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sábado, 19 de julho de 2025

Dicionário do Mythos de Cthulhu - Letra F de "Família Ferenczy"

 Família Ferenczy

Radicados na porção central da Transilvânia, na atual Romênia, a Família Ferenczy possui uma longa e infame tradição como feiticeiros, adoradores do demônio e cultistas de forças nefastas. A linhagem pode ser traçada até o século XI, tendo como ancestral mais antigo conhecido o Barão Radu Ferenczy, um nobre de estirpe germano-eslava que se fixou na isolada região de Halmagiu. Radu teria usurpado o título da família nobre que exercia domínio sobre essas terras, depois de servi-los por décadas. 

Os detalhes são incertos, mas supostamente foi um herdeiro de Radu, Faethor Ferenczy quem deu início a construção de uma Fortaleza que se tornou um bastião defensivo para o Vale de Nygori e os Cárpatos Meridionais. Os rumores dão conta de que Faethor foi o primeiro dos Ferenczy a se envolver com feitiçaria após desposar Drunila Vasilescu, sua prima e uma conhecida bruxa servil aos Mythos. Ela iniciou Faethor em tradições ancestrais e o persuadiu a venerar o Grande Antigo Nyogtha em troca de poder e influência.

Segundo cronistas do período, Drunila convenceu seu esposo a instituir uma espécie de loteria na qual os nomes de jovens camponesas que viviam nas aldeias próximas eram sorteados. Aquelas escolhidas pelo acaso eram levadas para servir na Fortaleza Halmagiu. Essas moças não eram mais vistas. As jovens eram sacrificadas em um altar subterrâneo na Masmorra da Fortaleza. Quando determinado número de sacrifícios foi atingido, Nyogtha consagrou o local como um Templo onde os mais pérfidos rituais de magia negra foram realizados.

Eventualmente uma revolta de camponeses destruiu parcialmente a Fortaleza e extinguiu por algumas décadas a cabala nefasta que a controlava.

Um novo Barão Ferenczy reclamou seu título em 1476, tornando-se o regente de Halmagiu e súdito de Stevan I da Hungria. Desta linhagem destaca-se Janos Ferenczy outro membro do ramo decaído subserviente aos Mythos de Cthulhu. Janos, considerado um vampiro e licantropo, ficou famoso pela crueldade e por enfrentar os turcos otomanos que invadiram a Romênia. Os prisioneiros eram sacrificados no mesmo altar profano erguido pelos seus antepassados na masmorra.

Os Turcos acabaram sitiando o castelo, Janos foi capturado e executado depois de ser tratado como feiticeiro. Na ocasião as centenas de ossadas encontradas nas câmaras do templo se tornaram prova incontestável do horror que lá se passava. A história de Janos Ferenczy persistiu até os dias atuais como uma lenda muito disseminada na região.

Séculos depois, outro homem assumiu o Castelo, alegando ser um descendente direto da linha sucessória dos Ferenczy. Ele iniciou uma nova linhagem de Barões que se manteve por aproximadamente duzentos anos e se tornou tão infame quanto as demais. Foi um destes nobres, supostamente Costandinus Ferenczy quem engajou extensa correspondência com o bruxo Joseph Curwen de Pawtuxet no século XVII. Supostamente ele também era membro dos Cavaleiros de Yog-Sothoth, uma fraternidade internacional de feiticeiros. Constandinus esteve envolvido na troca de restos humanos reduzidos a condição de sais essenciais e que podiam ser revividos através de ritos profanos, uma das atividades mais infames desse seleto grupo.

O último Barão Ferenczy foi convocado pelo governo romeno em 1947 para prestar contas à respeito de uma explosão que devastou a Fortaleza Halmagiu. Oficialmente a explosão foi causada por um acidente num depósito de munições utilizado na Segunda Guerra Mundial. Nos círculos de feitiçaria ativos no país alguns sugeriram que a explosão foi deflagrada por uma tentativa mau sucedida de invocar Yog Sothoth. O derradeiro nobre a carregar o nome Ferenczy cometeu suicídio numa prisão estatal no mesmo ano de sua prisão.

Acredita-se que ainda existam descendentes da linhagem original espalhados pelo Leste Europeu, alguns deles, do ramo não decaído, migraram para a Grã-Bretanha e Canadá em meados do século XX. 

Uma ilustração da Dolma de Nobres (Assembléia) com um Ferenczy no poder 

Um quadro do temido Barão guerreiro Janos Ferenczy

Um afresco nas paredes da Masmorra da Fortaleza de Halmagiu

A Fortaleza de Halmagiu em 1934

terça-feira, 3 de agosto de 2021

Explorando os Mythos mais obscuros - Rhan-Tegoth, o Terror dos Hominídeos


Muitos Horrores ancestrais se originaram no mítico Yuggoth, a nona esfera girando nos recônditos mais distantes do Sistema Solar. Foi lá que nasceram entidades indizíveis e abominações cósmicas sobre as quais é melhor sequer falar. É lá que os terríveis Mi-Go, montaram sua base avançada e de onde lançaram seus planos de conquista. Não por acaso, quando se estabeleceram nessa esfera de céus plúmbicos e superfície gélida, tomaram para si o nome Fungos de Yuggoth

O "três vezes maldito Yuggoth" é citado por sábios e teóricos dos Mythos pela sua importância cósmica, Abdul Al-Hazred fala a respeito dele em seu nefasto Necronomicon, referindo-se à esfera como Útero fecundo de mil horrores, nascidos e ainda por nascer. Segundo algumas teorias, as Sementes de Azathoth, lançadas do Centro do Universo, berço da criação, onde habita o Sultão Demoníaco, encontraram seu caminho até Yuggoth, e lá acharam terreno fértil para brotar nas mais repulsivas formas.

Uma destas formas é a do hediondo Rhan-Tegoth, um dos legítimos filhos blasfemos de Yuggoth.

Três milhões de anos parece ser muito para nossa limitada existência, mas para os Grandes Antigos, não é mais do que um piscar de olhos. Pois, os Antigos são eternos e o tempo, para eles, nada significa. Foi há três milhões de anos que Rhan-Tegoth, partiu de seu lar, em Yuggoth com destino à Terra primitiva. Não se sabe a razão pela qual ele empreendeu esse êxodo cósmico, mas é óbvio que tal coisa não deve ser creditada ao acaso.


Ao chegar em "nosso" planeta no Plioceno, Rhan-Tegoth se estabeleceu no Ártico, no território gélido que hoje corresponde ao Alasca. Ele se precipitou da abóboda celeste, em uma bola flamejante que rasgou os céus e se chocou com a superfície fazendo o solo tremer, criando uma cratera profunda. Este se tornou o covil do Deus, enquanto ele se recuperava das agruras de sua transposição. Por muito tempo, ele hibernou nos recessos essa grota escura, enquanto imóvel e silencioso foi tomando conhecimento dos seus arredores e das formas de vida aborígenes. Expandindo sua consciência, ele contatou os primitivos hominídeos que viviam nos arredores de sua toca e os atraiu com visões. Estes foram responsáveis por conceder a Rhan-Tegoth o alimento necessário para seu sustento. Sua força e vigor carecia de sangue e ele encontrou suficiente entre estas formas de vida simplórias.

Com o passar dos milênios, essa raça de hominídeos progrediu, dando origem a parentes distantes do homem que ocupavam degraus da cadeia evolutiva. Com maior capacidade intelectual, estes hominídeos fundaram o primeiro culto rudimentar de Rhan-Tegoth, devotando a ele total e irrestrita adoração. Esse povo viajava grandes distâncias até a cratera sagrada, onde deitava sacrifícios de animais e de membros das suas próprias tribos em honra do Deus que satisfeito, estendia seus tentáculos ávidos, para agarrar e arrastar o alimento tão necessário para sua nutrição.

Em contrapartida, a deidade lhes oferecia portentos de magia e profecias que lhes permitiram comungar em primeira mão com o saber profano do Mythos. Isso também permitiu que essa raça de ancestrais dos Inuit tivessem o primeiro contato com os ferozes Gnoph-Keh, os grandes predadores da tundra gelada. Os Gnoph-Keh também rendiam homenagem a Rhan-Tegoth e o tinham como um de seus deuses, ainda que venerassem primordialmente Itaqua, o Andarilho dos Ventos. Da interação entre proto-humanos e esses seres, podem ter surgido as bases para o sistema religioso xamanista dos povos do norte. Com certeza, muitos totens ancestrais erigidos pelos Inuit se dedicavam tanto aos Gnoph-Keh, quanto ao próprio Rhan-Tegoth.


O culto se espalhou pelo hemisfério norte da Terra, encontrando adeptos entre os membros de tribos isoladas no norte do Canadá, na Groenlândia e até mesmo tão longe quanto a Sibéria, além de é claro, manter-se no Alasca. Contudo, em algum momento, a adoração ao Grande Antigo começou a arrefecer e o culto entrou em franca decadência. É possível que a ruína tenha ocorrido após uma disputa com Itaqua que foi se tornando a divindade preponderante nessa região. Também se cogita a possibilidade de que os Gnoph-Keh tenham ganhado mais e mais importância, passando a ser vistos como semi-deuses pelas tribos Inuit mais isoladas. Enquanto isso, na Groenlândia, Tsathoggua também ganhava seguidores, sobretudo entre os povos que haviam tido contato com os degenerados voormis. Seja por qual motivo tenha ocorrido esse declínio, ele foi progressivo e em pouco tempo, as peregrinações de fiéis até o covil foram minguando. Sem a sua fonte de sustento principal - os sacrifícios, o Deus se viu forçado novamente a hibernar para suportar a carestia que lhe foi imposta.

Rhan-Tegoth foi quase que totalmente esquecido: a entrada de sua caverna sagrada ruiu ou foi deliberadamente ocultada por Xamãs Inuit. A maioria das tribos passou a considerar a criatura como um Demônio a ser temido. Os poucos que conheciam a lenda de Rhan-Tegoth e que ainda rendiam a ele homenagens eram tratados como hereges insanos. De fato, estes foram os primeiros Angakkuq, os feiticeiros proscritos e banidos, por ainda praticar rituais para o deus de seus ancestrais, principalmente quando a Aurora Boreal estava em seu ápice. Não há como saber se nesse período o Deus estava ciente de seus poucos cultistas remanescentes, mas é provável que eles continuassem a receber profecias e visões.

Em 1926, George Rogers um ocultista britânico e pesquisador dos Mythos de Cthulhu, após estudar antigos tomos de conhecimento esotérico, entre os quais o Necronomicon, os Manuscritos Pnakóticos e o Unausprachlichen Kulten, tomou conhecimento da lenda de Rhan-Tegoth. Depois de consultar  astrólogos e oráculos da misteriosa raça Tcho-Tcho, e possivelmente ter usado um método especial de meditação, conseguiu captar emanações mentais do próprio Rhan-Tegoth. Ele conseguiu traçar a localização aproximada da caverna em que o deus permanecia hibernando. Rogers usou seus recursos para organizar uma expedição até o local, seguindo o curso do Rio Noatak a partir de Fort Morton. Lá, sonhos e presságios o conduziram até a localização exata. Apesar do protesto de seus guias ele conseguiu acessar a caverna e em suas profundezas descobriu o deus em estado de torpor, sentado em um imenso trono de marfim.


Rogers conseguiu levar a criatura fossilizada para Londres à bordo de um cargueiro e o manteve nos subterrâneos de seu modesto museu de cera em Sheffield. As poucas pessoas que o viram acreditaram se tratar de uma grotesca estátua. Rogers proclamou a si próprio Alto Sacerdote de Rhan-Tegoth (o primeiro em milênios) e o serviu oferecendo pequenos sacrifícios que gradualmente ajudaram a romper seu estado de torpor. O ocultista pretendia usar o deus dormente para seus próprios intentos, mas seus planos foram frustrados pelo breve despertar da entidade que o consumiu.

Aparentemente esses sacrifícios não foram suficientes para devolver Rhan-Tegoth à vida. Pouco tempo depois, ele ressurgiu no Museu Real de Ontario, no Canadá, vendido como uma estátua pertencente ao Povo das Aleutas. Um ambicioso estudioso, Ph.D em história e mitologia Inuit declarou que a estátua era uma fraude e ela terminou guardada em um depósito por décadas até desaparecer. O paradeiro atual de Rhan-Tegoth é desconhecido, mas alguns acreditam que a criatura possa ter sido capturada por indivíduos que cientes de sua natureza, usaram algum método arcano para reanimá-la.

Descrever Rhan-Tegoth recorrendo a um vocabulário comum é tarefa quase impossível, pois nada nem remotamente semelhante existe na natureza, nem mesmo no reino da imaginação humana. Ele parece algo remotamente ligado aos vertebrados de nosso planeta, embora sua origem contrarie qualquer conceito terrestre. A criatura tem dimensões colossais, mas seu tamanho pode variar, dependendo de quando ele se alimentou pela última vez. Em sua plenitude, esse Grande Antigo pode atingir mais de 10 metros de altura, com uma massa de várias toneladas. Contudo, quando sujeito a privações, Rhan-Tegoth encolhe até metade de seu tamanho normal, parecendo uma massa pálida, ressequida e esquálida fundida ao trono no qual jaz acocorada.


A criatura possui um torso mais ou menos globular e bojudo de onde brotam seis membros sinuosos terminando em garras negras similares às de grandes caranguejos dos mares profundos. Estas abrem e fecham produzindo um ruído de estalido enervante. Na porção superior se projeta um segundo bojo carnudo que se funde a uma cabeça grande e medonha cujas laterais apresentam estruturas semelhantes a guelras. A pele tem uma coloração cinza-azulada e uma aparência rugosa de borracha. A cabeça chama atenção pela sua natureza incrivelmente alienígena, marcada por uma estrutura de três olhos rosados e vítreos. Uma probóscide musculosa surge do centro dessa face, como a tromba de um elefante. Esse órgão tem função táctil e se move de um lado para o outro, sondando o ambiente, possivelmente captando odores ou lendo assinaturas de calor. A criatura não possui uma cavidade bucal, no lugar desta, tem uma densa "barba" que um exame mais criterioso revela se tratar de centenas de tentáculos delgados ou aparelhos de sucção. Cada um destes tem o diâmetro de uma corda e possui na extremidade uma boca afunilada dotada de filamentos espinhosos. Para se alimentar, a criatura usa esses tentáculos que agarram e esfregam sua superfície áspera contra a vítima provocando sangramento. O sangue uma vez detectado é sugado rapidamente pelos tentáculos que agem como um sifão drenando rapidamente sua presa. Em poucos segundos, um homem adulto pode ser totalmente "esvaziado" de sangue e fluidos, o corpo transformado num saco murcho de pele e ossos. 

Rhan-Tegoth está sempre em busca de sustento e quando identifica uma vítima em potencial ataca com o intuito de se alimentar dela. Em sua ânsia por comida, ele não se importa de devorar aliados, cultistas ou qualquer um que estiver ao alcance de seus tentáculos vorazes. Por esse motivo, aqueles que lidam com a entidade costumam se aproximar dela apenas depois de lhe oferecer uma quantidade considerável de sacrifícios.


Esse Horror Ancestral raramente se move, ainda que possa fazê-lo se necessário, ele prefere se manter inerte a maior parte do tempo. Ele possui um tipo de trono colossal de marfim, esculpido provavelmente no passado remoto por cultistas que o ofereceram como presente. A criatura passa a maior parte do tempo sentada nesse enorme trono, com a tromba e os os tentáculos serpenteando de um lado para o outro. Eles parecem lentos, mas quando se projetam para o ataque, o fazem com a rapidez de uma áspide dando bote. É possível que os movimentos ritmados desses tentáculos provoquem um tipo de efeito hipnótico nas vítimas que se sentem incapazes de reagir a eles.  

Rhan-Tegoth se vale de projeções mentais e estabelece comunicação com seres humanos através de telepatia. Esta, no entanto, não é nada sútil. Aqueles que sofrem essa intrusão psíquica reportam uma sensação indescritível de repulsa à medida que suas mentes são inundadas de visões incompreensíveis de mundos e horrores inenarráveis. Ainda que absolutamente inumana, a mente da criatura parece ser especialmente maligna, cobiçosa e perversa.

Uma teoria controversa afirma que se Rhan-Tegoth for destruído os Grandes Antigos jamais poderão despertar. A destruição de uma entidade poderosa como Rhan-Tegoth, entretanto, parece estar muito além das habilidades da raça humana.

*     *     *

O obscuro Grande Antigo Rhan-Tegoth fez sua primeira e única aparição no conto "O Horror no Museu" (The Horror in the Museum), escrito por H. P. Lovecraft trabalhando como Ghost-Writer para Hazel Heald em outubro de 1932. O conto foi publicado no ano seguinte com créditos apenas para Heald. 

Ela é uma das cinco histórias que Lovecraft revisou para Heald ao longo de sua carreira. A história foi reimpressa em várias coleções, como "The Horror in the Museum e Other Revisions".

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Crias Estelares - Anatomia dos Xothianos o povo de Cthulhu


Quando a pavorosa entidade conhecida como Grande Cthulhu cruzou incríveis distâncias e chegou à Terra, ele veio acompanhado de quatro dos seus filhos mais importantes (Cthylla, Ghatanathoa, Ythogtha e Zoth-Ommog) e por uma horda de criaturas conhecidas como Crias Estelares (Star Spawns).

As Crias Estelares são súditos fiéis do Grande Cthulhu, devotados de corpo e alma a servir e proteger seu mestre. Muito se discute a respeito da natureza destes seres titânicos, qual sua relação com Cthulhu e por qual razão eles o acompanharam em sua migração cósmica. Acredita-se que eles possam ser os habitantes originais do sistema binário de Xoth, visto que são conhecidos comumente como Xothianos (pronuncia-se Zofianos), enquanto Cthulhu seria seu Deus máximo ou então Sumo-Sacerdote. Em outra suposição, eles seriam todos seus filhos, gerados à sua imagem e semelhança, devendo a ele obediência incondicional.

Seja como for, as Crias sempre acompanham o Grande Cthulhu acatando suas ordens e satisfazendo seus desejos. Quando seu Mestre se retirou para o Mausoléu submarino de R'lyeh, eles o seguiram retirando-se para as câmaras inundadas afim de hibernar. Seus sonhos reverberam das profundezas, gerando emanações psíquicas que chegam aos homens e moldam seus sonhos. Quando Cthulhu despertar, eles também irão acordar para submeter o planeta ao seu novo Senhor.


À despeito de muitos deles terem acompanhado Cthulhu no seu sono milenar, outros tantos se mantiveram despertos, habitando as trincheiras e abismos marítimos. Eles se movem sob as ondas, nas profundezas insondáveis, onde pressão estrondosa e escuridão opressiva são insuportáveis para nossa frágil constituição. Alguns deles habitam a periferia das cidades erguidas pelos Abissais, sendo venerados por estes e servidos por outros horrores aquáticos. Cavernas e grotões são o seu refúgio mais comum, ainda que eles também povoem arrecifes, paredes de coral e fendas grandes o bastante para acomodar seu tamanho colossal. 

Entidades similares às Crias Estelares ainda habitam as estrelas; seu lar original. Tais seres infestam o Lago de Hali em um planeta próximo da estrela de Aldebaran, em Touro. Outras esferas planetárias e luas também podem ser a morada de Crias Estelares. Civilizações não-humanas e povos alienígenas extintos ergueram no passado templos em homenagem a estes seres. Se um dia, a humanidade chegar às estrelas, estes monumentos serão encontrados, instalando terror e medo no coração dos pioneiros espaciais. Apesar da distância imensurável, estas Crias se mantém fiéis ao Grande Cthulhu. Supõe-se que estes serão convocados da imensidão cósmica para reunir-se ao seu mestre quando as estrelas estiverem certas.

As Crias um dia formaram as legiões de choque do Grande Cthulhu e foram usadas em suas conquistas planetárias. Milhões de anos atrás, quando desceram dos céus e se instalaram no continente primevo de R'Lyeh, as Crias abriram o caminho para a invasão. Na época, o planeta pertencia quase que em sua totalidade à Raça Ancestral, que havia estabelecido cidades tanto nos mares quanto nas massas continentais então existentes. O conflito entre estes dois poderes foi inevitável e fez tremer o então jovem planeta. 


As Crias Estelares se lançaram em seu plano de conquista, arquitetado pelo Grande Cthulhu e lançado à partir de R'lyeh. Várias cidades da Raça Ancestral foram devastadas por esses titãs alados que venciam as muralhas e reduziam as edificações de pedra à escombros. Para terror da Raça Ancestral, os Xothianos além da destruição desenfreada desenvolveram um gosto particular pela carne da Raça Ancestral, devorando-os aos montes. A devastação de suas cidades, arranhou o orgulho da Raça Ancestral que revidou à altura. Recorrendo à sua tecnologia avançada, empregaram artefatos nucleares e de perturbação molecular para se defender, contudo sua maior arma decorria de seu conhecimento genético: Os Shoggoth. Servos protoplasmáticos criados em laboratórios com a cepa de Ubbo-Sathla, os Shoggoth se tornaram sua arma principal. No início, eles não faziam frente às Crias Estelares que em matéria de força bruta e violência pareciam inigualáveis. Entretanto, aos poucos, os Shoggoth projetados para a Guerra (cada vez maiores e mais poderosos) foram descobrindo seus trunfos. O surgimento de cada vez mais dessas armas biológicas equilibrou a batalha que até então pendia para as forças do Grande Cthulhu. 

Sem um vencedor, a contenda parecia fadada a um incômodo impasse que só foi decidido pela conjunção estelar que obrigou o Senhor de R'Lyeh a hibernar nas profundezas. Uma vez que muitos Xothianos o seguiram, isso pôs termo às hostilidades, forçando um armistício.

Com efeito, a maioria das Crias Estelares abandonaram as hostilidades, simplesmente aguardando o dia em que as estrelas devidamente alinhadas apontarem para o momento propício de seu retorno.


Segundo alguns raros tomos de conhecimento arcano, há cinco Crias Estelares que se sobressaem diante de todas as outras. O decadente Necronomicon os chama de Observadores e afirma que sua função envolve antecipar os sinais que irão marcar o retorno de R'lyeh. Uma vez que os presságios forem reconhecidos, eles próprios irão despertar e juntos conduzir um ritual para romper o sono letárgico do Grande Cthulhu.

Essas cinco poderosas Crias Estelares se encontram adormecidas em localidades chave ao redor do globo. O tomo afirma que um deles dorme abaixo das Montanhas de Bayan Kara Shan na China central, outro sob as areias escaldantes que cobriram a Cidade sem Nome na Arábia, um abaixo das calotas de gelo da Groenlândia, o quarto em uma imensa caverna natural na Costa da Nova Inglaterra e o último na bacia do Rio Amazonas no Brasil. Supostamente a existência de tais seres jamais foi percebida visto que eles se encontram muitos quilômetros abaixo da superfície, enterrados ou submersos em localidades isoladas, em profundezas insondáveis.

Ainda segundo o texto, os Titãs adormecidos possuem capacidades psíquicas semelhantes ao Senhor de R'lyeh - ou seja, eles sonham. E seus sonhos podem ser captados pela humanidade e percebidos como um chamamento. Aqueles que ouvem esse chamado acabam de alguma forma cooptados para as fileiras dos Cultos que veneram o Grande Cthulhu. Verdade ou Mito, sabe-se que facções do terrível Culto de Cthulhu operam justamente nesses lugares. 


Na China o Culto do Adormecido existe há milênios, nascido em monastérios que pontuam as montanhas na fronteira com o Nepal. A Cidade sem Nome foi por séculos um destino buscado pelos iniciados nos segredos do Mythos, visitado inclusive pelo célebre árabe louco, Abdul al-Hazred que lá encontrou os resquícios de um antigo Culto devotado a Cthulhu. Embora na Groenlândia as populações humanas sejam raras, antropólogos se surpreenderam com a existência de grupos reunidos ao redor de bizarras divindades. Próximo de Boston, na decrépita vila pesqueira de Innsmouth, a Ordem de Dagon formada por híbridos com sangue abissal a correr em suas veias, conduzia rituais em homenagem a Cthulhu. Finalmente, tribos como os Okitos, habitantes da selva amazônica, próximo da fronteira entre Brasil e Venezuela praticam rituais sangrentos em honra de um Deus blasfemo que dorme aos seus pés.

Todos esses Cultos possuem princípios e ritos semelhantes que envolvem a adoração a entidades enterradas ou submersas que por sua vez estão fadadas a um dia acordar um Deus ainda mais poderoso.

A maioria das Crias Estelares permanecem em um estado de letargia perene, que pode ser confundido com a morte. Nos covis onde jazem imóveis, as eras transcorrem sem os afetar, visto que são vitualmente imortais pela passagem do tempo. Tampouco eles precisam comer ou respirar, pois as necessidades biológicas de outros seres, para eles, não possuem consequência. Os milênios vem e vão, mas durante todo esse tempo, as Cria Estelares sequer flexionam seus músculos ou permitem um bater de coração. Suas mentes, outrossim, continuam afiadas, vivas, sondando os arredores.   

 
Contudo, isso não significa que sob certas circunstâncias, as Crias Estelares não possam voltar à viver, caminhar e nadar como um dia fizeram antes do surgimento do homem. Afortunadamente, tal ocorrência é muito rara, ainda que os registros de Cultos contenham testemunhos de tais eventos e estes sejam muitíssimo aguardados pelos cultistas.

Há relatos ligando o despertar de Crias Estelares a incidentes naturais e intempéries como erupções, terremotos e maremotos. 

Semanas após o devastador terremoto que atingiu Lisboa em 1755, marinheiros teriam avistado uma criatura de dimensões absurdas ("como uma montanha andante") em algo mar. A criatura, semelhante, mas não inteiramente igual a um enorme polvo contornou a Costa de |Caparica como se estivesse observando a destruição deixada pelo terrível cisma que atingiu 9,1 na escala Richter. Na época, uma epidemia de pesadelos e paranoia varreu a capital portuguesa atingindo os já traumatizados sobreviventes da tragédia. 

Outro incidente marcante teria ocorrido em 1816, dias antes da acachapante erupção do Vulcão Tambora que decretou a destruição do povo Sumbawa que vivia naquela ilha. Rumores de indivíduos que estiveram na ilha semanas antes afirmavam que vários locais experimentaram o que se poderia compreender como sonhos premonitório sobre a tragédia que se aproximava. Mas além da eclosão do Tambora, tinham visões de entidades colossais que viviam sob a ilha e que eram venerada pelos seus antepassados em tempos remotos. Após a explosão que decretou a extinção do modo de vida dos Sumbawa, bem como de sua cidade e das 20 mil pessoas que lá viviam, houve rumores a respeito de uma criatura gigantesca avistada por embarcações passando perto da área atingida pela conflagração. "Enorme", "impossível", "monstruoso", foram algumas palavras usadas por quem viu a coisa para descreve-la.


Da mesma maneira, mais recentemente em 2010, após as erupções vulcânicas ocorridas na Islândia, uma criatura de dimensões absurdas teria sido avistada na costa de Eyjafjallajökull. A coisa, um "monstro marinho com cabeça de cafalópode" foi avistado pela tripulação do Kyllynis um navio de  bandeira cipriota que navegava pelo Atlântico Norte.

Alguns acreditam que o curioso incidente conhecido como "Bloop", um ruído submarino estarrecedor e sem explicação aparente, emanado nas profundezas oceânicas na Costa da Antártida possa ter sido motivado por uma ou mais Crias Estelares.

Qual a ligação, seja ela direta ou circunstancial, das Crias Estelares com esses eventos não se sabe. O que se cogita é que eles possam ser despertados por esses incidentes perturbadores ou, como sugerem outros, podem tê-los causado de alguma forma. 

Buscando em antigas lendas e mitos, não é difícil achar menções a monstros e criaturas marinhas responsáveis por enormes tragédias. Os Dragões do passado podem ser na verdade Crias Estelares e contribuíram para o surgimento destes mitos ancestrais.

Os Xothianos podem ser definidos por uma palavra: "colossais". Um típico indivíduo da espécie mede algo em torno de 20 a 25 metros de altura e centenas de toneladas, contudo alguns podem ser consideravelmente maiores, chegando aos 30 ou mais metros de altura, o equivalente a um prédio de 15 andares. Não se sabe no entanto de nenhum deles atingindo a estatura titânica do Grande Cthulhu que por sua registra mais de 40 metros.


O corpo das Crias Estelares consiste de uma substância maleável, tenra e untuosa absolutamente alienígena. Sua carne verde acinzentada é normalmente esponjosa e flácida, mas ela pode ser reforçada rapidamente assumindo uma consistência rija através do ajuntamento de células formando placas de tecido conjuntivo. Sua epiderme consiste de fibras de colágeno esticadas sobre os músculos. O sangue desses seres corre em vasos internos bombeados por um sistema de três corações branquiais. Eles possuem ainda um sistema respiratório pulmonar que lhes permite respirar tanto na água quanto na superfície. Seu sangue possui altíssima concentração de cobre que o torna viscoso e com uma cor escura oleosa.

Os Xothianos são humanoides, com pares de membros superiores (braços) e inferiores (pernas) unidos a um tronco massivo. Os braços tendem a ser longos e delgados, terminando em um conjunto de 4 dedos compridos dotados de garras afiadas ainda que flácidas e recurvas. Já as pernas são mais curtas, com pés achatados e dedos de formato quadrado também dotados de unhas. A criatura caminha ereta, mas parece mais à vontade na água, nadando com enorme desenvoltura. A maioria dos espécimes possuem um par de asas membranosas presas às costas que embora sejam descritas por muitos como "asas de morcego" são mais próximas de barbatanas adaptadas como as dos peixes voadores. Estas cumprem um papel importante no deslocamento submarino garantindo a eles enorme agilidade. As asas podem ser usadas para alçar voo na superfície e impulsionar o Xothiano pelo ar ainda que de forma desengonçada. Há conjecturas que as asas das Crias Estelares funcionam melhor no espaço, mas não há como julgar isso. As asas também auxiliam na movimentação da criatura, aumentando seu centro de equilíbrio. Em posição relaxada, as asas se dobram sobre as costas e permanecem fechadas até a criatura se mover, seja andando, nadando ou voando. As Crias de Cthulhu se movem de forma bastante rápida a despeito de seu imenso corpanzil e qualquer pessoa supondo que eles são lentos ficará surpreso com sua velocidade.

Não se sabe ao certo se Xothianos possuem uma divisão bem definida de gêneros masculino/feminino. É possível, no entanto, que eles sejam naturalmente hermafroditas, ainda que saibamos pouquíssimos detalhes sobre seu ciclo reprodutivo se é que ele funciona de uma maneira similar a algo em nosso mundo. De qualquer maneira se existem diferenças biológicas entre eles, estas não são imperceptíveis. Também não há registros de filhotes ou jovens da espécie.

Xothianos são combatentes formidáveis aliando força bruta com capacidade destrutiva condizente com seu tamanho e massa. Durante a Guerra empreendida contra a Raça Ancestral, eles foram capazes de devastar cidades inteiras reduzindo prédios e construções de rocha à ruínas. Sua notável resistência física também lhes permite resistir a ataques diretos e danos maciços como os que o armamento da Raça Ancestral podia causar. De fato, a arma mais confiável contra as Crias Estelares foram os Shoggoth que assim como eles, se valiam de força bruta. Comparativamente, mesmo hoje existem poucas armas criadas pelo homem, além de explosivos de alto impacto e artefatos nucleares, que podem ferir estes seres. Para tornar tudo ainda mais complicado, a estranha matéria que constitui esses seres possui propriedades protoplásmicas regenerativas. Em poucos minutos um Xothiano levado à beira da destruição pode sanar inteiramente ferimentos sofridos. À despeito disso, há rumores que uma Cria Estelar teria sido destruída por torpedos na Costa da Nova Inglaterra por ocasião da intervenção militar na cidade de Innsmouth. Feitiços e armas mágicas também são bastante eficientes contra os Xothianos.


Talvez a peculiaridade mais conhecida acerca das Crias Estelares diga respeito a sua bizarra cabeça. Os Xothianos possuem uma massa desproporcionalmente grande e bulbosa no topo de seu tronco. Essa cabeça é dotada de centenas de filamentos de diferentes tamanhos que pendem de sua "face", escorrendo pelo peito em enorme quantidade. Essa infinidade de tentáculos se agita e contorce como se tivesse vida própria. Os tentáculos agem como apêndices prenseis, especializados em agarrar e capturar o que estiver ao seu alcance. Cada um deles é forte como um cabo de aço, capaz de dobrar vigas e esmagar ossos com enorme torque. Apesar disso, alguns são capazes de manipulação táctil sensível e de realizar tarefas delicadas com enorme perícia.

Outra de suas funções é levar alimentos até a enorme cratera em forma de boca. Esta fica oculta sob a massa filamentosa, normalmente imperceptível, mas pode se revelar caso a Cria Estelar queira morder alguma presa. O aparato é dotado de glândulas salivares nas laterais, tentáculos bucais que auxiliam a empurrar a comida e uma faringe tubular através da qual os alimentos escorregam auxiliados pela saliva que corre em profusão. O tubo é repleto de dentes ocos afiados que retalham os alimentos enquanto estes descem pela sua garganta. Outra estrutura anatômica se assemelha a radula dos moluscos e gastrópodes terrestres, um longo órgão musculoso similar a uma língua pontuda com cerdas afiadas. A radula também empurra os alimentos goela abaixo para que os potentes ácidos estomacais façam o seu trabalho de decomposição. Xothianos são carnívoros e se alimentam de animais marinhos, engolidos por inteiro. Animais de maior porte, como baleias, lulas e tubarões podem, no entanto, ser mutilados por suas potentes mordidas.

Os olhos dos Xothianos são comparativamente grandes, arredondado e de coloração variando do verde musgo, ao amarelo baço e em alguns espécimes vermelho. Ele tende a emitir um brilho característico na escuridão. A visão dessas criaturas é bastante aguçada, perfeitamente adaptada à pouca luz das trincheiras oceânicas e do espaço profundo. As Crias estelares não possuem nariz ou orelhas, tendo somente fossas nasais e auriculares que lhe permitem cheirar e ouvir. Esses sentidos são bastante rudimentares, mas ele parece substituí-los com outras funções sensoriais exclusivas, para nós inconcebíveis.

Um adendo importante para compreender esses seres. Muitos que os observam os tratam como entidades embrutecidas, criaturas de mente simplória como o mítico Polifemo, dadas a arroubos de violência desenfreada. Nada poderia ser mais distante da realidade. Xothianos são criaturas dotadas de uma inteligência refinada, com capacidade cognitiva que lhes permite racionalizar e planejar. Eles não são monstros estúpidos, mas seres com uma mente analítica e memória de longa duração. Seus cérebros podem reconhecer objetos, associar indivíduos e aprender através da observação.

Os Xothianos são indubitavelmente uma das formas de vida mais perigosas existentes no planeta. É uma benção que a maioria deles esteja adormecida ou que mesmo ativos permaneçam na maior parte do tempo inertes à imagem de seu amo e senhor. No entanto, quando as Crias Estelares sentirem que o momento do Alinhamento Cósmico se aproxima, elas o reconhecerão de imediato. Tais Leviatãs se erguerão das suas sepulturas submarinas e se dirigirão objetivamente para a terra. 

E nesse dia, a humanidade conhecerá o Horror, pois o Grande Cthulhu estará próximo de despertar.



terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Horror Cromático - Anatomia completa da Cor do Espaço


O Mythos de Cthulhu é formado por uma impressionante variedade de criaturas alienígenas, não apenas no que diz respeito a forma e aparência, mas principalmente sua origem. São no sentido mais estrito do termo "extraterrestres" gerados nos confins do espaço.

Tais entidades foram geradas em planetas distantes orbitando estrelas de brilho pálido, no interior de luas desertas ou em planetoides bombardeados por letais descargas de radiação. No vazio escuro e profundo, a vida é capaz de assumir formas incrivelmente bizarras e absurdamente perturbadoras.

Das criaturas fungoides de Yugoth, conhecidas como Mi-Go, aos cruéis  seres insectóides de Shagghai, passando pelos enigmáticos Seres Ancestrais que um dia colonizaram a Antártida até os terríveis Pólipos-Voadores que invadiram a Terra e devastaram os Yithianos, existem incontáveis espécies conscientes advindas de esferas distantes e mundos desconhecidos.

A humanidade mal pode conceber o que existe lá fora: Toda uma vastidão de maravilhas e terrores por si só, inenarráveis. Apesar disso, em sua notável arrogância, o homem teve a ousadia de se imaginar como dono de tudo que existe. Herdeiro de direito de toda criação. É provável que se soubéssemos uma ínfima parcela dos segredos cósmicos, passaríamos a olhar para o chão ao invés de contemplar as estrelas, tamanho seria nosso Horror diante das coisas que habitam o universo.  

Contudo, de todas as formas de vida alienígenas, talvez a mais inusitada seja a das Cores do Espaço.


As Cores constituem um mistério praticamente indecifrável, mesmo para as as mais esclarecidas raças do universo. Discorrer a respeito da natureza e origem das Cores parece um monumental exercício de futilidade. Quem pode realmente dizer de que recessos do cosmo surgiram tais criaturas e o que elas desejam?  

Vistas com um misto de reverência e temor por civilizações mais iluminadas, tudo que se sabe não passa de mera conjectura.

Para os Seres Ancestrais, as Cores seriam uma forma de vida pertencente a um universo pretérito, existente antes do surgimento do atual. Uma realidade substituída pelo universo corrente e que teria sido destruída pela grande onda de conflagração iniciada por Azathoth. Como as Cores teriam prevalecido, não se sabe. Elas seriam, entretanto, como fósseis vivos desse período anterior, os últimos representantes de um tempo e espaço que não mais existe.

Já os Fungos de Yuggoth acreditam que as Cores sejam nativas de outro plano de existência. As formas de vida preponderantes em um universo inteiro moldado por elas próprias. Por obra do acaso ou deliberadamente, algumas Cores seriam catapultadas para nossa realidade, rasgando o tecido que separa as dimensões e irrompendo para nosso lado. Os Mi-go as vêem com grande preocupação, como se elas fossem um tipo de infecção, um câncer que surge para perturbar a estabilidade cósmica. Portanto, algo a ser extirpado! Aliados humanos dos Fungos de Yuggoth que tiveram acesso ao seu conhecimento, descobriram perplexos que os Mi-Go abandonaram mais de um mundo após constatar a presença de Cores. Sua reação poderia ser compreendida como temor, se eles fossem capazes de tal sentimento. Os Fungos desenvolveram armas para combatê-las e métodos para enfrentar uma incursão em larga escala. Paranoicos por natureza, chegaram ao ponto de dizimar planetas inteiros para conter essa mácula. 

Dentre as raças antigas, talvez sejam os Yithianos aqueles que detém maior conhecimento a respeito das Cores. Estes exploradores e acadêmicos cósmicos, movidos pelo puro saber, conquistaram o título de Grande Raça por dominar o Tempo e viajar através dele para examinar momentos da história. Há rumores de que nessas incursões descobriram que as Cores um dia irão desempenhar papel fundamental na destruição deste universo e na formação do que lhe irá suceder. Os detalhes, cuidadosamente registrados nos volumes mantidos nas Bibliotecas da Grande Raça, são mantidos em sigilo e sua análise constitui uma espécie de tabu  para os Yithianos.


Essas noções contraditórias à cerca das Cores, decorrem principalmente do fato que todas tentativas de sondar ou interagir com estes seres falharam. As Cores não parecem interessadas em conhecer outras formas de vida e menos ainda firmar com elas uma relação amistosa. Ao que parece, as Cores vêem toda e qualquer forma de vida unicamente como fonte de energia a ser consumida.

Alguns poucos livros de conhecimento esotérico mencionam a existência das Cores, mas nenhum deles se propõe a explicar o que elas são. O Manuscrito Pnakótico fala brevemente sobre esses seres, assim como o Livro de Eibon, mas nenhum se aprofunda no tema. Mas embora nossa espécie não estejam apta a compreender as Cores, isso não significa que homens não tenham cruzado o caminho dessas criaturas. Existem casos documentados de Cores que vieram parar na Terra, deixando um rastro de Caos e destruição sem precedente após sua dramática passagem.

As Cores viajam pelo espaço profundo no interior de meteoritos. Estas pedras cruzam distâncias imensuráveis, aparentemente sem um curso determinado. Não se sabe ao certo se a rota de tais meteoritos é de alguma forma influenciada pelas Cores que os utilizariam como um tipo de veículo tripulado. O mais provável é que o trajeto seja totalmente aleatório. Contudo, é um fato que eventualmente esses bólidos terminarão por colidir com algum planeta ou luas, precipitando-se do espaço exterior numa queda vertiginosa.

Os meteoritos responsáveis por carregar as cores são estruturas de composição rochosa (ou mais raramente metálica), com dimensões que vão de meros 25 centímetros até 2 metros de comprimento, pesando alguns quilos, mas podendo atingir diversas toneladas. Nada nesses asteroides sugere que eles sejam diferentes das milhares de rochas errantes que vagam sem rumo pelo espaço e terminam por se chocar com a superfície de outros corpos celestes. De fato, bem poucos desses meteoritos chamam a atenção pelas suas características.

O meteorito tende a formar uma cratera profunda resultante do impacto, enterrando-se na crosta terrestre. No interior oco, a Cor em um estágio que pode ser compreendido como larval, permanece em uma espécie de hibernação. Algo na composição química do meteorito possui propriedades absorcivas que acabam atraindo descargas elétricas, raios cósmicos ou radiação solar. Esta energia é acumulada e usada para despertar a Cor do Espaço. A criatura então deixa a cápsula como uma espécie de vapor comprimido, assumindo logo em seguida uma forma etérea que imediatamente afunda no solo. Seu primeiro instinto é encontrar um local onde possa se estabelecer; de preferência escuro e gelado como um leito natural ou um depósito aquífero profundo. Cisternas, poços e reservatórios também são lugares que se prestam perfeitamente às suas necessidades.

O comportamento da Cor pode variar dependendo do local onde ela aterrissou, mas em um ambiente de natureza pujante, seu efeito é dramático. A Cor à princípio é inibida pela luz e para se se proteger penetra vários metros no solo se entranhando nele como uma Crisálida. Lá ela passa a se alimentar de micro-organismos e sais minerais a medida que vai se fortalecendo. Esse estágio chega ao fim quando a cor já se tornou forte o bastante para obter outras fontes de sustento.

Na fase seguinte, a Cor se infiltra na vegetação contaminando uma área de 5 a 20 acres ao redor de seu covil. Acessando raízes a Cor começa a drenar energia de gramíneas, passando então para arbustos e finalmente árvores. Essa predação tem um efeito imediato no ecossistema local.

Ironicamente, o primeiro efeito que se percebe é um desenvolvimento acentuado. As plantas crescem frondosas, com folhas largas e verdejantes, flores exuberantes de perfume adocicado e frutos grandes de aparência suculenta. Fazendeiros ficam maravilhados com a impressionante fecundidade de suas terras. A aparência viçosa é, no entanto ilusória, já que a força responsável por tudo isso não é natural.

Ainda que aparentem ser saudáveis, os frutos tem um sabor amargo, as raízes desenvolvem estruturas tumorosas enquanto as flores exalam um cheiro nauseante. As folhas nos ramos parecem se torcer e contorcer balançando vigorosamente apesar da ausência de vento. À noite, os campos emanam um brilho fosforescente, como um fogo fátuo reluzindo de modo doentio. Algo nessa natureza corrompida causa um estranho efeito em pessoas sensíveis, mas é apenas quando as cores predominantes começam a se alterar, assumindo tonalidades bizarras e matizes absurdas que se percebe o caráter aberrante do fenômeno.

Logo depois de afetar as plantas, os próximos a sentirem a presença da Cor são insetos, pássaros e pequenos animais terrestres. Os insetos que tem contato direto com a vegetação tocada pela Cor começam a manifestar uma miríade de alterações desconcertantes em sua anatomia. Alguns crescem horrivelmente, com pluralidade de pernas, asas e antenas que brotam espontaneamente. A carapaça e exoesqueleto adquirem uma coloração bizarra e seu comportamento se torna estranho. 

A essa altura a Cor já avançou para o estágio seguinte de amadurecimento. Nessa fase, ganha confiança suficiente para deixar o seu covil subterrâneo em busca de formas de vida. Adaptada ao ciclo noturno, a Cor evita a luz solar, surgindo apenas após o anoitecer para caçar. Ela desenvolve uma espécie de canto hipnótico, produzindo ruídos semelhantes a uma melodia subsônica. Esse ruído parece exercer um efeito atraente e calmante. Animais de pequeno porte como ratos, esquilos, coelhos além de pássaros são imediatamente atraídos por essa frequência hipnótica. O objetivo da Cor é fazer com que a presa se aproxime e fique ao seu alcance. A Cor ataca produzindo uma rajada concentrada de radiação que se assemelha a um breve lampejo. Esse brilho sutil fulmina o alvo e transfere a energia da presa para a Cor. O raio desfaz tecidos vivos e queima a presa de dentro para fora em um efeito similar a ação radioativa. Não demora muito para os arredores do covil usado pela Cor ficarem cheios de ossos calcinados e carcaças ressecadas.


A presença tóxica da Cor fomenta toda sorte de mutações em animais da área vicinal num raio de alguns quilômetros. Casos graves de deformidades congênitas tais como pluralidade de membros, policefalia, externalização de órgãos e acefalia, se manifestam com alarmante frequência. Muitos são acometidos de moléstias que se assemelha a modalidades agressivas de câncer, estando sujeitos a hemorragias, inflamações e o surgimento de inchaços tumescentes. Em geral, animais expostos sobrevivem por pouco tempo. Animais de médio porte como porcos, cães, gatos e cabras começam a ser afetados nas semanas seguintes e o nascimento de filhotes horrivelmente deformados é um dos efeitos mais medonhos da ação da Cor do Espaço.

Com o tempo. animais saudáveis começam a evitar a área, afastando-se como se ela fosse o foco de uma praga invisível - o que de fato, é o caso. A Cor se ressente quando a população de presas diminui, mas isso tende a coincidir com o retorno dela ao Covil onde ela dá início a fase final de sua transformação. A Cor passa então a drenar o ambiente ao seu redor de forma eficaz sem precisar deixar o seu esconderijo. É nesse momento que os efeitos da Cor sobre o ecossistema se intensificam, progredindo de forma cada vez mais rápida e produzindo mudanças acentuadas.

O objetivo da Cor desde o início de sua liberação no ambiente é um só: Absorver Energia.

Quando a Cor do Espaço acumula uma determinada quantidade de energia, ela irrompe de seu covil subterrâneo em meio a uma dramática conflagração de luzes, tremores sísmicos, explosões e alterações no espectro luminoso. Indivíduos que testemunham o acontecimento na maioria das vezes perdem a consciência ou são acometidos por severos espasmos epiléticos uma vez que seus cérebros são bombardeados com estímulos impossíveis de serem processados pela mente humana. As parcas testemunhas do fenômeno se mostraram incapazes de descrevê-lo em termos gerais uma vez que é impossível compreender sua natureza. 


A energia desprendida pela Cor é usada para abrir uma espécie de canal dimensional.

Em termos leigos, a criatura rasga o tecido da realidade por alguns instantes, fazendo com que uma passagem se manifeste no céu. Esta se assemelha a uma Aurora Boreal de coloração impossível de ser descrita. A passagem dimensional se sustenta escancarada por apenas alguns preciosos instantes.

A Cor então sofre uma metamorfose final, ela coalesce assumindo uma forma cristalina multi facetada, a medida que ascende na direção do portal em um turbilhão multi-cromático, sendo propelida em grande velocidade. Ao cruzar a passagem, desaparece. O efeito final é uma espécie de implosão que marca o momento que a passagem se desfaz como se jamais tivesse existido. O que resta após a passagem da Cor é uma área arrasada e drenada de cerca de 20 acres, onde nada mais irá crescer ou se desenvolver.

O destino final da Cor do Espaço é um mistério. Supostamente ao mergulhar no portal, ela regressa para seu mundo, plano ou realidade original, mas tal presunção constitui mera suposição. O propósito dessa transição, ou mesmo seu significado escapam de nossa compreensão. 

Muitos se perguntam qual o grau de influência que uma Cor é capaz de exercer sobre seres humanos. Embora humanos não sejam capazes de captar a frequência empregada pela Cor, isso não significa que eles sejam imunes aos efeitos por ela produzidos. Humanos sujeitos a um longo período de exposição ao ruído subsônico começam a manifestar um comportamento errático marcado por agressividade, prostração e confusão mental. Não são raros ainda sintomas físicos que incluem insônia, tontura, náusea e sangramento nasal. É provável que a exposição ao ambiente insalubre gerado pela ação da Cor, além do consumo de vegetais e animais contaminados, acelere esses efeitos.

De toda forma, o torpor induzido pela influência da Cor explica por que pessoas que vivem nas proximidades de uma zona sob ação da criatura não conseguem reunir forças para abandonar a área. Mesmo diante de todos os sinais de uma iminente catástrofe elas permanecem estoicamente no local como se esperassem uma melhoria milagrosa.


No fim, as vítimas humanas de Cores do Espaço acabam da mesma forma que os animais drenados por elas. Cobertos por horríveis manchas de pele, feridas gotejantes que emanam odor pútrido e descamação. Órgãos internos apresentam falência múltipla e o corpo irradia temperaturas altíssimas que literalmente o cozinham de dentro para fora. Mesmo o tecido sanguíneo se torna denso com uma consistência que lembra xarope de groselha. Em casos extremos os olhos fervem e se desfazem. Cadáveres de indivíduos mortos pela ação de Cores do Espaço vem intrigando legistas desde que a medicina evoluiu o suficiente para permitir esse tipo de análise.

Apesar de toda essa explanação a respeito das Cores Do Espaço, a parte mais difícil no que diz respeito a elas é tentar contextualizar as criaturas ou mesmo descrevê-las em palavras.   

O que se sabe é que constituem uma forma de vida intangível e etérea que surge no ar como uma matriz cromática. Não é algo que possua um estado físico discernível: claramente não é sólida e menos ainda líquida, e à despeito de muitos sugerirem poder ser gasosa ou plasmática, não é nem uma coisa, nem outra. Ela é, na ausência de qualquer termo melhor, simplesmente uma Cor.

Invisível sob certas circunstâncias, as cores quando percebidas adotam um espectro cromático absolutamente alienígena para a percepção sensorial humana. O resultado é uma matiz impossível de ser descrita em termos gerais, visto que não existe nada nem remotamente similar na natureza terrestre. 

A Cor emana sua própria luminosidade e surge pendendo no ar, flutuando a alguns centímetros do chão como uma cortina diáfana de luz viva. Ela tende a se mover lentamente, mas é capaz de se deslocar com rapidez impressionante se necessário. Supõe-se que as Cores sejam perfeitamente capazes de voar e igualar a velocidade de veículos supersônicos, ainda que elas raramente o façam visto que preferem não se afastar de seu covil. A Cor não tem uma forma definida, mas sua presença está contida em uma área que não é maior do que um metro e meio de altura.   


A criatura é obviamente insubstancial, podendo atravessar objetos sólidos sem qualquer prejuízo a si mesma. Ela pode afundar no solo desaparecendo nele. A interação da Cor com o ambiente se resume a absorção da energia presente no mesmo. Ela não parece ser capaz de manipular ou tocar objetos sólidos e não tem interesse em fazê-lo. Objetos inanimados atravessados pela Cor não sofrem qualquer dano, mas seres orgânicos enfrentam corrosão celular. O toque de uma Cor pode ser extremamente doloroso e se este for prolongado, o resultado será invariavelmente letal. 

Cores atacam emitindo rajadas de energia radioativa semelhantes a lampejos ou raios invisíveis. O alcance prático dessa emissão é algo entre 15 e 20 metros. Um indivíduo atingido experimenta um efeito similar ao de exposição à doses maciças de radiação ionizante, com efeito, sustenta graves queimaduras no corpo e os tecidos sofrem alteração à nível celular. A vítima de uma Cor pode ser inteiramente desintegrada dessa forma, se exposta por mais do que alguns minutos.

Nenhuma arma idealizada pelo homem é capaz de provocar dano quando empregada contra uma Cor. No máximo elas são atravessadas sem qualquer resultado direto. De fato, as Cores são afetadas apenas por poderosos campos magnéticos que tem a capacidade de aprisioná-las ou perturbar sua capacidade de atravessar sólidos. Os Fungos de Yuggoth criaram armadilhas baseadas justamente em Campos Magnéticos portáteis que podem ser empregados para capturar Cores.


Embora aparentem agir com um forte instinto de auto-preservação, Cores do Espaço são seres inteligentes, perfeitamente capazes de raciocinar e estabelecer planos de ação. Seus padrões mentais contudo são insondáveis. Todas as tentativas de estabelecer uma relação amistosa com as criaturas falharam e ao que parece elas não tem qualquer interesse de se comunicar com outras formas de vida ou interagir com elas. 

O mais notório incidente envolvendo a aparição de uma Cor do Espaço, se deu em 1882, nos arredores de Arkham, interior do estado de Massachusetts. A Cor em questão chegou ao planeta viajando em um meteorito que aterrizou numa fazenda. Lá rapidamente transformou o ambiente seguindo o padrão descrito acima. No processo, a criatura aniquilou animais e humanos, desaparecendo em seguida. Supostamente ela atingiu o estágio final de transformação, tendo retornado para sua realidade deixando para trás um ambiente devastado após sua passagem. O local foi coberto pelas águas de um Reservatório que hoje abastece a cidade de Arkham.


Um incidente mais recente ocorreu nos pântanos da Flórida, os Everglades, e chamou a atenção das autoridades militares que enviaram uma equipe para avaliar a situação e os danos provocados ao ecossistema. A extensão da área sujeita a contaminação foi consideravelmente maior do que no caso anterior, levantando a hipótese que possa ter sido provocado por mais de uma Cor ou um espécime especialmente poderoso. No momento a área se encontra sob quarentena. 

Cores do Espaço constituem uma grave ameaça à vida e a detecção da entrada de uma em nossa atmosfera é motivo de grande preocupação. Não há como saber o que irá acontecer depois de uma toca o solo.  

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

O Clã dos Whateleys - Notas sobre a Família mais estranha de Dunwich


Dentre os personagens mais estranhos criados por H.P. Lovecraft sem dúvida o Clã dos Whateley merece destaque.

Essa família de degenerados que habitava os arredores do decrépito povoado de Dunwich em uma das partes mais remotas do interior da Nova Inglaterra, ousou realizar um experimento blasfemo. Desta experiência resultou o nascimento de não apenas uma, mas duas aberrações inomináveis cujo parentesco direto estava ligado a um Deus Exterior - Yog-Sothoth. Este artigo examina esse estranho parentesco e tenta compreender o que aconteceu quando um Deus fertilizou o útero de uma mulher humana gerando nela suas crias.    

O Clã dos Whateley era originalmente formado por Noah Whateley, também conhecido como Velho Bruxo Whateley e sua filha albina Lavínia que segundo alguns era "lenta" ou seguindo o jargão da época "retardada". Os dois viviam em uma pequena propriedade formada por um casebre de alvenaria que mudou pouco ao longo de décadas de ocupação, mas que recebeu grandes acréscimos quando os planos de Noah começaram a frutificar e ele viu a necessidade de expandir o segundo pavimento afim de fornecer uma habitação adequada aos seus "netos".

Todas as menções até então aos Whateley são reticentes já que o "bom povo da Nova Inglaterra" tem uma tendência a se manter distante dos assuntos familiares alheios. Contudo, parece que no caso do estranho clã, foi impossível o povo de Dunwich manter silencio diante do que viam. Em um primeiro momento não se sabia quem era a mãe biológica de Lavínia, assim como, num segundo era ignorada a identidade do pai da criança que ela esperava.

Existe uma considerável discussão a respeito do papel do incesto em "O Horror de Dunwich". Lovecraft jamais citou explicitamente se a prática incestuosa existia ou não, deixando essa hipótese em aberto para os leitores concluírem e se chocarem com o mero vislumbre do que poderia estar acontecendo entre quatro paredes na casa dos Whateley. Isso talvez se deva ao fato de Lovecraft ser bastante pudico quanto a assuntos de natureza sexual, ainda que suas histórias busquem na relação sexual matéria prima para situações de horror (a concepção dos abissais, por exemplo).

Parece bastante razoável que o incesto seja um elemento presente na história. É sabido que em regiões isoladas, sobretudo no interior, laços familiares acabam se dissolvendo e relações espúrias acabam se formando com maior frequência do que em comunidades onde os olhos de estranhos, passíveis de crítica, estão à toda volta.

Para suportar essa hipótese há alguns indícios contidos nas entrelinhas do próprio conto. 

Primeiro o fato de Lavínia ser albina e ter deformidades levanta um questionamento a respeito de sua origem já que albinismo no início do século XX estava intimamente associado a incesto. Contudo, hoje sabemos que essa característica não indica necessariamente um elemento consanguíneo. É verdade que incesto de qualquer espécie aumenta a probabilidade de manifestação de genes recessivos, como os que caracterizam o albinismo, porém o albinismo pode se manifestar em outras circunstâncias que não necessariamente incesto. A condição de albinismo está associada a duas características distintas: na produção do pigmento melanina e no tipo sanguíneo. Portanto, embora a manifestação de características recessivas possa ser um indicativo, não é uma certeza de incesto.      

Existem entretanto outros indícios. Quando Curtis Whateley, um membro não degenerado da família vê a criatura ele comenta haver uma semelhança macabra entre ela e o Bruxo Whateley. Ele é muito específico nessa descrição, afirmando categoricamente que a criatura não "parece com Wilbur ou com os Whateley em geral, mas que se assemelha ao velho Noah. Isso pode ser um indicativo de que Noah seria mais do que o avô dos gêmeos.

Existe a hipótese sugerida por estudiosos como Robert M. Price de que para impregnar Lavínia, Yog-Sothoth recorreu a Noah Whateley, habitando temporariamente o seu corpo e fazendo com que ele fertilizasse a própria filha. Essa possibilidade é bastante factível já que seria difícil assumir como se daria o contato íntimo necessário para a transferência de material genético de um Deus para uma mortal. Nessa hipótese, Yog-Sothoth faria de Noah seu depositário genético usando-o como um canal para fecundar Lavínia, algo que seria inviável dele realizar por conta própria sem destruir a mulher. Essa explicação parece em concordância com o assumido na história Providence de Alan Moore, no qual vemos Noah tomado pelo Deus tendo sexo com Lavínia.

Nesse contexto, Yog-Sothoth usaria o corpo de Noah para habitar e uma vez dentro dele, manipularia sua genética misturando elementos Seus aos do homem, para gerar assim uma combinação capaz de fertilizar Lavínia. O resultado seria portanto um amálgama do material de Noah e do Deus. Se assim for, pode-se intuir ter havido incesto, ainda que de modo indireto.

Mas vejamos o que sabemos a respeito de Noah Whateley antes de seguir em frente.

O pouco que é sabido a respeito de Noah vem de fofocas e boatos disseminados pelo povo de Dunwich que via de regra preferia manter distância do homem. A razão para isso está ligada diretamente a reputação dele e de seus parentes mexerem com magia negra. O apelido "bruxo" não é um exagero, já que Noah tinha a fama de conhecer encantamentos e conduzir rituais na calada da noite no topo dos montes que circundam o povoado. O "Bruxo" Whateley poderia segundo alguns conjurar as forças do inferno, fazer chover, atuar sobre o clima, encantar, curar ou matar animais e lançar maus olhados fulminantes. Sabendo de sua reputação, não é de se estranhar que muitos preferissem evitar o contato com Whateley e suas práticas excêntricas.

Nas poucas vezes que descia na direção do povoado, as pessoas atravessavam a rua para não encontrá-lo diretamente. Ainda assim, a maioria dos moradores não o discriminava ou atentava contra ele, talvez por medo, mas mais provavelmente por um senso estranho de familiaridade. 

A outra razão para temor dizia respeito a morte da esposa de Noah que permanecia sem uma explicação cabível já que a única testemunha do passamento teria sido o próprio marido. A mulher, cujo nome sequer é mencionado, teria falecido quado Lavínia completou 12 anos de idade, e as circunstâncias permaneceram desconhecidas. De fato, o povo do vilarejo sabia pouco a respeito dela, visto que jamais visitou o povoado e raramente era vista quando alguém passava pela casa. Comentava-se que Noah a mantinha sempre na casa e a proibia de se afastar. Quando muito raramente alguém os visitava, dava desculpas de que ela não estava se sentindo bem e a mantinha longe dos olhos. Por muito tempo houve a suspeita de que a misteriosa esposa de Noah poderia ser uma prima, irmã ou quem sabe até uma filha já que a diferença de idade, segundo alguns, era considerável. Fato é que só se soube da sua morte quando Noah comunicou meses depois em uma de suas raras visitas à Dunwich.

Não é de se estranhar que o fato tenha atraído muita suspeita e desconfiança entre a população. Noah jamais contou onde ela foi enterrada e quais foram as circunstâncias da morte. Mas até onde se sabe nunca houve questionamento formal ou inquérito por parte das autoridades policiais. Vivendo em um arrebalde tão distante e isolado, o que acontece naquela região, não dizia respeito a mais ninguém.

Havia alguma especulação sobre a idade de Noah quando da concepção de Lavínia. Alguns davam a ele 50 anos, mas outros afirmavam que ele já teria passado dos 70. A aparência do homem era de um velho, com barba cerrada e grisalha, ainda que tivesse energia e inquestionável saúde. Era forte e não dava mostras de qualquer limitação imposta pela idade. Alguns diziam que não era exatamente coerente, falava sozinho e murmurava coisas sem sentido.

Curiosamente, apenas após o nascimento de Wilbur, seu neto, é que a saúde até então perfeita começou a degenerar. Talvez isso esteja ligado a hipótese dele ter servido como receptáculo do poder de Yog-Sothoth na ocasião da geração de Wilbur, mas não há como saber ao certo. Noah morreu em 1 de agosto de 1924, 11 anos depois do nascimento de Wilbur e embora a causa da morte tenha sido definida como "natural", é possível que ela tenha sido decorrente de um câncer. Talvez a doença tenha se desenvolvido pela exposição ao poder de Yog-Sothoth, ainda que essa seja apenas uma suposição.
   
Lavinia Whateley pode ou não ter sido resultado de incesto, mas muitas pessoas contavam tal coisa como uma certeza. Assumiam que a esposa de Noah tinha algum grau de parentesco com o marido. Lavínia era descrita como uma menina tímida e arredia que raramente se aventurava além da propriedade do clã. Outros a tinham como "lenta das ideias" e "estranha". 

É provável que o que mais contribuía para essa presunção fosse justamente sua aparência física. Definiam a pobre simplória como extremamente feia. Lavínia era uma moça pequena, frágil e de olhar nervoso, sempre sobressaltada como se tivesse uma visão do mundo particular. Ela falava com uma morosidade característica e não parecia letrada, ainda que tenha sido vista folheando os estranhos livros do pai.

Ela era albina, sua pele e os cabelos desgrenhados eram alvos como a neve, enquanto seus olhos tinham uma coloração pálida cor de rosa. Lavínia era magra, vestia-se de maneira modesta com vestidos simples de juta, remendados e por vezes era vista com os delicados pés sem calçados. Com certeza, embora parecesse frágil, tinha uma boa saúde. Os serviços de casa eram de sua responsabilidade, mas o estado geral da habitação denotava que não era muito esmerada na função.

Ela tinha 35 anos quando Wilbur nasceu e até onde se sabe, assumiu por completo o papel de mãe, ainda que sem demonstrar muito entusiasmo. A identidade do pai foi um mistério escandaloso para o povo de Dunwich por muitos anos, alguns conjecturavam que pudesse ter sido um andarilho ou vagabundo que viu algum encanto na moça atarracada ou então a tomou pela força. Outros sussurravam que Noah teria se aproveitado do isolamento em que viviam para compelir sobre ela suas vontades animalescas. Não se sabia ao certo e ela nunca comentou o assunto.


Tema de muitas discussões e polêmica era o fato de que mais de uma testemunha teria visto Lavínia e seu filho vagando nus pelos campos à noite. A moça se destacava pela brancura de seu corpo que a tornava inconfundível mesmo que à distância. A razão para esses passeios e em que circunstâncias se davam, desafiava uma explicação cabível mas pareciam coincidir com datas místicas. Depois de alguns flagrantes, ela passou a ser mais cuidadosa, ainda que alguns afirmassem tê-la visto próximo de Sentinel Hill, dançando e rodopiando nua no topo do Monte ou levando a criança pela mão. Esses estranhos passeios aconteceriam até Wilbur completar 10 anos.

Lavínia desapareceu da face da Terra em 31 de outubro de 1927. Não se sabe o que aconteceu com ela e Wilbur, última pessoa que a viu, nunca explicou exatamente em que circunstâncias teria ocorrido seu falecimento. Ele também não informou onde enterrou a mãe. A morte de Lavínia foi assunto entre o povo de Dunwich, mas o consenso foi que ela teria morrido de gripe ou outra doença comum. É claro, pesaram suspeitas sobre Wilbur, mas o rapaz tinha apenas 14 anos (embora parecesse ter mais) e ninguém quis tomar a frente para fazer uma acusação formal. Lavínia não era querida, não tinha amigos e quanto menos as pessoas se envolvessem nos negócios dos Whateley, melhor.

A única pessoa que talvez soubesse detalhes sobre o que se passava na casa era uma vizinha de nome Mamie Bishop que visitou a casa em meados 1926. Na ocasião, Lavínia manifestou preocupação a respeito de Wilbur e temor sobre sua segurança, sem no entanto, entrar em detalhes.

De acordo com "O Horror de Dunwich", Lavínia deu a luz a gêmeos como resultado direto de uma estranha e única união sexual com o Deus Exterior Yog-Sothoth. A família teria tentado criar "uma raça à parte", misturando o gene humano e o alienígena.  


Baseado na aparência física e desenvolvimento metabólico de Wilbur Whateley, o gêmeo que veio a ser conhecido elo povo de Dunwich, a presunção não parece muito longe da verdade. Ainda que Wilbur fosse para os padrões gerais "mais humano", algumas de suas características mais aberrantes precisavam ser mantidas ocultas para não chocar as pessoas. Ainda assim, em grande parte sua aparência, mesmo quando criança chamava a atenção.

Desde o nascimento, Wilbur tinha um físico peculiar. Primeiro seu desenvolvimento físico era fenomenal quando comparado a um ser humano normal. Segundo rumores ele já era capaz de andar sozinho aos sete meses e aos onze era capaz de falar, ainda que, com um estranho sotaque. Sua voz e os sons que produzia tinham um timbre incomum que foi se acentuando. Eram sons que pareciam vocalizados por órgãos não naturais.

Testemunhas que afirmaram tê-lo visto na companhia da mãe, Lavínia, nas ocasiões em que os dois foram flagrados dançando nus no topo dos montes afirmaram ter visto algo inexplicável. Na falta de explicação concluíram que ele vestia o que parecia ser uma estranha calça, dotada de drapeados franjados que pareciam farfalhar enquanto ele dançava e saltava. Mas essas testemunhas viram a cena por apenas um momento, tendo como iluminação apenas a luz da lua e de fogueiras, quanto mais à uma distância considerável.

A medida que Wilbur continuou crescendo, sua aparência foi se tornando cada vez mais anormal para uma criança: cabelos castanhos grossos se espalhavam pelo seu corpo, suas feições eram angulares e com uma distinta característica caprina, reminiscente dos míticos faunos ou sátiros da mitologia. Seus lábios eram grossos e carnudos, a pele apresentava marcas amareladas que aos poucos foram escurecendo, as orelhas se tornaram cada vez mais pontudas, assim como o queixo. Seus olhos eram grandes e arredondados, com um brilho estranho que deixava as pessoas que os encaravam incomodadas.

Aos 10 anos, Wilbur tinha a mente, a voz e o corpo de um homem adulto. Ele era alto e corpulento, movia-se com um gingado estranho e parecia pouco à vontade nas roupas apertadas que se obrigava a vestir. As pessoas de Dunwich comentavam que ele sempre aparecia de chapéu, isso porque certa vez o removeu em público e alguns curiosos afirmaram ter visto crescer em sua cabeça o que parecia ser um chifre. As pessoas que se aproximavam o bastante detectavam um odor rançoso e suarento que lembrava o cheiro de animais da fazenda. Não é à toa que animais sensíveis a odores o farejavam de longe. Digno de nota é o fato de que cães o detestavam e latiam sem parar quando ele estava próximo. Nessa idade, Wilbur passou a carregar consigo um revólver que usava para espantar os cães que se aproximassem. Ele detestava os cães tanto quanto eles o odiavam, e reagia com um silvo furioso quando passava por um destes animais.

Aos doze anos, Wilbur já atingia dois metros e seu corpo tinha uma constituição sólida. Ele continuava andando com aquele balanço estranho, mas agora parecia mais centrado e à vontade com sua estatura avantajada. Olhava as pessoas do alto e não desviava mais os olhos; lançava sobre aqueles com quem falava, um tipo de encarada penetrante. Sua voz se tornou mais gutural, cavernosa e retumbante. Sua face apresentava uma barba rala castanha que parecia sujar seu queixo pontudo. As unhas eram sempre bem cortadas, mas os dedos eram curtos e com pontas quadradas.

Em 1928, quando tinha 15 anos, Wilbur Whateley fez uma tentativa fracassada de roubar a tradução latina de Olaus Wormius do livro conhecido como Necronomicon. O volume estava na Biblioteca da Universidade Miskatonic. O cão de guarda da biblioteca o atacou furiosamente, rasgando a sua roupa e deixando aparente sua pele. Com isso, foi possível ver pela primeira vez a anatomia alienígena do rapaz.

A primeira coisa percebido no cadáver sem vida foi a poça de bile verde-amarelada que se formou ao seu redor. O odor dessa substância era nauseante. Esse "sangue" em uma análise científica era similar a "hemolinfa", um fluido que circula pelo corpo de artrópodes. Essa classe de animais invertebrados possuem exoesqueleto, corpos segmentados e apêndices. Diferente de vertebrados, que possuem um sistema circulatório interno que impulsiona o sangue rico em hemoglobina, artrópodes possuem um equivalente chamado hemolinfa que circula por seu interior, nutrindo os órgãos em um sistema aberto. O sistema de Wilbur possivelmente era dessa modalidade.

Também é frustrante reconhecer que seu corpo não deixou ossos ou mesmo crânio e que todos estes se desmancharam como se fossem feitos de uma substância passível de derretimento após o cessamento das funções.

Embora a porção superior de seu torso fosse suficientemente humana em aparência, a parte inferior de Wilbur lembrava pouco a de um ser humano comum. Acima da cintura a pele era rígida e escamosa, com uma coloração amarela nas extremidades, tornando-se mais escura até um preto manchado no centro. Abaixo da cintura, as diferenças se acentuavam com uma concentração de pelos grossos no abdomen, genitália e nas pernas. Ao redor da cintura destacavam-se protuberâncias longas e cinzentas semelhantes a tentáculos com bocas ciliadas avermelhadas. Ao longo dos anos, o povo de Dunwich percebeu estranhas marcas no corpo do Bruxo Whateley e em Lavínia. Aparentemente essas marcas eram similares em tamanho e forma às bocas capazes de sugar na ponta dos tentáculos. Isso pode significar que Wilbur usava os tentáculos para sugar sangue de seu avô e mãe.

Sabemos que a criatura enorme batizada de Horror, se alimentava de sangue fresco. É justo assumir que Wilbur se alimentava de maneira similar drenando porções de sangue que permitiriam a ele tirar sustento.   

Enormes olhos podiam ser encontrados em seus quadris, cada qual circulado por uma série de cílios rosáceos. Esses olhos eram leitosos e gotejantes, de uma coloração preponderante azulada, ainda que, tudo indica, não tivessem utilidade sensorial. Wilbur tinha ainda um rabo longo terminando em uma boca de formação rudimentar. Suas pernas musculosas terminavam em patas sulcadas e repletas de nervuras similar a que poderia ser encontrada em dinossauros herbívoros. Esses estranhos "pés" destituídos de dedos separados poderiam ser a causa de seu gingado característico. A medida que Wilbur lutava para respirar a medida que morria, seus tentáculos e cauda mudavam de cor similar ao que ocorre com lulas e polvos. Embora certas estruturas no corpo de Wilbur parecessem morfologicamente com espécimes terrestres, a aparência geral coletiva era diversa de qualquer coisa que se encontre no planeta.


No momento da morte de Wilbur, seu corpo começou a encolher e desmanchar em um tipo de acelerada decomposição hiper-dimensional. Como muitas "coisas de fora do espaço e tempo", a matéria que compunha o corpo físico de Wilbur não pertencia a essa realidade e necessitava de uma grande quantidade de energia para seu sustento e manutenção. Logo que o organismo se viu a beira da ruína a energia dispendida para essa função foi reduzida e o material hiper-dimensional começou a se dissipar. Outras entidades lovecraftianas, como os Mi-Go e Shoggoth, exibem reações similares quando cessam as funções biológicas deixando poucos traços de sua matéria constitutiva. O mais provável é que essa matéria alienígena se desintegra quando não é suprida de energia.

O nascimento de Wilbur decorre de uma tentativa de Yog-Sothoth de criar uma forma de vida estável constituída de sua própria energia e matéria, o equivalente a nossa "carne e sangue". A criação de um ser vivo como Wilbur que conjugava elementos de duas realidades com propriedades e constantes únicas seria uma anátema para nossa ciência biológica, impossível de compreender e conjecturar do ponto de vista das ciências médicas.

O verdadeiro "Horror de Dunwich" talvez não fosse o monstro imenso e invisível que vagava faminto pelo Vale de Miskatonic, mas a coisa semi-humana que desenvolveu inteligência e persuasão humana. 

Wilbur talvez fosse a real ameaça para a espécie humana. Seu propósito parecia ser abrir o caminho para a criação de uma nova e abominável raça de seres semelhantes a ele próprio. E se os seus planos não frutificaram, foi graças ao acaso e a intervenção de um animal feroz, capaz de captar o mal que ali se ocultava.