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quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Comparativo: "Living Will" pela Polvo e pela Ave Rara



Nem sabem a felicidade que tive quando soube que a editora Polvo iria editar, e de forma integral, a obra Living Will, de André Oliveira, Joana Afonso e Pedro Serpa!

Esta é, quanto a mim, uma das melhoras obras da banda desenhada nacional! A esse propósito, até vos convido a mergulhar na análise que fiz a este livro, aqui.

Originalmente lançado em formato comic, pela Ave Rara, uma chancela independente do próprio André Oliveira, Living Will foi-nos sendo dado aos poucos, de forma intermitente, entre os anos 2013 e 2018. No total, foram 7 mini-comics de 16 páginas que nos ofereceram uma história linda sobre a vida, sobre os remorsos, sobre o amor, sobre o passado, sobre a redenção.

É a obra onde, a meu ver, André Oliveira se demonstrou mais inspirado, com um texto completamente quotable e uma história profunda, ora amarga, ora doce. Por seu turno, Joana Afonso afirmou-se de vez como uma das mais importantes figuras da ilustração de banda desenhada em Portugal. Infelizmente, possivelmente por indisponibilidade de tempo, Joana Afonso foi substituída em dois dos sete volumes da série por Pedro Serpa. Não querendo, de forma alguma, descurar o comprometimento e talento do autor, é inegável que a continuidade visual da obra se (res)sentiu nesses números assinados por Pedro Serpa, o que foi uma pena.




A edição original da obra foi feita na língua inglesa para chegar a um mercado mais internacional. Percebo perfeitamente a razão, como é óbvio, mas era lamentável que esta obra, feita por portugueses, não estivesse disponível na sua língua materna, o português.

E é, também por isso, que fiquei muito feliz com esta edição da Polvo. Porque mais que fazer chegar esta bela obra aos leitores portugueses, fazia sentido que isso fosse feito em formato integral e, claro, na língua portuguesa. 

E só com essa cajadada, a Polvo mataria logo dois coelhos. E a editora não se ficou por aí! Mas já lá iremos.

Esta nova edição tem duas capas novas, à escolha. No meu caso, o meu livro tem a capa amarela, onde nos aparece o protagonista da história, Will, o seu cão e fotografias das várias personagens que aparecem na obra. Uma capa bonita que me remete para a igualmente bela capa de Rugas, de Paco Roca. Existe ainda outra capa, na cor roxa, que também funciona muito bem.




Esta nova edição tem generosas 180 páginas e é-nos dada em capa mole, com badanas. É uma edição bonita e respeitosa, mas tendo em conta a qualidade e a relevância da obra em questão, bem como não esquecendo que esta edição procura ser uma edição definitiva da obra, julgo que teria sido melhor se a edição fosse em capa dura. Não me chateiam as capas moles, mas acho que as capas duras granjeiam mais prestígio, requinte e durabilidade aos livros. E Living Will merecia-o.

Falando ainda em coisas menos positivas, talvez o formato da edição da Polvo pudesse ter sido um pouco maior. É quase igual ao formato original, sim, mas mesmo assim é um pouco menor.

Mas, apontadas as coisas que considero como menos positivas nesta edição, há que referir que são muitas as coisas positivas.

Desde logo, porque o "formato livro" supera, a todos os níveis, o "formato revista" em que a obra foi originalmente lançada. Respira melhor, nãose dispersa e permite que o leitor possa degustar a obra com mais afinco.



Uma coisa que apreciei nesta edição da Polvo, em que parece ter havido um carinho e cuidado especial para com a obra, foi que as belas capas dos sete capítulos originais não se perdessem. 

Todas elas servem como separador entre histórias. Talvez pudesse ter sido colocada a versão completa das ilustrações, uma vez que, originalmente, eram de dupla página, servindo a capa e a contracapa de cada livro, mas também não sei como isso poderia ter sido feito, sem aumentar o número de páginas do livro e sem distorcer a ordem das páginas.




Além disso, também gostei que até mesmo aquele breve sumário da história com que terminava cada um dos sete números, fosse resgatado nesta nova edição sempre que um capítulo termina. Teria sido uma pena tirar essa componente de séria televisiva a Living Will que é mais uma das (muitas) coisas que tanto aprecio nesta edição. 

Foi, portanto, uma escolha acertada nesta nova edição.




Embora esta nova reedição seja bastante fiel à edição original da Ave Rara, tendo a mesma font para a balonagem, inclusive, nota-se, especialmente logo no primeiro capítulo da história, que houve um reajuste da cor, passando agora a ser muito mais suave e agradável.

Nota positiva para essa alteração.




Além disso, e já olhando para os inúmeros extras que, generosamente, esta nova edição da Polvo nos traz, o livro abre com uma nota introdutória em que André Oliveira disserta sobre a feitura da obra e sobre o atual momento da mesma.




Além disso, a nova edição da obra inclui uma entrevista/conversa ente Gabriel Martins e os três autores, bem conduzida, que responde a algumas questões que, certamente, muitos dos leitores poderiam formar na sua cabeça. 

E são essas as entrevistas que, quanto a mim, são bem feitas. Portanto, trata-se de mais um bom acrescento à nova edição da obra.




Além disso, há também espaço para que muitos autores consagrados da banda desenhada nacional homenageiem esta obra através das suas próprias ilustrações. 

São 13 estas ilustrações adicionais e apresentam um estilo que, naturalmente, é muito belo pelo seu ecletismo e capacidade artística dos autores que participam nesta homenagem conjunta, que são os seguintes: Filipe Andrade, Joana Mosi, Pedro Brito, Catarina Paulo, Francisco Sousa Lobo, Carla Rodrigues, Paulo Monteiro, Kachisou, Carline Almeida, Inês Galo, Filipe Abranches, Miguel Rocha e Jorge Coelho.




Há ainda espaço para seis páginas dedicadas a esboços e estudos de personagem por parte de Joana Afonso, que são um deleite para os olhos.




Por fim, a cereja em cima do bolo e talvez a grande iniciativa desta bela edição, é que este livro reúne um capítulo extra e inédito, feito de propósito para esta edição. 

É uma história de 18 páginas, onde mergulhamos na relação conturbada entre pai e filho e na importância, quer pelo lado positivo, quer pelo lado negativo, do pugilismo nas suas vidas. É uma história pungente e sentimental, em que André Oliveira se mantém inspirado e onde fica claro como a evolução de Joana Afonso tem-se registado de álbum para álbum, de história para história. 

Joana Afonso já era detentora de um talento especial em 2013, quando começou este Living Will, mas, em 2025, o seu talento é ainda mais exponencial. 

Que excelente ideia incluir esta história adicional na edição!



Não sei se têm ou não os 7 fascículos da primeira edição de Living Will. Quer os tenham ou não, parece-me que a compra deste novo livro da Polvo se assume como obrigatória. Qualquer amante de (boa) banda desenhada deve ler Living Will!

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Comparativo: "Silêncio" pela Devir e pela Bertand


Hoje trago-vos um comparativo entre duas edições separadas por mais de 30 anos!

A obra em questão é a importante Silêncio, de Comès, que aquando do seu lançamento original, em 1980, alcançou o prémio de Melhor Álbum em Angoulême.

É um belo livro, bastante original, quer na componente narrativa, quer na componente visual, que aconselho a qualquer leitor.

De um lado temos a edição da Bertand Editora, de 1993, e do outro lado temos a mais recente versão da obra lançada para o mercado português pela editora Devir, inserida na sua Coleção Angoulême. Relembro ainda que a obra já havia sido lançada pela ASA, em dois volumes, a cores.

sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Comparativo: "Mattéo" pela Ala dos Livros e pela Vitamina BD


Hoje trago-vos o comparativo entre o primeiro volume da série Mattéo, de Jean-Pierre Gibrat, recentemente editado pela Ala dos Livros, e a primeira edição portuguesa da obra, de 2009, pela editora Vitamina BD que, infelizmente, acabou por deixar de existir.

E devo ser-vos franco: não existem substanciais diferenças entre uma e outra edição.

E isso prova que, de facto, o trabalho que a Vitamina BD tinha feito com esta obra era de excelente qualidade. E, claro, de excelente qualidade também é o trabalho que a Ala dos Livros coloca na suas edições. Mas isso já não é, creio, novidade para ninguém.

Olhando então para os dois livros, lado a lado, os mesmos apresentam o mesmo formato. Bem, o da Vitamina BD parece ser uns milímetros (um ou dois milímetros, se tanto) maior do que o da Ala dos Livros.

Ambas as edições apesentam a mesma ilustração de capa, embora, se olharmos com atenção, o corte da ilustração, em termos de margens, é ligeiramente diferente entre os dois livros.

A versão da Ala dos Livros conta com detalhes a verniz, na capa e na contracapa, enquanto que a versão da Vitamina BD não tem este pequeno detalhe de requinte. A Vitamina BD optou por colocar o logótipo da editora na capa, enquanto que a Ala dos Livros o colocou na contracapa.



Em termos de lombada, os livros são praticamente iguais, excetuando o facto do sentido do texto ser oposto. Para quem está a fazer a coleção pela Ala dos Livros, mesmo que até já tenha a edição da Vitamina BD, talvez este seja um detalhe importante e positivo.




Detetei que o nome do autor na lombada da Ala dos Livros está ligeiramente desfocado. Não é algo que chame muito a atenção, mas é um pequeno erro, provavelmente de impressão - ou de preparação do ficheiro para impressão.




As próprias guardas dos dois livros são praticamente iguais, tal como também o são as folhas de rosto de cada um dos livros.




Quanto à qualidade da impressão, os dois livros apresentam cores praticamente iguais, não sendo óbvias a olho nu as diferenças entre cor. 

Talvez a edição da Ala dos Livros tenha os níveis de cor e luz mais bem equilibrados do que a edição da Vitamina BD. Mas nada que seja sobejamente visível.




O que é diferente é, para além da tradução da obra, o tipo de letra utilizado nos balões e legendas.

Ambas as fonts são bem escolhidas, se bem que até sou capaz de preferir - mas talvez por uma questão de afinidade à primeira edição que tive da obra - a font utilizada no livro da Vitamina BD. 

E isso é especialmente verificável na carta. Ora vejam:




Seja como for, compreendo que a Ala dos Livros esteja a uniformizar, como é óbvio, as fonts utilizadas em todos os livros, tendo em conta que já publicou toda a série, excetuando o segundo tomo que há de chegar até nós brevemente.




Mesmo em termos de extras, nenhum dos livros os contém, pelo que, também neste cômputo, as duas edições são iguais.

Em suma, não há nesta nova edição do primeiro tomo de Mattéo, por parte da Ala dos Livros, grandes diferenças, para melhor ou para pior, face ao trabalho que já havia sido feito com a edição da Vitamina BD. Portanto, a questão mais importante a reter é que este primeiro volume, que estava completamente esgotado, volta a estar disponível no mercado nacional. Essa é a boa notícia! 

Foram bastantes as pessoas que me escreveram a queixarem-se de que não podiam encontrar os dois primeiros volumes da série, o que era dissuasor para investirem em Mattéo. Agora que este primeiro volume da série volta a ser publicado - e tendo noção que já não faltará muito até que o segundo volume também o seja - ainda há menos razões para que os leitores de BD de qualidade superior não apostem neste trabalho de Gibrat, pois é fantástico é totalmente aconselhável.


quinta-feira, 23 de outubro de 2025

Comparativo: "A Vida Oculta de Fernando Pessoa" pela Iguana e pela Bicho Carpinteiro

 

Comparativo: A Vida Oculta de Fernando Pessoa pela Iguana e pela Bicho Carpinteiro

Hoje trago-vos um comparativo entre as edições da Iguana e da Bicho Carpinteiro referentes ao livro A Vida Oculta de Fernando Pessoa, da autoria de André F. Morgado e Alexandre Leoni.

Este é um livro muito interessante e altamente recomendado, que consegue o duplo feito de entreter enquanto educa, numa história mirabolante que coloca Fernando Pessoa em contacto com zombies - e com os seus famosos heterónimos - e onde o português Andre F. Morgado se revelou especialmente inspirado. Além de que o autor brasileiro Alexandre Leoni também nos brinda com um belo e cativante trabalho nas ilustrações e cores. É um livro que, aliás, até espero vir a analisar num futuro próximo.

Mas, por ora, concentro-me nas principais diferenças entre as duas edições.

Recordo que a obra começou por ser editada pela Bicho Carpinteiro, uma editora independente da qual André Morgado é um dos responsáveis. Isso aconteceu há 10 anos. Chegou a haver, depois, uma segunda edição da obra pela mesma editora, mas agora que o livro se encontrava esgotado e virtualmente impossível de encontrar, é com bons olhos que vejo que este importante trabalho, com forte apelo comercial, volta a estar disponível. Neste caso, pelas mãos da Iguana, uma chancela do gigante editorial Penguin Random House.

Comparativo: A Vida Oculta de Fernando Pessoa pela Iguana e pela Bicho Carpinteiro


Embora não haja diferenças gritantes entres as duas edições, há várias coisas que foram alteradas nesta nova edição da Iguana.

Desde logo, a ilustração da capa. Volta a ser um belo desenho, bem chamativo e impactante aquele que a nova edição da Iguana enverga, mas creio que, mesmo assim, o desenho contido na edição da Bicho Carpinteiro - na sua segunda edição, que é aquela que utilizo para este comparativo - era ainda melhor. Não o refiro apenas por uma questão de gosto pessoal, mas porque retratava melhor a iconografia de Fernando Pessoa. Não é que o desenho da mais recente edição não nos faça pensar em Fernando Pessoa assim que o vislumbramos. Faz. Mas não creio que a ligação seja tão óbvia. Poderia ser uma personagem - um assassino contratado? - de, por exemplo, um filme de ação.

Avançando, também o grafismo dos tipos de letra utilizados na capa e contracapa foram alterados. Tratando-se aqui de uma questão de gosto pessoal, devo confessar que também preferia os da edição da Bicho Carpinteiro. Eram mais bem arrumadinhos e tinham um estilo vintage que era mais do meu agrado, embora também reconheça que o lettering do título da nova edição seja chamativo.

De resto, e ainda olhando para as capas, ambos os livros apresentam capa dura baça, sendo que a edição da Iguana apresenta verniz localizado no título da obra, o que é um pormenor bem-vindo.

O formato do livro é praticamente o mesmo nas duas edições, embora a edição da Iguana seja ligeiramente - meio centímetro, talvez - menor do que a edição da Bicho Carpinteiro.


Comparativo: A Vida Oculta de Fernando Pessoa pela Iguana e pela Bicho Carpinteiro


A questão da dimensão dá para ver bem quando colocamos as duas lombadas lado a lado. 

Lombadas essas que, sendo naturalmente diferentes, me fazem preferir, desta vez, a edição da Iguana que é mais chamativa e mais legível.


Comparativo: A Vida Oculta de Fernando Pessoa pela Iguana e pela Bicho Carpinteiro


No miolo, devo dizer que o tratamento de cores das duas edições é bastante semelhante entre si, sendo as duas edições bastante boas. Não notei diferenças, nem para melhor, nem para pior, entre as duas edições.

Nota positiva para uma nova legendagem que, embora seja fiel à legendagem da edição da Bicho Carpinteiro, é ainda mais legível. 

Além disso, dei conta que o texto da obra foi melhorado nesta edição da Iguana, o que é sempre louvável.


Comparativo: A Vida Oculta de Fernando Pessoa pela Iguana e pela Bicho Carpinteiro


Tendo em conta que o grafismo na capa foi alterado, também é natural que o grafismo da folha de rosto tenha sido alterado.


Comparativo: A Vida Oculta de Fernando Pessoa pela Iguana e pela Bicho Carpinteiro


A nova edição da Iguana apresenta guardas mais giras e em linha com o tom da história.


Comparativo: A Vida Oculta de Fernando Pessoa pela Iguana e pela Bicho Carpinteiro


A edição da Bicho Carpinteiro apresentava 3 páginas com esboços de Alexandre Leoni - bem bonitos, diga-se - e, felizmente, isso foi mantido na edição da Iguana.


Comparativo: A Vida Oculta de Fernando Pessoa pela Iguana e pela Bicho Carpinteiro


Contudo, foi com alguma pena que verifiquei que a galeria de convidados presente na edição da Bicho Carpinteiro, que contava com 14 ilustrações belíssimas (fantásticas, mesmo!) de Fernando Pessoa, não tenha sido recuperada para esta edição. Diria que é, pois, a grande falta que sinto de uma edição para a outra porque, de resto, a nova edição da Iguana faz jus à edição da Bicho Carpinteiro, verificando-se um equilíbrio saudável entre ambas.

E, acima de tudo, sendo sempre isso, a meu ver, a coisa mais importante a reter, esta nova edição da Iguana volta a tornar disponível no nosso mercado, uma banda desenhada de origem luso-brasileira que não só foi um sucesso aquando do seu lançamento, como continua atual e apelativa para uma nova geração de leitores que começa a aprofundar os seus conhecimentos sobre aquele que foi, é e será, o maior poeta português de sempre. 

Eis um belo livro que recomendo e que será analisado por aqui brevemente.

Comparativo: A Vida Oculta de Fernando Pessoa pela Iguana e pela Bicho Carpinteiro


Comparativo: A Vida Oculta de Fernando Pessoa pela Iguana e pela Bicho Carpinteiro


Comparativo: A Vida Oculta de Fernando Pessoa pela Iguana e pela Bicho Carpinteiro



quinta-feira, 3 de julho de 2025

Comparativo: "O Meu Irmão" pela Ala dos Livros e pela Casterman

Comparativo: "O Meu Irmão" pela Ala dos Livros e pela Casterman


Comparativo: "O Meu Irmão" pela Ala dos Livros e pela Casterman
Tenho tanto para escrever sobre O Meu Irmão, uma das mais recentes obras publicadas pela editora Ala dos Livros - obra que se assume, facilmente, como um dos grandes livros de banda desenhada de 2025 - que este artigo terá que ser, forçosamente, um artigo diferente de todos os outros que faço aqui no Vinheta 2020.

Bem, se querem uma análise à obra, podem encontrá-la aqui, pois já analisei o livro, por altura do seu lançamento oficial em França, pela editora Casterman. Depois de reler a obra na sua edição portuguesa, dei por mim a reler também o texto que escrevi aqui previamente para o blog.

Nessa altura, também não pude, obviamente, ficar indiferente a tão fantástica obra, deixando até o seguinte apelo "quanto tempo passará até que uma editora portuguesa aposte neste livro maravilhoso?" e concluí afirmando que "esta obra traz consigo uma das leituras mais comoventes e emocionantes que fiz nos últimos anos e que, indubitavelmente, merece ser publicada por cá. (...) é um livro demasiado bom para que a aposta não seja feita. Formidável!"

Comparativo: "O Meu Irmão" pela Ala dos Livros e pela Casterman
Dessa altura para cá, mantenho a opinião de que estamos perante um livro obrigatório, que todos deveriam ler, que nos toca no âmago do nosso ser e que é exemplo claro do quão profunda, bela e enriquecedora pode ser uma obra de banda desenhada. Portanto, talvez nada tenha mudado sobre a minha perceção sobre a obra.

Ou talvez tenha mudado algo. Mas para melhor.

O que me leva a outra questão que quero aqui abordar: o tema da tradução, da obra traduzida. Há uma corrente de pensamento que refere que quando lemos uma obra na língua original em que esta foi feita, estamos a saboreá-la, a degustá-la e a conhecê-la "como deve ser". Da forma mais correta. Concordo e discordo com esta afirmação. Concordo porque, de facto, é verdade que não há um intermediário - na pessoa de um tradutor - que possa alterar/adulterar a obra, desvirtuando-a. É, pois, o estado mais puro de mergulharmos na obra. Certo. Por outro lado, discordo no sentido em que uma boa tradução - como é o caso daquilo que acontece neste O Meu Irmão - permite-nos um mergulho menos condicionado pela questão linguística da obra.

Explico.

Comparativo: "O Meu Irmão" pela Ala dos Livros e pela Casterman
A maioria das pessoas - excetuando da equação, e desde já, todos aqueles que têm "fluência total" de mais do que uma língua, - tem uma língua materna, uma língua em que pensa e sonha, que lhe é inata. E mesmo que essas pessoas saibam outras línguas por as terem praticado ou aprendido em contexto letivo, profissional ou lúdico, conhecem e dominam melhor, ainda assim, a língua materna. Ora, quando lemos noutra língua que não a nossa língua materna, estamos sempre a associar os vocábulos de uma língua para a outra, fazendo a transição mental entre uma e outra língua. É claro que quanto mais praticarmos ou conhecermos a língua estrangeira, mais natural e fluído será este processo. Mesmo assim, é um processo que existe sempre.

Ora, os meus conhecimentos da língua francesa são bastante limitados. Diria que compreendo uma grande percentagem - quase tudo - daquilo que leio em francês, mas não serei tão bom a decifrar a língua na oralidade e, muito menos, a exprimir-me em francês. E refiro isto porque, no caso em questão, compreendi toda a obra Le Petit Frère em francês, claro, até porque o texto nem é particularmente difícil ou técnico. No entanto, depois de ler a obra em português, não tenho dúvidas de que pude mergulhar melhor na mesma. Como não tive necessidade de fazer a tal transição entre vocábulos de uma língua estrangeira para a minha língua materna, pude mergulhar de forma mais natural, mais fluída e mais genuína na leitura.

Comparativo: "O Meu Irmão" pela Ala dos Livros e pela Casterman
E por que razão falo desta questão da tradução neste artigo dedicado a O Meu Irmão? Bem, por um lado, para referir que, de facto, é muito importante que haja em Portugal obras traduzidas para a nossa língua mãe, por muito fluentes que sejamos - ou que achemos que somos - em línguas estrangeiras. Até porque isso permite que a obra possa chegar a mais gente, o que é benéfico para o próprio setor. 

Por outro lado, ler a obra em português permitiu-me gostar ainda mais dela. Na análise que fiz à obra, que considerei praticamente perfeita, com uma nota de 9.8 em 10.0, considerei que o único ponto menos positivo da mesma era que, de alguma forma, a história da morte, velório e outros trâmites associados aos mesmos fossem contados em demasiadas páginas. Na altura, escrevi: "Se há algo que posso criticar de forma menos positiva é que, enquanto lia a obra, fiquei com a ideia que a mesma poderia ser contada em 200 páginas, em vez de 344 páginas. Com efeito, até me pareceu que Jean-Louis Tripp estava a “puxar a barra” dramática em demasia." Ora, hoje em dia, e depois de lida a obra em português, e embora concorde com todo o resto que escrevi, discordo deste ponto em concreto do livro ter demasiadas páginas. Foi por ler em português que consegui mergulhar mais densamente na história e, atualmente, acho que, sim, todas aquelas 344 páginas eram necessárias.

Comparativo: "O Meu Irmão" pela Ala dos Livros e pela Casterman

É um livro fantástico, que nos toca no fundo e que pode mudar uma vida. A minha, mudou, sem dúvida. Perder um ente querido completamente saudável num acidente de viação obriga a família a um inesperado e doloroso luto que deixa marcas ao longo de toda a vida. E, infelizmente, as mortes em acidentes de viação são algo que se mantém presente nos nossos dias, fazendo com que este tipo de histórias se tornem em algo universal e presente. Ainda hoje, no dia em que vos escrevo, foi tornada pública a morte dos futebolistas Diogo Jota e André Silva num acidente de viação, o que faz com que a reflexão que O Meu Irmão nos traz, ressoe ainda mais. 

Sim, considero O Meu Irmão, um livro: 

NOTA 10.0 em 10.0.

Para isso, também contribui a fabulosa edição da Ala dos Livros!

Há que o dizer: há algumas editoras em Portugal - e, sem desprimor para as demais, a Ala dos Livros consegue ser o melhor exemplo disto - que fazem melhores edições para Portugal do que as edições originais francesas.

A edição de O Meu Irmão supera, a todos os níveis, a edição original da editora Casterman.

E é por isso que este artigo também é um comparativo.

Como se não bastasse o cuidado com que as edições da Ala dos Livros são feitas, para este livro em específico ainda se juntou o nome de Mário Freitas que com todo o seu perfeccionismo e conhecimento, contribuiu para que a legendagem, grafismo e design de capa fossem muito bem trabalhados.

Comecemos então por isso, pela capa.

Comparativo: "O Meu Irmão" pela Ala dos Livros e pela Casterman


A edição portuguesa da obra apresenta uma capa diferente da capa original. Pessoalmente, prefiro a opção portuguesa que é mais equilibrada em termos visuais, permitindo que o título não seja apresentado em letras tão garrafais como na edição original da obra, embora seja, ainda assim, bastante legível e chamativo. 

A própria colocação da imagem das duas mãos que se separam é uma visão constante ao longo da obra e, portanto, coaduna-se muito bem.


Comparativo: "O Meu Irmão" pela Ala dos Livros e pela Casterman


Ao contrário da edição da Casterman, que apresenta capa mole com badanas, a edição portuguesa do livro oferece capa dura baça, com um material muito suave ao toque e ainda com detalhes a verniz. 

A lombada é em tecido e o livro ainda apresenta uma elegante fita marcadora. Uma edição de luxo e de colecionador, sem dúvida.


Comparativo: "O Meu Irmão" pela Ala dos Livros e pela Casterman


Outro detalhe deve ainda ser referido sobre a lombada do livro. O simples facto da obra ser bastante densa faz com que o livro seja espesso. Eu tenho sempre um grande cuidado no manuseamento dos livros e, ainda assim, como podem ver na imagem acima, a lombada do meu livro francês ficou com bastantes fissuras. 

Ora, na edição em capa dura isso não vai certamente acontecer. E a opção por uma lombada arredondada em detrimento de uma lombada plana, também dá mais consistência ao livro.


Comparativo: "O Meu Irmão" pela Ala dos Livros e pela Casterman


Em termos de papel utilizado, ambos os livros são bastante bons. O papel é baço, de boa textura e qualidade, o que encaixa bem no tipo de ilustração do autor e no próprio teor da obra. 

Mesmo assim, a edição portuguesa acaba por beneficiar a obra ao permitir que o formato, que é superior, possibilite uma maior mancha de impressão e consequentes vinhetas de maior dimensão.

A leitura sai beneficiada, portanto.


Comparativo: "O Meu Irmão" pela Ala dos Livros e pela Casterman


Em termos de cores, a edição portuguesa é extremamente fiel à edição original, sendo difícil encontrar diferenças entre um e outro livro.


Comparativo: "O Meu Irmão" pela Ala dos Livros e pela Casterman


O tipo de letra utilizado, não sendo exatamente o mesmo do da obra original, é-lhe muito fiel, e tem a dimensão e colocação perfeitas. Nada a objetar também, portanto.


Comparativo: "O Meu Irmão" pela Ala dos Livros e pela Casterman


Ora, feitas as comparações mais diretas entre os dois livros, falta ainda mencionar que a edição portuguesa traz oito páginas adicionais de conteúdo extra, nomeadamente, uma página com a ilustração e arranjo gráfico da capa da edição original; outra com uma biografia de JeanLouis Tripp; e um belo texto, em estilo de reportagem sobre a feitura do livro, que se espraia por seis páginas. 


Este texto é útil para aprofundar o tema contido na obra e, ao mesmo tempo, é acompanhado de alguns belos desenhos retirados da história, que o tornam muito apelativo. É um complemento simples, mas bem-vindo e que, mais uma vez, ajuda a que a edição portuguesa supere a edição francesa da obra.



Em suma, reitero que este O Meu Irmão é um dos livros do ano, uma obra obrigatória a conhecer, que nos amargura por dentro, que nos faz sentir raiva e que persiste na nossa memória ao longo de uma vida. Como se já não fosse maravilhoso que esta obra fosse publicada em Portugal, a Ala dos Livros ainda teve o mérito de apostar numa edição de luxo, onde tudo é pensado ao pormenor, superando em todos os quadrantes a edição original da francesa Casterman.

Se este livro ainda não foi comprado por aquele que me lê neste texto, o meu conselho é simples e taxativo: faça um favor a si mesmo e acrescente este livro à sua estante.




quarta-feira, 6 de novembro de 2024

Comparativo: "Cogito Ego Sum" pela Polvo, pela Meribérica e pela Booktree

Comparativo: "Cogito Ego Sum" pela Polvo, pela Meribérica e pela Booktree

Foi com alguma surpresa que soube que a obra Cogito Ego Sum, de Luís Louro, iria receber uma nova edição, não pelas mãos da Ala dos Livros, com quem Luís Louro tem vindo a trabalhar nos últimos anos, lançando os seus novos projetos e reeditando alguns trabalhos mais antigos como O Corvo, mas sim pela editora Polvo, com quem o autor nunca havia publicado.

Mas, enfim, jogadas de bastidores da edição à parte, foi com muito gosto que soube desta notícia, pois sempre fui, desde adolescente, um grande fã de Cogito Ego Sum. Acho até que, quando se fala da extensa e rica obra de Luís Louro, Cogito Ego Sum aparece muitas vezes - e injustamente - esquecido. 

E, claro, tendo em conta que os dois volumes originais da obra - o primeiro editado pela Meribérica/Liber e o segundo editado pela Booktree - há muito estavam extintos das livrarias - bem como extintas estão, há muitos anos, as referidas editoras - parece-me muito bem-vinda esta reedição integral, num só volume, de uma obra de Luís Louro que considero um marco para bem conhecer e bem mergulhar na mente criativa do autor.

Como tal, trago-vos hoje um comprativo entre as várias edições da obra, tentando apresentar as diferenças entre esta nova reedição da Polvo e as edições originais de Cogito Ego Sum.

Em primeiro lugar, a principal alteração que salta logo à vista, é que há uma nova capa nesta nova edição. Não sendo tão bela, a meu ver, como a capa do segundo volume - uma das minhas capas favoritas de todos os livros de Luís Louro, onde se notava uma clara inspiração no universo pictórico de Peter Pan, de Régis Loisel - esta nova capa é, ainda assim, bonita e impactante. 

As contracapas também são diferentes mas, neste caso, foi utilizada uma faixa da contracapa do segundo volume, editado pela Booktree. 

A adição da impactante assinatura do autor na capa e contracapa do novo livro, embora seja um pormenor, também me parece bem-vinda. Não só em termos estéticos, como em termos de "branding" de autor.


Comparativo: "Cogito Ego Sum" pela Polvo, pela Meribérica e pela Booktree


Também o formato da obra é diferente. A nova edição perde apenas alguns milímetros de largura e ganha mais de um centímetro de altura.

Logicamente, a lombada da edição da Polvo também será diferente, por reunir dois livros num só. E em capa dura. 

Já que falo nisso, convém não esquecer que, embora o livro lançado pela Meribérica tivesse capa dura, o livro lançado pela Booktree apresentava capa mole com badanas. Era, pois, obrigatório, diria, que esta reedição integral tivesse capa dura. E ainda bem que assim foi feito.


Comparativo: "Cogito Ego Sum" pela Polvo, pela Meribérica e pela Booktree


Quando abrimos cada um dos três livros, encontramos guardas muito diferentes. 

Na edição da Meribérica, as guardas, em fundo amarelo, apresentam um prefácio à obra por João Miguel Lameiras. A edição da Booktree, sendo em capa mole e com badanas, não tem guardas. 

Já a nova edição da Polvo, apresenta umas guardas muito belas e bem-vindas. No início do livro temos, numa escala cromática de vermelhos, a ilustração completa da capa e contracapa do primeiro livro, e nas segundas guardas temos, em iguais tons, a ilustração completa da capa e contracapa do segundo volume. Uma solução muito bem pensada que não só dá requinte ao livro como permite que se recuperem estas duas belas ilustrações.


Comparativo: "Cogito Ego Sum" pela Polvo, pela Meribérica e pela Booktree



Comparativo: "Cogito Ego Sum" pela Polvo, pela Meribérica e pela Booktree



Todos os livros apresentam frontispícios diferentes, devido à escolha de ilustrações diferentes para esta página introdutória.


Comparativo: "Cogito Ego Sum" pela Polvo, pela Meribérica e pela Booktree


Folheando as primeiras páginas de cada livro, encontramos coisas diferentes, também. No caso de Cogito Ego Sum I, pela Meribérica, além do prefácio de João Miguel Lameiras constante nas guardas do livro, já por mim mencionado, nada temos além de uma referência ao facto de o livro ser dedicado a Rebeca Louro, filha do autor. 

Em Cogito Ego Sum II, pela Booktree, encontramos um prefácio de Maria José Magalhães Pereira e cinco desenhos de Luís Louro. Quatro esboços a lápis e um desenho de estudo de capa do primeiro livro. Diria que são belos desenhos que, lamentavelmente não entram na reedição da Polvo. Numa edição tão interessante como aquela que a Polvo nos traz, diria mesmo que é a única coisa a lamentar. Mas já lá irei.

Mesmo assim, importa referir as novidades da nova edição da obra assim que folheamos as primeiras páginas: temos um novo esboço para esta nova edição, um novo e emotivo prefácio de Rebeca Louro, e uma nota introdutória da minha autoria.


Comparativo: "Cogito Ego Sum" pela Polvo, pela Meribérica e pela Booktree


Avançando para o miolo do livro, o papel desta nova edição é brilhante e de bela qualidade. Para ser sincero, o papel utilizado nas duas versões originais também era bom. Mesmo assim, a nova edição apresenta mais requinte neste cômputo.

O que também melhorou, foi o tratamento cromático da obra, onde os contrastes de cor e os tons mais amarelados foram melhorados, ficando mais credíveis e orgânicos. A legendagem também está melhor e mais moderna.


Comparativo: "Cogito Ego Sum" pela Polvo, pela Meribérica e pela Booktree


O facto do formato da obra ser ligeiramente maior, bem como a ligeira diminuição das margens a branco, também permitem que as pranchas e vinhetas possam ser um pouco maiores face à edição original da obra. 


Comparativo: "Cogito Ego Sum" pela Polvo, pela Meribérica e pela Booktree


No final da obra, a reedição da Polvo ainda nos dá alguns "bombons". 

Ao contrário das edições originais dos livros que, no seu final, não tinham quaisquer extras - à exceção de um esboço solitário em Cogito Ego Sum II -, esta nova edição da obra dá-nos uma galeria de extras com quatro páginas. 

Nela podemos encontrar as duas ilustrações das capas dos dois livros originais - desta vez sem o gradiente a vermelho utilizado nas guardas do livro -, três ilustrações adicionais, uma nota biográfica sobre Luís Louro e um retrato do autor pelas mãos da sua filha Verónica Louro.


Comparativo: "Cogito Ego Sum" pela Polvo, pela Meribérica e pela Booktree


Em suma, a nova edição de Cogito Ego Sum não só é um livro, quanto a mim, essencial na carreira de Luís Louro e, portanto, totalmente recomendado aos fãs de outras obras do autor que ainda não tenham mergulhado em Cogito Ego Sum, como apresenta um belo trabalho de edição da Polvo que assinala e celebra a própria obra. 

Tenho apenas pena que alguns dos esboços contidos no segundo volume não tenham sido introduzidos nesta reedição que, sendo integral, é ainda mais propensa a este tipo de material extra. Mas tirando esse detalhe, a verdade é que outro material extra também foi incluído e produzido especialmente para esta edição que merece estar sempre disponível em loja.

Se (ainda) não conhecem, façam um favor a vós mesmos e incluam este livro na vossa estante!


Comparativo: "Cogito Ego Sum" pela Polvo, pela Meribérica e pela Booktree