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quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

A lista do ano - Os 10 Melhores Filmes de Terror de 2025

E 2025 está acabando e a safra de Horror nos cinemas foi grande e significativa. 

Aqui estão os meus 10 filmes de horror favoritos, com direito a uma pequena sinopse e comentário. 

Tenham em mente que essa lista não é de forma alguma impositiva. de maneira nenhuma, estou dizendo que estes filmes são os melhores e ponto final. É uma opinião pessoal de fã e gosto, sabem como é... cada um tem o seu. O artigo está obviamente aberto a comentários, questionamentos e críticas, que eu ficarei feliz em ler e debater, mas vamos tentar conter nossas paixões.

Meu critério para essa lista foi muito mais, "filmes que eu gostei e que de alguma forma me impressionaram" do que qualquer outra coisa. Não tentei fazer concessões e incluir produções conhecidas, apenas fui fiel aos títulos que mais me chamaram a atenção no ano.

Então, vamos lá?

10) ASH: PLANETA PARASITA (Ash)


Sinopse: Uma astronauta acorda sozinha em uma estação espacial na órbita de um planeta distante. Sem memória do que aconteceu, ela encontra o restante de sua tripulação brutalmente assassinada. Ela precisa juntar as peças do mistério e entender o que aconteceu.

Ash: Planeta Parasita constrói um horror menos influenciado pela ameaça explícita e mais pela fragmentação da percepção e da identidade dos personagens. A perda de memória da protagonista funciona como eixo narrativo e metáfora: o desconhecimento do que ocorreu é tão aterrador quanto o parasita que assombra o planeta. 

O filme aposta fortemente na atmosfera — iluminação agressiva, cores artificiais e uma montagem que privilegia a desorientação — em detrimento de uma progressão narrativa tradicional. Essa escolha aproxima a obra do Horror Cósmico e psicológico, mas também expõe suas limitações: ao priorizar sensação e estética, o roteiro sacrifica desenvolvimento dramático e clareza temática. O resultado é uma experiência sensorial intensa, que provoca mais pelo desconforto do que pela construção da trama.

Ash não tenta ser mais do que é: uma ficção científica com bons momentos, uma aura densa e um final horripilante que funciona bem. O ritmo pode ser um pouco lento, mas para quem tiver paciência e conseguir relevar alguns clichês encontrará um bom misto de Horror e Sci-Fi.  

9) JUNTOS (Together)


Sinopse: A mudança de um casal para o interior desencadeia um incidente sobrenatural que altera drasticamente seu relacionamento, suas existência e sua forma físicas.

Juntos é um daqueles filmes de horror que te atrai... e depois te tortura aos poucos. O que começa como um drama de casal vira um pesadelo visceral quando Tim e Millie, se envolvem com uma força sobrenatural que literalmente ameaça seus corpos e mentes. O clima é claustrofóbico, as transformações são grotescas na medida certa — nada de gore gratuito, mas aquele horror corporal que fica na pele e na cabeça — e a sensação de desconforto cresce como um nó sufocante bem mais eficiente do que "A Substância" por exemplo.

O terror aqui não está só nos corpos se fundindo, torcendo e mesclando com efeitos bizarros (que, honestamente, te fazem olhar de lado e depois olhar de novo) — mas na maneira como o filme transforma ansiedade de relacionamento em algo quase palpável. Cada discussão íntima vira campo de batalha, cada abraço parece um aviso de perigo, e a floresta ao redor se torna parte dessa espiral bizarra. Juntos acerta em misturar horror físico e emocional, fazendo você sentir tanto a estranheza dos eventos quanto a tensão que existe entre duas pessoas que não sabem se soltam ou se agarram ainda mais firme.

8) A MEIA IRMÃ-FEIA (The Ugly Stepsister)


Sinopse: Elvira luta contra sua linda meia-irmã em um reino onde a beleza reina suprema. Ela recorre a medidas extremas para cativar o príncipe, em meio a uma competição implacável pela perfeição física.

The Ugly Stepsister começa como uma história que você acha que conhece… até ela resolver te apresentar algo dark e horrível como só um conto de fadas conseguiria. Tudo diante de um espelho grotesco que finge beleza mas que é simplesmente aterrador. A história pega o universo de Cinderela e vira do avesso, acompanhando Elvira, a "meia-irmã feia", em uma corrida insana por perfeição num reino onde ser bonita é literalmente uma questão de sobrevivência. Mais um filme que parece ter sido inspirado por "A Substância", tratando de beleza e até onde as pessoas estão dispostas a ir para garantir uma bela aparência, não importando a bizarrice dos métodos empregados.  

E haja bizarrice! O terror aqui não é para principiantes, é horror corporal hardcore que te faz sentir coceira embaixo da pele. As cenas de transformação e os procedimentos incrivelmente dolorosos são de causar pesadelo ao expectador mais insensível (sério, tem coisa ali muito doentia!). O humor negro afiado permite alguns momentos que te fazem rir de nervoso… e logo em seguida te arrepiar. Você sente o desconforto como se estivesse lá, observando cada incisão e cada deformação num misto de repulsa e fascínio. 

A estética de conto de fadas sujo de sangue, competição brutal e a pressão por se encaixar num ideal de beleza inatingível criam um terror que não te abandona mesmo depois dos créditos subirem. 

7) FRANKENSTEIN DE GUILHERMO DEL TORO (Frankenstein)


Sinopse: Um cientista brilhante, mas egocêntrico, dá vida a uma criatura em um experimento monstruoso que acaba levando à destruição do criador e de sua trágica criação.

Esse talvez fosse o filme que eu estava aguardando com mais ansiedade esse ano e talvez por isso, a expectativa tenha causado alguns danos ao resultado final. Isso explica porque ele está em sua posição.

Frankenstein de Guillermo del Toro, não é um filme interessado em sustos fáceis ou horror contemporâneo. Aqui, o terror é "old school" nascendo da melancolia, da rejeição e da obsessão humana em brincar de Deus. Del Toro trata a história como uma tragédia gótica desde o primeiro momento, envolvendo tudo numa estética cuidadosamente decadente: laboratórios cheios de sombras, corpos imperfeitos, maquinário antigo e uma sensação constante de que algo profundamente errado está sendo feito em nome do progresso. É um filme que respira tristeza e inspira beleza, como se cada quadro fosse uma pintura cuidadosamente executada.

O horror propriamente dito surge menos na criatura e mais no criador. O Frankenstein de del Toro entende que o verdadeiro monstro não é feito de carne costurada, mas de orgulho, medo e incapacidade de amar aquilo que não corresponde às expectativas. Quando a violência acontece, ela não é espetacular — é pesada, inevitável e profundamente humana. O diretor usa o horror corporal com parcimônia, mas impacto: cada marca no corpo da criatura carrega um significado de dor e abandono. É o tipo de terror que aperta o peito, não o que faz pular da cadeira.

No fim, Frankenstein se firma como um filme sobre solidão e reprovação, usando o horror como condutor emocional. Del Toro não quer reinventar o mito, mas reafirmar por que ele ainda é relevante: porque fala sobre criação sem cuidado, sobre amar apenas o belo, e sobre o medo do diferente. É um terror triste, compassivo e cruel.

O grande senão é a forma como Del Toro optou narrar sua história, com recursos técnicos impressionantes (que devem ser premiados), mas com demasiada simpatia pela criatura e ódio declarado pelo criador. Talvez ele tenha deixado extravasar para a tela seus próprios sentimentos, esquecendo que o importante devia ser manter-se fiel à história original.   

6) TERROR EM SHELBY OAKS (The Curse of Shelby Oaks)


Sinopse: A busca desesperada de uma mulher por sua irmã há muito tempo perdida torna-se uma obsessão ao perceber que o demônio imaginário de sua infância pode ser real.

Terror em Shelby Oaks aposta no já batido subgênero do found footage, mas faz isso com consciência do peso — e do desgaste — do formato. A história acompanha uma investigação sobre um desaparecimento ligado a uma pequena cidade cercada por lendas sinistras. O filme vai construindo o medo de forma gradual, usando gravações fragmentadas, silêncios longos e aquela sensação constante de que algo está sempre fora do quadro. O terror é paciente: nada explode logo de cara, e a tensão cresce justamente pela expectativa, pelo medo do que não está sendo mostrado.

O que realmente sustenta o filme é sua atmosfera. 

Shelby Oaks parece um lugar amaldiçoado pela própria memória, onde cada imagem gravada carrega a ideia de que há algo errado e perigoso prestes a acontecer. Quando o horror finalmente se revela, ele não vem como espetáculo, mas como uma quebra brutal de confiança: nas imagens, nos relatos e até na lógica do que está sendo investigado. Terror em Shelby Oaks não reinventa o found footage, mas entende bem por que esse tipo de terror ainda funciona: ele coloca o espectador na posição de testemunha, preso entre a curiosidade e a incerteza de continuar assistindo.

5) EXTERMÍNIO: A EVOLUÇÃO (28 Years Later)

Sinopse: Um grupo de sobreviventes do vírus da raiva vive em uma ilha. Quando um do grupo deixa o refúgio em uma missão no continente, ele descobre segredos, maravilhas e horrores que transformaram não apenas os infectados, mas outros sobreviventes. 

Extermínio: A Evolução é um retorno ao universo de apocalipse zumbi com uma sensação incômoda de familiaridade, o que por si só, é um elogio. Filmes sobre Apocalipse Zumbi podem ter se tornado lugar comum, mas este consegue de alguma forma se reinventar e acenar com uma nova trilogia. Passando-se 28 anos após a queda da Inglaterra, o filme entende que o verdadeiro terror da franquia nunca esteve nos infectados correndo e gritando, mas no colapso lento da sociedade. O mundo já teve tempo de se adaptar ao vírus, e é justamente essa adaptação que assusta: comunidades fechadas, regras brutais e uma normalização da violência que transforma sobrevivência em algo quase mecânico. O clima é seco, pessimista e constantemente tenso.

O horror funciona em duas frentes bem claras. De um lado, a ameaça física na forma dos zumbis rápidos, caóticos e implacáveis, assegurando a sensação de perigo que marcou a franquia Extermínio. Do outro, o filme investe pesado no terror humano: decisões morais duvidosas, paranoia coletiva e a linha cada vez mais borrada entre proteção e crueldade. Não há espaço para conforto aqui; cada escolha parece dúbia e o medo vem tanto do que está fora dos muros quanto do que cresce dentro deles.

No fim das contas, Extermínio: A Evolução aprofunda o pessimismo da série. É um filme sobre o que sobra depois do apocalipse — não só em termos de mundo, mas de humanidade. O terror não está apenas na possibilidade de infecção, mas na constatação de que talvez não haja mais nada a "salvar" além de sobreviver por mais um dia. É brutal, desconfortável e coerente com a proposta original.

4) PECADORES (Sinners)

Sinopse: Dispostos a deixar suas vidas conturbadas para trás, irmãos gêmeos retornam à sua cidade natal na época da Lei Seca para recomeçar suas vidas do zero. Lá descobrem que um mal está à espera deles.

Pecadores é aquele tipo de terror que te deixa desconfortável antes mesmo de algo acontecer. A história gira em torno de personagens cheios de culpa, jogados num ambiente onde religião, moral e julgamento andam de mãos dadas — e isso já cria um clima esquisito por si só. Desde o começo dá pra sentir que ninguém ali está em paz, e o filme se diverte esticando esse mal-estar até um limite quando tudo vai pelos ares. 

O terror aqui não vem dos monstros escancarados, mas da pressão psicológica. Pecadores brinca com símbolos religiosos, ideias de castigo e aquela sensação incômoda de estar sendo observado ou julgado o tempo todo. Quando a violência irrompe, ela é direta, sem glamour, quase como uma punição inevitável. Não é um filme interessado em te fazer o público pular da cadeira, mas te deixar pensando: "ok… isso aqui está indo pra um lugar bem ruim".

No fim das contas, Pecadores funciona melhor quando você entra no clima e aceita esse terror mais moral e psicológico. Sim, tem vampiros, mas eles são uma alegoria. É um filme que provoca mais desconforto do que medo, mais reflexões do que sustos.

Eu sei que é o favorito de muitos, achei um bom filme, mas pra ser sincero, também achei um tanto pretensioso.

3) COLHEITA ESTRANHA (Strange Harvest)


Sinopse: Um documentário sobre os crimes e a perseguição de dois detetives por um assassino em série chamado Mr. Shiny, que aterrorizou o sul da Califórnia por quase duas décadas.

Este pequeno filme independente é para mim, a maior surpresa do ano. Ele mistura documentário de true crime, com horror sobrenatural e notas dissonantes de Horror Cósmico. 

Strange Harvest se apresenta como um falso documentário sobre a ascensão e o legado de um serial killer diabólico conhecido como Mr. Shiny. Misturando entrevistas, imagens de arquivo e reconstruções que borram a linha entre investigação criminal e espetáculo macabro. Desde o início, o filme cria uma sensação incômoda ao tratar a violência com uma frieza quase burocrática, como se o horror já tivesse sido absorvido pela mídia e transformado em conteúdo. O tom é perturbador, e a estrutura documental ajuda a vender a ideia de que aquilo poderia muito bem ser real.

O terror não vem de perseguições ou sustos típicos de filmes sobre maníacos mascarados, mas da forma como os crimes são narrados, analisados e, aos poucos, normalizados. Mr. Shiny funciona menos como um monstro e mais como uma presença constante, quase mítica, construída pelo inconsciente coletivo, pelas especulações e pela obsessão do público. O filme explora bem esse desconforto ao mostrar como investigadores, jornalistas, familiares e curiosos acabam orbitando o assassino, transformando sua violência em narrativa — e, sem perceber, alimentando o próprio mito que dizem querer desmontar.

No fim, Strange Harvest é um terror seco e inquietante, mais interessado em provocar mal-estar do que em chocar visualmente. O mockumentary funciona como crítica ao fascínio por serial killers e à maneira como o horror real é consumido como entretenimento. Não é um filme que te deixa tenso pelo que aparece na tela, mas pelo que é sugerido o tempo todo: a ideia de que, em meio a tanta exposição e curiosidade mórbida, o verdadeiro horror talvez seja o quanto nos acostumamos a olhar para esse tipo de violência até ela parar de incomodar.

2) FAÇA ELA VOLTAR (Bring Her Back)


Sinopse: Um irmão e uma irmã descobrem que não estão seguros na casa isolada de sua nova mãe adotiva. Um estranho ritual está em curso e algo aterrorizante os aguarda.

Faça Ela Voltar é daqueles filmes de terror que já começam devastadores emocionalmente. A trama trata de luto e culpa e vai construindo uma narrativa sufocante em que a ideia de "trazer alguém de volta" soa como uma amarga esperança. O filme trabalha bem o silêncio, os espaços vazios e a sensação constante de perda, criando um clima pesado que antecede qualquer evento sobrenatural.

O terror se manifesta de forma gradual e violenta. O grande objetivo é corroer os nervos do público aos poucos, usando para isso rituais, símbolos e pequenas quebras da realidade para indicar a perversidade nas entrelinhas. Quando o horror finalmente se revela de maneira mais explícita, ele vem carregado de dor e desconforto. Aqui, o sobrenatural não é um espetáculo, mas uma consequência direta da incapacidade das pessoas em aceitar a morte.

A grande questão é até onde alguém iria para desfazer uma perda e o filme faz questão de mostrar que algumas portas nunca deveriam ser abertas. É um horror perturbador, com um ator mirim que realmente me deixou apavorado, não só pela interpretação, mas pela forma como as coisas avançam. O medo de Faça Ela Voltar está naquilo que é sugerido e não o que se vê. É um ótimo filme, mas o melhor do ano é...

1) A HORA DO MAL (Weapons)


Sinopse: Várias histórias de Horror interrelacionadas ao desaparecimento de estudantes do ensino médio em uma pequena cidade acabam conduzindo a uma revelação devastadora.

A Hora do Mal começa como um mistério inquietante e rapidamente se transforma em algo muito maior — e mais perturbador. O desaparecimento simultâneo de várias crianças, todas na mesma hora exata da madrugada, cria um vazio impossível de ignorar. O filme entende que o terror mais eficaz nasce da ausência: quartos vazios, camas intactas, relógios marcando o momento em que tudo deu errado. Não há explicações razoáveis, só a sensação crescente de que algo antigo, deliberado e cruel está em movimento.

O horror é construído com paciência e inteligência através de histórias separadas que se cruzam e se complementam. Weapons aposta num clima de paranoia coletiva, onde adultos entram em colapso enquanto tentam dar sentido ao impossível. O medo não vem apenas do que pode ter levado as crianças, mas da forma como a comunidade reage — suspeitas, culpa, histeria e a necessidade desesperada de encontrar um culpado. Quando o terror finalmente se manifesta de maneira mais direta, ele vem carregado de estranheza e brutalidade, como se a lógica do mundo tivesse sido substituída por outra coisa, muito mais hostil.

No fim, A Hora do Mal se firma como um terror sobre perda, impotência e o medo de não conseguir proteger quem se ama. É um filme que assusta não por monstros claramente definidos, mas pela ideia de que o mal pode agir de forma coordenada, silenciosa e inevitável nas mãos de pessoas dispostas a manipulá-lo. O resultado é o melhor e mais efetivo horror do ano, um filme que reverbera e se mantém na cabeça por muito tempo. 

*     *     *

E é isso!

Um bom ano de Horror e Fantasia, e que 2026 traga muitos outros tão bons ou ainda melhores...  

sexta-feira, 10 de janeiro de 2025

Perseguindo Sombras - Os 100 anos e o legado imortal de Nosferatu


Para muitos fãs de horror, o filme Nosferatu de Robert Eggers é o filme mais esperado do ano, talvez, até mesmo da década até aqui. Ele teve uma história conturbada com muitos trancos e barrancos ao longo do caminho antes de finalmente chegar às telas após quase uma década em produção. 

Sem dúvida, há muito em jogo e esse é um legado difícil de seguir dada a importância das obras que o antecederam, mas se o burburinho pré-lançamento servir como indicativo, o filme deve exceder as expectativas monumentais ao seu redor.

A história de Nosferatu remonta a mais de cem anos e é um dos maiores e mais consistentes legados de terror no cinema. Ostensivamente ele reconta a trama clássica de Drácula, mas com fundamentos muito mais sinistros do que a maioria das histórias "oficiais" do vampiro mais famoso de todos os tempos. Nosferatu em todas as suas formas se inclina para as ideias de peste, desespero e ocultismo com imagens que estão entre as mais perturbadoras de todo gênero Terror. 

Vamos falar um pouco de cada uma dessas encarnações do terrível Conde Orlock nas telas:

Nosferatu: Uma Sinfonia de Horror (1922)

Embora o filme original tenha sido atribuído ao brilhante diretor alemão F.W. Murnau, a verdadeira força motriz por trás de Nosferatu: Eine Symphonie des Gauens foi seu produtor/diretor de arte Albin Grau. A grande historiadora do cinema expressionista alemão Lotte H. Eisner descreveu Grau como um "espiritualista ardente", mas hoje podemos muito bem chamá-lo de ocultista devoto. Ele viu imediatamente o potencial cinematográfico de Drácula de Bram Stoker, mas não tinha, nem ele e nem sua pequena produtora, a Prana-Film recursos suficientes para adquirir os direitos sobre o romance. Sendo assim, ele, junto com o roteirista Henrik Galeen, elaborou um roteiro que eles acreditaram poderia escapar despercebido do olhar atento da viúva de Stoker, Florance. 

O roteiro alterou os nomes e os locais do romance, mantendo sua estrutura básica. Jonathan Harker se tornou Hutter, Mina se tornou Ellen, Van Helsing se tornou Professor Bulwer, Renfield se tornou Knock e Drácula se tornou Conde Orlok. A ação principal foi traduzida da Inglaterra para a cidade de Wisborg, Alemanha. Na verdade, todo o romance complicado é simplificado para três cenários principais: o Castelo na Transilvânia onde Orlok vivia, o navio que o leva até Wisborg e a pequena cidade alemã em si. São três ambientes distintos que reúnem o início, meio e fim da trama.

O que dá a Nosferatu seu caráter singular são os muitos desvios do material de origem. Embora as raízes da história original ainda sejam identificáveis, ela ganha um caráter diverso pelas referências visuais únicas. Isso é percebido mais claramente no visual macabro do Conde Orlok, uma aparência única e diferente do idealizado por Bran Stoker em seu romance. É bem provável que a forma tétrica do conde tenha sido projetada por Grau, como implícito em seus desenhos de pré-produção. Seu vampiro não tem nada de charmoso, belo ou atraente - pelo cntrário, ele é monstruoso até a última fibra de seu ser. Grau muito acertadamente escolheu destacar as características físicas do ator Max Schreck usando maquiagem e próteses, dando destaque a sua cabeça calva e concedendo a ele dentes afiados localizados centralmente em sua boca. O resultado final é assustador, o vampiro ganhou uma aparência única de morcego ou rato que ressaltou os temas de peste do filme. 

Assim como no remake de Egger, o Nosferatu de Murnau estava a apenas quatro anos do auge de uma pandemia global que ceifou milhões em todo o mundo. As pessoas ainda se recuperavam de suas perdas e  filme ganhava dimensão ao acessar esse drama recente. Justa ou injustamente, o rato serviu como símbolo da peste por séculos, graças ao seu papel na disseminação da peste bubônica por toda a Europa medieval. Em retrospectiva, a praga de ratos também pode ser interpretada como uma indicação do clima político e social da Alemanha sob a República de Weimar, que governou a nação do fim da Primeira Guerra Mundial até 1933, como sendo solo fértil para ideias pestilentas se consolidarem. Isso, é claro, se concretizou na ascensão de Hitler e do partido nazista, apenas onze anos após o lançamento de Nosferatu.

Hoje, o filme é corretamente considerado uma obra-prima e F.W. Murnau, em grande parte por causa de Nosferatu, foi declarado por Lotte Eisner como "o maior diretor de cinema que os alemães já conheceram". A direção de Murnau, juntamente com a brilhante cinematografia de Fritz Arno Wagner, infundiu Nosferatu com algumas das imagens mais inesquecíveis de toda a história do cinema. O surgimento de Orlok de seu caixão a bordo do navio, sua sombra subindo a escada para o quarto de Ellen (Greta Schröder) antes de se estender pela porta da câmara, Orlok agarrado às molduras das janelas de sua casa abandonada. Tudo isso foi tão inovador e surpreendente que marcou um novo e vibrante estilo de filmagem. Não é de se admirar que o filme tenha capturado a imaginação de cinéfilos e cineastas por mais de um século, e é um atestado de sua importância que ele continue tão relevante.  

De certa forma, é quase um milagre que ele continue existindo. Depois que Florence Stoker soube do filme, ela imediatamente processou Grau e Prana-Film. O juiz do caso ordenou que todas as cópias do filme fossem destruídas. Há inclusive a lenda de que um procurador da viúva acabou se ferindo gravemente ao atear fogo em um rolo de filme para garantir sua destruição. Muitas cópias acabaram sendo destruídas, mas grupos clandestinos protegeram cópias que acabaram sendo contrabandeadas para fora do país. Alguns cineastas e proprietários de salas de cinema perceberam a genialidade da obra e tomaram para si a missão de preservá-la. Por muitos anos, ter uma cópia de Nosferatu podeia ser algo perigoso, já que a lei ordenara pesadas multas para quem tivesse a fita em seu poder, ou pior, a exibisse.

Nas décadas de 1930 e 1940, cópias surgiram e desapareceram. No decorrer da Segunda Guerra, algumas apareceram em Londres e foram destruídas, sobretudo por conta do sentimento anti-alemão causado pelo conflito. Contudo alguns bravos cineastas tomaram para si o dever de proteger algumas cópias e graças a eles Nosferatu pôde ser salvo. Surpreendentemente cópias originais aparecem até hoje, em coleções particulares, acervos de filmes ou até em velhos porões de cinemas desativados. Por vezes esses tesouros ocultos da sétima arte trazem cenas adicionais, imagens ou mesmo trechos em melhores condições que acabam sendo incorporados ao filme. Isso concedeu a obra um caráter de morte e renascimento bastante condizente com o tema abordado. 

Nosferatu: O Vampiro da Noite (1979)

No final dos anos 1970, o diretor Werner Herzog produziu e dirigiu dois filmes consecutivos que eram tentativas de se conectar com o melhor da herança cinematográfica alemã. O primeiro deles foi Nosferatu, o segundo, Woyzeck que começaria a ser filmado apenas cinco dias após Nosferatu ser concluído. Herzog descreveu a experiência como uma forma de se conectar com seus avôs cinematográficos. Ele frequentemente descreveu sua geração de cineastas alemães, que inclui principalmente Rainer Werner Fassbinder, Wim Wenders e ele mesmo, como uma geração sem pais porque eles tinham comprado a cultura nazista ou fugido do país por causa dela. "Como a primeira geração real do pós-guerra, éramos órfãos sem pais com quem aprender"; Herzog contou aos seus biógrafos: "Não tínhamos professores ou mentores ativos, pessoas cujos passos seguir. Isso significava que eram os avôs — Lang, Murnau, Pabst e outros — que se tornaram nossos pontos de referência."

Herzog foi atraído por Nosferatu por várias razões, não menos importante entre elas, seu sentimento de que o filme de Murnau era "o melhor filme alemão de todos os tempos". Ele buscou conexão com seus antepassados ​​criando sua própria versão dele, que ele nunca pensou como um remake. "Ele segue seu próprio caminho com seu próprio espírito e se mantém em seus próprios pés como uma nova versão", disse mais tarde à respeito do filme.

E, de fato, o filme é genuinamente único em comparação ao seu antecessor. Embora ainda incorpore alguns de seus aspectos marcantes, ele consegue certo grau de independência. Quando Herzog decidiu fazer sua versão de Nosferatu, Drácula já havia caído em domínio público há muito tempo. Ele dispensou as armadilhas do filme original que tinha a intenção de velar, ainda que superficialmente, as origens de Nosferatu no romance de Bram Stoker e escolheu chamá-lo de Conde Drácula em vez de Orlok, Hutter mais uma vez se tornou Jonathan Harker (Bruno Ganz), agora casado com Lucy (Isabella Adjani), e Roland Topor interpretou Renfield (e um dos Renfields mais bizarros e hilários da história) em vez de Knock. Os locais, no entanto, mantiveram a semelhança com o filme de Murnau, assim como o visual do vampiro, a ênfase na praga simbolizada por hordas de ratos e a centralidade de Lucy como aquela que detém o poder de destruir o mal que invadiu sua cidade natal.

Os elementos singulares que tornam esse filme algo mais do que mera repetição do original são muitos, mas os mais notáveis ​​têm a ver com o vampiro, a protagonista e a maneira como os locais são capturados no filme. O filme marcou a segunda de cinco colaborações de Herzog com o lendariamente volátil e imprevisível protagonista Klaus Kinski. Herzog o descreveu essa como a sua experiência de trabalho mais agradável. "Durante quase toda a filmagem, Klaus estava feliz e à vontade consigo mesmo e com o mundo, embora ele fizesse birra talvez a cada dois dias." 

Esta foi uma melhoria marcante em relação ao relacionamento deles em Aguirre: a Cólera de Deus (1972), que acabou sendo um mero prenúncio do furacão que estava reservado para eles em Fitzcarraldo (1982). Em Nosferatu, Herzog e Kinski buscaram "humanizar" o vampiro, dando a ele "uma angústia existencial real" que o sugador de sangue sem alma de Schreck não tinha. “Eu queria dotá-lo de sofrimento humano, com um verdadeiro anseio por amor e, mais importante, a única capacidade essencial dos seres humanos: a mortalidade”, disse Herzog, “Ele estava profundamente amargurado com a solidão e incapacidade de se juntar ao resto da humanidade.”

De muitas maneiras, o Nosferatu de Herzog deu origem aos vampiros com crises existenciais e questionamentos sobre o que eles haviam se tornado e como enxergavam um mundo que não era mais o deles. Essa linha dramática foi posteriormente explorada por inúmeros autores e diretores e serviu para oxigenar o mito dos vampiros concedendo a eles nuances que iam muito além do monstro morto-vivo.

A Lucy, de Adjani, também tem mais o que fazer do que a Ellen, de Schröder, e tem muita diligência no filme. Numa das cenas mais marcantes ela se encontra no meio da praça da cidade enquanto dezenas de caixões passam por ela nos ombros de homens que os carregam para fora da cidade. Perto dali, homens e mulheres atordoados dançam ao redor de fogueiras alimentadas pelos móveis de casas que ardem. As pessoas não precisam mais de nenhuma dessas meras posses, pois os ocupantes estão todos mortos e os ratos invadem as ruas. É uma imagem surpreendente que evoca o tema da peste, a praga disseminada e a mortalidade humana. 

Outra sequência marcante acontece no início do filme, quando Harker viaja para o Castelo Drácula a pé por paisagens impressionantes e por lugares ermos que ninguém parece ter visto em muito tempo. A sensação de isolamento é sufocante. Este é um dos maiores dons de Herzog como cineasta — ir a lugares que ninguém mais iria para nos mostrar paisagens que nunca foram vistas e posicionar sua câmera de modo que essas paisagens pareçam sobrenaturais. O filme é uma obra de beleza poética infundida com uma sensação constante e implacável de pavor.

A Sombra do Vampiro (2001)

Por mais que eu ame as versões "oficiais" de Nosferatu, e embora esta esteja fora desse reino, Sombra do Vampiro é um dos meus filmes prediletos de vampiros. A premissa do filme é bastante simples: E se o misterioso ator Max Schreck fosse realmente um vampiro? 

A trama oferece uma visão do processo da produção cinematográfica, do método usado para a produção e da natureza da própria arte em si, tudo reunido em rápidos noventa e cinco minutos. É tudo muito "rápido" e "direto ao ponto", mas não soa corrido ou apressado de forma nenhuma. Na verdade, o filme captura muito da estranheza do filme de Murnau, ao mesmo tempo em que é um drama envolvente e um filme muito, muito divertido. 

Produzido pelo astro Nicolas Cage, um entusiasta e fã assumido de vampiros, e dirigido por E. Elias Merhige, que chamou a atenção do produtor com seu filme sombrio e surreal Begotten (1989), Sombra é um casamento perfeito de cineastas e uma obra específica. Assim como Albin Grau, Merhige é fascinado pelo ocultismo e tinha um relacionamento próximo com Werner Herzog na época em que ele fez o filme. Diz a lenda que ele teria oferecido a Herzog o papel de Murnau, mas que este não aceitou apesar da insistência. Dá para imaginar como ele teria atuado, literalmente calçando os sapatos de seu ídolo, mas por outro lado não teríamos uma das grandes atuações de John Malkovich que assumiu o personagem.

Sombra do Vampiro apresenta um dos elencos mais brilhantes já reunidos para um filme desse tipo, incluindo John Malkovich como Murnau, Udo Kier como Grau, Cary Elwes como Wagner, Catherine McCormack como Greta Schröder e Eddie Izzard como Gustav von Wangenhein, que interpretou Hutter em Nosferatu. Todos têm atuações excelentes, mas Willem Dafoe como Max Schreck é nada menos que sensacional. Ele recebeu uma merecida indicação ao Oscar pela sua construção do Conde. 

O cerne do filme se concentra nos esforços que um artista (no caso o diretor) está disposto a fazer para ter sua visão concretizada, não importando os custos para si ou para qualquer outra pessoa. Os cineastas são retratados como cientistas loucos vestindo jalecos e óculos de proteção, uma necessidade na época devido aos resíduos criados pela iluminação. Murnau é regularmente chamado de "Herr Doktor" e esse tipo de Dr. Frankenstein declara repetidamente que fazer filmes é um ato de guerra. "Nossa batalha, nossa luta é criar arte. Nossa arma é o filme", ​​ele diz enquanto a equipe embarca em um trem para seu primeiro local de filmagem. Ao longo do filme a câmera é comparada a uma metralhadora. 

No final, essa versão fictícia da produção de Murnau se torna tão avassaladora que o mundo se torna o artifício e o que é filmado, a única coisa real. Sombra do Vampiro é um filme genial sobre loucura e criatividade.

É também o mais difícil de todos esses filmes de se encontrar. Apesar do elenco de estrelas, d eter sido produzido por um ícone de Hollywood e ser propriedade da Lionsgate e Universal, o filme não está disponível para streaming e permanece preso em um DVD fora de catálogo. Agora, com todo burburinho em torno de Nosferatu, nenhum filme é mais merecedor de um streaming de alta definição e lançamento físico do que esse. Para quem não assistiu, fica a dica, se conseguir colocar as mãos nele, assista.

Sombras e Influência

Vários outros filmes se apropriaram do nome de Nosferatu e o usaram para vários propósitos. 

Klaus Kinski assumiu a responsabilidade de retornar ao seu personagem vampírico, com resultados muito diferentes do filme de Herzog, em "Nosferatu em Veneza", de 1988, dirigido por Augusto Caminito e sobre o qual, quanto menos se falar, melhor. 

Mimesis: Nosferatu (2018) vê um professor do ensino médio, Professor Kinski (Joseph Scott Anthony), montando uma produção teatral de Drácula fortemente influenciada pelo filme de Murnau e estrelando um aluno obcecado por vampiros chamado Michael Morbius (Connor Alexander) no papel principal. O filme contém uma série de easter eggs relacionados a vampiros, incluindo vários nomes inspirados em Fright Night, Salem’s Lot e até mesmo Twilight. Ele também apresenta várias aparições breves de Lance Henriksen como um mentor enigmático criando um culto de vampiros no molde do Conde Orlok de Max Shreck. 

Também lançado nesse mesmo ano, após um longo período de gestação, temos "Nosferatu: Uma Sinfonia de Horror" estrelando Doug Jones no papel do vampiro. O filme, financiado por uma campanha do Kickstarter, é mais ou menos um remake cena por cena do filme de Murnau com atores modernos inseridos em recriações geradas por computador dos locais e cenários usados ​​no original. Curioso sem dúvida, embora talvez desnecessário.

Talvez ainda mais prevalentes tenham sido os muitos filmes que prestam homenagem ou refletem a influência de Nosferatu para criar vários efeitos — do assustador ao cômico. Em 1979, o mesmo ano do filme de Herzog, a produção televisiva de Tobe Hooper, "Salem's Lot" baseado na obra de Stephen King apresentou Kurt Barlow, uma criatura claramente modelada a partir do Orlok de Max Schreck. Curiosamente o personagem tem muito pouca semelhança com o personagem descrito no livro de King. 

Outras homenagens incluem Ben Fransham como Petyr no filme de mesmo nome lançado em 2014 e uma vez mais Doug Jones como o Barão Afanas na versão televisiva de "O Que Fazemos nas Sombras" (2019). No ano passado, Javier Botet interpretou o vampiro cinza, careca e com orelhas de morcego com grande efeito em "A Última Viagem do Deméter", pelo qual o personagem é creditado como Drácula/Nosferatu. 

O alcance de Nosferatu pode ser encontrado ao longo da história do cinema em personagens tão diversos quanto as formas animalescas dos vampiros em A Hora do Espanto (1985) e The Lost Boys (1987) a várias encarnações do Conde de Gary Oldman em Drácula de Bram Stoker (1992) a Marlow de Danny Huston em 30 Dias de Noite.

Parece provável que a nova versão do filme de Eggers fique ombro a ombro com o longo e imponente legado de Nosferatu. Parece que os fãs de terror estão famintos por uma releitura da versão clássica do mito do vampiro que seja genuinamente perturbadora, até mesmo, ouso dizer, assustadora. Provavelmente, e digo por mim mesmo, talvez seja o momento do vampiro clássico reclamar o status de MONSTRO uma vez mais, e se libertar da figura de criatura amargurada que o acompanha nas últimas décadas. O vampiro surgiu como um horror incompreensível, uma força nefasta de morte e esquecimento, que existe (não vive) para tornara  vida dos mortais um tormento. É para isso que ele foi criado, é para isso que precisa voltar.

Com as inúmeras variações do personagem ao longo dos anos, é revigorante retornar ao básico do porquê essas criaturas invadem nossos sonhos e nossos medos em primeiro lugar. De porque são tão fascinantes e por que o asco que deviam causar se converte em fascínio?

Há uma qualidade primitiva em Nosferatu que é encontrada além das virtudes de Drácula, ele é a fera inumana que não tem romance ou remorso, simplesmente ataca nossos medos mais profundos, sombrios e potentes em busca de sangue.

E é esse o vampiro de que sentimos saudade!

segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

A Sombra do Vampiro - A estranha carreira do astro de Nosferatu


Seu nome em alemão significava "Terror". Talvez por isso muitas pessoas acreditavam que se tratava de um pseudônimo - com certeza, nenhum artista escolhido para interpretar papéis tão terríveis poderia ter um nome tão sugestivo. Seria muita coincidência! Mas no fim das contas, não era um simples pseudônimo. Alguns então acharam que o homem não era sequer um ator, mas um morto-vivo, idêntico àquele que ele interpretava em filme. Um vampiro!

A lenda persiste há décadas e já deu origem a muitas teses, livros, monografias e até um filme chamado "A Sombra do Vampiro", dirigido pelo alemão E. Elias Merhige. Nele é postulado que o homem por detrás da incrível performance do macabro Conde Orlock, no filme seminal de horror Nosferatu (1922), não seria um ator, mas um vampiro de carne e osso. A postura, a imagem conjurada, a maneira como o ator escolheu interpretar a criatura, tudo aquilo era estranho e convincente demais.

Os próprios colegas e a equipe de produção não sabiam o que pensar do sujeito chamado Max Schreck, o homem que encarnou o primeiro vampiro nas telas do cinema. Ele era estranho, introspectivo, soturno, quieto... não se misturava aos demais, só falava com o diretor usando aquele tom gutural. Não tirava a maquiagem monstruosa e preferia usá-la sempre que estava no set. Não comia com os demais, não comemorava com eles, sequer bebia água e não se relacionava com ninguém fora de cena.


Nascido Friedrich Gustav Max Schreck em 6 de setembro de 1879 na região de Friedenau próximo de Berlin, Alemanha, pouco se sabe a respeito de seus primeiros anos. Os detalhes de sua infância e adolescência são desconhecidos. Há boatos de que ele seria um órfão, abandonado na porta de um teatro de variedades. Para ganhar comida começou a atuar no palco muito jovem. Teria trabalhado nos estranhos espetáculos de Grand Guinol, em que eram encenadas cenas de torturas, horrores e puro terror. Seu papel era de ajudante do torturador, aquele que estendia a ele os bisturis, serras e machados usados para cometer as maiores atrocidades.

Com esse começo humilde, poucos poderiam imaginar que ele se tornaria um ator de respeito. Schreck foi escalado para um papel menor numa peça apresentada no famoso Teatro Municipal de Berlin, onde chamou a atenção de críticos. Era o ano de 1902 e ele havia acabado de completar 22 anos, emergindo como um nome importante na dramaturgia da Alemanha. Não foi nos palcos, entretanto, que ele conquistaria fama, mas em uma nova mídia que estava surgindo no período, o cinema.

Antes Schreck se juntou a uma companhia de prestígio pertencente a Max Reinhardt um dos empresários mais conhecidos no país, responsável pela carreira de estrelas em ascensão. Um dos métodos da companhia de Reinhardt era filmar as performances e depois estudar a postura dos atores. Isso ajudou a familiariza-lo com as câmeras, deixando-o à vontade para atuar diante delas. No começo do século XX, o Cinema Alemão despontava como um dos mais respeitados do mundo. O movimento do Expressionismo estava em seu auge e precisava de talentos como aquele.


Sua estréia no cinema foi com o filme Tambores na Noite, produção do aclamado dramaturgo Bertolt Brecht. Dali ele foi escalado para um papel importante em "Der Richter von Zalamea". O ator magro, muito alto e com olhar expressivo era perfeito para o cinema mudo. Logo ele se tornou uma estrela.

Essas primeiras experiências na tela acabariam por atrair a atenção de um dos mais conhecidos diretores do período, F.W. Murnau, pioneiro do Cinema Expressionista. Murnau estava trabalhando em uma ambiciosa adaptação não oficial da novela de Bram Stoker, Dracula. Faltava no entanto um ator capaz de interpretar o personagem principal da maneira que Murnau desejava: um vampiro convincente. Na visão de Murnau, o Conde não seria um aristocrata ou uma alma nobre, mas um monstro assassino, uma besta que havia abandonado sua natureza humana e abraçado as paixões pelo sangue, pela morte e pelo horror. 

Mas haviam problemas ao adaptar a novela. A viúva de Bram Stoker não estava satisfeita com o roteiro dos alemães e moveu uma ação contra Murnau proibindo-o usar a história de seu falecido marido. A solução foi fazer mudanças drásticas na história, transformando o protagonista Dracula em Orlock, uma criatura das sombras que dificilmente conseguiria se misturar às pessoas sem despertar nelas pavor pela sua aparência grotesca.  

Murnau tinha dificuldade em encontrar o ator ideal para o papel, mas seus problemas terminaram quando ele se deparou com Max Schreck em uma entrevista. Após uma breve conversa, ele ofereceu o papel, mas a princípio o ator demonstrou dúvida: "Se vou fazer esse papel, eu quero liberdade para atuar da maneira que eu achar mais correta", teria dito ao grande diretor. No fim, ele acabou concordando com os termos, acreditando que Schreck seria a melhor opção de protagonista. Schreck exigiu total imersão no papel e estabeleceu uma série de regras que deveriam ser seguidas à risca. Ele seria chamado exclusivamente de Orlock dentro e fora de cena, apareceria apenas maquiado, não iria se relacionar com os colegas atores e sequer quis ser apresentado à eles. 


Seu método era excêntrico para dizer o mínimo! 

O "vampiro" se esgueirava pelos cantos do set de produção, procurando as sombras e ficava ali parado por longos minutos sem dizer uma palavra. Encarava os colegas com uma expressão curiosa como se estivesse analisando seu comportamento e como se tudo aquilo fosse incomum aos seus olhos de vampiro. Quando era chamado para uma cena, assumia a interpretação sem errar uma linha, mas também improvisava, incluindo palavras estranhas que afirmava pertencer ao seu passado. Em dado momento, quando um produtor o chamou de Max, ele se voltou para ele e ameaçou morder sua mão. Em outra ocasião teria capturado um gato preto e brincado com ele, ameaçando mordê-lo para extrair seu sangue, como um vampiro faria. Os assistentes de produção começaram a ficar assustados com aquilo. Alguns não queriam ficar sozinhos com ele. Murnau achava tudo aquilo muito interessante para o filme, a produção estava carregada com uma autêntica aura de medo. 

Outra condição era que ninguém soubesse sua identidade real. Quando atores perguntavam qual era seu nome e ele respondia sem vacilar: Orlock. "Eles me encontraram e me trouxeram aqui para contar minha história" concluía com sua voz monocórdia. Esse método estranho de incorporar o personagem começou a afetar os demais atores em cena que queriam saber quem era o sujeito. Murnau acabou aderindo, afirmando que Orlock era de fato um vampiro, convidado a participar do filme e contar sua história. Ele receberia sangue como pagamento e precisava ter sua privacidade respeitada.


A produção de Nosferatu foi concluída nos lendários estúdios da UFA com uma equipe reduzida de profissionais envolvidos. Alguns atores teriam afirmado estar aliviados com a conclusão das filmagens. Não precisavam mais contracenar com aquele sujeito estranho de aparência cadavérica.

O final das filmagens contudo não significava que a produção chegaria ao público. Nosferatu enfrentou uma tentativa de censura movida por uma Corte Alemã e correu risco de ter as cópias confiscadas e destruídas em face da ação legal movida pela Família Stoker. Murnau conseguiu preservar as cópias e as escondeu em um cofre por algum tempo, ao menos até a situação se acalmar. 

Por conta disso, o filme só chegaria ao público décadas mais tarde quando seria saudado como uma obra de arte e verdadeiro clássico da sétima arte.

Mas o que aconteceu com o estranho Max Schreck?

Ele pediu que seu nome fosse desvinculado de Nosferatu para continuar construindo a mística sobre o personagem principal. Por algum tempo, ninguém sabia quem era o sujeito atrás da maquiagem, e alguns se perguntavam se aquilo era realmente maquiagem ou a face verdadeira de um vampiro que aceitou aparecer no filme. O rumor foi alimentado pelos produtores e todos que trabalharam nas filmagens. Seu nome só foi descoberto após sua morte quando passou a ser associado a Nosferatu.


Ao contrário do que muitos imaginam, Max não se aposentou após seu papel mais marcante. Ele trabalhou em várias outras produções, inclusive com Murnau em 1924, adaptando obras de Brecht em comédias e dramas. Sua carreira sobreviveu até mesmo à introdução do cinema falado, com ele aparecendo em filmes ao longo dos anos 1930.

Após fazer um retorno triunfal aos palcos no papel do Grande Inquisidor na montagem de Don Carlos, Schreck foi levado ao hospital sentindo fortes dores no peito. Ele morreu na manhã seguinte, em fevereiro de 1936, vítima de um ataque cardíaco fulminante. Foi enterrado em uma sepultura não identificada no cemitério Wilmersdorfer em Berlin.

As pessoas próximas a Max Schreck sempre o consideravam um sujeito estranho e seus contemporâneos o tinham como um excêntrico. Seu senso de humor era ácido e negro ao extremo, chegando ao ponto de fazer brincadeira com temas controversos apenas com o intuito de chocar os ouvintes. Gostava de pregar peças nas quais fingia estar morto e numa ocasião uma ambulância teria sido chamada às pressas para ajudá-lo. Ele foi casado com a atriz Fanny Normann, mas não chegou a ter filhos.

Apesar de sua extensa carreira, Schreck seria sempre lembrado como o sinistro Conde Orlock, especialmente fora de seu país natal postumamente. Seu nome se tornou sinônimo de cinema de horror, algo que ele de fato merecia. Foi ele quem nos deu um dos primeiros monstros do cinema e fez incontáveis pessoas perderem o sono, tudo isso sem dizer uma palavra, simplesmente recorrendo a expressões e olhares. 

Ele pode não ter sido um vampiro de verdade como muitos acreditavam, mas seu legado como Nosferatu e os rumores que seu papel despertou construíram uma lenda que permanece até hoje. 


sexta-feira, 6 de setembro de 2024

Cinema Tentacular: Long Legs - Resenha do bizarro filme com Nicholas Cage

Uma jovem e brilhante agente do FBI é recrutada por seu mentor, um agente sênior para auxiliar a investigar uma série de brutais assassinatos não resolvidos. Assombrada por traumas familiares do passado, a agente mergulha em um horror que se desenrola em cantos cinzentos no interior dos Estados Unidos, aproximando-se cada vez mais de um assassino ao mesmo tempo horrível e fascinante.

Se isso soa familiar e parece a premissa de O Silêncio dos Inocentes, saiba que esta resenha vale também para outro filme lançado recentemente. No caso LONGLEGS, que segue mais ou menos a mesma premissa até que no ato final a história deixa o suspense criminal e se torna horror sobrenatural. LONGLEGS também encontra inspiração em Se7en, Hereditário, Colecionador de Ossos e outros filmes de terror e suspense que por sua vez devem muito a Hannibal Lecter e Clarice Starling. O filme é uma colcha de retalhos lindamente costurada de referências, bizarrice e estranheza.

Mas antes de começar a resenha, cabe aqui um conselho. Se você pretende assistir esse filme, talvez deva parar de ler nesse momento. Embora eu não pretenda incidir em Spoilers nessa resenha, LONGLEGS é um filme que se beneficia enormemente do desconhecimento do espectador à respeito do que vai assistir. 

Em bom português QUANTO MENOS SOUBER A RESPEITO DELE MELHOR.

A essa altura provavelmente já é difícil esconder fatos como a atuação de Nicholas Cage, as já mencionadas similaridades com Silêncio dos Inocentes e as muitas esquisitices do roteiro. Mas há muito mais sobre LONGLEGS do que isso.

Dirigido por Osgood Perkins, o filme se desenrola no início dos anos 1990, representado em gloriosa monotonia por imagens, cenários e figurino que deixam claro a época em que ele se passa. Num ambiente frio e estéril, da Costa Oeste dos Estados Unidos, sempre coberto de neve, o filme progride alternando momentos de lentidão glacial com outros de velocidade terminal, lançando a heroína, a Agente do FBI Lee Harker em um pesadelo macabro.

LONGLEGS já se inicia com uma sequência incrivelmente perturbadora com apenas um ou dois minutos de duração que prepara a plateia para o que está por vir uma mistura de elementos dissonantes que incluem crimes sanguinolentos, indícios de satanismo, humor negro, glam rock e um Nicholas Cage muito, muito, muitíssimo surtado.

De início o filme sugere ser um drama criminal no estilo procedimental em que a jovem mas promissora agente especial é escalada para capturar um assassino em série à solta. A agente, vivida por Maika Monroe demonstra possuir uma estranha sensibilidade que lhe permite compreender as motivações de criminosos violentos. Harker não é uma pessoa sociável, ainda que seja altamente intuitiva e perspicaz. Ela é recrutada pela Agente Especial Carter (Blair Underwood) precisamente por essas qualidades e se junta à investigação dos crimes envolvendo a chacina de famílias inteiras. O suspeito é alguém que se identifica apenas como Longlegs. Ele deixa na cena do crime cartas com estranhos símbolos codificados. Mais estranho ainda; as mortes ocorrem próximas do aniversário das crianças mortas causadas sempre pelo pai que é convencido a exterminar esposa e filhos em um frenesi homicida. Longlegs seria responsável por provocar a tragédia, convencendo o pai a fazer o trabalho sanguinolento, o que deixa o FBI perplexo.

Harker se envolve no caso e a medida que se aprofunda na investigação descobre possuir uma espécie de ligação direta com o assassino (o tal "vínculo mortal" sugerido no título brasileiro). Seria um elo psíquico, clarividência ou uma ligação mais íntima baseada em memórias reprimidas?

A primeira parte do filme sugere que vamos assistir um drama procedimental clássico no qual o espectador é convidado a participar da investigação e tentar determinar ele próprio quem é o assassino, qual a sua motivação e como ele age. Contudo, a medida que a coisa vai se desenrolando, a história vai ganhando nuances de sobrenatural e de ocultismo sugerindo um envolvimento diabólico na trama.

Valendo-se de um tom absurdamente sinistro e ameaçador, o filme prossegue cada vez mais sombrio acrescentando detalhes intrincados e revelando o modus operandi do maníaco. Em dado momento, o assassino parece tomar para si elementos de ocultismo, cifras misteriosas, religião e manipulação psicológica referindo a famosos homicidas que vão de Charles Manson, passando pelo Zodíaco e o Night Stalker. Mas quem seria o Longlegs e o que ele estaria tentando construir com seu rastro de mortes aparentemente sem sentido?

Maika Monroe se dedica de corpo e alma à sua personagem, deslocada e problemática caminhando na corda bamba da genialidade e desconforto. Ela fornece a Lee Harker credibilidade, sobretudo quando a história trás a tona sua conflituosa relação com a mãe que é tão (ou até mais) problemática que ela. A figura materna interpretada por Alicia Witt também acerta no tom contribuindo para o aprofundamento da história. Outra coadjuvante que também chama a atenção é Kiernan Shipka, que interpreta a única sobrevivente de um dos massacres de Longlegs e que está ali para transmitir pistas que podem revelar detalhes sobre o assassino. 

É inegável entretanto que quem rouba a cena é Nicholas Cage no papel do maníaco do título. Normalmente Cage se sente a vontade interpretando personagens esquisitos, mas aqui ele parece ligado no 220 o tempo todo, criando um maníaco absolutamente doentio. Para quem achou o Búfalo Bill de Silêncio dos Inocentes dançando Good Bye Horses vestindo uma roupa costurada com pele de mulheres a coisa mais doentia de todas, prepare-se para algo no mesmo nível. Sob maquiagem pesada que lhe concede uma aparência andrógina, o maníaco parece o resultado de dezenas de cirurgias plásticas mal executadas que tornaram sua face uma paródia de alguém que desejava ser único. E acabou se tornando único da pior maneira possível. Se por fora ele parece um retalho de ser humano, por dentro a ruína mental é ainda maior. Longlegs é total e inteiramente perturbado como fica claro em praticamente todas as cenas em que ele surge. Cage usa vozes esganiçadas e abusa de trejeitos desconexos para construir a imagem de um sujeito esquisito que fala através de metáfora e letras de músicas glam. Suas roupas e estilo também sinalizam que ele seria afeito dessa estética, bem como as fotos e pôsteres de astros do estilo como Lou Reed e T Rex nas paredes de seu esconderijo. Em retrospecto é difícil traçar quais foram as inspirações usadas pelo ator para dar vida a essa criatura, mas ele parece ter recebido total liberdade para criar essa imagem grotesca.

O diretor foi esperto em manter a aparência de Nicholas Cage em segredo, conservando a mística do monstro oculto. É inegável entretanto que quando Longlegs aparece, domina a cena e faz com que a plateia queira entender qual o problema daquele cara e o que o transformou naquilo. O fascínio pelo bizarro fica bem evidente aqui.

A explicação mais fácil para a origem de Longlegs é que ele é um desgraçado que se meteu com coisas muito perigosas e acabou consumido por elas. Ele é como um boneco nas mãos de forças demoníacas que o utilizam para espalhar o mal pelo mundo. Um mal que não precisa fazer sentido, ele é só isso: maligno. Nas mãos de qualquer outro ator, Longlegs soaria exagerado, até beirando o ridículo, mas ele caiu como uma luva para Nicholas Cage. 

Mas se é ao focar no personagem que a trama fica mais atraente é justamente quando se aproxima a conclusão que ela degringola. Ao se afastar da investigação criminal em que havia se estabelecido de maneira coerente e adentrar no terror sobrenatural a história perde um pouco seu foco. Ela puxa o tapete de baixo dos pés do espectador e a sensação é meio dúbia. A medida que fica claro que a agente está enfrentando algo obviamente sobrenatural o roteiro que vinha bem conduzido derrapa, exigindo certo grau de suspensão de crença sobre as explicações concedidas. E se estas, soam absurdas, a trama tenta corrigir simplesmente dizendo que é por conta de ser algo "sobrenatural" e portanto inexplicável.

E se você busca uma explicação razoável, isso é algo que você não vai ter aqui. Nesse quesito eu até entendo as pessoas que reclamaram do final e que enxergaram algo forçado ou até mesmo sem sentido. Talvez o fato do filme ter sido promovido como uma história mais convencional sobre a caçada a um serial killer, tenha minado a proposta original que é explorar a escuridão e a manipulação de pessoas por forças diabólicas.

A meu ver Longlegs é muito bem conduzido e acerta ao ser desconfortável em vários momentos, recorrendo mais a manipulação psicológica do que ao gore para incomodar o espectador. Amparado por uma direção eficiente e elenco afiado, em especial Nicholas Cage o filme funciona e nunca deixa de ser interessante.

Uma questão interessante é como encarar a hype sobre esse filme. Ao mesmo tempo que ajuda a vender um produto, a hype contribui para estragar a experiência quando ela termina. Nem sempre é aquilo que a gente espera,. Minha sugestão: não vá esperando "o filme mais assustadores da década" como alardeia exageradamente o cartaz. Ao invés disso espere um filme bem dirigido que entrega o que promete, uma experiência desconcertante de suspense que pode te incomodar mais ou menos dependendo da forma como você o encarar.

Trailer:

Pôster:

terça-feira, 3 de setembro de 2024

Cinema Tentacular: ALIEN ROMULUS - Resenha do Filme de Fede Alvarez


Desde o distante ano de 1979, a franquia ALIEN tem aterrorizado e entretido o público em todo o mundo por intermédio de lendas do cinema como Ridley Scott e James Cameron. Embora a franquia nos últimos filmes não tenha atingido o alto nível estabelecido nos dois primeiros filmes, cada sequência apresentou uma nova ideia, tom ou filosofia que permitiu a ela se sustentar por conta própria. 

Claro, a criação mais famosa do suíço H.R. Giger, o Xenomorfo, se manteve como a face mais popular da franquia por décadas, fixando-se no imaginário coletivo como parte indissociável da ficção científica. A criatura permanece como um ícone bizarro tão evocativo quanto na época em que foi criada. A imagem do Alien se tornou referência de medo diante do desconhecido e do imponderável e de terror perante aquilo que perverte a própria essência de quem somos. Reflexões existenciais perfeitas para um filme de horror ontem, hoje e sempre...  

Quando a Disney adquiriu a 20th Century Fox em 2019, o destino do famoso Xenomorfo ficou totalmente em aberto. É claro, seria razoável assumir que mais cedo ou mais tarde o estúdio acabaria revisitando uma de suas franquias mais conhecidas, mas a desconfiança que repousava no peito de cada fã (como um parasita crescendo ali dentro) era como o estúdio do Mickey daria continuidade a série. Um receio perfeitamente justificado visto como a Disney tratou Star Wars nos últimos tempos. Também não ajudava o estrago provocado pelos últimos dois filmes da franquia. PROMETHEUS tentou ser inovador, soprando novos ares e contando a origem das criaturas pela perspectiva de uma expedição que desvendava o segredo dos Engenheiros uma raça que semeou a vida pela galáxia. Em algum momento os tais Engenheiros teriam criado os Aliens e estes acabaram por sobrepujá-los. Infelizmente a maneira como esse roteiro chegou ao cinema causou estranhamento e dividiu opiniões, sendo que a maioria simplesmente repudiou o filme (repudiar é pouco, eu acho o lixo do lixo, mas enfim). A continuação direta de Prometheus, COVENANT tentou corrigir algumas coisas e ser mais claro, mas acabou igualmente naufragando em uma história pouco interessante e sem grande atrativo.


Isso nos leva a ALIEN: ROMULUS, a mais recente sequência da franquia projetada como um interquel se passando entre o ALIEN (1979) original de Ridley Scott e o ALIENS (1986) de James Cameron. Dirigido pelo diretor de EVIL DEAD (2013) Fede Álvarez, ROMULUS investe em algo muito comum atualmente, fazer um filme que é uma espécie de releitura e que serve como homenagem aos demais que se tornaram clássicos.  

Não foi má ideia!

Com o destino da franquia num hiato, atolado em incertezas não é nenhuma surpresa que a 20th Century Studios e Fede Álvarez tenham optado por uma abordagem de volta ao básico. Ele acerta em cheio ao buscar nos dois primeiros filmes os elementos que garantiram sua longevidade. Se ALIEN ainda desejava ser relevante e minimamente interessante ele precisava voltar às suas raízes originais e o melhor lugar para encontrar isso seria nos filmes que os fãs conhecem quase de cor e continuam amando intensamente. Trazer de volta o suspense, pavor, asco, empolgação e entretenimento de qualidade era vital e ainda bem que Alvarez compreendeu isso. 

ALIEN: ROMULUS tem uma história relativamente simples, fácil de aceitar e de acompanhar. Na trama, jovens colonizadores espaciais anseiam deixar sua vida opressiva em uma colônia escura e medonha localizada nos cafundós da fronteira controlada pela Corporação Weyland-Yutani. A protagonista é Rain Carradine (Cailee Spaeny), uma operária órfã encarregada de cuidar de seu irmão sintético e imperfeito Andy (David Jonsson). Buscando escapar desse panorama pessimista, os dois aceitam participar de uma ação desesperada. Unem-se a uma equipe que descobriu uma estação espacial abandonada repleta de suprimentos e recursos necessários para a longa jornada a um mundo melhor. Tudo que precisam fazer é ir até lá e recuperar o equipamento de que tanto precisam. Embora os esforços de coleta pareçam promissores inicialmente, a tripulação rapidamente descobre que eles não são as únicas formas de vida na estação espacial. Há algo assustador espreitando no lugar que era usado secretamente para experimentos.


É inegável que o filme faça referência direta a ALIEN, mostrando a estação como uma gigantesca casa assombrada da qual não há escapatória pois há monstros vivendo lá e a ALIENS que puxa a luta pela sobrevivência a um nível visceral cheio de reviravoltas.  

 A decisão de manter o elenco pequeno e íntimo foi em última análise uma excelente medida, mantendo o roteiro mais focado nos personagens. Isso funciona porque os personagens são bem construídos e interessantes, o que faz sentido já que a história se desenvolve a partir de seus dramas, dúvidas e incertezas. Na vanguarda de ROMULUS está o relacionamento entre a protagonista Rain e Andy, cuja dinâmica de irmãos fornece um ângulo simpático e sincero que os torna fáceis de se conectar. Quando eventualmente o conflito entre eles aflora, na segunda parte da trama, há uma mudança interessante em como ela irá lidar dali em diante com seu irmão artificial. Rain e Andy são, sem dúvida uma grande adição para a galeria de heróis da franquia. A performance eficaz de Cailee Spaeny e especialmente do talentoso David Jonsson soa perfeitamente convincente e é possível se conectar com eles de uma maneira que era impossível em Prometheus, por exemplo. Ao longo dos filmes de Alien tivemos atores roubando a cena no papel de androides e aqui não é diferente. 

O restante do elenco ajuda a construir a tensão que vai se tornando mais e mais sombria e asfixiante. É claro, o elenco de apoio também serve como desculpa para aumentar a contagem de corpos. Entretanto eles não somem de cena simplesmente com mortes bobas como acontece com os coadjuvantes na maioria dos filmes do gênero. Fede Alvarez reserva para cada personagem uma maneira especial de sair de cena (leia-se morrer), da forma mais grotesca possível. Por sinal, em ROMULUS temos algumas excelentes cenas de gore e terror visceral.


A produção deu grande ênfase na criação de próteses e animatrônicos, em oposição ao cenário atual de blockbusters que abusam do CGI. O filme recorre a truques práticos e recursos mais simples para se manter fiel ao espírito dos filmes originais. Como resultado os Aliens ficaram mais aterrorizantes, preservando a aura deles como criaturas bizarras e incompreensíveis que apelam a nossa repugnância ao terror corporal. As aparições deles sempre são acompanhadas de significado e de uma alta carga de tensão. Também temos várias cenas dedicadas aos Facehuggers e Chestbusters, os estágios iniciais da mutação das criaturas. De forma muito competente Álvarez garantiu que ROMULUS fosse tão perturbador para a plateia atual quanto deve ter sido para o público do ALIEN original.

Visualmente o filme foi muito bem concebido contando com uma equipe técnica extremamente eficiente, ainda que não necessariamente inovadora. Os cenários grandiosos do espaço e da face do planeta e seus anéis, alternam para o interior claustrofóbico repleto de corredores e câmaras da estação espacial abandonada. A cenografia investe no visual consagrado pelo ALIEN original onde se destaca uma tecnologia retrô com computadores de tela verde, equipamento velho, naves que parecem velhos navios de carga enferrujados e compartimentos de carga repletos de sombras. O interior da Romulus remete em muitos momentos a Nostromo com seu labirinto de corredores e acessos. 

Se o objetivo da equipe de produção era salientar que o espaço é um lugar insalubre onde você jamais se sente à salvo, parabéns, conseguiram fazer isso com louvor. ALIEN sempre foi a respeito de exploradores desesperados, gente que precisa trabalhar e vai a lugares em que a humanidade não é bem vinda. Aqui não é diferente. A música de Romulus também se encaixa muito bem com a trama. Não é aquela composição típica de filmes de terror criada para causar surpresa ou jump scare. A cargo de Benjamin Wallfisch ela toma a liberdade de utilizar pequenos trechos dos demais filmes, com ênfase em um mood pessimista que permeia toda projeção e que funciona perfeitamente.


ROMULUS é uma experiência independente, mas imbuída de constantes referências e várias citações aos demais filmes. É possível pescar essas referências à todo momento com frases de efeito, aparição de equipamentos famosos, da semiótica e com imagens que remetem diretamente aos seus predecessores, sendo a mais notória a aparição de um androide clássico da franquia. Fan service, sem dúvida, mas que funciona muito bem para satisfazer a nostalgia do público.

Com tudo isso podemos dizer que ROMULUS está em pé de igualdade com os filmes que busca tão avidamente se aproximar? 

Há alguns problemas na trama, em especial uma coisa que me incomodou um bocado que é justamente a sensação de pressa na resolução de tudo. Na porção final esse senso de urgência acaba ficando um pouco cansativo. Se por um lado eu entendo que tal coisa é necessária para criar uma sensação vertiginosa, por outro eu vejo ali um problema decorrente. Para imprimir esse ritmo acelerado, foi necessário encaixar certos elementos na trama e fazer com que tudo acontecesse muito rápido. O que mais me incomodou foi como os Aliens tinham de crescer rapidamente para justificar que se tornassem uma ameaça logo. Há alguns momentos em que é necessário fazer uma suspensão de crença e simplesmente aceitar algumas coisas para a história seguir adiante. Não chega entretanto a ser um pecado que atrapalha o filme ou torna ele menos divertido. 

No geral, ROMULUS é uma contribuição valiosa para a mitologia provando que a marca ALIEN ainda tem muito a oferecer se entregue nas mãos de alguém com paixão e respeito pela franquia.

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