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05/01/2026
Música & Mágica #9
01/01/2026
A Flecha do Caçador
Este foi o primeiro omnibus que eu li. É verdade que eu já li Sandman Edição Definitiva, com mais de 600 páginas por volume, o que é mais do que alguns "busões" que a gente vê por aí, mas foi o primeiro oficialmente batizado como tal. Tendo estreado no formato, posso afirmar: eu não gosto dele.
Veja bem, este aqui, com suas 768 páginas, nem é dos mais volumosos. Fico imaginando o pesadelo que deve ser manusear as quase 1.300 páginas do primeiro volume com a Sociedade da Justiça por Geoff Johns. Um omnibus te obriga a ler sentado à mesa, como se estivesse debruçado sobre um Vade Mecum pra estudar Direito. Nada mais avesso à ideia geral do que é ler um gibi.
Antes que algum defensor de editora se apresse me desqualificar, deixo claro que não culpo a Panini Comics por nada disso. Ela não inventou o formato, cuja única vantagem consiste na semelhança com o hábito de maratonar uma série: você vai lendo os capítulos sem parar (se puder) e, de repente, dá conta de uma fase inteira. Porém, posso perfeitamente culpá-la por não apostar (ou não apostar também) em formatos menos "tijolescos": por exemplo, imagina essa fase do Johns saindo em uma A Saga da Sociedade da Justiça? Bem mais legal.
Disclaimer feito, vamos ao material em si.
O Arqueiro Verde já tinha uma tradição de tramas mais próximas da vida real, desde a famosa fase da road trip com o Lanterna Verde, escrita por Denny O'Neill e desenhada por Neal Adams, nos anos 70. Para esta versão, de 1987, o editor Mike Gold (que escreve um divertido posfácio) convenceu Mike Grell a voltar para DC Comics, sob pretexto de reinventar o Arqueiro Verde como um caçador urbano.
O primeiro fruto desse trabalho foi a graphic novel em três partes The Longbow Hunters, publicada no Brasil como Os Caçadores, a partir de janeiro de 1989, pela Editora Abril. Naquele fim de década, gibi de luxo ainda era um formato que dava seus primeiros passos por aqui, muita coisa chegando por conta do aniversário de 50 anos do Batman. A série, escrita e desenhada por Grell, colocava Oliver Queen contra traficantes de drogas, serial killers e a máfia japonesa Yakuza, na figura de uma ninja fatal chamada Shado, ela própria uma exímia arqueira. Além de um realismo que ainda era quase novidade, Os Caçadores tinha arte e acabamento gráfico de alto padrão, na época. Era um troço de encher os olhos do adolescente de 15 anos que eu era então.
A graphic novel abre este primeiro volume do omnibus de Arqueiro Verde por Mike Grell. Completam o livro as 20 primeiras edições da então nova revista do Arqueiro Verde, em que Grell dá continuidade à sua abordagem realista do herói. Pra começo de conversa, nada de Star City ou qualquer outro lugar que só existe no gibi: Oliver Queen e Dinah Lance (a Canário Negro) passam a viver em Seattle, metrópole real, chuvosa e cinzenta. As ameaças no caminho de Ollie são traficantes de drogas e de gente, ladrões, políticos e parte da polícia local que não aceita vigilantismo, por mais bem-intencionado. O compromisso com a verossimilhança é tanto, que nem se fala no grito sônico da Canário.
Na maioria das edições de Green Arrow, a arte ficou por conta de Ed Hannigan (em estilo bem próximo ao do próprio Grell), mas também é possível conferir o talento de Eduardo Barreto, Dan Jurgens (já com traços reconhecíveis do estilo que o consagrou na revista do Superman), e mais alguns outros. As tramas são rápidas, resolvendo-se em duas ou três edições, e os finais parecem, hoje em dia, até meio abruptos - mas era um tempo em que ninguém fazia vídeo explicando final de gibi ou de filme: o que não estava explícito era completado na imaginação do leitor, e ninguém morria por usá-la. Era uma abordagem digna da Vertigo dentro do universo regular da DC, explicitada pela recomendação a leitores adultos na capa.
As tramas são todas minimamente interessantes, e não há uma edição que se possa chamar de ruim. Entre os extras, existem fichas e estudos de personagens, capas de edições encadernadas e, para minha surpresa e confusão, diversas capas do título do Arqueiro Verde de 2012, dentro dos famigerados Novos 52. Meio aleatório, mas nada de que valha a pena reclamar, diante da alta qualidade geral do material reunido aqui. Volto a frisar, não gosto de omnibus, mas não vejo certas coisas ganhando novas chances por aqui em outro formato - então, tratei de garantir este primeiro volume, e mal vejo a hora de achar o segundo por um preço que não seja uma dolorosa flechada na minha carteira.
Prestação de contas
Primeiro dia do ano e aqui estou, para prestar contas sobre o sorteio do Sandman: Prelúdio, realizado no dia 19/12 e vencido pelo leitor de longuíssima data Rodrigo Bertuol, de Curitiba, PR. Parabéns e boa leitura!
15/12/2025
Resumão 2025 (Melhores do Ano)
02/12/2025
Uma Batalha Após a Outra
A fotografia granulada, combinada à tendência de alocar suas histórias no passado, confere aos filmes de Paul Thomas Anderson um ar de coisa vintage, se não francamente antiga. Ele certamente não se incomodaria em ser confundido como contemporâneo do jovem Martin Scorsese ou de Stanley Kubrick, para mencionar apenas dois de seus ídolos e claras influências. Suas histórias são contadas através de personagens desesperados, disfuncionais, traumatizados, arrependidos. Não é o que se possa chamar de cinema das multidões, mas, aos poucos, a resistência do público vem diminuindo.
O primeiro de seus filmes que assisti foi talvez o mais difícil deles, Magnólia (1999), com suas tramas entrelaçadas e o final mais intrigante daquele fim de século, muito discutido e pouco assistido de fato. Era apenas seu terceiro filme e, dois anos antes, ele já havia dado à luz uma pequena obra-prima, Boogie Nights. Desde então, o homem enfileirou filmes com roteiros que privilegiam a inteligência do espectador, direção estilizada, visual impecável e atuações soberbas. É dele, por exemplo, o filme chamado, em diversas listas, de melhor do século 21 (e eu concordo), o monumental Sangue Negro (2007). É raro que um filme de Paul Thomas Anderson não seja lembrado nas indicações ao Oscar.
Não deve ser diferente em 2026, quando Uma Batalha Após a Outra deve figurar em categorias importantes. Talvez seja o mais convencional entre seus dez filmes, mas, ainda assim, é um ao qual não se assiste impassível, principalmente por seus paralelos com a realidade dos EUA no presente. O momento da história não é explícito (e ainda existe um salto de 16 anos), mas só não vê quem não quer: ricaços supremacistas comandando o país, cidadão comum sem perspectivas, polícia e exército truculentos e imigrantes perseguidos.
Quando o fictício grupo revolucionário French 75 ataca um campo de detenção de imigrantes, Perfidia Beverly Hills (Teyana Taylor) é a líder de campo e "Ghetto" Pat (Leonardo DiCaprio) é seu namorado especialista em explosivos. O grupo liberta os detidos e Perfidia humilha sexualmente o oficial Steven Lockjaw (Sean Penn), que fica obcecado por ela e a surpreende durante um novo ataque. Quando o grupo é traído e vários de seus membros são capturados ou mortos, Perfidia foge do país e deixa com Pat a filha recém-nascida. Anos depois, a menina e Pat vivem como fugitivos, ele sob novo nome (Bob), mas Lockjaw ainda os persegue, agora com motivos mais pessoais.
As ótimas cenas de perseguição com carros (especialmente aquela no sobe-desce dos pontos cegos da Rota 78) aproximam Uma Batalha Após a Outra de um filme de ação mais convencional - ainda que ninguém seja sobrenaturalmente bom ao volante, pois os personagens de PTA são gente comum, mesmo as que têm aspirações e trabalhos incomuns. É por isso que as trocas de tiro são desajeitadas e as fugas nem sempre acabam bem. Isso é ótimo, e, felizmente, o público começou a entender, fazendo deste o maior sucesso comercial do diretor - o que significa cerca de 200 milhões de dólares para um custo médio de 150 milhões. Nada tão impressionante, mas lembre-se que estamos falando de um filme com quase três horas de duração, de um diretor tido como "difícil".
Brilhantismo técnico à parte, o filme apoia-se na entrega de seu elenco, com interpretações que devem receber acenos no próximo Oscar, especialmente Sean Penn. Seu Steve Lockjaw é hipócrita e patético, mas nem por isso menos perigoso. O ator some debaixo da pele do militar e tem algumas das melhores cenas do filme. DiCaprio é mais contido, mas Pat/Bob é um personagem muito rico em sua total inadequação e incansável dedicação no posto de pai de uma filha que pode nem ser sua. Também a intérprete da menina, Chase Infiniti, é um furacão. Pragmática e esperta, Willa é mais mãe de Bob do que filha e já começa a buscar seus próprios caminhos na luta e na vida. É possível que ainda sobrem acenos/prêmios para Regina Hall e Benicio del Toro.
Tendo visto mais de metade de sua filmografia, posso dizer que Paul Thomas Anderson já é um de meus favoritos, porque seu trabalho nada com força contra a maré de mediocridade e apatia que sempre ameaçou engolir Hollywood - e imagina viver num mundo em que os filmes (e a arte em geral) não servem para cutucar nossas feridas, somente nos anestesiar e desmobilizar de qualquer desejo de mudar este mundo horrível em que vivemos. Não imagine demais: já acontece, e é por isso mesmo que o cinema de PTA e semelhantes é tão necessário.