De Rerum Natura
A natureza das coisas
terça-feira, 20 de janeiro de 2026
Por um Ensino Superior humanizado. Um manifesto
Eis a ligação para assinar o documento: Por um Ensino Superior humanizado Manifesto contra o uso da “inteligência” artificial generativa
OCDE Digital Education Outlook 2026
O relatório destaca os benefícios da GenAI como tutora, parceira e assistente, e sintetiza os contributos de especialistas sobre os critérios que a tornam eficaz para a educação.
segunda-feira, 19 de janeiro de 2026
UM APELO A DIRECTORES E PROFESSORES DA ESCOLA PÚBLICA
O Ministro da Educação e o Governador do Banco de Portugal auto-investiram-se no papel de professores para "darem aulas" de "educação" financeira" (ver aqui e aqui). A eles juntam-se, agora, "líderes empresariais e autárquicos de referência em Portugal": "vão assumir o papel de «Professor por um Dia»" (ver aqui). A usurpação da “nobre e exigente tarefa de ensinar” (ver aqui) é óbvia!
Termino com um apelo aos directores e aos professores, os últimos elos do sistema de ensino: com base na lei de autonomia de escola e no dever de educar de que estão investidos, não deixem entrar nas vossas escolas, nas vossas aulas "líderes empresariais e autárquicos", eles não são educadores, o seu lugar é nas empresas e nas câmaras, lá serão competentes e precisos, na escola não.
domingo, 18 de janeiro de 2026
"O ALUNO COMO CONSUMIDOR FINANCEIRO". PENSEMOS NESTE DESÍGNIO DA EDUCAÇÃO ESCOLAR PÚBLICA
"A integração da literacia financeira nas escolas, formalizada pelo Referencial de Educação Financeira (REF) de 2013 e inscrita, mais recentemente, como dimensão obrigatória da disciplina de Cidadania e Desenvolvimento, desde o pré-escolar ao ensino secundário, não pode ser compreendida como uma simples atualização curricular. Embora tenha a aceitação de grande parte da comunidade escolar (...) trata-se, se pensarmos um pouco mais, de um dispositivo ideológico que subordina a escola às exigências do sistema produtivo contemporâneo e cria a figura do aluno como consumidor financeiro.
O REF prescreve que as decisões financeiras são hoje mais difíceis devido à complexidade dos produtos financeiros. Apresenta-o como um dado e esvaziando-o da sua natureza estrutural, constituindo, assim, um processo de hegemonização que se materializa de forma particularmente clara no percurso proposto.
Desde o 1.º ciclo, quando as crianças são ensinadas a distinguir necessidades de desejos e a valorizar a poupança, começa a ser construída uma gramática moral, na qual o consumo é encarado como problema de decisão individual. Nos 2.º e 3.º ciclos, a introdução de orçamentos, planeamento financeiro, investimento e gestão de risco aprofunda essa lógica, deslocando para a esfera da conduta pessoal a responsabilidade por fenómenos como o sobre-endividamento. Mesmo quando, no ensino secundário, surgem referências à ética financeira, à responsabilidade social das organizações ou a modelos de negócio sustentáveis, estas permanecem inscritas numa racionalidade empreendedora que não questiona as estruturas do sistema económico, mas procura torná-las mais eficientes e aceitáveis. Traduz-se, como diria Freire, numa pedagogia de domesticação, que não visa formar sujeitos críticos, mas adaptativos às exigências de um mercado apresentado como inevitável.
Sob a égide da transversalidade curricular, a literacia financeira reclama a sua integração em áreas como a Matemática e esta, sedenta de aproximação com a realidade, permite a sua captação. Este cenário de apropriação mútua não é inocente. A matemática, vista como linguagem da racionalidade, oferece à literacia financeira a legitimidade científica de que necessita; a literacia financeira, por sua vez, fornece ao ensino da matemática uma narrativa de aplicabilidade social, que o salva da acusação de abstracionismo.
Quando, em 2024, surge na disciplina de Matemática, transversal a todos os percursos formativos de 10.º ano, o tema modelos matemáticos para a cidadania, incluindo explicitamente modelos matemáticos em finanças – matemática nos salários e matemática na poupança e no crédito –, o que se apresenta como inovação pedagógica pode, na verdade, ser, uma vez mais, a subjugação da matemática à suposta neutralidade neoliberal. Modelar juros compostos, créditos à habitação, aplicações de poupança ou capital de investimento sem problematizar as relações de poder que lhes dão origem é, como alertaram Althusser ou Foucault, encarar a matemática como mais um produto da máquina institucional de controle.
Contudo, uma outra visão é possível. A este ensino da matemática adaptativo propõe-se uma educação matemática crítica. Nas palavras de Skovsmose, a matemacia não se limita à capacidade de usar a matemática, implica a capacidade de ler, interpretar e questionar criticamente o mundo através da matemática, tornando-a uma linguagem de desconstrução social. Uma matemática crítica não se limita a ensinar a gerir orçamentos familiares, questiona as condições que tornam esses orçamentos insuficientes. Ao analisar dados sobre salários, precariedade laboral ou número de horas de trabalho evidencia que a escassez não decorre apenas de escolhas individuais, mas de relações de distribuições desiguais. Do mesmo modo, não se limita a calcular prestações de créditos ou taxas de juro, revela como a dívida se prolonga no tempo, de forma praticamente permanente, e como os juros não afetam todos igualmente. Quando aborda investimentos, interroga quem tem acesso a esses mecanismos, quem deles beneficia e quem deles fica excluído.
Recusar a literacia financeira tal como hoje é imposta não é recusar o conhecimento matemático ou económico, é recusar a sua instrumentalização ao serviço da reprodução das desigualdades. É reivindicar uma escola que, em nome da cidadania, não forme apenas consumidores financeiros competentes, mas sujeitos capazes de compreender – e transformar – as estruturas de poder que produzem a escassez que lhes pedem para gerir."
MANIFESTO PORTUGUÊS CONTRA O USO DE "INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL GENERATIVA" NO ENSINO SUPERIOR
Na sequência de cartas abertas de professores de universidades estrangeiras, que se têm constituído como documentos críticos de referência em relação ao uso da dita "inteligência artificial generativa" (ver aqui e aqui) no ensino e na aprendizagem, um grupo de professores portugueses do ensino superior acaba de dar a conhecer um manifesto com o mesmo sentido. O título é Por um Ensino Superior humanizado – Manifesto contra o uso da “inteligência” artificial generativa e o texto é o seguinte:
"Na esteira de iniciativas como o Safe AI in Education Manifesto (Outubro, 2024) a Open Letter: Stop the Uncritical Adoption of AI Technologies in Academia (Junho, 2025), ou até mesmo do Relatório da Comissão Internacional sobre os Futuros da Educação – Reimaginar Nossos futuros Juntos: Um novo contrato social para a educação –, publicado pela UNESCO em 2021, no rescaldo da pandemia, pretende-se com este texto afirmar a necessidade de, a um tempo, promover a humanização do ensino superior e banir o uso da “inteligência” artificial generativa (IA) nos processos de ensino-aprendizagem.
O ensino é uma das mais nobres missões de universidades e politécnicos e, embora existam experiências pontuais de qualificação, inovação e valorização pedagógica, a lógica prevalecente, refém da burocracia managerialista e de uma voraz monocultura do produtivismo acelerado, tende a desvalorizar a centralidade das relações de ensino-aprendizagem e dos seus protagonistas na vida quotidiana das instituições.
Neste contexto, aquilo que se tem vindo a designar como dilúvio digital, constitui um dos maiores problemas enfrentados pelas instituições de ensino superior, pelos professores e pelos estudantes.
Estes últimos são as grandes vítimas do mundo digital, indefesos perante um avanço tido como inevitável da IA sobre tudo aquilo que constitui a vida académica. Impelidos a utilizar a IA, veem os seus métodos de trabalho e estudo ser permanentemente soterrados por grandes modelos de linguagem e chatbots que operam enquanto fábricas de produção de lugares-comuns, banalidades, arquiteturas tecnológicas promotoras de fraude e plágio em série.
Entretanto, a saúde mental dos estudantes bate no fundo, os níveis de ansiedade sobem aos píncaros e, convertidos em cretinos digitais, demonstram muito pouca curiosidade intelectual ou entusiasmo pela enorme e desafiante aventura do conhecimento. Naturalmente, esta exige esforço, trabalho e dedicação; requer um tempo longo, uma lenta maturação e aprofundamento das ideias, das possibilidades e das relações que estas estabelecem entre si e, porque não dizê-lo, uma boa dose de angústia, frustração e dor. Tudo aquilo que a IA lhes rouba sob um espesso manto de ignorância, facilitismo, desonestidade intelectual, copianço e rapidez. Sem alma nem rasgo, aniquilando o desejo e a vontade de saber, analisar, compreender e interpretar.
Quanto aos professores do ensino superior, a situação não é melhor. Enredados numa densa trama de burocracias inúteis que os satura e esgota, enfrentam agora desafios novos decorrentes de um dilúvio digital, encabeçado pela IA, que é de tal modo avassalador que não pode deixar de gerar uma sensação difusa de impotência e desalento. Confrontados com trabalhos artificiais sistematicamente nivelados pela mediania de um chatbot, qual mangas-de-alpaca digitalizado, com apresentações orais que não vão para além do papaguear de frases desconexas e expressões que denunciam ausência de autoria ou um módico de originalidade, sentem na pele o desconforto motivado pela ausência de níveis mínimos de integridade e honestidade intelectual, para além de já não possuírem ferramentas para verdadeiramente comandar os processos pedagógicos, monitorizar os ritmos e os tempos dos processos de ensino-aprendizagem e proceder a avaliações justas. Por isso, assiste-se ao regresso a instrumentos de avaliação, como os testes de escolha múltipla, que vinham sendo abandonados no contexto da progressiva valorização de formas de ensino centradas nos estudantes.
Naturalmente, a incapacidade para penalizar ou até mesmo identificar com rigor práticas académicas fraudulentas poderá ou não levar a modos mais ou menos engenhosos de cinismo escapista ou demissão do exercício intelectual da crítica, mas irá sempre redundar na interiorização de uma grande dose de sofrimento psíquico e culpa por parte dos professores.
As instituições de ensino superior – universidades e politécnicos – que, no capitalismo académico hegemónico, tendem a mimetizar o espírito, os discursos e as práticas das empresas elevadas à condição de eixo referencial da vida em sociedade, escolheram o caminho mais fácil: a fuga para a frente. Na generalidade dos casos, com receio de perder o comboio do progresso e furtando-se a colocar a questão sacramental de política académica – cui bono? –, apressaram-se a regurgitar vagas declarações de intenções, orientações, regulamentos, despachos, circulares, a promover conferências, workshops e a criar grupos de trabalho de eficácia tendencialmente nula.
Depois de terem adotado uma política suicidária de portas abertas e deslumbramento acrítico, como se o objetivo último do lucro máximo no menor tempo possível dos conglomerados tecnológicos e dos seus algoritmos ideologicamente enviesados e não sujeitos a escrutínio público democrático fosse compatível com processos de ensino-aprendizagem dignos desse nome, procuram agora modelar, regular e equilibrar forças de tal maneira poderosas que, hoje, já todos percebemos, são impossíveis de domar. Não seria de esperar nada diferente pois instituições assim, administradas por professores-gestores que até podem adotar um discurso de valorização do pensamento crítico quando, na verdade, aquilo em que têm apostado as suas fichas é na redução do horizonte de possibilidades dos estudantes à figura do potencial empregado-executante e dos professores ao de gestores de si, empobrecem a nossa capacidade de pensar e transformar o mundo. Quando a organização do seu funcionamento é reduzida ao absurdo dos rankings, fatores de impacto e indexações, até se pode publicar cada vez mais, mas questiona-se cada vez menos. E nem precisamos de mencionar as contradições resultantes da bolha especulativa gerada em torno da IA, da sua pegada ambiental absolutamente insustentável ou dos custos humanos de quem treina os algoritmos.
Não há soluções de compromisso, moderação e equilíbrio que não sejam atropeladas pelo rolo compressor digital. Se existem ainda preocupações genuínas com o futuro dos estudantes, mas também de professores e instituições, o caminho, estreito e não isento de riscos, tem de passar necessariamente pela suspensão generalizada do uso deste tipo de ferramentas nos processos de ensino-aprendizagem. Não se trata de ingenuidade pueril, adoção de uma postura neo-ludita, manifestação de um temor pré-apocalíptico ou de qualquer bravata tecnofóbica. Menos ainda de procurar recuar a um tempo outro, mitificado e idealista, não conspurcado por perturbações digitais e tecnológicas. Não! Trata-se, apenas e só, de não ceder ao facilitismo acrítico nem ao discurso política e intelectualmente preguiçoso da inexistência de alternativas, procurando reivindicar a necessidade de humanizar o ensino, de o tornar mais lúcido e céptico relativamente ao tecnofeudalismo que hoje ganha forma.
Se queremos preservar autonomia e integridade, independência e liberdade nos planos intelectual, científico e cultural, e assim contrariar a trajetória de empobrecimento cognitivo e emocional em curso, temos de ser capazes de resistir coletivamente ao avanço imparável desta nova economia política geradora de sofisticados regimes de servidão digital e restaurar o primado da relação humana, dos seus ritmos e espaços próprios, nos processos de ensino-aprendizagem. Neste sentido, recusar a utilização da IA no contexto do ensino é simultaneamente a escolha mais difícil e também a mais urgente.
É certo que os caminhos e as soluções alternativas estarão ainda por construir e terão de passar pelo controlo público, transparente e democrático da tecnologia, colocando-a ao serviço do desenvolvimento e do bem-estar humano, mas o ponto de partida urgente não pode ser outro que não o da proibição do uso da IA. E nem sequer se pode dizer que não existam precedentes relevantes. Atente-se àquilo que sucedeu relativamente ao uso de smartphones nas escolas. Primeiro, foram vendidos como ferramentas fundamentais para preparar as gerações do futuro, porque os nativos digitais já não conseguiam aprender sem elas. Depois, com o avolumar de evidências sobre as consequências altamente prejudiciais do seu uso, foram sendo proibidos, tal como, de resto, também as redes sociais têm levado à adoção deste tipo de soluções por parte de muitos Estados. O automatismo retórico segundo o qual todas as formas de proibição são sempre contraproducentes não colhe. Afinal de contas, por que é que era proibido o plágio quando eram artesanais as suas condições de produção e, agora que se industrializaram, passou a ser aceite, tolerado e até incentivado?
Se este é o tempo dos monstros, em que o mundo velho está a morrer e o novo ainda não nasceu, é tempo de coletivamente pararmos para pensar se aquilo que queremos ajudar a construir é um mundo povoado de zombies digitais alienados ou uma nova paisagem social plena de possibilidades para a realização e o florescimento de todos e cada um de nós."
quarta-feira, 31 de dezembro de 2025
TRISTE MENSAGEM-RETRATO
Sobre a mensagem de Natal do Primeiro-Ministro, escreveu um professor, Agostinho Silveira:
O senhor primeiro ministro acabou de dizer aquilo que eu ouço todos os dias aos meus alunos, em todas as turmas na escola. Não estudem, não sejam estúpidos, não precisam de estudar para nada. Estudar para quê se vocês podem ser todos Cristianos Ronaldos? Os alunos conhecem esta música e gostam de a cantar e dançar.
Matemática? Oh stora, isso não serve para nada. Oh stor, estudar História para quê? O que é que isso interessa? Ciências? Ler livros? Para quê, stor? Oh stor, o Cristiano Ronaldo também não estudou e agora é muito mais rico que o stor.
O senhor primeiro ministro não falou em Luís de Camões, ou Eça de Queirós, ou Camilo Castelo Branco ou Saramago, o único prémio Nobel da literatura em língua portuguesa. Não falou no grande cientista António Damásio ou outros mais antigos, como Garcia da Orta ou Pedro Nunes. Nada. Não falou em grandes cirurgiões portugueses, médicos, economistas, engenheiros e arquitetos. Nada. Não falou em professores, investigadores, historiadores, e de todos aqueles que sofreram e morreram para podermos viver hoje, todos em liberdade. Nada. Cristiano Ronaldo.
É uma mensagem-retrato do mundo, pautado pela bitola económico-financeira ultraliberal, da produção, da eficácia, da competição, do empreendedorismo, da resiliência, do bem-estar, da agenda transformadora... É uma mensagem-retrato do país que segue essa direcção do mundo sem a interrogar, ainda mais quando se considera validado por uma revista de economia e pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE).
Mais, é uma mensagem-retrato da educação escolar pública, como diz o professor citado, da sua captura pelos desígnios dos mercados de capitais e da sua exigência de "indiferenciados"; é uma mensagem-retrato da estupidificação que já entrou no espírito humano e lá se acondicionou sem sobressaltos de maior. Os mais jovens conhecerão outra?
Ainda assim, é uma triste mensagem-retrato sobretudo por ter sido dita, com tanto entusiasmo, na ocasião em que se celebra o nascimento de Cristo, o tal que expulsou os vendilhões do Templo e que não deu grandes esperanças aos ricos de entrar no Reino dos Céus.
UM NOVO MODO DE TRATAMENTO INSTITUCIONAL?
Estimado (…)
Em meu nome pessoal e no da DGE, desejo Boas Festas e um Feliz Ano de 2026.
Quero aproveitar esta oportunidade para agradecer todo o teu trabalho e empenho em prol da escola pública e da educação das nossas crianças e jovens. Num tempo tão exigente, hoje, mais do que nunca, é fundamental que o país possa continuar a contar com o teu esforço, empenho e profissionalismo, tua liderança e a tua inspiração na mobilização da tua comunidade educativa para a missão de formar e educar as nossas crianças e jovens.
Feliz Natal e um abraço!
xxxxxxxxxxx
Diretor-Geral
Além do que acima notei, sobressai o tratamento institucional (repetido) por "tu". Será uma forma "inovadora" de aproximação, de envolvimento, até? Um sinal "disruptivo" de que não há diferenças nem hierarquias entre quem assume estatutos no sistema? Um modo "empreendedor" de, como afirmou o Primeiro-Ministro, assumirmos "a mentalidade da superação", a mentalidade de certo futebolista? E será em prol das "nossas crianças e jovens"?
sexta-feira, 19 de dezembro de 2025
NÃO É PESSIMISMO, É SENTIDO DA REALIDADE
Ainda não recomposta da demonstração que hoje me fizeram do uso da dita inteligência artificial por estudantes universitários - que, obviamente, vai mirrando a sua inteligência humana -, li a entrevista realizada por Ana Catarina André a José Gil, publicada hoje na Rádio Renascença (ver aqui). À pergunta "Já disse, por diversas vezes, que o século XXI perdeu a alma. Partilha de uma perspetiva pessimista da evolução da humanidade?", o filósofo recusa essa perspectiva mas que não é possível negar o seu sentido da realidade.
Isso vai transformar a educação, a justiça, a sociedade civil enquanto comunidade. Está a transformar em indivíduos separados (...) dando informações cada vez mais a um sistema de inteligência artificial e robótica que, ao mesmo tempo, vai possivelmente mandar completamente na economia, na subjetividade humana, aquilo que os cientistas apontam e nomeiam como singularidade.
O momento em que as máquinas vão ter a hegemonia total ou quase total sobre os homens, as mentes, o inconsciente humano, vai ser e já está a ser fabricado (...)
O comum está desaparecendo. Reenvio-a para o Varoufakis. O seu livro, mundialmente célebre, discutível, controverso, que se chama o "Tecnofeudalismo", mostra como de cada vez que há uma etapa de sofisticação e complexificação da máquina capitalista (ele chama-lhe fim do capitalismo), e a ascensão da inteligência artificial, há um saque do bem comum.
Por exemplo, a Internet, que foi apropriada pelas tecnológicas (...) era primeiro um bem comum, mas foi porque foi apropriada, que se reformou então esta engrenagem da exploração pela inteligência artificial. A exploração tem uma História, aquilo que Marx chamava de exploração do homem pelo homem (...) chegou a uma espécie de cume especial, próprio, específico, em que é o próprio homem a explorar-se a si próprio – extraordinário – através das máquinas.
Não gosto de entrar em discussões sobre pessimismo. Estar a discutir o pessimismo é desprender-se do presente e o que interessa é o nosso presente. Simplesmente o que se vê no futuro é simplesmente um desenvolvimento que diremos imparável do poder da inteligência artificial sobre toda a vida social e individual. Está em jogo a democracia e que forças há? Não são as forças do proletariado antigo, não são as forças dos partidos democráticos que vão poder reformular a democracia (...) o bem comum básico nós temos de o delimitar e definir. Sobre todas as falhas e fracassos dos valores, o que é que fica como resíduo básico, sem o qual o homem não pode existir?"
quarta-feira, 17 de dezembro de 2025
terça-feira, 16 de dezembro de 2025
O PROBLEMA SÃO OS POBRES, ESTUDANTES OU NÃO...
“Quando nós metemos pessoas que são basicamente todas de rendimentos mais baixos a beneficiar de um serviço público, nós sabemos que esse serviço público se deteriora, é assim nos hospitais, é assim nas escolas...”
Há poucos minutos, numa entrevista a um canal de televisão, o mesmo ministro explicou que não é nada assim, foi mal interpretado, melhor, as palavras foram descontextualizadas, o problema é da gestão desses serviços e, repetiu: do descuido da gestão!
PS 1: Entretanto o gabinete de imprensa do MECI publicou um "esclarecimento" sobre a polémica intervenção do ministro. Nele se reafirma a descontextualização das palavras (em primeira instância pela comunicação social) e a existência de "muitos estudos" que demonstram que a qualidade dos serviços aumenta quando existe diversidade social de utilizadores. Seria de lhe pedir, como fez um comentador de futebol: "diga um estudo, diga um..."
PS 2: E o "metemos" na frase não calha nada bem... Sei que os mais jovens usam o "meter" em vez de "colocar", de "pôr"... mas o senhor ministro é de outra geração...
segunda-feira, 15 de dezembro de 2025
O AFASTAMENTO DOS PROFESSORES DA SUA FUNÇÃO: O CASO DO ENSINO UNIVERSITÁRIO
sexta-feira, 12 de dezembro de 2025
LIMITES DA SENSATEZ
Em complemento ao que consta na Estratégia Nacional de Educação para a Cidadania (ENEC), numa nota, não datada, do Ministério da Educação, Ciência e Inovação diz-se o seguinte (ver aqui):
"4.3. Os AE/EnA devem definir as entidades externas com as quais desejam colaborar no âmbito da Cidadania e Desenvolvimento, cumprindo os termos da ENEC no envolvimento da comunidade educativa e, em particular, das famílias. Ao longo do ano letivo 2025/2026, o MECI irá estabelecer protocolos com entidades públicas e privadas de reconhecido mérito nas suas áreas de atuação, de modo a estruturar e facilitar a sua colaboração com as escolas, no âmbito da disciplina e das suas oito dimensões."
Das oito dimensões, organizados em dois grupos, segundo o critério de obrigatoriedade, a "literacia financeira e empreendedorismo" saíram manifestamente reforçadas: o empenho do ministro, de secretários de estado e de altos responsáveis de ambas as áreas é bem exemplo disso (ver aqui). Bancos, seguradoras e afins já tinham as portas das escolas públicas franqueadas, agora verão o seu "mérito reconhecido", beneficiando de protocolos firmados. Quem diz estas entidades empresariais, diz outras cujos fins não são educativos. A sua entrada no sistema de ensino concorre em benefício próprio, não em beneficio dos alunos, os tais que dizem estar no "centro" do sistema...
A verdade é que o ministério não assegura, por inteiro, os fins educativos a que o sistema público de ensino está obrigado, aqueles que estão na Constituição da República e Lei de Bases, mas as escolas também não. Estas, presumo que entre as lógicas da obediência e da concordância, hão-de fazer vénias a tais entidades, como, de resto, tem acontecido. E, claro, apresentar a sua estratégia de educação para a cidadania, bem como assinar protocolos.
Nada disto é novo, nem apanágio luso. Neil Postman, no livro O fim da educação, de 1995, diz que se poderia pensar que as escolas se opõem ao deus do consumo, pugnando por libertar os alunos da servidão do materialismo, mas não é isso que via acontecer. E dá um exemplo, que se tornou clássico (adapto o texto):
cerca de dez mil escolas dos EUA aceitaram a oferta de um anunciante para incluir, diariamente, dois minutos de publicidade no currículo, usando o poder do Estado para forçar alguém a ver anúncios. Em troca, oferecia dez minutos de notícias, na sua própria versão, e um equipamento de televisão e antena parabólica. O entusiasmo demonstrado pelas escolas é revelador de que não veem contradição entre o que deveriam ensinar e o que as empresas querem que se aprenda.
E acrescenta: quando estas coisas acontecem percebemos que deixámos de saber o que fazer; pior ainda, que alcançámos o limite da sensatez. Passados que são trinta anos, o limite da sensatez nem é assunto...
Que criança rime com segurança e brinquedo seguro com expectativa de futuro
Texto de Mário Frota presidente emérito da Associação Portuguesa de Direito do Consumo (apDC) - Coimbra.
Fernando Pessoa
Porque há brinquedos que matam…
Porque “o Diabo deu um tiro com a tranca de uma porta”!
Porque há, como se dizia outrora, numa interessante e realista campanha da então Comunidade Europeia (“o tempora, o mores”!), “brinquedos menos inocentes que as crianças”!
Milhões (milhões!) de brinquedos provenientes do Sudeste asiático foram, há não muitos anos, retirados do mercado porque inseguros, susceptíveis de causar graves danos às crianças.
A Mattel viu-se envolvida em tal escândalo com consequências inenarráveis!
Dentre tais brinquedos contavam-se a “Barbie”, o “Batman” e alguns bonecos da “Rua Sésamo”…
Precaução e prevenção – princípios nucleares a eleger como dominantes neste segmento.
Dirigido aos que no mercado de consumo importam brinquedos e promovem a sua oferta à massa anónima de consumidores, assistida de uma comunicação intensa, persuasiva, insinuante.
O envolvimento das crianças (nem sempre lícito) em nutridas campanhas de publicidade no pequeno ecrã nunca foi, ao que se nos afigura, tão intenso como agora.
Do Continente à Meo, passando por inúmeras insígnias de marca… sempre e só a ‘aliciante’ quão preocupante presença de crianças, de recém-nascidos… sem que ninguém ouse já pôr cobro a estes devaneios…
Nele se resumem, afinal, as regras constantes da Directiva Europeia da Segurança dos Brinquedos com tradução nos normativos nacionais:
2.º – Preservarás saúde e segurança de crianças e jovens, prevenindo riscos e perigos causados pelos brinquedos;
3.º – Cuidarás em particular de crianças até aos 36 meses face à peculiar condição e à hipervulnerabilidade da primeira infância;
4.º – Acautelarás os riscos inerentes às propriedades físicas e mecânicas dos brinquedos, tal como as normas harmonizadas o impõem;
5.º – Terás em conta as regras sobre inflamabilidade dos brinquedos para evitar que crianças e jovens se queimem quando inocentemente pegarem num desses objectos para brincar;
6.º – Observarás com rigor as exigências técnicas quanto às propriedades químicas que os brinquedos incorporem, evitando riscos e perigos desnecessários;
7.º – Cumprirás escrupulosamente as prescrições acerca das propriedades eléctricas para evitar descargas lesivas da integridade física de crianças e jovens;
8.º – Excluirás a radioactividade dos brinquedos, impondo aos fabricantes a observância de todas as regras a tal propósito prescritas;
9.º – Só neles aporás a declaração de conformidade CE, se em rigor tudo, absolutamente tudo, estiver em consonância com as exigentes normas em vigor;
10.º – Farás acompanhar os brinquedos de manuais de instrução inteligíveis, em linguagem simples, acessível e compreensível a todos os públicos.”
. Segurança nas iguarias do período festivo (nos géneros alimentícios em geral, como no tradicional Bolo-Rei);
. Segurança nas decorações alusivas à Quadra;
. Segurança portas-adentro, no conforto do lar para os que dele possam fruir;
. Segurança nos gestos, na atitude, perante as circunstâncias;
. Segurança, em suma, nos brinquedos.
E teime (e persista) em rimar com folguedo…
Nesta Quadra ofereça segurança.
A segurança é o expoente da nossa condição cidadã, mormente em período de incerteza e insegurança que promanam de leste ante a iminência de uma guerra sem tréguas!
Mário Frota Presidente emérito da apDC – DIREITO DO CONSUMO – Coimbra
quinta-feira, 11 de dezembro de 2025
Do século das crianças ao século de instrumentalização das crianças
segunda-feira, 8 de dezembro de 2025
O ESTADO NOVO DE SALAZAR, NA MEMÓRIA DE QUEM O VIVEU
Nos anos de 1930 e 1940, os das duas primeiras décadas de consolidação do Estado Novo, Portugal viveu em situação de ditadura, distinguindo apoiantes do novo regime e oposicionistas, de entre os quais se evidenciaram, por serem publicamente conhecidos, os que “se metiam na política”, localmente referidos como sendo “os do reviralho”. Eram os da chamada oposição democrática, consentida por Salazar, com destaque para os do Movimento de Unidade Democrática (MUD).
Para além das restrições à liberdade e da censura, fez-se sentir, também aqui, o decreto 27 003, de 14 de Setembro de 1936, que determinava: «Para admissão a concurso nomeação efectiva ou interina, assalariamento, recondução, promoção ou acesso, comissão de serviço, concessão de diuturnidades e transferência voluntária, em relação aos lugares do estado e serviços autónomos, bem como dos corpos e corporações administrativos, é exigido o seguinte documento com assinatura reconhecida: «Declaro por minha honra que estou integrado na ordem social estabelecida pela Constituição Política de 1933, com activo repúdio do comunismo e de todas as ideias subversivas». E, mais adiante: «Os directores e chefes dos serviços serão demitidos, reformados ou aposentados compulsivamente sempre que algum dos respectivos funcionários ou empregados professe doutrinas subversivas, e se verifique que não usaram da sua autoridade ou não informaram superiormente».
Embora na letra da Constituição de 1933, figurasse o princípio da igualdade entre cidadãos perante a lei, o Estado Novo considerava a mulher como mãe, dona-de-casa e, em quase tudo, submissa ao marido. A lei portuguesa de então, designava o marido como chefe de família, sendo reservado à mulher o governo da casa, o que se traduzia pela imposição dos trabalhos domésticos como obrigação, não tendo os mesmos direitos na educação dos filhos. Não tinha direito de voto, não podia ascender a determinadas chefias nem exercer cargos na magistratura, na diplomacia e na política. Sendo casadas, as nossas mulheres perdiam o direito a intervir nas suas propriedades, não podiam viajar para fora do país sem autorização dos maridos e não podiam trabalhar sem autorização destes. O marido podia dirigir-se ao empregador declarar não autorizar a mulher a trabalhar, o que implicava o seu imediato despedimento.
Em muitos hospitais as enfermeiras podiam ser impedidas de casar. Se casassem, podiam ser obrigadas a abandonar a profissão. As professoras tinham de pedir autorização para casar, o que só era permitido se o noivo satisfizesse determinadas condições, autorização publicada e em Diário da República O divórcio era proibido, devido ao acordo estabelecido com a Concordata de 1940, numa submissão do Estado à Igreja Católica. Assim, todas as crianças nascidas de uma nova relação, posterior casamento, eram consideradas ilegítimas, não podendo ter o nome do pai, ou seja, o do companheiro.
Na orientação ideológica antiliberal e de cariz católica do ditador, a existência da mulher confundia-se com a da família, estando-lhe reservado o espaço doméstico. A Obra das Mães pela Educação Nacional, organização feminina do Estado Novo, criada em 1936, tinha por objetivo “estimular a acção educativa da família e assegurar a cooperação entre esta e a escola nos termos da Constituição” de 1933.
Nascida em 1912, como suplemento feminino do jornal “O Século” a revista semanal “Mulher – Modas & Bordados” dirigida nos primeiros tempos a uma pretensa elite feminina, fornecia-lhe conselhos nos domínios da moda, da culinária, das boas-maneiras e da beleza. Mostrou, porém, alguma preocupação de valorização da mulher, testemunhada pela publicação regular de sonetos da grande poetisa alentejana, Florbela Espanca (1894-1930), uma das primeiras mulheres a frequentar o Liceu Masculino André de Gouveia, onde permaneceu até 1912. Foi, porém, com Maria Lamas (1893-1983), opositora ao regime e feminista, na direcção desta revista que a luta contra a secundarização da mulher se fez sentir, não só em Évora, onde tinha ligações familiares, como no país.
Depois de duas décadas de confronto com o liberalismo e o republicanismo, a chamada pax salazarista proporcionou à Igreja (grandemente afectada durante a Primeira República) um terreno propício à sua reimplantação e reestruturação interna. Nestes propósitos, assumiu papel fundamental o então Patriarca de Lisboa, Dom Manuel Gonçalves Cerejeira (1888-1977), dirigindo a Igreja Católica Portuguesa durante o Estado Novo. Elevado ao cardinalato, em 1929, pelo Papa Pio XI, foi amigo íntimo e companheiro de Salazar (militante católico nos tempos da Primeira República), no Centro Académico da Democracia Cristã, em Coimbra. Com a subida de Salazar ao poder, o cardeal Cerejeira pôde garantir, à Igreja, potecção, respeito e liberdade de acção.
Nestes anos, o ensino obrigatório ainda terminava com o exame da 3ª classe (3º ano, como agora se diz), certificado pelo diploma do “Primeiro Grau”, exigível, por exemplo, para ingresso nos lugares mais humildes da função pública, no comércio, como caixeiro, nos correios, como carteiro ou boletineiro e, até, para ser eleitor. Ler, escrever e contar era tudo o que, o cidadão comum necessitava para fugir à vida do campo, ao aprendizado artesanal ou oficinal e a outros trabalhos que apenas fizessem uso da força braçal. Esta habilitação mínima vigorou até 1956. A partir de então, a escolaridade aumentou para 4 anos, apenas para os rapazes. Só quatro anos depois, esta obrigatoriedade foi decretada para as raparigas.
Na Escola Primária, a pedagogia estava na ponta da régua, versão escolar da tradicional palmatória ou menina de cinco olhos. Com algumas professoras, as reguadas estalavam nas mãos das crianças “por dá cá aquela palha”, quer por motivos de disciplina, quer por erros nos ditados, nas contas e em quaisquer outras matérias.
À margem da Escola Primária havia as chamadas “Escolas Incompletas”, criadas em 1930, mais tarde designadas “postos escolares”, com o propósito de combater o analfabetismo no seio de populações sem escola nem condições mínimas de fixar professores. Aqui o ensino era ministrado por “regentes escolares”. Na imensamente maioria mulheres, ganhavam metade do ordenado de um professor, bastava que possuíssem a 4ª, que demonstrarem ter bom comportamento moral e adesão ao regime e eram, de preferência, oriundas dos próprios locais.
A análise histórica da documentação permite verificar que, nesses anos, os professores, diplomados pelas Escolas Normais, foram sendo substituídos pelos regentes escolares, em especial nas aldeias e na periferia das cidades. A escolaridade obrigatória, como se disse, baixara para a 3.ª classe e as crianças estavam preparadas para trabalhar e ouvir o sermão do senhor padre aos Domingos.
Salazar procurou promover uma sociedade ruralista, dando relevo à família patriarcal e católica. No discurso de Salazar, proferido em 12 de maio de 1935, na sede da Liga 28 de Maio, em Lisboa, Salazar disse: «Oiço muitas vezes dizer aos homens da minha aldeia, «Gostava que os pequenos soubessem ler para os tirar da enxada». E eu gostaria bem mais que eles dissessem: «Gostaria que os pequenos soubessem ler, para poderem tirar melhor rendimento da enxada»
quinta-feira, 4 de dezembro de 2025
"Lia tudo e mais alguma coisa"
Parabéns se está a ler isto. E chegou até aqui. Possui uma habilidade rara e arcaica: a arte da leitura. Estamos agora a entrar na era pós-alfabetizada. Se alguém do futuro distante vasculhar os nossos restos e encontrar aquela coisa tão obscura, um livro, ficará tão encantado e perplexo quanto nós quando nos deparamos com os restos fossilizados de um braquiossauro. A leitura está morta. Está a desaparecer diante dos nossos olhos.
Gosto de chamar a era em que estamos prestes a entrar de Desiluminismo, na qual desaprendemos todas as coisas que pareciam tão importantes para nós no século XVIII — conhecimento, verdades científicas, debate democrático e, acima de tudo, alfabetização. O Desiluminismo evitará a aquisição de conhecimento, argumentando que é mais importante dizer como se sente sobre as coisas do que saber sobre elas. As verdades científicas serão derrubadas se ofenderem os idiotas, disciplinas inteiras serão desmembradas por consolidarem a supremacia entre uma certa elite. O debate democrático não existirá; apenas posições absolutistas, e cada lado gritará slogans fúteis para o outro, sem espaço para dúvidas, apenas a recitação de certezas. E ninguém lerá e ninguém saberá coisa alguma.
Rod Liddle, First reading dies, then knowledge, then science. It’s the Disenlightenment, The Sunday Times, 24/08/2025
quinta-feira, 27 de novembro de 2025
CARTA ABERTA 2: Quem recusa o apelo para adotar a GenAI na educação
Transcrevo, abaixo, uma segunda carta aberta (a primeira encontra-se aqui) que leva a ponderar o uso de mecanismos de "inteligência artificial" nas instituições de ensino superior. O seu título é Who Refuse the Call to Adopt GenAI in Education, tem como primeira signatária Melanie Dusseau da University of Findlay, Findlay e foi publicada em Julho deste ano.
Espero que a tradução que apresento não desvirtue a letra dos seus signatários os quais declararam recusar esses mecanismos na educação.
Na sua essência, a educação é um projeto que visa orientar os alunos para exercerem a sua autonomia no mundo. Por meio da educação, devem ser capacitados a participar de forma significativa na sociedade, na indústria e no planeta. Mas, na sua forma atual, a GenAI é prejudicial à autonomia dos alunos, dos educadores e dos profissionais.
As tecnologias GenAI atuais representam danos legais, éticos e ambientais inaceitáveis, incluindo exploração do trabalho, pirataria do trabalho de inúmeros criadores e artistas, veiculação de preconceitos prejudiciais, produção em massa de desinformação e reversão da trajetória global de redução de emissões.
A GenAI é uma ameaça à aprendizagem e ao bem-estar dos alunos. Não há evidências suficientes de que o uso da GenAI pelos alunos constitua um verdadeiro ganho na aprendizagem, apesar de haver uma enorme força de marketing para fazer crer que os seus produtos são essenciais para o futuro dos alunos, para a sua vida. Os jovens que utilizam chatbots antropomorfizados são vulneráveis à adição psicológica e emocional. As «relações» com a GenAI desencadeiam problemas de saúde mental, ruturas nas relações humanas e, nos piores casos, tentativas e suicídios consumados.
Além disso, a adoção da GenAI na indústria visa predominantemente automatizar e substituir o esforço humano, muitas vezes com a expectativa de que a futura «AGI» tornará obsoleto o trabalho intelectual e criativo humano. Esta é uma narrativa da qual não faremos parte.
Não apoiamos o uso da GenAI na educação. Comprometemo-nos a respeitar os seguintes princípios no nosso trabalho e apelamos às instituições educativas, aos diretores escolares e aos decisores políticos para que respeitem o nosso direito de os implementar.
2. Não promoveremos produtos de IA gerada por computador baseados em modelos desenvolvidos de forma anti-ética, como ChatGPT, Claude, Copilot, Gemini, Grok ou Llama. Não permitiremos que parcerias corporativas-institucionais comprometam a nossa liberdade académica.
3. Não aceitaremos sem provas as vendas por parte de pessoas que não são educadores, nem espalharemos exageros em detrimento da aprendizagem dos alunos e da pedagogia dinâmica.
4. Não ensinaremos os nossos alunos a usar ferramentas de IA generativa para substituir o próprio esforço intelectual. Não podemos corroborar a automação e a exploração do trabalho intelectual e criativo.
5. Não pediremos aos alunos ou funcionários que violem o espírito da integridade académica promovendo o uso de produtos anti-éticos.
6. Não reescreveremos o currículo para inserir IA generativa com o objetivo de «estruturar a alfabetização em IA».
7. Não contribuiremos para a erosão da liberdade académica e da função dos educadores, forçando-os a aderir a tecnologias que se consideram anti-éticas.
8. Respeitamos também os direitos dos estudantes de resistir e recusar.
terça-feira, 25 de novembro de 2025
CARTA ABERTA 1: "PARE-SE COM A ADOPÇÃO ACRÍTICA DE TECNOLOGIAS DE IA NO MEIO ACADÉMICO"
Aos professores universitários chegam, com frequência crescente e de diversas fontes e formas, incentivos para que usem a dita "inteligência artificial" no seu ensino. Em geral, esses incentivos redundam no velhíssimo argumento de que é preciso "inovar", guarda-chuva de outros não menos velhos, como urgência de "construir o futuro", "necessidade de redefinir a aprendizagem", "potenciar o pensamento crítico e criativo". E, claro, estribado na potente TINA: "não há alternativa", é "inevitável".
A pressa e a pressão colocada nos professores não tem, contudo, sido impedimento para alguns de ponderarem esse inventivo e tomarem uma posição. Encontrei duas cartas abertas de professores universitários, com as mais variadas formações e interesses de investigação, que concretizam este propósito e que trago aqui a título de exemplo.
Transcrevo abaixo uma delas, reservando a outra para texto posterior. Espero que a tradução que apresento não tenha desvirtuado a letra dos seus signatários. Permiti-me introduzir alguns destaques nas passagens que mais valorizei com base na ideia de educação que entendo dever guiar a Universidade.
A carta, com o título Stop the Uncritical Adoption of AI Technologies in Academia, foi publicada em junho de 2025 e assinada, em primeiro lugar, por Olivia Guest, professora de Computational Cognitive Science, Cognitive Science & Artificial Intelligence do Department and Donders Centre for Cognition, Radboud University Nijmegen
Prezadas Universidades dos Países Baixos, Universidades Neerlandesas de Ciências Aplicadas e Respetivos Conselhos Executivos,
Com esta carta, assumimos uma posição de princípio contra a proliferação das chamadas tecnologias de «IA» nas universidades. Estando em instituições de ensino, não podemos tolerar o uso acrítico da IA por estudantes, professores ou gestores. Apelamos também à reconsideração de quaisquer relações financeiras diretas entre universidades holandesas e empresas de IA. A introdução irrestrita da tecnologia de IA leva à violação do espírito da lei Al da UE pois compromete os valores pedagógicos básicos e os princípios da integridade científica, impede-nos de manter os padrões de independência e transparência, e o mais preocupante é que o uso da IA tem demonstrado prejudicar a aprendizagem e enfraquecer o pensamento crítico.
Como académicos, e especialmente
como educadores, temos a responsabilidade de
educar os nossos alunos, não de aprovar diplomas sem qualquer relação
com as competências de nível universitário. O nosso dever é cultivar o pensamento crítico e a honestidade intelectual, e
não é nosso papel policiar ou promover a fraude, nem normalizar a restrição do pensamento profundo por parte dos nossos alunos e
orientandos.
As universidades têm como objetivo o envolvimento profundo
com a matéria. O objetivo da formação académica não é resolver problemas
da forma mais eficiente e rápida possível, mas desenvolver competências
para identificar e lidar com problemas novos, que nunca foram
resolvidos antes. Esperamos que os alunos tenham espaço e tempo para
formar as suas próprias opiniões profundamente ponderadas, informadas
pela nossa experiência e alimentadas pelos nossos espaços educativos.
Esses espaços devem ser protegidos da publicidade da indústria, e o nosso financiamento não deve ser mal gasto em empresas com fins lucrativos, que oferecem pouco em troca e desqualificam ativamente os nossos alunos. Até mesmo o próprio termo «Inteligência Artificial» (que cientificamente se refere a um campo de estudo académico) é amplamente mal utilizado, com a falta de clareza conceptual, aproveitada para promover as agendas da indústria e minar as discussões académicas. É nossa tarefa desmistificar e desafiar a «IA» no nosso ensino, investigação e no nosso envolvimento com a sociedade.
Devemos proteger e cultivar o ecossistema do conhecimento humano. Os modelos de IA podem imitar a aparência de trabalhos académicos, mas (por construção) não se preocupam com a verdade — o resultado é uma torrente de «informações» não verificadas, mas que soam convincentes. Na melhor das hipóteses, esses resultados são acidentalmente verdadeiros, mas geralmente sem citações, divorciados do raciocínio humano e da rede académica da qual são roubados. Na pior das hipóteses, são confiantemente errados. Ambos os resultados são perigosos para o ecossistema.
As tecnologias de IA exageradas, como chatbots, grandes modelos de linguagem e produtos relacionados, são apenas isso: produtos que a indústria tecnológica, tal como as indústrias do tabaco e do petróleo, produz para obter lucro e em contradição com os valores da sustentabilidade ecológica, dignidade humana, salvaguarda pedagógica, privacidade de dados, integridade científica e democracia.
Esses
produtos de «IA» são material e psicologicamente prejudiciais à
capacidade dos nossos alunos de escrever e pensar por si próprios, beneficiando, em vez disso, investidores e empresas
multinacionais. Como estratégia de marketing para introduzir tais
ferramentas na sala de aula, as empresas afirmam falsamente que os
alunos são preguiçosos ou carecem de competências de escrita. Condenamos
essas afirmações e reafirmamos a autonomia dos alunos face ao controlo
corporativo.
Já passámos por isso antes com o tabaco, o petróleo e
muitas outras indústrias nocivas que não têm os nossos interesses em
mente e que são indiferentes ao progresso académico dos nossos alunos e à
integridade dos nossos processos académicos.
Apelamos a todos para:
•
Resistir à introdução da IA, nos nossos próprios sistemas de software,
desde a Microsoft à OpenAI e à Apple. Não é do nosso interesse permitir
que os nossos processos sejam corrompidos e ceder os nossos dados para
serem usados no treino de modelos que não só são inúteis para nós, como
também prejudiciais;
• Proibir o uso da IA na sala de aula para
trabalhos dos alunos, da mesma forma que proibimos fábricas de ensaios e
outras formas de plágio. Os alunos devem ser protegidos contra a
desqualificação e ter espaço e tempo para realizar as suas tarefas por
conta própria;
• Deixar de normalizar o hype da IA e as mentiras que
prevalecem na forma como a indústria tecnológica enquadra estas
tecnologias. As tecnologias não têm as capacidades anunciadas e a sua
adoção coloca os alunos e os académicos em risco de violar padrões
éticos, legais, académicos e científicos de fiabilidade,
sustentabilidade e segurança;
• Fortalecer a nossa liberdade
académica como profissionais universitários para fazer cumprir estes
princípios e padrões nas nossas salas de aula e na nossa investigação,
bem como nos sistemas informáticos que somos obrigados a utilizar como
parte do nosso trabalho. Nós, como académicos, temos direito aos nossos
próprios espaços;
• Manter o pensamento crítico sobre a IA e promover
o envolvimento crítico com a tecnologia numa base académica sólida. A
discussão académica deve estar livre de conflitos de interesses causados
pelo financiamento da indústria, e a resistência fundamentada deve ser
sempre uma opção.
Atenciosamente,
...
segunda-feira, 24 de novembro de 2025
A escola pública está exposta à massificação das gigantes tecnológicas
A escola pública está em queda e o país resignou-se é o título de um artigo saído hoje no jornal Público, assinado por Paulo Prudêncio (ver aqui ou aqui). É um artigo que, como vários outros saídos ultimamente neste e noutros jornais, deviam ser considerados como documentos de reflexão colectiva nas escolas, nas acções de formação de professores, nas instituições de ensino superior que formam professores. Não digo o mesmo para responsáveis políticos, estejam eles situados a nível nacional ou local, pois nas suas "agendas" constarão outras intenções e pressões para a educação, que não os efectivos fins educação.
Quase no final do artigo, este professor diz o seguinte:
E enquanto o país se convenientemente distrai, crescem brutalmente as desigualdades educativas (...) O investimento financeiro das famílias é decisivo e tem um efeito de bola de neve (...) as escolas para ricos, com propinas elevadas, farão a diferença, até no uso sensato, formativo e não aditivo das tecnologias, e acentuarão as desigualdades. Os colégios internacionais passaram de nove, em 2010, para 18, em 2021, e um grupo privado britânico de escolas para ricos já investiu mais de 300 milhões de euros em Portugal. A escola pública ficará exposta à massificação das gigantes tecnológicas interessadas num “tutor de inteligência artificial por aluno”, na telescola 3.0, na subalternização do papel dos professores e na alocação de hardware de baixa qualidade, e o que resta da inteligência natural parece incapaz de reverter a anestesia do país e a queda da escola pública."
Gostaria de pensar que alguns educadores que estão na escola pública (directores, professores e outros profissionais), conscientes da sua "nobre função", não estejam resignados, nem venham a resignar-se. O texto de Paulo Prudêncio é, de resto, um exemplo de não resignação. Por isso, lhe agradeço o trabalho que teve na sua composição e a coragem de o enviar para publicação.
PS. Permito-me usar palavras suas para compor o título.
domingo, 23 de novembro de 2025
SUPERVIGILÂNCIA ARTIFICIAL E EDUCAÇÃO ESCOLAR
Há uns anos foi notícia a concretização de um desejo de muitos e de preocupação de tantos outros: a supervigilância electrónica com fins de policiamento de rua (ver aqui), a sua função era captar dados para informação e actuação das autoridades. As razões apresentadas eram, como sempre, nobres: garantir a segurança dos cidadãos, através do combate ao crime, ao mau comportamento, a qualquer desvio humano. Ainda assim, no contexto em que as máquinas foram colocadas - São Francisco, nos Estados Unidos da América - os novos "polícias" desencadearam queixas junto da autarquia, mas daí não resultou a sua proibição, apenas a restrição a espaços privados.
A investigação continuou, evidentemente, a sua marcha e o que se tem seguido é o que leitor já saberá: a supervigilância electrónica armada e dotada de "inteligência artificial": robots e drones associados para garantir a "segurança pública" (ver, por exemplo, aqui): Sim, não estou a falar de contextos de guerra...
Máquinas com super-poderes, em forma de carro, de cão, de humanoide, de carro-humanoide... que executam ordens, mas que também podem tomar "decisões autónomas", sempre "ao serviço das pessoas nunca como uma ameaça para os nossos cidadãos", como justificou um construtor.
Estão em vários países e são o futuro, foi o que li em diversos sites online. Chegarão, por certo, à Europa. Talvez sejam anunciados em Lisboa, na próxima web summit, que já tem data marcada, por um ministro e um autarca eufóricos.
Como defender os direitos civis, fundados em valores que custaram a vida a tanta gente, como a liberdade e a justiça, num mundo deslumbrado, hipnotizado por máquinas que os ameaçam? Quer dizer, por máquinas que, é bom não esquecer, são delineadas, programadas e operadas por humanos... Afinal, é sempre o humano... vezes demais contra si próprio.
A resposta que vejo mais viável, ainda que estando longe de oferecer garantias, é o da educação escolar. Num momento crítico da humanidade, é ela que, tal como noutros momentos congéneres, pode abrir a mente, ou algumas mentes, para se ver o que sem ela não se vê ou não se quer ver.
quarta-feira, 19 de novembro de 2025
domingo, 16 de novembro de 2025
ComceptCon 2025 dedicada ao tema do "Cancro"
A ComceptCon deste ano é dedicada ao tema do cancro e onde os oradores irão explicar o essencial sobre a doença, falar sobre os tabus, desmistificar mitos, abordar os tratamentos mais recentes e confrontar a desinformação e as falsas curas. Para isso, contaremos com os oradores Nuno Ribeiro (IPATIMUP), Joana Paredes (I3S), Diana Barbosa (Comcept / IHC) e haverá ainda uma roda de conversa participativa.
A ComceptCon tem com objetivo partilhar a informação mais recente e credível, assim como dar a oportunidade de os participantes conversarem com os especialistas presentes e esclarecerem as suas dúvidas.
A entrada é gratuita, mas necessita de inscrição para garantir lugares. Podem inscrever-se aqui.
Quando: Sábado, 22 de novembro
Local: Museu de Leiria
Organização: COMCEPT
Por um Ensino Superior humanizado. Um manifesto
Eis a ligação para assinar o documento: Por um Ensino Superior humanizado Manifesto contra o uso da “inteligência” artificial generativa
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