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terça-feira, janeiro 20, 2026

Quarteto Fantástico – Namor contra a raça humana

 


No primeiro anual do Quarteto Fantástico, publicado em 1963, o grupo enfrentou novamente o rei dos mares, Namor. Não era só mais uma escaramuça entre eles, mas um plano definitivo de Namor para escravizar a humanidade.

Algo interessante aqui é que, embora nas primeiras histórias o personagem aparecesse sempre sozinho, aqui ele comanda as tropas de Atlântida, de modo que temos um vislumbre de toda uma ambienteção interessantíssima.

A Atlântida de Kirby é grandiosa. 


Na trama, Namor atrai o Quarteto ao oceano com o objetivo de fazê-los prisioneiros para logo depois libertá-los com uma mensagem: “Eu, príncipe Namor, proclamo que os sete mares e os céus que sobre eles se assomam são meu domínio imperial! Deste dia em diante, nenhum barco ou aeronave da superfície poderá violar o meu reino!”.

Isso acontece na página 13. É inevitável pensar que tudo até ali foi feito apenas para aumentar a quantidade de páginas necessárias para o anual. Afinal, Namor poderia simplesmente enviar sua mensagem, ou ir até sede do Quarteto em Nova York. Não era necessário que o grupo embarcasse em um cruzeiro, houvesse o sequestro e todo o resto.

O Quarteto é sequestrado durnate um cruzeiro. 


A sequência do Quarteto na ONU é um dos momentos melhores momentos da história, e igualmente um dos mais bizarros. Quando Reed Richards termina de falar, o representante da União Soviética toma a palavra: “Não importa o que as democracias digam, eu voto Nyet!”, grita ele, enquanto bate com o sapato na mesa. Mais caricato, impossível.

Para convencê-los, os americanos chamam um cientista, que explica a formação do povo de Atlântida. Surge um homem barbudo, de meia idade, que explica que muitas espécies surgiram do mar, mas outras voltaram para o mar, o que foi o caso do atlantes – e segue-se toda uma narrativa histórica sobre como os atlantes construíram sua civilização. Mas como o cientista poderia saber tanto sobre os atlantes? Simples: ele era na verdade Namor disfarçado! A segurança  da ONU, pelo jeito, é extremamente relapsa a ponto ser enganda dessa forma.

Um cientista explica a origem de Atlântida... 


Na mesma edição há uma história escrita por Stan Lee, desenhada por Jack Kirby e arte-finalizada por Steve Ditko, que reconta em detalhes uma sequência curta publicada originalmente na primeira revista do Homem-aranha, de quando ele resolve entrar para o Quarteto Fantástico e acaba comprando uma briga com os mesmos.

... e narra o surgimento de Namor. 


Essa história tem um grande valor por mostrar a importância da narrativa visual nos quadrinhos Marvel e as diferenças dessa narrativa de Kirby para Ditko.

Na história de Ditko as sequências são mostradas em detalhes, sem elipses abruptas e tudo parece mais verossímil. O Homem-Aranha usa sua teia para prender a mão do senhor Fantástico, desvia das chamas do Tocha e consegue se livrar da Mulher Invisível graças ao seu sentido de aranha.

O primeiro encontro do aranha com o Quarteto é recontado com traço de Kirby. 


Já Kirby faz elipses extremamente abrupta, mostrando fatos que teriam alguns minutos de distância entre si. Por exemplo, à certa altura a Mulher Invisível atira com uma arma futurista e o aranha cria um escudo de teia. Há, claro, um problema narrativo aqui. Ou o herói foi extremamente rápido, nível Flash, para construir o escudo, ou o raio da arma, era extremamente lento. O leitor precisa estar muito desatento para não perceber que há um problema narrativo.

As elipses de Kirby são abruptas. 


Kirby também inventa uns usos estranhos da teia. À certa altura, por exemplo, o quarteto liga um ventilador gigante e o aranha joga a teia de forma que ela se arrasta pelo chão rumo à hélice. Em outro momento ele cria, em microssegundos, um pilar de teia solidificada.

Lendo essa história, percebemos que Stan Lee tinha toda razão ao entregar o aracnídeo para Steve Ditko.

O pior show do mundo

 


Certa vez, quando visitávamos Caldas Novas, minha mulher viu o anúncio de um show intitulado “A dança através do mundo” e insistiu para que fôssemos. O ingresso era caro, mas o cartaz prometia uma verdadeira viagem ao redor do mundo da dança. Mal imaginávamos a roubada na qual estávamos nos metendo. 
A plateia já deveria ter nos alertado: era nítido que éramos os únicos turistas ali. Alias, nos provavelmente éramos os únicos que não eram amigos pessoais do diretor do espetáculo, que aparecia entre cada número para falar de sua vida, seu sonho de ser bailarino e sua loja de móveis. Aproveitava também para agradecer, um a um, cada pessoa da plateia, todos empresários locais. Esses intervalos falados duravam uma eternidade e incluíam até mesmo piadas internas, que só podiam ser entendidas entre as partes. Detalhe: todos os homens estavam de ternos e todas as mulheres estavam com vestidos de festa.
Só essas intervenções seriam suficientes para colocar o show no pódio de qualquer competição de roubada. Mas tinha também os números musicais.
Imagine que um carnavalesco daltônico e drogado resolvesse fazer figurinos de um show. Tudo tinha plumas, tudo tinha paetês, tudo era completamente sem noção.
Para se ter uma ideia, os dançarinos de tango se vestiam como piratas!  Eram tantos acessórios que muitas vezes os bailarinos mal conseguiam se mexer. 
O pior de tudo é que o show simplesmente não acabava. Terminava um número de dança, começava uma intervenção do diretor, que se achava tão talentoso que chegava até mesmo a cantar! Afinal de contas, nada é tão ruim que não possa piorar.

Mulher Maravilha 1984

 

Quando Patty Jenkins lançou o primeiro filme da Mulher Maravilha estrelado por Gal Gadot, foi um alívio no meio das produções equivocadas da Warner-DC, com destaque negativo para a Liga da Justiça. Embora ainda tivesse um visual sombrio e mostrasse a amazona usando armas, havia uma boa história, uma mensagem de esperança e o tom mítico que caracteriza a personagem nos quadrinhos.

Talvez o sucesso do primeiro tenha elevado muito a expectativa sobre Mulher Maravilha 1984, filme lançado este ano. E talvez isso explique muitas das críticas mais agressivas.

O filme não é perfeito. Toda a sua trama é baseada num deus ex-machina. Uma misteriosa pedra que surge do nada e dá tudo que a pessoa deseja, mas, em troca, tira aquilo que lhe é mais importante. Mas, considerando-se que todo a base da Mulher Maravilha é calcada na mitologia, isso não chega a atrapalhar a fruição.

Na história, Maxwell Lord usa a pedra para ficar milionário com poços de petróleo, mas no processo pode destruir toda a civilização ocidental. Diana acidentalmente usou a pedra para trazer de volta Steve Trevor e uma colega de trabalho também acidentalmente usa a pedra para ganhar poderes, transformando-se na Mulher-Leopardo. Estabelece-se assim um dilema: para deter o vilão, Diana precisa abdicar de seu amor e derrotar sua amiga.

O fato do filme ser ambientado em 1984 estabelece uma quebra com o estilo Zack Snyder: saem os tons sombrios e entra uma explosão de cores. Sai as tramas depressivas e entra uma narrativa com toques de filmes de aventura – a sequência inicial, no shopping, exemplifica muito bem essa abordagem.

Também vale destacar o fato de que neste filme a personagem usa apenas seu laço da verdade. Ela foi criada para ser um símbolo da paz, por isso tinha uma arma não letal e com forte simbologia. No filme o laço é fundamental para a resolução do conflito. Mais uma quebra com o estilo Snyder, que chegou a mostrar uma imagem da amazona segurando a cabeça dos inimigos.

O filme funciona principalmente graças ao carisma de Gal Gadot.  E fica uma dica: assista a cena pós-crédito, que traz a participação especial de Lynda Carter, a Mulher Maravilha da década de 70 – que continua igualmente linda e carismática.

Mazagão - a cidade que nasceu duas vezes

 


Existe uma visão difundida de que a Amazônia não tem história. A Amazônia tem muita história, mas acontece que essas histórias são pouco conhecidas.

Um exemplo é a cidade de Mazagão.

Surgida em Marrocos, no contexto da expansão lusitana na África, ela se tornou durante mais de um século o bastião do cristianismo na terra dos mouros.

Isso até que a coroa portuguesa decidisse que era caro demais manter uma fortaleza no local. A solução foi inusitada: transferir todos os seus habitantes para uma localidade no interior do Amapá. Imagine milhares de pessoas sendo transportadas da África para a Amazônia. Pois foi isso que aconteceu.

Mazagão é o tema do meu novo livro. São 11 contos interligados, que, lidos em conjunto, formam um romance e contam a história dessa cidade única. O livro está no Catarse e você pode me ajudar a publicá-lo.

Para adquirir o livro,escreva para profivancarlo@gmail.com. O valor é 39 reais com frete incluso. 

Super-homem – A reportagem do século

 


Quando assumiu o Homem de aço, em 1985, John Byrne deu um novo gás para um personagem já desgastado pelo tempo. O primeiro super-herói parecia nunca ter saído da era de prata e a fase de Byrne foi um salto direto para a era moderna.

Nesse sentido, as histórias tinham o mesmo impacto do filme de Richard Donner alguns anos antes. Donner mantivera todo o carisma e todas as características básicas do personagem, mas injetara algo novo, que fazia as pessoas acreditarem que alguém poderia de fato voar.

A segunda história de Byrne para o personagem, publicada em The Man of stell 2, tem exatamente o clima de um filme de Richard Donner.



A história começa com Lois lane e perry White num café, enquanto o herói passa voando pela rua. A cena é emblemática: Lois está em primeiro plano, o que deixa claro que ela é a protagonista da história. Mas, apesar disso, ela não consegue ver o herói, que passa às suas costas.

É exatamente isso que acontece na história: por mais que tente chegar a tempo de sua grande reportagem, Lois está sempre alguns segundos atrasada. É quando ela resolve tomar medidas drásticas para conseguir contato com o herói na época misterioso.



A história tinha o clima certo, uma mistura de fantasia, humor e personagens carismáticos, o tipo de clima que o personagem precisava.

Mistério à americana

 



Uma das poucas áreas em que os norte-americanos se destacam, em termos literários, é nas histórias policiais. O gênero foi criado por Edgar Alan Poe em abril de 1841, com o conto Os Crimes da Rua Morgue. De lá para cá, quase todos os grandes escritores da terra de Tio Sam se dedicaram, em algum momento de suas carreiras, às histórias policiais, com destaque para Dashiell Hammett e Raymond Chandler. Esses dois últimos chegaram a criar um subgênero, o noir, em que o detetive se envolve com as histórias, em oposição ao estilo inglês, em que o detetive resolve quase todo o caso de seu escritório, utilizando apenas o raciocínio lógico. Assim, a coletânea Mistério à Americana é um prato cheio para os fãs do gênero.
O livro é organizado e tem prefácio de Donald Westlake. Pouca gente o conhece no Brasil, e, no entanto, é um dos mais inventivos escritores que já tive o prazer de ler. Sua especialidade era produzir livros sob uma ótica inusitada. Em O Espião Pacifista ele mostrava um pacifista bicho-grilo envolvido em uma trama internacional de terrorismo e sendo obrigado a trabalhar para o FBI. Em A Vida Secreta de um Homem Sensual ele nos mostra um escritor de erotismo que é um frustrado sexual. Infelizmente, Westlake só organizou o volume, procurando histórias interessantes em antologias, revistas masculinas, como a Playboy, magazine especializados, como a Ellery Queen's Mystery Magazine (que foi editado aqui no Brasil com o nome de Mistéiro Magazine até a década de 70) e até revistas acadêmicas, como Oxford American.
O resultado une de escritores consagrados, como Jeffery Deaver (de O Colecionador de Ossos, que chegou a virar filme) a nomes totalmente desconhecidos.
Os que estão acostumados ao gênero policial mais convencional, no estilo Agatha Christie, vão se decepcionar. A grande maioria da história foge do padrão "Assassinato que deve ser solucionado por um detetive". Na verdade, em muitos casos, nem mesmo há um assassinato e, em outros, não há detetive. Em outras situações, o detetive só se depara com um assassinato quando está investigando um outro crime mais banal. É o que acontece, por exemplo, com "Milagres! Acontecem!", de Dough Allyn. A trama toda gira ao redor de um detetive tentando descobrir a filha desaparecida de uma cantora gospel.
Em "Motel 66"não há nem mesmo um detetive. A história tem como protagonista uma moça ingênua que passa sua lua de mel em um hotel de beira de estrada na famosa Route 66. Anos depois ela volta ao mesmo local e acaba descobrindo que sua estada ali pode estar relacionada a um crime. A história termina com a sugestão de outro crime, num clima que beira o cômico.
Em "Saltando com Jim", um detetive é contratado para proteger o marido de uma bela mulher, que parece estar envolvido com negócios escusos. Sua investigação o leva a descobrir que ele está relacionado com o comércio internacional de mulheres e que o piloto de um avião o está chantageando. Não, contar isso não estraga a história. "Saltando com Jim", assim como "Milagres! Acontecem!" são histórias noir, em que a solução do crime é menos importante que a investigação em si. Já se disse que o policial noir é o mais próximo que a literatura moderna chegou do teatro grego, em que os personagens parecem estar sendo guiados por um destino do qual não podem escapar. O detetive é apenas uma testemunha dessa derrocada.
Há uma história emblemática de Dashiell Hammett em que um detetive bate na porta de uma casa perguntando por um adolescente que fugiu de casa. Os bandidos, que estavam na casa, logo desconfiam e o prendem. Enquanto decidem o que fazer o detetive, eles discutem entre si e acabam se matando. No final descobrimos que o detetive estava mesmo procurando um garoto desaparecido e que sua presença na casa era puramente acidental. É esse tipo de ironia do destino que o leitor encontrará na maioria das histórias de Mistério à Americana.

segunda-feira, janeiro 19, 2026

Coraline, de Neil Gaiman

 


Em 1987, quando era um postulante a roteirista de quadrinhos, Neil Gaiman começou a escrever uma história infantil para sua filha mais nova. Holly gostava de histórias assustadoras, com bruxas e meninas corajosas.Gaiman começou pelo nome da personagem: Caroline, e escreveu errado, Coraline, mas percebeu que que era um nome melhor que aquele que havia pensado. Sua personagem se chamava Coraline!  

Pouco depois, Gaiman se tornou escritor de Sandman, envolveu-se em vários projetos e a história foi deixada de lado. Em 1992 ele voltou ao texto e produziu um livro único. Uma mistura de conto de fadas com história de horror narrado com a suavidade e a poesia que caracterizam o escritor britânico. Em 2009 o livro foi adaptado para o cinema numa animação em stop motion dirigida por dirigido por Henry Selick.

É esse livro que a editora Intríseca trouxe para o público brasileiro em 2020 numa edição belíssima, que encanta desde a capa, obra de Chris Riddell (também autor das ilustrações internas). A edição é em capa dura, com a lombada lilás, fita lilás para marcar as páginas e aberturas de capítulos em lilás. É o tipo de edição que chama atenção por si só, independente do conteúdo.

Quanto ao conteúdo? O conteúdo é incrível.

A trama é sobre uma menina que acaba descobrindo uma passagem para outra dimensão onde encontra uma outra mãe e um outro pai. São iguais aos pais verdadeiros, exceto por um detalhe: botões costurados no lugar dos olhos. O objetivo da outra mãe é convencer Coraline a ficar naquele outro mundo. Quando a menina volta, descobre que seus pais sumiram. Agora ela tem que retornar e tentar resgatar seus pais e fugir das garras da outra mãe.

Como dito, é uma história de terror, mas contada com uma sensibilidade que só se poderia esperar do autor de Sandman e Orquídea Negra.

À certa altura, por exemplo, é narrada a decapitação de um rato. O texto diz:

“Abriu os olhos e viu o rato. Ele estava deitado no caminhozinho de tijolos no pé da sacada e parecia surpreso. Sua cabeça, por sinal, encontrava-se caída a uma distância considerável do restante do corpo. O bigode estava retesado, os olhos esbugalhados, e os dentes amarelados e afiados à mostra. Um colar de sangue cintilava em seu pescoço”.

Coraline é um livro para crianças, para jovens, adultos, para quem gosta de histórias de terror ou contos de fadas. É um livro para quem gosta de ler.

Demolidor – a noite mais longa da minha vida

 


Quando se fala em Demolidor, poucas pessoas pensam no escritor de ficção científica Harlan Ellison. No entanto, ele foi o criador, junto com Arthur Byron Cover e David Mazzucchelli, de duas das histórias mais eletrizantes do personagem.

Publicadas em Daredevil 208 e 209, a HQ é uma trama de vingança. Ellison pega um gancho antigo, da fase inicial de Miller no título, quando o homem sem medo enfrenta o vilão Arauto da Morte e este acaba falecendo no encontro. Sua mãe usa toda a fortuna da família para programar uma casa cujo único objetivo é matar o Demolidor. Ela programa também uma menina-robô cujo objetivo é atrair o herói para dentro da casa.

O desenho de Mazzucchelli se destaca. 


O título não é por acaso. É de fato uma noite longa, em que o herói enfrenta todo tipo de ameça: bombas, alucinógenos, crocodilos, areia movediça, cobras, gases venenosos, dardos... é uma sequencia verdadeiramente alucinante de ação e que explora bem a grande característica do personagem: o fato de, mesmo sofrendo, apanhando, se ferindo, jamais desistir.

Talvez essa trama ficasse inverossímil na mão de um desenhista menos habilidoso, mas Mazzuchelli faz um trabalho magistral, antecipando obras seminais que ele faria depois, como A queda de Matt Murdock ou Batman ano um.

A narrativa é alucinante. 


Na edição seguinte, já fora da casa, o Demolidor é perseguido pelas outras bonecas usadas para atraí-lo para a armadilha enquanto Matta Murdock reencontra um velho amigo de infância. Embora o ritmo não seja tão frenético, é uma história que consegue prender o leitor até o final comovente.

Essas histórias foram publicadas no Brasil em Superaventuras Marvel 49 e 50.

Mãe é mãe

 

Marquinhos ligou para a mãe no sábado.
- Tudo bem, meu filho?
Sim, tudo bem. Marquinhos tivera uma semana cansativa, mas já estava relaxando. Sim, estava tomando as vitaminas e se agasalhando e comendo na hora certa (a mãe sabia que era tudo mentira, mas ouvir isso era sempre um consolo). Por fim, Marquinhos avisou que precisava desligar. Tinha tomado um calmante e estava com sono. Além disso, os créditos do celular já estavam no fim.
Parecia tudo normal, mas mesmo assim a mãe não conseguia dormir. Alguma coisa estava errada, mas o quê?
No dia seguinte, acordou cedo e ligou para o filho. O telefone tocou, tocou, e nada.
- Ai meu Deus! O que está acontecendo? Calma, calma Zumira. É cedo ainda, ele não deve ter acordado. Ligo mais tarde.
Mais tarde o telefone caiu na caixa postal.
- Isso não está certo. Ele não costuma dormir tanto assim... e se aconteceu alguma coisa?
Ligou de novo. De novo na caixa postal e dessa vez a imaginação voou mais longe. Pensou no filho caído na cama, passando mal, sem ninguém ali, ao lado dele. Marquinhos dissera que estava tomando um calmante? E se ele tivesse tomado uma dose muito alta? E se tivesse dormido demais, ou pior, se o remédio tivesse tido efeito colateral? Não, não era nada disso, ele ligaria para ela... mas então a mãe lembrou-se do que ele dissera: os créditos estavam acabando. Talvez ele estivesse passando mal e não pudesse ligar por causa dos créditos.
- Ai, meu Deus, matei o meu filho!
O pior é que não tinha o telefone de nenhum amigo de Carlinhos. Não podia ligar para o trabalho dele. Era domingo. Decidida, entrou no carro e pegou a estrada.
- Preciso chegar enquanto ainda dá tempo!
Dirigiu nervosa, angustiada pelas mais pessimistas previsões. Calculou se daria tempo de chegar antes de seu querido Marquinhos ter morrido de fome e sede, incapaz de levantar da cama. Duas horas depois estacionou na frente do prédio. Nem fechou o carro. Não havia tempo para essas minúncias.
Já entrou gritando com o porteiro:
- Abra a porta do apartamento do meu filho. Ele está passando mal!
Foram o porteiro e o síndico, com uma chave mestra.
Ainda demoraram um pouquinho, pois o porteiro não sabia usar a chave. A mãe incentivava:
- Abre logo. Um minuto a mais pode ser tarde demais.
Deram com o Marquinhos sentado na poltrona, assistindo futebol, tomando cerveja e comendo salgadinhos.
Ele estava bem. Na verdade, estava ótimo, depois de uma magnífica noite de sono. O celular não atendia porque a bateria acabara e Marquinhos nem percebera. O síndico e o porteiro saíram rogando pragas.
A mãe, para não perder a viagem, ralhou:
- Onde já se viu? Em plena tarde de domingo você bebendo cerveja e comendo besteira! Se não fosse a sua mãe cuidar de você...

O Zen-budismo

 


A palavra Zen é uma corruptela da palavra chinesa Chan, que por sua vez é uma corruptela deDhyana, em sânscrito. Todas têm o significado de meditação.

O buda histórico, Sidarta Gautama, fazia prelações diárias. Conta-se que um dia ele ficou em silêncio e apenas levantou uma flor. Todos os monges ficaram desconcertados, esperando uma explicação. Nesse momento um discípulo chamado Kasyapa teve uma revelação e alcançou a iluminação. O discípulo sorriu e o Buda sorriu de volta. Surge aí uma corrente do budismo que privilegia a experiência direta, orientada por um mestre.

Kasyapa começou pregar e deu uma origem a uma linhagem de mestres e patriarcas. Alguns monges dessa linha saíram da índia na direção da China. Lá eles encontraram o taoísmo, que tinha várias semelhanças com o budismo.

Os taoistas acreditavam que o mundo está em constante mudança, que nada é fixo e que devemos nos adaptar a essas mudanças. Daí o nome, tao, que significa caminho. Para o tao, devemos estar sempre caminhando, em movimento, nos adaptando às mudanças. Eles propunham também ultrapassar o pensamento dual. Geralmente julgamos as coisas, separando-as em bom e ruim, preto e branco, noite e dia, prazeroso e doloroso, sucesso e fracasso. Mas, num mundo em constante mudança, esses duplos são transitórios e irreais. O auge do sucesso provavelmente representa o início do fracasso. O auge da noite prenuncia o início do dia.

Com o tempo, as duas doutrinas se mesclaram no Chan, uma religião com ênfase na meditação como forma de manter o foco no aqui-agora, a atenção plena receitada por Buda. O budismo tem em seu cerne a ideia de que a vida é dor e devemos superar a dor. Boa parte dessa dor está relacionada ao fato de nunca que vivemos no presente. Estamos sempre assombrados por eventos do passado ou ansiosos por algo que ainda não aconteceu. Ou estamos tentando prender as coisas ou momentos de felicidade, mas que escapam por entre nossas mãos.  

Quando chegou ao Japão, o Chan transformou-se no Zen e ganhou grande popularidade. Até mesmo os samurais passaram a praticar meditação como forma de manter o foco e a atenção plena durante o combate – muitos desses guerreiros depois abdicariam da violência e se tornariam monges.

A prática essencial do Zen é o Za-zen. Za significa sentado, e zen meditação, portanto, meditação sentada.

A palavra meditação pode dar a entender que o Zen prega uma fuga da realidade. A maioria das pessoas, ao ouvir falar em meditação, pensa em monges afastados de tudo e de todos. O Zazen é exatamente o oposto: meditamos não para escapar da realidade, mas, ao contrário, uma profunda imersão no dia-a-dia. É através da meditação que devemos conhecer a nossa verdadeira essência, superarmos os pares contrários e focarmos no aqui-agora.

Para o Zen, devemos ter o tempo todo a atenção plena ao momento. Ao ser perguntado qual era a diferença entre ele e outras pessoas, um mestre Zen respondeu: quando estou comendo, estou comendo, quando estou dormindo, estou dormindo, quando estou caminhando, estou caminhando.

O foco na respiração durante o zazen ajuda exatamente nisso, em focar no momento presente. Sentir a respiração, o corpo e evitar que a mente viaje para o passado ou para o futuro.

Aliás, o foco no cotidiano fez com que surgisse um outro tipo de meditação, o kinhin, em que os praticantes andam, candenciando seus passos pelo ritmo da respiração. É uma forma de mostrar que a atenção plena pode e deve ser usada em qualquer momento da vida. Há uma parábola sobre um mestre que viu um discípulo sentado do lado de fora do templo e perguntou-lhe o que estava fazendo. “Estou praticando zazen, mestre. Estou meditando para me tornar Buda”. Ao que o mestre respondeu: “E para onde vai o Buda quando você se levanta?”.

A arte Pulp de Graves Gladney

 


James Francis Graves Gladney nasceu em 1907 em St. Louis, Missouri.  Seu pai era um advogado de sucesso e autor de um livro sobre patentes.

Após  se formar no ensino médio em 1928, Gladney viajou para a Europa e estudou na Académie Julian por um ano. Em 1929, transferiu-se para a Slade School of Fine Art, no University College London, onde estudou com Augustus John.

Em 1934, Gladney mudou-se para New Rochelle, Nova York, para iniciar sua carreira freelancer em ilustração. O local era o berço de muitos ilustradores famosos, como Leyendecker e Rockwell.

A colaboração de Graves Gladney com os Pulp fiction começou em 1937, quando ele vendeu uma ilustração de capa para a revista Lariat Story . Logo, ele passou a vender capas pulp freelance para as revistas Adventure, Dime Mystery , Horror Stories e Strange Stories , mas a maioria de suas capas pulp foi vendida para as revistas da editora Street & Smith, como Astounding, The Avenger, Clues, Crime Busters, Mystery , Sport Story, Unknown e, principalmente, The Shadow , para a qual pintou setenta capas entre outubro de 1938 e setembro de 1941.

Gladney foi convocado para o serviço militar durante a II Guerra Mundial em abril de 1942 no qual atuou como instrutor de artilharia e contraespionagem.

Em 1961, seu pai morreu aos 84 anos, e Gladney herdou uma fortuna familiar considerável, graças ao fato de o 7-UP ter se tornado o terceiro refrigerante mais popular do mundo.

Graves Gladney passou seus anos de aposentadoria pintando, caçando e jogando golfe. Ele morreu de ataque cardíaco aos 68 anos, em 1976.















La casa de papel

 


Existe toda uma tradição de filmes sobre golpes elaborados e assaltos. Alguns exemplos disso são 11 homens e um segredo (Steven Soderbergh, 2001) e Golpe de Mestre (George Roy Hill, 1973). Um ótimo exemplo desse gênero é a série La casa de papel, criada por Álex Pina para o canal espanhol Antena 3 e lançado no Brasil pela Netflix.
Com roteiro intricado e inteligente, a série mostra um assalto à Casa da Moeda espanhola. Quando estão saindo com o dinheiro, são surpreendidos pela polícia e retornam para o prédio. É quando se revela o verdadeiro plano: a ideia é ficar lá dentro durante dias, imprimindo o seu próprio dinheiro: cédulas impossíveis de serem rastreadas.
Por trás disso, a figura do Professor, um tipo intelectual que bolou o plano como quem joga xadrez, antecipando as ações da polícia e se aproveitando delas.
Claro que o Professor não pode prever tudo e muitas vezes as coisas saem do controle, seja tanto fora da Casa da Moeda quanto dentro. No outro lado, uma policial responsável pela negociação que percebe o jogo do Professor e começa também a jogar com ele – e este começa a jogar com ela em uma dinâmica de gato e rato.
Da mesma forma, temos as relações entre os assaltantes e destes com os reféns. O tempo todo algo está acontecendo – e os roteiristas jamais deixam cair o nível da narrativa.  
Além disso, há diversas referências, tanto musicais (a música Bella Ciao é título de um dos episódios) e visuais, como as máscaras de Salvador Dali usadas pelos assaltantes.