas, o Culto de Mordiggian tem em mente um objetivo a longo prazo: subverter a sociedade a tal ponto que certas coisas consideradas tabu se tornem práticas aceitas. A seita tem como parte de seus rituais mais sagrados práticas consideradas abomináveis pela maioria das sociedades humanas. Canibalismo, necrofilia e a adoração de entidades não-humanas constituem o tripé no qual o Culto se equilibra, princípios difíceis de tolerar. 

Embora tentem promover essas práticas perversas, o Culto jamais foi capaz de superar o senso de estranheza e horror das pessoas diante de tais atitudes. Historicamente eles fizeram poucos avanços exceto entre indivíduos naturalmente degenerados. Mesmo assim, a atuação dos cultistas invariavelmente acabou chamando a atenção das autoridades forçando a evacuação da seita no momento em que ela é descoberta. O Culto acredita que certas práticas, em especial o canibalismo, podem ser impostas aos humanos, sobretudo em tempos de grande perturbação no tecido social. Durante guerras e revoluções, as privações podem forçar as pessoas a atitudes extremas que normalmente elas sequer iriam cogitar. Os Carniçais ligados ao culto observam com interesse quando a fome faz com que tabus consagrados sejam testados até seus limites. Eles observaram com grande atenção os eventos transcorridos nas Guerras Napoleônicas, na Grande Guerra, na Revolução Soviética e na Segunda Guerra Mundial. Mais recentemente, a Guerra em Ruanda e na Bósnia fizeram os carniçais ansiar pela implantação de seu modo de vida.  

A crença deles é que, se uma quantidade suficiente de humanos se voltar para essas práticas, isso irá pavimentar o caminho para o Despertar de Mordiggian. Embora reconheçam que essa tarefa é excepcionalmente difícil, os adeptos se consolam sabendo que a população mundial está em crescimento constante e que tal coisa pode levar a uma crise global de alimentos. Eles teorizam que se a raça humana continuar crescendo irá eventualmente atingir uma massa crítica de densidade populacional que forçará alguns governos a reavaliar dramaticamente seu posicionamento quanto a antropofagia.

De muitas maneiras, a visão do Culto é bastante fatalista. 

Eles sabem que Mordiggian em algum momento deve despertar, mas divergem quanto ao melhor momento para isso acontecer. Tal coisa se dá porque os próprios cultistas não sabem ao certo o que acontecerá quando seu Deus for liberado no mundo. Alguns acreditam que a humanidade eventualmente acabará cedendo aos princípios de sua crença, se não por convicção, ao menos para continuar sobrevivendo. Nesse panorama niilista, os membros da seita esperam se tornar uma casta superior visto que já serviam ao Deus antes dele ascender. Contudo, há aqueles temerosos de que uma vez libertado, Mordiggian se dedique a decretar o fim de toda a vida e transformar o planeta em um enorme cemitério.

Existe também uma profecia antiga muito disseminada entre os membros da seita, de que o Despertar de Mordiggian permitirá aos Carniçais reclamar o mundo da Superfície como seu. Com a humanidade derrotada e colocada de joelhos, os carniçais poderão deixar seus covis e esconderijos para demandar o mundo. Referida como "A Grande Ceia", essa Profecia é aguardada por muitos carniçais que veem nela a derradeira recompensa por servir Mordiggian.   

Morte e necrofagia desempenham papel fundamental nos rituais voltados a Mordiggian. 

Os cultistas acreditam que todo cadáver retém o saber e parte de sua vivência e que este pode ser obtido quando a carne é consumida cerimonialmente. Quanto mais antigo o cadáver, mais profundos os segredos acumulados por ele, algo que os carniçais chamam de "erudição" contida na Carne. Por essa razão, os restos mais antigos ou que pertenceram a indivíduos com reconhecido saber místico são especialmente desejados. 

Os adeptos de Mordiggian não veem a si mesmos como canibais degenerados, mas indivíduos que buscam acumular segredos insondáveis e também comungar espiritualmente com seu Deus. Ao se alimentar de um cadáver devidamente preparado eles acreditam estar partilhando a carne diretamente com Mordiggian e concedendo ao seu Deus uma pequena parcela de segredos que de outra forma se perderiam.

O Ritual de Preparação tem início com a escolha dos cadáveres que serão consumidos pela assembleia. Alguns sacerdotes desenvolvem um faro sensível que supostamente lhes permite identificar os restos humanos mais valiosos pela antiguidade deles. É interessante notar que nenhum corpo "fresco" é consumido, sendo escolhidos apenas cadáveres em que já se iniciou o processo de decomposição. Um cadáver de duas ou três semanas é o ideal, mas outros, muito mais deteriorados, também podem ser selecionados. Sob os templos de Mordiggian há sempre um lugar em que restos humanos são estocados com o intuito de apodrecer corretamente, deixando-os nas condições desejadas. Esses lugares possuem fileiras e mais fileiras de corpos humanos dispostos em racks ou pendurados em ganchos. 

É uma concepção errônea que os carniçais ligados ao Culto devorem seus inimigos assim que são mortos; o mais provável é que eles reclamem os corpos e os levem para seus covis para um período de maturação. Só depois deste é que eles serão devorados.

A preparação dos cadáveres segue com o trabalho de acólitos escolhidos especificamente para essa importante função. Roupas e pertences são removidos, o cadáver é lavado cuidadosamente e os cabelos aparados com tesouras e navalhas. Em seguida ele recebe a aplicação de símbolos arcanos com tinta na pele que o identificam como Sacrifícios à Mordiggian. Esse tratamento costuma ser dado aos restos de indivíduos que os sacerdotes consideram depositários de segredos valiosos. Outras pessoas, em especial cadáveres de jovens ou crianças, são preparados com menos cerimônia podendo ser seccionados em postas e fatiados como aperitivos para a ceia principal. 

Nas celebrações os cadáveres são dispostos em altares de pedra cinzenta como granito ou ardósia e apresentados diante da congregação. O templo é geralmente uma câmara subterrânea parcialmente iluminada por velas feitas de gordura humana e pavio de cabelos. O Sacerdote veste uma espécie de avental cerimonial feito de pele humana curtida e um diadema de ossos. Os participantes geralmente se apresentam despidos, mas em alguns casos importantes vestem ornamentos feitos de osso, tendão e pele ressecada.

Depois dos cadáveres serem cerimonialmente encomendados a Mordiggian, o Sacerdote que preside a cerimônia convida os participantes a tomar parte no momento mais importante - a Comunhão. As oferendas são devoradas por inteiro, por isso o ritual demanda um número mínimo de participantes. Os carniçais tem a primazia, em seguida aqueles que estão em processo de transformação e finalmente os humanos, todos obedecendo um chamamento do sacerdote. 

Não é permitido o uso de talheres e utensílios, "a carne só é tocada pelas mãos e bocas". O ideal é que no fim toda carne seja consumida: músculos, órgãos, fluidos e cartilagem. Isso pode demorar algumas horas dependendo da quantidade de sacrifícios e de fiéis presentes. O crânio e alguns ossos maiores, uma vez limpos são recolhidos e usados como adorno nas paredes, altares e colunas do templo formando mosaicos intrincados. 

Não há palavras capazes de descrever o horror que é testemunhar os rituais aviltantes do Culto de Mordiggian. Os comensais descem vorazmente sobre os restos promovendo um espetáculo dantesco de horror antropófago. Garras rasgam a carne tenra e quebram os ossos, presas despedaçam os músculos enquanto bocas ávidas sorvem ruidosamente o tutano. Logo, nada resta do que um dia foram pessoas.     

Além desse ritual sagrado, há uma infinidade de outras cerimônias igualmente repulsivas que invariavelmente culminam em necrofagia. Antes os cadáveres podem ser sujeitos a outras formas de depredação incluindo, mas não se limitando, a mutilação, esfolamento e necrofilia. Ironicamente, embora sejam sujeitos a esses horrores, os cadáveres são considerados instrumentos pelo qual se dá a comunhão com Mordiggian, são, portanto, manipulados com imenso respeito, quase reverência.

Em datas propícias um avatar de Mordiggian pode ser invocado para presidir rituais especialmente significativos. Nestas ocasiões, a congregação se reúne em peso, atraindo cultistas de outras localidades que viajam para participar da cerimônia. Um banquete é preparado com esmero e fausto, por vezes esgotando os dispensários de carne humana, reduzindo as reservas, deixando-as perigosamente baixas. Isso no entanto, não preocupa aos cultistas que veem nesses rituais especiais a oportunidade de vislumbrar, ainda que brevemente um aspecto de seu Deus. Quando o avatar se manifesta é tradicional oferecer ao menos um dos membros da congregação como sacrifício, uma grande honra para o escolhido.

Quando um aspecto de Mordiggian se faz presente ocorre uma grande reação emocional; os cultistas se veem diante de seu Deus afinal de contas. Choro, gritos e histeria dominam a todos. O Deus come primeiro, se alimentando de todos os corpos que desejar antes de partir. Tudo aquilo que restou é considerado abençoado pela congregação, uma demonstração de generosidade para com o seu rebanho.  A conclusão apoteótica dessa festividade é marcada por cantoria, dança e um violento bacanal entre os presentes.

Os cultistas de Mordiggian possuem vasta compreensão do funcionamento do Mundo dos Sonhos e sabem como navegar através dele. Com carniçais ensinando as nuances do sonhar, não é estranho que muitos humanos desenvolvam familiaridade com o saber onírico e explorem essa dimensão. Não é estranho que cultistas empreendam peregrinações até a cidadela de Zul-Bha-Sair no obscuro Continente de Zothique. Muitos deles passam anos imersos em seus sonhos vivendo na cidade e conhecendo os meandros da adoração a Mordiggian, não é estranho também que alguns optem por  viver no Mundo dos Sonhos para sempre.

A essa altura, talvez seja bom falar sobre Mordiggian e seus avatares. Eles será o foco da terceira e última parte dessa série.    

quinta-feira, 7 de março de 2024

O Culto do Deus Cadáver - A Blasfema Seita devotada a Mordiggian


Há uma relação íntima entre cultos ancestrais e a morte.

A razão óbvia é que a morte constitui para nós o derradeiro mistério, o fim de um ciclo e o início de uma jornada espiritual para algo além da realidade material. A compreensão da morte e de seus muitos segredos sempre fascinou a humanidade e fez com que o homem levantasse questionamentos imaginando o que o aguardava além do véu. Inúmeras crenças e filosofias tentaram explicar esse dilema, oferecendo as mais diferentes respostas: do simbolismo karmico à reencarnação da alma, do julgamento final, das recompensas do Paraíso aos tormentos do Inferno, todas as crenças oferecem seu ponto de vista.

Nenhuma fé, no entanto, conseguiu provar que está certa e que sua posição prevalece sobre todas as demais. A verdade nos ilude, talvez ela só possa ser conhecida no momento em que cada um for tocado pela morte. 

No caótico Universo do Mythos, ironicamente, são poucas as divindades que se inclinam sobre os aspectos fundamentais da morte. Talvez isso se explique pelo fato de que tais entidades de poder inimaginável, todas elas imortais, não se interessam em tentar compreender as nuances de algo tão transitório quanto a existência dos mortais. Se tais entes não contemplam a hipótese de seu próprio fim por que deveriam se importar com o fim de seres menores?

A grande exceção talvez seja o Grande Antigo Mordiggian, o Deus Cadáver, o Amante dos Mortos e Habitante dos Sepulcros. Para muitos, ele é a representação corpórea das vicissitudes do corpo, da corrupção da carne e da deterioração definitiva. Ele é um Deus profano que trilha um caminho de podridão, almeja a dissolução de todas as coisas e viceja com a inevitável corrupção da carne. 


O Culto de Mordiggian é incrivelmente antigo, mas ele encontrou aceitação entre os humanos somente em dois momentos: no passado remoto e na Terra dos Sonhos. Para alguns teóricos do Mythos, o continente de Zothique onde Mordiggian é o Deus principal, reside num futuro muito distante e não na Terra dos Sonhos. Lá a cidadela de Zul-Bha-Sair constitui o centro de poder do Culto e onde o Deus hiberna nas profundezas. As teorias são muitas e inconclusivas.

Num primeiro momento, o Culto de Mordiggian foi bem conhecido durante a lendária Era Hiboriana, um período marcado pela barbárie que antecedeu a história corrente. Os templos de ardósia cinzenta dedicados a Mordiggian estavam presente nos reinos centrais, sobretudo na ancestral nação de Koth, em sua vizinha Ophir e na obscura Zamora, terra de muitos deuses. Foi em Shadizar, a obscena capital da Zamora, que o Culto alcançou seu apogeu formando uma seita organizada. Este foi o único momento em que a Igreja de Mordiggian atuou abertamente. 

Os fiéis viam Mordiggian como uma espécie de juiz diante do qual, as almas dos mortais eram julgadas. Cabia a Ele determinar quais almas estavam aptas a gozar das benesses do além vida e quais seriam aprisionadas num labirinto escuro onde dor e sofrimento aguardavam. Para chegar a esse decisão, Mordiggian reclamava para si os cadáveres de seus fiéis. Os restos mortais, acreditavam os cultistas, conservavam os sinais das transgressões terrenas. Através de elaborados rituais fúnebres, o Deus era capaz de divisar qual seria o destino final de cada espírito. Entretanto, a maioria dos seguidores desconhecia no que consistiam esses rituais ou a natureza blasfema da congregação. 

Era segredo que a medonha raça dos Carniçais comandava o Culto e estabelecia as ligações com Mordiggian. Os Carniçais sempre veneraram o Deus Cadáver e cumpriam a função como sacerdotes principais, oficializando ritos e celebrações. Eles vestiam longos mantos de cor púrpura e máscaras prateadas que ocultaram suas feições bestiais. Os carniçais raramente deixavam os Templos exceto para coletar os cadáveres dos devotos que lhes eram entregues de bom grado. Estes eram então carregados para os túneis subterrâneos abaixo dos templos afim de serem preparados para o "julgamento". Isto envolvia um ritual blasfemo no qual os cadáveres eram consumidos num festival nauseante de canibalismo. Tanto Mordiggian quanto os carniçais que o serviam eram insaciáveis e cobiçavam os corpos de todos que morriam. 

Rumores a respeito dos misteriosos rituais e da identidade dos acólitos eram sussurrados pela população, mas ninguém sabia o quão abomináveis eram estes. Supõe-se que em algum momento a verdade veio à tona o que deflagrou uma revolta generalizada. Os templos foram destruídos pelos fiéis e os sacerdotes passados pelo fio da espada.


Mas o Culto de Mordiggian não desapareceu por completo. Quando a Era Hiboriana foi devastada por um Cataclismo de largas proporções, coube aos carniçais preservar a memória de seu Deus e preparar o seu retorno.

O Culto de Mordiggian emergiu em algum momento na Ásia Meridional, no atual subcontinente indiano por volta do século quinto antes de Cristo. É provável que os carniçais tenham sido responsáveis por reintroduzir o Deus aos humanos que o viam como Senhor dos Mortos. Contudo as tradições védicas que moldaram a Civilização do Vale do Indo declararam a crença em Mordiggian uma blasfêmia e proibiram sua adoração. Para sobreviver, os devotos tiveram de manter suas atividades em segredo, realizando suas práticas clandestinamente. Embora o Culto jamais tenha desaparecido por completo na Índia, ele se ramificou através do Sudeste asiático entre os Tcho-Tcho e marchou para o oeste estabelecendo-se no Paquistão, Afeganistão e dali para o Oriente Médio. Os romanos conheceram o Culto quando ocupavam a Judeia e coube a mercadores levá-lo para os confins do Império, ainda que seus seguidores jamais tenham sido numerosos. O Culto emergiu e desapareceu inúmeras vezes em incontáveis lugares. 

É possível precisar quando o Culto de Mordiggian ressurgiu mais expressivamente, graças a ladrões de sepulturas e necromantes na França pelos idos do século XVI. Esse grupo de degenerados aparentemente entrou em contato com os carniçais que habitavam os subterrâneos de Paris e firmaram com eles algum tipo de acordo. Os carniçais introduziram aos humanos os princípios da adoração à Mordiggian e os grupos se complementavam: os humanos supriam os carniçais com informações e tarefas que eles não podiam realizar na superfície, enquanto os carniçais ofereciam os segredos dos sonhos e o dúbio benefício do canibalismo. O renascer do Culto foi bem documentado por François Honore-Balfor, Comte d´Erlett no raro tomo Cultes des Goules, publicado no início do século XVIII.

Pouco depois do lançamento do livro de Balfor, a seita se viu perseguida pelas autoridades. Denúncias levaram os gendarmes a esconderijos e covis onde os membros rendiam homenagem a Mordiggian. As prisões se traduziram em escândalo já que entre os envolvidos com o Culto encontravam-se personalidades na sociedade parisiense interessadas em testar limites e romper com tabus. Apesar de muitos terem sido capturados, outros encontraram refúgio nos subterrâneo da cidade com seus aliados necrófagos.

Os cultistas humanos que deixaram Paris continuaram em constante movimento, escapando e ludibriando as autoridades nos lugares onde escolhiam se instalar. As colônias francesas ao redor do mundo receberam membros da congregação: na América do Norte eles se estabeleceram no Haiti, na Louisiana e partes do Canadá, na África encontraram guarita no Sudão, Argélia e Senegal, enquanto que na Ásia se fixaram na Indochina. Algumas destas células tiveram sucesso, sobretudo aquelas que se beneficiaram da presença de carniçais com quem buscaram firmar aliança. 


Em algum momento os cultistas receberam uma visão, supostamente enviada por Mordiggian apontando uma "Terra Prometida" onde eles poderiam fincar raízes e estabelecer uma fortaleza para professar suas crenças. O local apontado ficava em uma das colônias mais isoladas e remotas do Império Colonial Francês: A Guiana Francesa, na América do Sul. O lugar havia sido ocupado originalmente por dissidentes que escaparam das perseguições em Paris em 1805. Este grupo teve sucesso em se estabelecer nessa região que era tão afastada que permitia a eles se dar ao luxo de atuar quase livremente. As mortes causadas por doenças tropicais eram elevadas e apenas os mais fortes sobreviviam. Nesse ambiente insalubre, a Seita conseguiu prosperar contando com o apoio de membros que empreenderam a transformação definitiva em carniçais. Sendo uma espécie mais resistente do que os humanos, os carniçais podiam lidar mais satisfatoriamente com os inúmeros desafios da colônia.

Por volta de 1865, cultistas vindos de várias partes do mundo começaram a desembarcar na Guiana Francesa após longa e perigosa jornada. Esses peregrinos eram bem recebidos pelo Culto residente que os aceitava entre suas fileiras. Com os recursos do Culto aumentando, os líderes decidiram expandir o que eram meras cabanas e estruturas de madeira em algo mais condizente com o desejo de seu Deus. Eles ambicionavam acima de tudo, construir um Templo para sua divindade, um lugar de acordo com as profecias de que a entidade um dia comandaria milhões. O Culto se inspirou nas visões da Cidadela de Zul-Bha-Sair, na Terra dos Sonhos, para erguer uma estrutura piramidal condizente com suas aspirações estéticas. Eles levaram décadas para construir a estrutura, uma impressionante realização considerando a localidade. No entorno da praça central, surgiram prédios feitos de madeira e pedra onde os cultistas passaram a viver e galerias subterrâneas onde os carniçais habitam em segurança.

Em 1920, a Fortaleza de Mordiggian - nome pelo qual ficou conhecida a cidadela entre os cultistas, estava praticamente concluída. As obras finais se concentravam apenas em melhorar as estruturas habitacionais e capacidade de armazenar suprimentos. Uma das características chave da Fortaleza era um Portal de Oneirologia, criado com um feitiço incrivelmente raro que permitia o trânsito entre o Mundo Desperto e a Terra dos Sonhos. Qualquer pessoa atravessando esse portal emergia na cidadela de Zul-Bha-Sair. O Culto utilizava o portal para viajar facilmente entre dois mundos, garantindo uma fonte de comida e suprimentos que sustentava o Templo em meio às selvas da Guiana Francesa.


Por volta de 1940, aproveitando a situação de grande instabilidade no mundo, o Culto de Mordiggian deu início a um ambicioso plano para expandir o Portal de Oneirologia. O objetivo era realizar uma grande transição, trazendo a Zul-Bha-Sair onírica para o Mundo Desperto e com ela o local onde Mordiggian jazia aprisionado. Com a presença física da entidade no Mundo Desperto, os cultistas esperavam dar o primeiro passo para ganhar poder e influência sobre um mundo mergulhado no Caos da Guerra. A conspiração se baseava em profecias que mencionavam a Segunda Guerra como um tempo de grande perturbação, propício para seus estratagemas frutificarem. Ela teria dado resultado não fosse a intromissão de um grupo de investigadores que conseguiram frustrar os planos. O Portal na Guiana Francesa acabou sendo explodido com dinamite e o Culto se viu seriamente desarticulado depois que seus líderes morreram ou escaparam para a Terra dos Sonhos.

Com a Fortaleza de Mordiggian destruída, os sobreviventes tiveram de buscar outros lugares onde pudessem se esconder, contudo, o Culto jamais se recuperou desse revés. Pequenas células se fixaram no México, Colômbia, Venezuela e Brasil, já que estes lugares atraíram um fluxo de imigrantes no pós-guerra. A França também assistiu o retorno de descendentes dos cultistas que haviam deixado Paris séculos antes. Na década de 1960, aproveitando os Movimentos de contracultura e revoltas ao redor do mundo o Culto de Mordiggian encontrou um solo fértil no Sudeste Asiático. Há boatos não confirmados de que ele se tornou influente no Camboja, com membros da seita ocupando cargos proeminentes no Governo Revolucionário. O Delta Green investigou essas atividades em meados de 1968, acreditando que havia envolvimento de cultistas no Kmer Vermelho. Considerando o genocídio perpetrado naquele país, é possível que os rumores, ao menos em parte, sejam reais.

Nesse novo século, os seguidores de Mordiggian se perguntam o que seu Deus deseja deles e que papel eles irão desempenhar. Há muitas profecias e crenças que compõem sua mórbida doutrina, mas mesmo para eles o futuro parece envolto em mistérios insondáveis.

A seguir, nossa exploração do Culto de Mordiggian prossegue com as medonhas Leis da Necrofilia.              

segunda-feira, 1 de janeiro de 2024

Culto Vodu - O estranho Caso da Sacerdotisa assassina Clementine Barnabet


Certa tarde, em janeiro de 1911, a polícia foi chamada à residência de um homem chamado Walter Byers, em West Crowley, Louisiana, por vizinhos preocupados por ele não ter aparecido para trabalhar na fábrica de arroz local. Quando as autoridades entraram, a casa parecia estar toda em ordem até chegarem ao quarto onde acharam um cenário de horrores. Lá, Walter, sua esposa e seu filho de seis anos foram encontrados brutalmente assassinados e massacrados. Havia sangue espalhado por toda parte, inclusive nas paredes e no teto. Um verdadeiro pântano de pegadas manchadas e sangrentas se espalhavam pelo cômodo. 

Os corpos haviam sido cortados com um objeto afiado e pesado. Não tinham marcas de ferimentos nas mãos evidenciando defesa. O assassino havia usado a lâmina para massacrar suas vítimas deixando vários ferimentos abertos com enorme força. As cabeças foram espatifadas como melões com a lâmina da mesma arma e depois chutadas até se partirem medonhamente. Os policiais atordoados pela cena doentia investigaram a cena do crime e descobriram um balde cheio de sangue num canto. Acharam ainda um pesado machado sujo de sangue ao lado da cama. As autoridades suspeitavam que a família tivesse sido morta durante o sono e, como não havia sinal de arrombamento, teorizou-se que o assassino havia entrado por uma janela aberta aproveitando o calor que fazia. O crime seria o início de uma série sombria e elusiva de assassinatos macabros que desencadearia histórias de magia vodu, cultos nefastos e sacrifícios humanos no coração da Louisiana.

O assassinato foi particularmente chocante, resultando em manchetes sensacionalistas nos principais jornais, enquanto a polícia não conseguia descobrir por que haviam sido cometidos. Walter era um sujeito bem quisto e não tinha inimigos conhecidos, ao menos ninguém capaz daquela destruição. Ninguém conseguia encontrar um motivo para alguém querer matar ele e sua família de maneira tão horrível. 

Enquanto os investigadores tentavam encontrar pistas, no mês seguinte houve outro assassinato medonho, desta vez Alexander Andrus, sua esposa Minnie e seus dois filhos pequenos, foram encontrados igualmente mutilados e massacrados em seus quartos. A arma do crime, determinaram rapidamente era um machado semelhante ao usado no primeiro massacre. E assim como no crime anterior, havia um balde de sangue no local. Menos de um mês depois, outra família foi encontrada no mesmo estado mórbido, desta vez Alfred e Elizabeth Casaway e seus três filhos que viviam em San Antonio, Texas. A essa altura, a polícia suspeitou que os assassinatos não estavam apenas relacionados, mas também tinham motivação racial, já que as famílias Byers, Andrus e Casaway eram todas de negros pobres.


A polícia suspeitava ter um serial killer à solta, provavelmente alguém rico e branco. Isso atrapalhou a investigação desde o início, pois eles estavam buscando no lugar errado. A primeira pista realmente boa que obtiveram veio da amante de um homem negro local chamado Raymond Barnabet, que se gabou de ter matado a família Andrus depois de voltar para casa com sangue nas roupas. Barnabet foi imediatamente preso. Durante o interrogatório a própria filha do acusado, Clementine, de 17 anos, e seu filho, Zephirin, também alegaram que seu pai havia sido muito abusivo com eles e os forçou a ajudá-lo a eliminar as evidências dos assassinatos. Raymond foi formalmente acusado e depois de um rápido julgamento, considerado culpado. Contudo, enquanto aguardava a sentença na cadeia, ocorreu mais um assassinato repugnante.

Em novembro de 1911, Norbert e Asima Randall, de Lafayette, foram assassinados com seus quatro filhos, e o Modus Operandi foi o mesmo dos demais crimes. Eles eram negros, a arma do crime era um machado e os corpos foram mutilados e parcialmente drenados. Um balde foi achado contendo o sangue das vítimas. A única diferença marcante é que Norbert foi morto com um tiro em vez de um golpe de machado. Curiosamente, durante esta investigação, a polícia voltou suas suspeitas para a filha do principal suspeito, Clementine Barnabet. Eles moravam bem perto dos Randalls e sangue foi encontrado na fechadura da porta de sua casa. O mais contundente de tudo, é que, como diria um jornal, “um conjunto completo de roupas femininas foi achado no quarto de Clementine, empapado de sangue e coberto de cérebros humanos”. A descoberta era incriminadora, para dizer o mínimo.

Embora seu irmão tivesse um álibi, Clementine foi presa sob suspeita de assassinato, assim como seu pai. A suspeita é que a garota havia cometido os crimes com o intuito de criar uma dúvida excludente que liberaria seu pai da cadeia. Afinal, se ele estava preso, como poderia cometer o crime?

Contudo, o mais chocante ainda estava por vir... 


Mesmo com Raymond e Clementine presos na cadeia municipal, novos crimes continuaram a acontecer levando terror a população. De fato, as mortes violentas se intensificaram! Em janeiro de 1912, um total de três famílias foram assassinadas da mesma forma em rápida sucessão. Em uma dessas cenas de crime, um novo detalhe foi encontrado em uma mensagem escrita com sangue na parede, que dizia misteriosamente: "Quando ele faz a inquisição por sangue, ele não se esquece do clamor dos humildes", a estranha frase foi assinada como "Os Cinco Humanos." 

Quando essa notícia bombástica chegou ao noticiário, a mídia foi à loucura. Imagens assustadoras das cenas dos crimes foram estampadas na primeira página de jornais e logo os repórteres estavam atribuindo os assassinatos a um culto vodu que conduzia sacrifícios humanos. Na Louisiana cultos de matriz africana, inclusive de Voudou, eram conhecidos, mas nada semelhante havia sido visto. Não daquela maneira. 

Também havia rumores de que a gangue vodu chamava a si mesma de "Igreja do Sacrifício" e era liderada por ninguém menos que a própria Clementine Barnabet, uma espécie de sacerdotisa mambo, uma feiticeira vodu. Ela teria sido consagrada no mesmo templo em que a lendária feiticeira Marie Laveau, uma das mais poderosas e conhecidas bruxas da Louisiana.  

Essa história causou enorme repercussão e um circo da mídia, criando uma histeria coletiva. Da noite para o dia surgiram rumores à respeito de templos secretos vodu escondidos no pântano. Havia boatos de todo tipo sobre rituais de sangue sendo realizados nas florestas ao redor da cidade e em porões. O pânico deu vazão a uma verdadeira caça às bruxas na qual dezenas de pessoas, em sua maioria devotos de religiões africanas, foram perseguidas e agredidas por uma multidão apavorada. 

Em meio a esse caos, Clementine Barnabet se recusou a cooperar com as autoridades e disse que não falaria com ninguém aumentando a percepção de todos de sua culpa.


Justamente quando todo frenesi vodu estava chegando ao auge e a polícia lutava desesperadamente para descobrir quem estava cometendo os assassinatos, Clementine decidiu chamar a imprensa para fazer uma declaração que foi transmitida por rádio. Ela confessou que realmente fazia parte de um culto vodu e que seus membros acreditavam que matando inocentes poderiam alcançar a imortalidade se o sacrifício fosse direcionado a entidade correta. 

A jovem revelou que, para cometer os crimes, os assassinos usavam amuletos de vodu que ela havia criado e que os protegiam com uma série de poderes sobrenaturais. Usando os amuletos, eles ficavam invisíveis, não faziam barulho e ganhavam força sobre-humana. Em sua confissão ela acabaria confessando 35 assassinatos cometidos ao longo de uma década. 

Foi uma revelação chocante, mas haviam algumas lacunas na história. A primeira foi que Clementine alegou que seu culto estava conectado à congregação da Santa Igreja Santificada de Cristo em Lake Charles, Louisiana, mas o pastor de lá nunca tinha sequer ouvido falar dela. Ela também deu à polícia os nomes dos cúmplices, que foram considerados identidades falsas ou não puderam ser localizados. Ocorreram algumas prisões, mas nenhuma dessas pessoas estava ligada aos assassinatos, muito menos a um culto vodu de sacrifício humano. Haviam álibis e testemunhas que os eximiam de qualquer culpabilidade. Até mesmo o "Sacerdote Vodu" que ela alegou ter lhe vendido seus encantos mágicos era apenas um fito terapeuta que não tinha ideia do que a polícia estava falando quando bateu a sua porta. 

A história toda também era muito contraditória, com detalhes mudando frequentemente cada vez que ela contava, e logo ficou óbvio que a confissão de Clementine não era válida.

Sem suspeitos e sem nenhuma prova, a polícia rejeitou amplamente as alegações selvagens e duvidou que Clementine tivesse cometido tantos assassinatos quanto alegou. Ainda assim, eles a acusaram dos assassinatos de Randall devido às evidências sangrentas encontradas em sua posse. A jovem sacerdotisa Vodu da Louisiana, chamada de "a mulher mais temida de seu tempo" foi condenada à prisão perpétua na Penitenciária Estadual de Angola, perto da capital do estado da Louisiana, Baton Rouge, com a tenra idade de 19 anos. 


Clementine tentaria escapar sem sucesso em julho de 1913, antes de ser libertada da prisão em agosto de 1923 após ter demonstrado bom comportamento e aparentemente tendo passado por algum tipo de procedimento misterioso que a "curou" e "restaurou sua sanidade", o que é estranho porque em seu julgamento ela foi considerada perfeitamente sã. Depois disso a história termina, com poucos fatos adicionais. Ela desapareceu sem deixar rastros em 1924 e nunca mais se ouviu falar dela. 

Diante de tudo isso, ficamos nos perguntando que papel Clementine Barnabet teve nos crimes horrendos cometidos e se alguma de suas afirmações era realmente verdadeira. No entanto, quer ela fosse culpada ou não, ainda nos restam imputar os supostos assassinatos que aconteceram enquanto ela estava encarcerada. 

Seria ela realmente a líder de um culto que enganou as autoridades ao apontar supostos membros? Foram assassinatos cometidos por imitadores? O culto continuou agindo impunemente? A verdade, é que ninguém jamais foi detido e acusado formalmente pelos assassinatos do Culto Vodu, e o mistério permanece até hoje.

sexta-feira, 12 de maio de 2023

O Culto do Deus Rato - Os medonhos seguidores da Coisa na Escuridão


No vasto universo do Mythos, certos seres e entidades parecem estar circunscritos a determinadas regiões. São seres de grande poder e influência, mas que por algum motivo parecem estar ligados a um espaço territorial relativamente pequeno. Como se estivessem enraizados ao próprio solo, eles não conseguem ou muitas vezes, não contemplam, se afastar dessas áreas. Tais entidades se convertem em senhores de seu espaço, passam a controlar todos os elementos, todos aspectos e a própria natureza é cooptada pela sua influência perversa, o que inclui animais e humanos que lá habitam.

Há exemplos óbvios de Entidades que seguem esse preceito, de nunca se afastar dos territórios que por diferentes razões decidiram reclamar como seus. Um dos melhores exemplos é indubitavelmente o insalubre Vale de Severn, cujos limites contabiliza uma série de vilarejos decrépitos, cada qual voltado para uma diferente deidade que ali reside e é adorada pelos seus degenerados residentes.

O que tais seres desejam, o que os compele e quais as razões para que eles fiquem confinados ali, muitas vezes escapa de nosso conhecimento e poucos, exceto os que vivem nessas áreas podem ter alguma noção de seus motivos inescrutáveis.

Uma Entidade obscura, até para os padrões do Mythos, que vive circunscrita a uma determinada área de atividade é a bizarra abominação vulgarmente conhecida como Deus Rato da Nova Inglaterra.


Tal entidade é reverenciada por um diminuto grupo de indivíduos, mormente membros de tribos de nativos norte-americanos ou seus descendentes que residem nas imediações de um povoado chamado Cão Coxo (Lame Dog) nos arrabaldes do estado.

O lugar sempre foi isolado e de difícil acesso. Coberto de densas matas virgens e de pântanos intransponíveis que no inverno se tornam armadilhas naturais de neve e gelo, a área sempre afastou os nativos. Mas não era apenas a natureza selvagem e a presença de grandes roedores que objetava a conquista do espaço, havia algo mais que os xamãs e feiticeiros dos Narragassett e Mohegan podiam sentir. Uma mácula contaminando o próprio solo escuro dessa terra profana. Chamavam a faixa pantanosa de Nahuchtill, a Terra do Rato e a evitavam a todo custo.

Segundo as lendas nativas, após uma grande rixa entre tribos, uma delas foi forçada a buscar um refúgio onde pudesse se estabelecer. Encontrou guarida justo nas terras ermas do Nahuschtill, a "província dos ratos que andam sobre duas pernas". O xamã dessa tribo proscrita era Cão Coxo e esse nome passou a ser compartilhado por todos eles. Cão Coxo entrou em contato com a coisa monstruosa que vivia nas profundezas daquele descampado quase que imediatamente e ofereceu sua servitude quando identificou se tratar de um dos Deuses Primordiais ligados aos Antigos. Ele foi alçado a uma condição de Profeta pelo próprio Deus Rato.

O povo desse assentamento foi então apresentado a rituais que a criatura transmitiu ao seu sacerdote. Os que resistiram à ideia se tornaram as primeiras vítimas de sacrifícios doentios. O Deus Rato demandava uma prova do comprometimento dos postulantes a servi-lo e essa só poderia ser dada com sangue. O culto nasceu dessa maneira, congregando talvez duas dúzias de malogrados nativos e algumas squaw raptadas que passaram a adorar aquele horror como seu deus único. O isolamento e os tabus tribais permitiram que a tribo se desenvolvesse, entregue a práticas nauseantes de feroz adoração e perversa endogamia. Com o passar do tempo gerações nasceram contaminadas pela semente atroz do Deus Rato, tornando-se cada vez mais degeneradas em aparência e mentalidade. 


Quando os colonos brancos chegaram à Nova Inglaterra, as tribos foram forçadas para o território interior, através dos pântanos evitados desde os primórdios. Lá ficaram chocados em encontrar a tribo esquecida composta de homens e mulheres com feições de roedores entregues a um comportamento repulsivo. Muitos guerreiros ficaram tão perturbados pelo povo de Cão Coxo que fugiram sem olhar para trás, outros no entanto os combateram encontrando árdua oposição, já que as crianças do Deus Rato agora contavam com um padroeiro poderoso. Ainda assim, aquela gente também sofreu perdas severas. Vieram então os colonos brancos que em sua marcha para o interior derrubaram árvores e abriram estradas que transpunham o pântano gelado cercando Nahuchtill. Ficaram incomodados pela presença dos grandes roedores que viviam na área e mais ainda pelos nativos degenerados com feições bizarras que os receberam. Não havia nada ali e portanto seguiram em frente sem perturbar os locais.

Por algum tempo Cão Coxo permaneceu intocada, protegida pela sua insignificância, ao menos até a chegada de imigrantes russos que por algum motivo acabaram se aventurando por aquelas bandas. Eram obstinados, resistiam bem às agruras do clima severo e lá fincaram bases para erguer um rústico assentamento. Talvez o local estivesse fadado a ser abandonado, mas em algum momento chegou a notícia de que naquelas terras lamacentas havia ouro em abundância. A notícia atingiu a costa e começou a atrair cada vez mais gente disposta a tentar a sorte no lugarejo batizado Cão Coxo. Nas décadas seguintes as concessões de garimpo mudaram o lugarejo e despejaram pó de ouro sobre balanças que fizeram a fortuna e a ruína dos residentes. Cão Coxo provou de certo progresso e permitiu o surgimento de um grupo aristocrático, em sua maioria descendentes dos colonos russos originais, que se converteu na classe mais abastada. Ergueram moradas luxuosas e palacetes com lambris e telhados de alvenaria que contrastavam com as barracas mal ajambradas dos garimpeiros.

Como seria de se esperar, a onda de progresso não contemplou os nativos. Estes foram afastados da cidade em crescimento e forçados para uma das áreas mais miseráveis - justamente na vizinhança do acesso subterrâneo onde o Deus abominável habitava. Continuaram a honrá-lo com sacrifícios de sangue na escuridão de suas catacumbas, onde exércitos de ratos pululavam. Eram evitados à todo custo pelos recém chegados, perplexos pela aparência bestial e modos daqueles miseráveis desprezíveis.


Mas a glória do ouro aos poucos foi esvanecendo em Cão Coxo e com ela o progresso. Em pouco mais de duas décadas a cidade havia sido drenada de sua riqueza mineral e nada mais restava a ser explorado. Com efeito, a decadência foi tomando conta de tudo, os casarões perderam sua opulência e a gente branca partiu pouco a pouco, enxotados pelas pragas que agora corriam pelas ruas. Restaram uns poucos que se apegavam ao terreno conquistado tão arduamente e que eram teimoso demais para partir. estes acabaram sendo assimilados pelos nativos que lenta, porém gradualmente começaram a voltar para a cidade, ocupando as casas vazias, exceto pelos ninhos de ratos. Em algum momento, os moradores locais acabaram contaminados pelo mesmo cultismo e passaram a adorar a divindade blasfema para a qual os nativos prestavam homenagem. Desta feita, um grupo miscigenado se tornou proeminente, com pele mais clara e cabelos negros - compunham a nova sociedade de Cão Coxo.

Na virada para o século XX, os residentes estavam tão integrados que era difícil separar nativos de brancos. Todos eles também comungavam do mesmo sacramento doentio ao imoral Deus Rato. No começo do século, as luzes de uma era de saber permitiu que os filhos de Cão Coxo deixassem os limites da cidade e explorassem as cidades próximas fixando-se em Salem, Bristol e é claro, na assombrada Arkham no Vale do Miskatonic.

O povo de Cão Coxo continuou professando sua religião profana que evidenciava a sua condição de sujeição diante de seu Deus. Os rituais um dia foram realizados na superfície, mas a necessidade de sigilo os forçou a transferir seu tabernáculo para o subterrâneo adjacente à morada do Deus Rato. Nessas câmaras umbrosas de rocha áspera a congregação se reunia em total escuridão para seus ritos doentios. Os membros inferiores do culto não possuem uma indumentária específica, vestem trapos ou se apresentam nus. Os sacerdotes, no entanto, costumam trajar mantos pesados e escuros além de uma máscara tradicional que lembra o crânio de um rato. 


Sacrifícios são parte importante das cerimônias e se não houver uma vítima - geralmente uma mulher subtraída de uma região vizinha, os cultistas estão dispostos a oferecer um dentre eles. A vítima é entregue ao Deus Rato que preside as cerimônias de corpo presente. A enorme criatura dá cabo de suas oferendas devorando-as aos bocados com selvageria. Por vezes, estas também podem ser dadas às crianças do Deus Rato, as hordas inefáveis de imensas ratazanas que habitam os túneis. Tamanha a voracidade dessas criaturas que suas vítimas são roídas em poucos minutos até restarem apenas os ossos carcomidos. 

Após os rituais de submissão e sacrifício, o Deus Rato abençoa sua congregação com portentos. Estes são transmitidos mentalmente como em uma espécie de alucinação coletiva para os presentes que partilham do devaneio. A experiência de iluminação contamina a todos que se entregam em seguida a uma orgia lasciva em meio às trevas. Ali cercados pelos ratos e outros horrores mutantes eles se entregam num imundo bacanal. Durante essas orgias indescritíveis muitas mulheres acabam "abençoadas" dando a luz a novas gerações de seguidores, visto que a fecundidade é uma das dádivas do Deus Rato.

Os cultistas típicos do Deus Rato são jovens, uma vez que poucos chegam a idade avançada dado o caráter de sacrifício de seus rituais. Essas pessoas apresentam uma aparência reminiscente de sua divindade nefasta. Possuem dentes afiados e proeminentes, pequenos olhos rosáceos e apresentam crescimento de tufos de pelo cinzento e crespo em porções do corpo. São repulsivos para a maioria das pessoas: de baixa estatura, aspecto pouco saudável e modos estranhos. Há entretanto, casos mais graves de deformação congênita, com indivíduos apresentando membros atarracados, dedos fundidos e pés na forma alongada das patas de ratos. 


Em casos extremos encontra-se incidência de indivíduos com um focinho curto, orelhas em riste e até mesmo compridas e finas caudas de rato. Esses cultistas tendem a se manter nos túneis do covil do Deus Rato e raramente são vistos no exterior sem roupas pesadas que escondem sua evidente deformidade. Apesar de não poderem ser vistos na superfície sem causar choque, eles são tidos como indivíduos escolhidos pelos seus pares. Alguns deles vivem em meio as ninhadas de ratazanas cegas e albinas, grandes como porcas que os nutrem com seu leite. As mulheres que nascem com essas mutações muitas vezes são concubinas do Deus Rato em pessoa, impregnadas por ele de tempos em tempos.

Os líderes do Culto também costumam vir desse grupo, dominando feitiçaria oferecida pelo Deus Rato e usando seus poderes sobrenaturais para atingir todos que desafiam sua autoridade. A tenebrosa maldição da Coisa-Rato que opera uma transformação horrenda na vitima é uma técnica conhecida por esses bruxos e reservada àqueles que despertam sua ira. Os feiticeiros acumulam a função de sacerdotes, presidindo os rituais, comungando com seu Deus e recebendo dele as instruções de como proceder. São devotos fanáticos e servem a criatura em toda sua capacidade. 

Em geral o Deus Rato sempre pareceu satisfeito com seu pequeno domínio que se resumia a Cão Coxo e redondezas, contudo na segunda metade do século passado ele começou a aumentar sua influência enviando cultistas para outros lugares.

Os membros do Culto que recebem a anuência dos sacerdotes tendem a se estabelecer em grandes cidades onde suas atividades chamam menos a atenção. Suas deformidades também tendem a ser menos evidentes. Embora tenham recebido a permissão do Deus Rato de deixar Cão Coxo, eles se mantém fieis ao Culto e suas diretrizes. Muitos se estabelecem em prédios abandonados e ruínas tomadas por ratos, tornam-se mendigos e vagabundos que vivem em meio aos roedores na escuridão. Contemplam encontrar outros seguidores e estabelecer com eles um templo devotado ao Deus. 


Essas congregações raramente conseguem lograr sucesso nessa empreitada e a maioria desses "missionários" falham em seu intuito. Há entretanto exceções marcantes. Na cidade de Nova York, o Culto do Deus Rato conseguiu encontrar um terreno fértil para proliferar ocupando estações abandonadas de metrô e usando os túneis como seu reduto. Rumores alarmantes sugerem que cultistas do Deus Rato se espalharam por áreas profundas do metrô encontrando fartura de vítimas entre as populações de sem-teto e simpatizantes entre eles. O Culto enfrenta ainda a concorrência de Carniçais (ghouls) que também vivem nesses mesmos túneis gerando uma feroz disputa territorial. Contudo, o fato de existirem templos devotados ao Deus Rato nas profundezas atesta que eles parecem ter conquistado seu espaço e que estão expandindo seus domínios.

domingo, 8 de maio de 2022

Culto da Morte - A horrível tragédia de "Jamestown"

Continuando a postagem sobre Jonestown.

Os membros do Templo do Povo haviam sido treinados por muitos anos para se prepararem para o suicídio em massa que finalmente ocorreu em novembro de 1978. Jim Jones, seu carismático líder, havia compartilhado com seus seguidores a crença paranoica de que o governo americano estava planejando destruir seu Movimento revolucionário. 

Ao longo dos anos, Jones apresentou muitas "ameaças externas" à segurança de seus seguidores, mas afirmava ter sempre removido o perigo para eles. Uma e outra vez ele os havia resgatado, eles aprenderam a confiar nesse homem conhecido por eles como o "Pai".

Jones e seus seguidores se mudaram para o vilarejo de "Jonestown" com o objetivo de criar uma comunidade completamente autossuficiente baseada nos ideais do comunalismo. Cada pessoa trabalharia para o bem comum, produzindo comida, abrigo, roupas, cuidados de saúde e educação para si e para os demais. Nesta comunidade todos seriam iguais e poderiam viver em paz. Era um ideal nobre, pelo qual valia a pena morrer, dizia o Reverendo em seus sermões inflamados.
 
Em novembro de 1978, o povo de Jonestown demonstrou que realmente estava pronto para morrer. Mas como eles chegaram a isso? O que motivou quase mil pessoas a cometer suicídio em nome de suas crenças? Matar suas crianças e depois beber veneno. Como costuma acontecer com seitas apocalípticas, tudo isso foi um processo, longo e desgastante que moldou a mente dessas pessoas nesse sentido.

Visão aérea de Jonestown na época da tragédia 

Tudo era uma questão de compromisso e dedicação. Quanto mais a pessoa se dedicava, mais ela era admirada pelos demais membros da Igreja. O nível mais alto de compromisso só podia ser atingido quando um indivíduo ou sua família passava a viver nas instalações do Templo do Povo, entregando todos os bens pessoais, economias e cheques da previdência social para o Templo. O ideal de vida em comunidade era um grande aspecto do ensino de Jones, visto como o único ideal verdadeiramente espiritual. O mundo exterior do capitalismo e do individualismo era maligno e destrutivo. As forças desse sistema veriam os ideais e realizações do Templo do Povo como uma ameaça à sua própria estabilidade e, assim iriam desejar sua destruição. Com isso, Jones foi capaz de criar a ilusão de que o único lugar de segurança e conforto para as pessoas era o Templo do Povo. Do lado de fora, reinava um mundo de dor e perigo.

Nos vinte anos anteriores aos trágicos eventos em Jonestown, o número de seguidores do reverendo Jim Jones havia crescido, à medida que ele atraiu os marginalizados da sociedade, juntamente com aqueles que desejavam ajudar os oprimidos e servir os necessitados. Jones pregou a necessidade de fraternidade e integração racial, de igualdade e doação. Ele fundou o Templo do Povo no ano de 1963 e lá negros e brancos participavam do culto lado a lado. Os pobres e os desajustados da sociedade foram recebidos de braços abertos. A congregação de Jones trabalhou para alimentar os miseráveis, encontrar emprego, ajudar ex-criminosos e viciados em drogas a recompor suas vidas.

À medida que a congregação de Jones crescia, também cresciam as exigências que ele fazia ao seu rebanho. Maiores sacrifícios e dedicação eram exigidos dos membros do Templo do Povo. Jones se mudou para o norte da Califórnia em 1965, junto com 100 de seus seguidores mais fiéis. Uma vez na Califórnia, o Templo do Povo cresceu até haver várias congregações, com sede em São Francisco. Para atrair os membros, Jones prometia curas milagrosas onde os cânceres seriam extirpados e os cegos voltariam a enxergar. Aos recém chegados, o ideal transmitido parecia verdadeiro e nobre. 

Para convencer ainda mais seu público, Jones oferecia previsões de eventos que ainda aconteceriam como se fosse um profeta iluminado por visões. Os membros do templo aceitavam que, de fato, ele era um indivíduo superior e ninguém tinha dúvida de seus dons. Ouvir os seus conselhos, compreender sua mensagem e fazer o que ele mandava eram as etapas para doutrinar os membros e torná-los totalmente dependentes de seu líder. 

Jim Jones durante uma de suas pregações na Califórnia

De sua parte, Jones também começou a agir de modo cada vez mais truculento, impondo punições para os que falhavam ou que não admitiam sua fraqueza. Isolamento, humilhação, fome e tortura psicológica eram ferramentas usadas diariamente. Cada aspecto da vida do seu rebanho era controlado até que a vontade própria desaparecesse de uma vez por todos. 
 
Em Jonestown esse método de controle atingiu seu extremo. A comunidade estava situada no meio de uma densa selva, com guardas armados ao longo das poucas estradas que levavam à civilização e todos vigiavam uns aos outros. Mesmo que alguém conseguisse sair do complexo, ele não tinha passaporte, documentos ou dinheiro que permitisse escapar. O lugar apesar de não ter muros, era uma prisão da qual ninguém escapava.
 
E quanto a Jim Jones em pessoa? Quem era o homem que construiu esse controle e como ele conseguiu ter êxito nos seus intentos?

Jim Jones nasceu em Indiana, em 1931, durante a Grande Depressão. Enquanto seus pais lutavam para sobreviver, Jones estava livre para explorar o mundo ao seu redor. Em tenra idade, ele encontrou uma congregação pentecostal conhecida como Tabernáculo do Evangelho, composta principalmente de pessoas sem dinheiro que se mudaram para o campo. A igreja e seus membros moravam à margem da comunidade e eram conhecidos como "fanáticos desesperados".

O carismático Reverendo Jim Jones com sua indumentária tradicional

No início da adolescência, Jones não queria mais saber das atividades normais dos outros meninos. Ele estava muito mais interessado no fervor emocional e religioso que encontrou no Tabernáculo do Evangelho. Lá aprendeu sobre cura espiritual e logo estava recebendo elogios por seus discursos. Em 1947, aos dezesseis anos, Jones pregava nas esquinas compartilhando a sabedoria e o conhecimento que acreditava possuir. Ele defendia a irmandade do homem, independentemente da posição social ou raça. Suas simpatias estavam com os pobres e oprimidos.
 
Durante seus anos de ensino médio, o jovem Jim Jones se interessou pela vida de homens poderosos e influentes, tendo um interesse especial em Adolf Hitler e Joseph Stalin. Quando conheceu sua futura esposa, Marceline, no final da adolescência, ele já havia desenvolvido um profundo conhecimento sobre questões sociais e eventos mundiais. Marceline era uma estudante de enfermagem no hospital onde Jones trabalhava meio período. Eles se casaram, mas os primeiros anos de seu casamento foram tempestuosos. Jones era inseguro e dominador ameaçando se matar várias vezes. As constantes explosões emocionais foram extremamente difíceis para Marceline, mas sua crença de que o casamento era um compromisso para toda a vida a fez resistir.
 
Ao longo desse período, Jones começou a questionar sua fé por conta de todo sofrimento que presenciava no mundo e que ele não era capaz de diminuir. Sua visão apenas se suavizou quando ele se juntou a uma Congregação Metodista que defendia o direito das minorias e trabalhava para acabar com a pobreza. Jim Jones era um dos mais dedicados à essa causa atraindo multidões que vinham de longe para ouvir suas palavras reconfortantes. Quando ele ganhou fama e seguidores suficientes, decidiu criar sua própria Igreja que chamou de "Templo do Povo". O estilo emocional de pregação e a mensagem de igualdade conquistaram muitos seguidores e a congregação cresceu.
 
Com a Guerra Fria no auge, Jones passou a acreditar que o comunismo poderia ser combatido com o comunalismo, uma doutrina de que as pessoas deveriam compartilhar o que tinham para gerar uma sociedade igualitária. Coincidentemente, foi nessa época que Jones teve a "visão" de um ataque nuclear que acabaria destruindo a civilização. Acreditando que os Estados Unidos estavam fadados a serem devastados, Jones começou a procurar um lugar "mais seguro" para sua congregação. Ele viajou para o Havaí e depois para o Brasil, onde ficou por dois anos, ensinando inglês para se sustentar em São Paulo. Foi durante sua viagem de volta do Brasil que ele visitou a Guiana pela primeira vez.

Propaganda do Templo do Povo 

O reverendo ainda retornou para a Califórnia onde ministrou por algum tempo, mas seus planos envolviam levar o Templo do Povo para a América do Sul. Em 1974 ele obteve permissão do governo da Guiana para construir a nova sede do Templo em um lote de 300 acres, a 200 quilômetros da Capital, Georgetown. O arrendamento foi batizado "Jonestown" e deveria ser o primeiro em uma série de cidades que receberiam milhares de pessoas. Jones fez propaganda de si mesmo como um tipo de Messias com poderes de cura em todo país, acreditando que isso iria atrair ainda mais pessoas, contudo, Jamestown tinha uma estrutura precária e quem se mudava para lá experimentava enormes dificuldades.  
 
Frustrado ele retornou aos EUA para angariar fundos que permitissem concretizar seu sonho de construir uma utopia no meio da selva. Grupos de pensadores engajados, políticos liberais e progressistas ofereceram a ele suporte, mas os recursos vieram realmente quando o Templo passou a absorver os bens de seus seguidores. Estes eram incentivados a transferir todos os seus bens para o nome de Jones. As doações permitiram que o Templo obtivesse empréstimos com bancos para melhorar a infraestrutura de Jonestown.

Aos poucos, a idílica cidade da selva, o paraíso terreno do comunalismo, saiu dos planos e surgiu no meio do nada. O terreno escolhido era isolado, ermo e perigoso: Coberto de uma densa vegetação, com charcos e pântanos infestados de mosquitos e serpentes. Apesar das dificuldades no início, o lugar começou a crescer com a construção de alojamentos, cozinhas comunais e depósitos. Jones contratou agricultores experientes que limparam o solo e deram início a um promissor projeto de agricultura que os tornaria autossuficientes. No projeto, Jonestown também receberia um hospital de referência e uma usina para gerar a própria luz.

Os pioneiros que se mudaram para Jonestown trabalhavam exaustivamente. Muitos deles não tinham experiência com a vida no campo e não estavam adaptados àquela nova realidade. Foi esse o momento que Jones escolheu para aterrorizar seus seguidores. Com uma campanha cada vez mais agressiva de convencimento, ele afirmava que deixar o povoado era dar as costas para o único lugar seguro do mundo. Lá fora ninguém estava seguro da guerra iminente que varreria a humanidade da face da terra, levando o mundo à beira da perdição. Apenas os que viviam em Jonestown conseguiriam sobreviver e eles seriam os primeiros a formar o novo "Povo Escolhido por Deus".

O Pastor gostava de ser fotografado com crianças de todas as raças

A mensagem de Jones, martelada constantemente nos seus sermões diários, afirmava que a vida na Guiana poderia ser dura, mas ela era a única opção para quem quisesse alcançar a salvação. Os que ainda duvidavam de seu discurso eram procurados por outros membros do Templo, por vezes ameaçados, ou até mesmo isolados em celas para que pudessem "refletir". Finalmente os que estavam convictos e queriam partir, o faziam de mãos vazias, por vezes, penavam para retornar aos seus países de origem, desistiam e retornavam. 

Contudo, alguns "dissidentes" retornaram para suas casas e reencontraram seus parentes, relatando a eles os horrores que testemunharam em Jonestown. Havia narrativas sobre humilhação, castigos físicos e prisões arbitrárias no lugar. Algumas pessoas eram submetidas a períodos de privações de sono ou de alimentos, recebendo ainda drogas psicotrópicas para alterar sua vontade e sofriam até tortura. Disseram ainda que havia homens armados que serviam ao Reverendo patrulhando os limites do povoado, com ordens para atirar em qualquer um que tentasse escapar. O boato de que os limites haviam recebido minas terrestres também se popularizou, bem como os rumores de que pessoas que tentaram escapar acabaram sendo mortas e enterradas nos charcos ao redor de Jonestown. Para um lugar divino, o povoado mais parecia o Inferno na Terra.

Os primeiros testemunhos sobre o que acontecia na Guiana foram vistos com grande ceticismo pela maioria. Não havia provas de quaisquer atividades criminosas até então ligadas ao Reverendo Jim Jones, e, de fato, ele era tido como um religioso preocupado com o próximo. Chamá-lo de assassino e genocida parecia um grande equívoco, um verdadeiro absurdo. Além disso, Jones contava com o apoio de políticos e pensadores dispostos a dar a ele o benefício da dúvida.

As coisas começaram a ficar ainda mais estranhas quando algumas pessoas que voltaram da Guiana afirmavam estar sendo perseguidas e atormentadas por membros do Templo do Povo. Muitos diziam estar sendo coagidos a manter o silêncio sobre o que acontecia em Jonestown. O caso mais grave envolveu o misterioso assassinato de um casal de dissidentes, encontrados mortos na garagem de sua casa poucos dias depois de participarem de um programa de rádio no qual relataram os excessos cometidos por Jones e seus seguidores. O caso chamou a atenção do público e alguns jornalistas procuraram dissidentes e ouviram seu lado da história. 

O Reverendo recebe a comissão que veio visitá-lo na Guiana

Além disso, pais, parentes e amigos de indivíduos que largaram tudo e se mudaram para a Guiana estavam preocupados com a segurança de seus entes queridos. A maioria deles havia simplesmente sumido depois de aderir à Igreja e não havia nenhuma notícia de seu paradeiro. Uma comissão de "Parentes Preocupados" se formou para pedir providências ao Governo americano. Foi assim que o Congressista Leo Ryan entrou na história, fazendo com que ele se tornasse um defensor dos direitos dos dissidentes e dos parentes apreensivos com a situação. 

Enquanto isso, em Jonestown as coisas estavam prestes a piorar. Os contatos de Jones nos EUA contavam a ele por rádio que o Templo do Povo estava sendo vítima de uma campanha difamatória que visava acabar com ele. A paranoia tomou conta do Pastor e ele passou a ameaçar todo aquele que cogitava deixar o povoado e retornar à civilização. Jonestown se converteu em uma prisão fortificada e mais guardas armados foram contratados para vigiar o campo. Segundo testemunhas ao menos uma dúzia de pessoas teriam sido mortas em tentativas de fuga e outras tantas feridas. Os sermões de Jones também se tornaram cada vez mais agressivos com a data para o fim da humanidade sendo mencionada com mais frequência.

O Reverendo Jones dizia que era questão de tempo para o Fim dos Dias. Foi nessa época que ele começou a ensaiar a derradeira medida para salvar seu povo: o Suicídio Coletivo! Em pelo menos três ocasiões, os membros do Culto simularam como seria realizado o procedimento caso eles se vissem ameaçados pelos seus "inimigos". O plano era se matar e assim convencer o mundo inteiro de sua pureza e da injustiça sofrida. Isso daria ensejo a uma Revolução transformadora, que Jones defendia, poderia mudar o planeta.

Quando Leo Ryan entrou em contato com membros do Templo do Povo em San Francisco pedindo por um encontro com Jim Jones, a notícia caiu como uma bomba na congregação. O "Inimigo" estava à caminho e eles talvez tivessem de levar à cabo a sua solução revolucionária. Jones tentou acalmar as pessoas, dizendo que ele tentaria convencer os forasteiros de suas boas intenções e que talvez tudo acabasse bem, contudo, ele deu ordens para que os seus seguranças estivessem preparados para qualquer ação necessária.

O Reverendo e sua "Obra"

A comissão liderada por Leo Ryan foi recebida amistosamente na Guiana, apesar de algumas providências que visavam ludibriá-lo. Algumas pessoas insatisfeitas foram removidas da vista, assim como uma limpeza foi realizada nas instalações que não estavam em bom funcionamento. Jones detestava a ideia de receber jornalistas, mas acabou aceitando a presença de repórteres americanos e de representantes das famílias preocupadas. A visita terminou com o pedido de várias pessoas interessadas em deixar Jonestown. As testemunhas estavam apavoradas e muitas delas queriam deixar a Guiana e voltar para casa. Ryan garantiu a eles o direito de partir e Jones concordou.

Jamais se soube ao certo se a ordem de eliminar o Congressista e sua comitiva partiu de Jim Jones ou se foi algo que os membros da congregação decidiram por conta própria. O fato é que o plano original envolvia matar a todos e simular um acidente aéreo. O plano obviamente falhou e embora muitos tenham sido feridos mortalmente (inclusive o Congressista Ryan), outros sobreviver ao atentado.

Com o círculo se fechando, Jones deu a tão temida ordem que ecoou no sistema de rádio para que todos pudessem ouvir. A população de "Jonestown" era conclamada a morrer em nome de seu ideal torto de revolução. Quando a notícia do atentado contra a comitiva chegasse aos EUA, o "inimigo" viria com armas trazendo morte e destruição. A única resposta era morrer em nome do ideal defendido por todos.

É claro, no momento final houve discussão e um acalorado debate. A morte voluntária jamais é algo fácil ou simples, mesmo entre fanáticos. No fim, a vontade da maioria e imposta pelo reverendo Jim Jones prevaleceu. Os que se pronunciaram contra, foram forçados a morrer, senão pelo veneno, pela ação de homens armados. O exame pericial definiu ainda que muitas vítimas haviam recebido picadas de agulha nas costas ou nos ombros, evidenciando que receberam o veneno contra sua vontade. O próprio Reverendo Jim Jones foi encontrado sentado numa cadeira de praia. Morreu baleado, mas não se conseguiu determinar se a morte foi causada pelas suas próprias mãos ou por um segurança fiel. 

Soldados americanos preparam o resgate dos corpos de Jonestown

No fim, o povoado foi ficando cada vez mais silencioso, à medida que aqueles que tomaram cianeto, se esparramavam no chão do refeitório e alojamentos, vítimas de convulsões incontroláveis. Quando chegaram no dia seguinte ao local da tragédia, as autoridades da Guiana ficaram sem palavras diante do massacre encontrado. 918 pessoas morreram neste que se tornou o maior suicídio em massa da história moderna. 

As vítimas se deixaram levar por um furor messiânico em uma demonstração clara dos perigos que representam os cultos apocalípticos.

quinta-feira, 5 de maio de 2022

Morte em Jonestown - O Horror do Templo do Povo de Jim Jones


Os primeiros relatos vindos da Guiana em 18 de novembro de 1978 davam conta de que o congressista Leo J. Ryan e quatro outros membros de seu grupo haviam sido baleados e mortos quando tentavam embarcar em um avião na pista de pouso de Port Kaituma. Em poucas horas, veio a confirmação chocante de que 408 cidadãos americanos cometeram suicídio em uma vila comunal que eles construíram no noroeste da Guiana. A comunidade que passou a ser conhecida como "Jonestown" era o centro de um Culto estabelecido em plena selva. Os mortos, todos membros desse culto conhecido como "Templo do Povo", tinham como líder o reverendo Jim Jones. Logo se saberia que 913 das 1.100 pessoas que se acreditava estarem em "Jonestown" na época morreram em um suicídio em massa.

A Tragédia de Jonestown entrou para a história como um dos piores casos de suicídio em massa motivado por fanatismo de todos os tempos. 

De acordo com o relatório oficial apresentado à Câmara dos Representantes dos EUA em 15 de maio de 1979, a cadeia de eventos que levou à morte de Leo Ryan na Guiana começou um ano antes, depois que ele leu um artigo no San Francisco Examiner em 13 de novembro de 1977. O artigo intitulado "Aterrorizado por Tempo Demais" relatava a morte do filho de Sam Houston, Bob, em outubro de 1976. Houston decidiu falar sobre a morte de seu filho porque acreditava que a razão dele ter morrido, sob as rodas de um trem, era porque ele havia decidido deixar o Templo do Povo no dia anterior. Houston também estava preocupado que suas duas netas, enviadas a Nova York para passar férias, tivessem sido enviadas para Jonestown, Guiana, e que de lá nunca mais retornariam. Houston deixava clara sua desconfiança quanto ao Culto religioso que seu filho passou a fazer parte, mas acima de tudo, havia medo em suas palavras. Medo de que o Culto havia causado, se não direta, indiretamente, a morte de Robert e que ainda pudesse trazer mais tragédia à sua família. 
 
Impressionado pelo relato, o Congressista Ryan, nos seis a oito meses seguintes, investigou mais sobre o Templo do Povo. Ele pesquisou artigos de jornal e ouviu apelos diretos de assistência feitos pelas famílias preocupadas cujos parentes haviam desaparecido na selva da Guiana para se juntar à comunidade Jonestown. Houve denúncias de irregularidades na previdência social, violações de direitos humanos e de pessoas sendo detidas contra sua vontade no complexo construído pelo culto. Em junho de 1978, Ryan leu trechos da declaração juramentada de Debbie Blakey, uma desertora de Jonestown, que incluía acusações de que a comunidade havia, em várias ocasiões, ensaiado realizar um suicídio em massa. 


Depois de se encontrar com vários parentes preocupados, o interesse de Ryan no Templo do Povo tornou-se ainda maior. Os relatórios colhidos sobre o grupo, favoráveis ​​e desfavoráveis, se transformaram em um dossiê completo sobre suas atividades. Ele contratou um advogado para entrevistar ex-membros do Templo do Povo e os parentes dos membros ainda ativos para determinar se estavam ocorrendo violações das leis federais e estaduais da Califórnia.
 
Em setembro de 1978, Ryan se encontrou com Viron P. Vaky e outros funcionários do Departamento de Estado para discutir a possibilidade de fazer uma viagem até a Guiana. Este pedido foi oficializado em 4 de outubro. A permissão foi concedida e a viagem planejada para a semana de 12 a 18 de novembro. A intenção de Ryan em visitar Jonestown logo ganhou ampla divulgação e o número de pessoas que desejavam acompanhá-lo cresceu substancialmente. No momento de sua partida, havia nove pessoas extras, sobretudo jornalistas e outros 18 membros de uma delegação que incluía parentes de pessoas que viviam no lugar. Estes iriam acompanhá-los às suas próprias custas. A equipe do Congressista contava com seu assessor James Schollaert e Jackie Speier, sua assistente pessoal.
 
Nos dias que antecederam a viagem a Jonestown, Ryan contatou Jim Jones por telégrafo para informá-lo de sua intenção de visitar o assentamento. Por meio da Embaixada dos EUA na Guiana, ele soube que o acordo para a visita seria condicional. Ryan teria que garantir que a visita não seria tendenciosa, não haveria cobertura da mídia e Mark Lane, o consultor jurídico do Templo do Povo, teria que acompanhá-los. Em 6 de novembro, Lane escreveu para Ryan informando que ele não poderia comparecer no horário que eles queriam, e acusou a comissão de praticar o que ele chamou de perseguição contra o Templo do Povo. Ryan respondeu com uma declaração de suas intenções de visitar o assentamento de qualquer maneira e que partiria em 14 de novembro.


Os problemas começaram assim que o grupo chegou à Guiana por volta de meia-noite. Um repórter foi detido durante a noite no aeroporto, por não ter visto de entrada. O comitê de Parentes Preocupados, apesar de ter reservas confirmadas no hotel, teve que passar a noite no saguão, pois não haviam quartos disponíveis para eles. Nos dois dias seguintes, Ryan se encontrou com o pessoal da Embaixada e organizou uma reunião com o Embaixador Burke e os Parentes Preocupados. Ele e os membros das famílias tentaram falar com um representante do Templo do Povo em sua sede em Georgetown, mas não foram recebidos. Além disso, Ryan não conseguiu negociar com sucesso as condições para visitar Jonestown. Tudo isso resultou em novos adiamentos. Parecia claro que o Templo tentava atrapalhar de todas as maneiras possíveis a visita e ganhar tempo.
 
As negociações ainda não haviam avançado na manhã de sexta-feira, então Ryan informou a Lane que ele e seu grupo partiriam para Jonestown às 14h30 com ou sem permissão. Era necessário viajar por algumas horas de avião até chegar a Port Kaituna onde ficava o assentamento do Culto. O avião decolou como programado às 14h30 daquele dia. A bordo estavam o Congressista Ryan, sua assistente Speier, vice-líder da missão, todos os nove representantes da mídia, quatro representantes do grupo de Parentes Preocupados e um membro do governo da Guiana.
 
Na pista de pouso de Port Kaituma, o cabo Rudder, oficial regional da Guiana do distrito Noroeste, recebeu a comitiva e comunicou que apenas alguns poderiam descer do avião. Negociações sobre quem teria permissão para entrar em Jonestown seguiram entre Ryan e representantes que estavam no aeroporto. Eventualmente, foi acordado que todos, exceto um representante da mídia, poderiam ir. Gordon Lindsay, consultor da Rede NBC, teve sua entrada negada por causa de um artigo que havia escrito anteriormente criticando o Templo do Povo.


Após sua chegada à Jonestown, foi servido um jantar à delegação que recebeu entretenimento na forma de uma apresentação musical feita por membros do Templo do Povo. À medida que a noite avançava, os repórteres entrevistaram Jim Jones que os recebera cheia de sorrisos e amabilidades. Jones permitiu que eles andassem pelo assentamento, conhecessem o projeto de agricultura e plantação, os dormitórios, hospital e demais instalações. Ryan e Speier conversavam com membros do culto cujos nomes haviam sido dados pelas famílias. Ouviram de alguns deles em particular que desejavam partir e que havia algo sinistro acontecendo no assentamento. Outro membro passou uma mensagem em segredo na qual dizia que queria fugir, mas que estava com muito medo. Todos os pedidos foram relatados a Ryan que disse ter autoridade para levar aqueles que desejavam deixar o campo em segurança.

Às 23h, os representantes da mídia e da família foram devolvidos a Port Kaituma, pois Jim Jones se recusou a permitir que eles passassem a noite no complexo. Um pequeno grupo que incluía Leo Ryan, e Speier, no entanto, receberam autorização para passar a noite de sexta-feira, 17 de novembro, em Jonestown em acomodações especialmente preparadas para eles.

O restante da comitiva não foi liberada para voltar a Jamestown até as 11h do dia seguinte. Enquanto isso, Ryan continuou entrevistando os membros, período em que mais pessoas falaram sobre seu desejo de deixar o acampamento. Às 15h, havia um total de 15 membros do Templo do Povo pedindo para acompanhar a delegação até o aeroporto de Port Kaituma e desertar. 

A princípio, Ryan pretendia ficar em Jonestown, mas ele mudou de ideia depois de ser ameaçado por um membro do Templo do Povo chamado Don Sly, que o acusava de tentar acabar com o Culto. Sly, chegou a ameaçar o congressista com uma faca. Ryan não se machucou no incidente, mas Speir insistiu que ele deixasse o lugar pois temia um novo atentado. O plano era retornar a Jonestown no dia seguinte para continuar as entrevistas e pedir a Jim Jones que se pronunciasse, dizendo que quaisquer pessoas que desejassem partir, poderiam fazê-lo sem constrangimentos.


De volta a Georgetown, os guianenses locais, contaram histórias de supostos espancamentos ocorridos em Jonestown. Falavam ainda que as pessoas passavam fome, eram ameaçadas e passavam por constrangimento psicológico. Um policial contou que as autoridades locais eram impedidas de entrar no complexo e que chegaram a ser ameaçadas por seguranças armados que trabalhavam para o Templo do Povo. Eles também descreveram um lugar onde membros insatisfeitos eram colocados em celas semelhantes a solitárias. Nesse lugar as vítimas eram submetidas a privação de sono, fome e até mesmo, tortura física.

A essa altura, Ryan já tinha informações suficientes para montar um caso contra o Templo do Povo e seu líder, Jim Jones. Ele tinha certeza de que pessoas estavam sendo mantidas prisioneiras, impedidas de ir embora, que sofriam coação e que alguns até podiam estar sendo torturados. Ele comunicou que pretendia retornar aos Estados Unidos, mas que antes faria uma última visita à Jonestown para falar com o Reverendo e pedir que ele liberasse outros membros que desejassem partir com eles. 

Ryan foi recebido em Jonestown e participou de uma reunião que contou com a presença de outros chefes da seita. Tudo transcorreu de forma muito cordial e não parecia haver motivo para temor já que Jones garantiu pessoalmente a segurança de todos. A comitiva se despediu do Reverendo e seguiu para o aeroporto de Port Kaituma por volta das 16h30, onde aguardou os preparativos de dois aviões que só chegaram por volta das 17h10. O atraso foi causado pelo pedido inesperado à Embaixada dos Estados Unidos de um segundo avião para transportar quinze passageiros extras que os acompanhariam. 


Quando todos embarcaram e um dos aviões começou a taxiar, um dos desertores à bordo, Larry Layton, sacou uma arma e abriu fogo contra os demais passageiros. Ao mesmo tempo, quando o grupo de Ryan estava embarcando no outro avião, membros do Templo do Povo, que os haviam acompanhado até a pista do aeroporto, abriram fogo. Os tiros atravessaram a fuselagem do avião ferindo seus ocupantes.  Ryan, três membros da mídia e um dos desertores foram mortos na hora. Speier e outros cinco ficaram gravemente feridos. O tiroteio durou entre 4 e 5 minutos e mais de uma centena de disparos foram realizados deixando o avião muito danificado e impedido de decolar em segurança. 

No outro avião, o atirador foi detido pelos passageiros e o piloto conseguiu fugir apesar da confusão à bordo. Ele relatou a notícia do ataque pelo rádio aos controladores na torre de Georgetown que por sua vez, notificaram as autoridades policiais. Os agressores deixaram o aeroporto logo depois, enquanto os sobreviventes do ataque, alguns seriamente feridos, buscavam se esconder.
 
Enquanto isso, em Jonestown a situação não era muito melhor. 

De acordo com o relatório oficial, o suicídio em massa começou por volta das 17h, quando o tiroteio estava acontecendo no aeroporto. Por volta das 18h, o embaixador Burke já havia sido informado do tiroteio e pediu providências imediatas. Um contingente de forças de resgate do Exército da Guiana chegou a Port Kaituma no começo da madrugada e prestou apoio às vítimas baleadas pelo atentado na pista de decolagem. Os feridos e a maioria dos sobreviventes foram transportados de avião de Port Kaituma para Georgetown onde foram transferidos para aeronaves de evacuação médica da Força Aérea dos EUA.


As primeiras notícia sobre algo sinistro acontecendo em Jonestown só foram trazidas pela manhã, através de dois membros da seita, Stanley Clayton e Odell Rhodes que conseguiram fugir do assentamento e cruzar a selva até o aeroporto. Eles contaram que a situação havia saído do controle e que algumas pessoas cogitavam se suicidar. Mais soldados chegaram no começo da manhã e com um efetivo fortemente armado, eles seguiram para Jonestown preparados para realizar prisões e deter o Reverendo. Ao chegarem ao acampamento do Templo do Povo, tudo estava horrivelmente quieto. Ao descer dos veículos, se depararam com um cenário muito pior do que poderiam imaginar. Havia ocorrido um suicídio em massa e a maioria dos membros da congregação estavam mortos. 
 
A cronologia exata do que havia acontecido só foi confirmado posteriormente na investigação conduzida pela polícia local e através do testemunho de alguns sobreviventes. 

Pouco depois da delegação de Ryan deixar Jonestown, Jim Jones reuniu a comunidade para fazer um pronunciamento. Usando microfone, diante da congregação, ele explicou, como se fosse uma premonição e não uma presciência, que alguém no avião iria matar o Congressista Ryan. O avião seria derrubado e todos morreriam. Segundo Jones, as consequências desta ação fariam com que forças políticas que há anos tentavam destruir o Templo do Povo atacassem as pessoas em Jonestown. O "inimigo" desceria sobre eles e os mataria sem piedade. 

Esta não era exatamente uma novidade para os habitantes de Jonestown que viviam com medo de um inimigo sem nome por muitos anos. Os sermões de Jones frequentemente incluíam esse inimigo tão temido e sua ação temerária. Era questão de tempo até o Apocalipse recair sobre Jonestown e sua gente. Questão de tempo até homens, mulheres e crianças serem massacradas com requintes de crueldade. 


Jones já os havia preparado para esse cenário. O Reverendo havia planejado uma medida drástica que os pouparia de todo o sofrimento nas mãos de seus algozes. Seria uma demonstração de superioridade e comprometimento, algo que ele chamava de "atitude revolucionária" mencionado em outras ocasiões. A "atitude" em questão era um suicídio coletivo a ser cometido por todos. A congregação chegara a fazer uma série de treinos preparatórios para um evento como esse.

Uma gravação em áudio revela que houve pouca discordância sobre a decisão de morrer daquela maneira. Uma ou duas mulheres que achavam que as crianças deveriam ser poupadas protestaram, mas logo foram convencidas de que a morte indigna nas mãos do inimigo viria para todos, inclusive os pequeninos que não seriam poupados. 

Veneno foi misturado a suco e bandejas com copos descartáveis levados ao salão comunal, colocados sobre a mesa de jantar para que todos tivessem acesso. "É melhor morrer agora em paz do que viver sem mim", disse Jones no discurso final. Os bebês e crianças pequenas, mais de duzentas delas, foram as primeiros a receber a mistura letal. Esta foi derramada em suas bocas com seringas administradas pelas mãos de suas próprias mães. Enquanto os pais observavam seus filhos gritarem e sofreram convulsões, eles também engoliam a poção fatal. Alguns choravam, outros discursavam e tentavam consolar os demais dizendo que aquilo era necessário. Os momentos que antecederam a decisão final de morrer trouxeram alguma resistência e discussão acalorada. Guardas armados que cercavam a sala então entraram em ação e atiraram em vários indivíduos dissidentes. Depois os guardas beberam o suco ou dispararam contra as próprias cabeças em um festival bizarro de morte.

Das cerca de 1.100 pessoas que se acredita estavam presentes em Jonestown naquele dia, 913 morreram, incluindo Jim Jones. Não é certo se Jones atirou em si mesmo ou foi baleado por uma pessoa desconhecida, o fato é que seu corpo foi recuperado entre os cadáveres espalhados pelo local. O líder da utópica cidade de Jonestown, o homem santo que deveria mostrar ao restante do mundo que era possível viver em paz e fraternidade, estava morto da mesma maneira que os membros de sua Seita. 


A polícia começou a fazer a remoção dos corpos e nos dias seguintes vários aviões decolaram lotados, carregando os cadáveres para a Georgetown. Não havia médicos suficientes para realizar as autópsias ou instalações adequadas para preservar os corpos que se amontoavam. Foi decidido que a maioria deles seriam enterrados lá mesmo ao invés de serem transportados de volta para seus países de origem. O mundo chocado assistia as imagens feitas pelos militares guianenses do horror deflagrado pelo Culto de Morte. 

A questão mais intrigante, que surgiu após a tragédia em "Jonestown", é como um homem poderia alcançar tanto controle sobre um grupo de pessoas a ponto de convencê-las a morrer voluntariamente sob seu comando. Seria fácil supor que o incidente fosse uma situação única que só havia ocorrido por conta da personalidade dinâmica e carismática de Jim Jones, combinada com a fraqueza e vulnerabilidade de suas vítimas. Tal análise pode trazer alguma paz de espírito e a sensação de que tal coisa nunca viria a acontecer novamente, mas isso está longe de ser verdade. Ou mesmo de fornecer uma verdadeira compreensão do que aconteceu.  

Para entender "Jonestown" adequadamente, é necessário explorar o que levou a essa tragédia e compreender os fatores psicológicos que permitiram esse horror. Foram processos comuns a todos os grupos sociais, que deram ensejo à tragédia, mas em circunstâncias extremas, com resultados igualmente extremos.

Para quem quiser ter uma noção do que é verdadeiro Horror Fanático, essa é a transcrição (em inglês) da fita que registrou o discurso de Jim Jones e a conversa que ele teve com sua congregação tentando convencê-los a se matar. Há trechos aterrorizantes e muito pesados nessa gravação, onde os gritos de pessoas sofrendo com o veneno, podem ser ouvidos no fundo, portanto aconselha-se critério ao escutar esse áudio perturbador.