Apesar de não ter sido sobrecarregado de reuniões, tive aquela que todos detestam, a última do dia. Para a acelerar, ajudei a Directora de Turma a passar em revista 13 Planos de Recuperação e/ou Acompanhamento numa turma de 17 alunos, esboçando a respectiva avaliação e estratégias para o futuro.
Por isso chateia-me, claro que me chateia, observar que os mesmos Encarregados de Educação que tanto se preocupam com a ocupação do tempo dos seus educandos na Escola por causa dos “perigos” que isso pode acarretar, depois lhes dêem carta branca para andarem a deambular por aí, de motinha nos passeios e zonas pedonais, ou a “conviver” de forma ruidosa e nada higiénica longe dos seus domicílios, em horas onde certamente os “perigos” não existem.
E ainda bem que não dou aulas perto de casa, porque então ia ser giro…
Leio a nota disponibilizada no site do Ministério da Educação sobre o relatório produzido pela Comissão de Acompanhamento das Actividades de Enriquecimento Curricular. Gostaria de ter a possibilidade de encontrar mesmo o relatório, mas não dei por ele online.
De acordo com a síntese parece que foi tudo excelente:
O Programa de Generalização do Ensino de Inglês e de Outras Actividades de Enriquecimento Curricular, criado com o objectivo de garantir uma escola a tempo inteiro aos alunos do 1.º ciclo, surgiu após a experiência obtida no ano lectivo de 2005/2006 com o Programa de Generalização do Ensino do Inglês nos 3.º e 4.º anos de escolaridade, cujos resultados ultrapassaram as melhores expectativas iniciais
No presente ano lectivo, 99 por cento dos estabelecimentos de ensino oferecem gratuitamente ensino do Inglês nos 3.º e 4.º anos, e 43 por cento nos 1.º e 2.º anos. O Apoio ao Estudo e a Actividade Física e Desportiva registam uma oferta de 99 por cento e o Ensino da Música de 85 por cento.
Estamos no melhor dos mundos pois parece que apesar da falta de planificação e preparação atempada, as coisas apareceram feitas. Pelo menos os números abundam. Só que mais adiante percebe-se que com algumas, pequenitas, dificuldades:
O relatório apresenta como principais dificuldades iniciais de implementação do programa a compatibilização de horários de docentes e alunos, o acesso a salas e a espaços adequados para a organização das actividades, a contratação de docentes, a escassez de pessoal auxiliar existente em determinadas escolas e a constituição de parcerias.
Uma pessoa mal intencionada poderia pensar que as dificuldades assinaladas cobrem praticamente todas as variáveis relacionadas com a questão, mas isso seria caricaturar a situação, não é? Não, temos de ver a coisa pelo lado positivo e construtivo. Vamos, portanto, às recomendações para o futuro:
Neste sentido, a Comissão de Acompanhamento do Programa recomenda que, nos próximos anos, as actividades de enriquecimento curricular sejam preparadas para começarem no início do ano lectivo, com qualidade mais uniforme através de uma abordagem específica aos casos que apresentam maiores dificuldades.
Sugere-se um reforço de apoio às entidades promotoras que tenham revelado maiores dificuldades na implementação do programa, nomeadamente através da procura de soluções que passem por um maior envolvimento dos agrupamentos de escolas ao nível do recrutamento e da gestão dos professores, bem como ao nível da participação na elaboração de horários e organização de actividades.
Recomenda-se a definição de regras relativas à remuneração, designadamente a fixação de um valor mínimo por hora, calculado a partir do valor atribuído aos professores contratados, com base no índice 126 quando possuam habilitação igual à licenciatura ou índice 89 nos restantes casos.
Bom, agora começo a ficar mesmo preocupado: afinal a planificação sempre faltou, a qualidade sempre deixou a desejar, o recrutamento do pessoal sempre foi difícil ou feito sem participação activa das escolas e os pagamentos foram feitos ad hoc e quase sempre abaixo de qualquer tipo de tabela regulamentar?
Afinal de contas será que as críticas que, desde o início, foram feitas a esta iniciativa e à forma apressada e desencontrada como decorreu estavam certas?
Que não nos falhe nada e não comecemos por aí a falar em férias, que ainda aparece a tutela a puxar as orelhas aos Executivos e os críticos da ordem a chamar a atenção para os “privilégios” dos docentes.
Para além de ter de planificar o terceiro período já com base na informação nada tardia sobre a data das provas de aferição de Língua Portuguesa para o 6º ano (afinal o ME só em Março se decidiu que seriam dia 22 de Maio, faltando ainda os critérios que as irão nortear, mas o que interessa isso?), a ideia é colocar algumas leituras em dia que se vão acumulando. Há uns tempos um leitor chamou-me a atenção para a desnecessidade de tal actividade para a boa docência de acordo com o novo modelo do professor generalista, mas há hábitos que não se perdem.
Vamos então por partes:
1. O Dever
Antes de mais as obrigações. Dia 16 de Abril lá vou eu para a defesa do doutoramento na Reitoria da Clássica. Vai ser estranho, pois só lá entrei um par de vezes e a caminho da Aula Magna. Entretanto, e como de costume, um par de meses depois da entrega do cartapácio, lá me sai esta colectânea de textos sobre o “estado da arte” na área da História da Educação e logo com um artigo de um dos membros do júri. Inevitável e imprescindível a leitura. Adivinha-se, no mínimo, moderada polémica sobre algumas das minhas opções metodológicas e discursivas.
2. O Puro Prazer
No género amadurecido da graphic novel que vai para lá do bang-bang, este Fun Home de Alison Bechdel, autora de BD assumidamente gay, foi considerado nos EUA como um dos melhores livros do ano de 2006, por publicações como o New York Times ou a revista Time que o elegeu mesmo como o melhor. Banda desenhada autobiográfica extraordinária pela narrativa e não só. Duzentas e muitas páginas ao nível do Maus e bem acima do Sin City ou V for Vendetta. Independentemente do tema controverso, a abordagem de uma família e adolescência algo disfuncionais e emocionalmente desiquilibrada é bem melhor que muitos tratados psicodoces.

3. O Possível Lazer
Não há que ter falsas esperanças. O tempo é curto, a disponibilidade mental está em níveis baixos nesta altura e não vale a pena um tipo decidir que é desta que se acaba a Guerra e Paz, encalhado há anos no 1º volume da velha edição do Círculo de Leitores. No Fun Home lê-se a certa altura que um tipo descobre que está na meia idade quando toma consciência que não vai ler integralmente o Em Busca do Tempo Perdido do Proust. Se é por isso já estou na meia idade deste os meus late twenties. Ainda tenho esperança de reler o Crime e Castigo ou o Moby Dick, mas por agora fico-me mesmo por short stories e não se fala mais nisso: Dorothy Parker e Truman Capote para afiar as garras da ironia, embotadas nos últimos tempos pelo nevoeiro que nos cerca.