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16/01/2026

Amor em tempos de seca (e sangue)


Uma crítica da novela
Guerreiros do Sol, da Globoplay

As novelas da Rede Globo já foram o principal lazer das famílias brasileiras. Suas tramas e pautas eram discutidas em todos os ambientes. A chegada da TV por assinatura e da internet, porém, fragmentou a atenção do público, que passou a preferir histórias mais curtas e com produção mais caprichada, sem o compromisso de estar na frente da TV, religiosamente, às 18, 19h ou 21h, seis dias por semana, seguindo uma trama cheia de "barrigas" (aqueles momentos em que a história não avança) que podia se estender por meio ano, ou até mais.

Desde então, a Globo tem obtido relativos sucessos de audiência, mas longe dos números dos seus anos dourados. Depois de passar anos lamentando e tentando fazer de conta que a internet não era uma ameaça, parece que a emissora carioca aprendeu a conviver nos ambientes virtuais e atendeu a uma demanda antiga da audiência quando inaugurou o Globoplay, há dez anos. Sua posição entre os serviços de streaming com maior audiência no país varia de acordo com quem pesquisa, mas é certo que está entre os cinco mais populares e segue crescendo.

Há anos produzindo documentários e minisséries, a Globoplay lançou sua primeira novela exclusiva em 2025. Guerreiros do Sol foi exibida entre 11 de junho e 6 de agosto de 2025, em levas semanais de cinco capítulos, totalizando 45. Prometida para estrear na Globo "normal" em abril deste ano, é uma produção de ótimo nível, o que não impede que tenha seus problemas. Sua história é livremente baseada no livro Guerreiros do Sol: Violência e Banditismo no Nordeste do Brasil, de Frederico Pernambucano de Mello, e na famosa história do bando de Lampião e Maria Bonita.

Nos anos 1930, Rosa (Isadora Cruz) e Josué (Thomás Aquino), se conhecem e se apaixonam no sertão pernambucano, para depois terem suas vidas transformadas pela violência. Josué se vê obrigado a montar seu próprio bando de cangaço, do qual participam três de seus quatro irmãos: Arduíno (Irandhir Santos), Milagre (Ítalo Martins) e Sabiá (Vitor Sampaio). O bando cresce em tamanho e em fama, com suas proezas fora-da-lei levando Josué a ser conhecido como "governador do sertão". Com inveja do irmão temido e respeitado, Arduíno se volta contra o bando, jurando acabar com a vida dos irmãos.

Josué e seu bando: a mão que atira é a mesma que esfaqueia

Este é apenas o conflito central de Guerreiros do Sol. Existem outros, mais ou menos interessantes ou bem desenvolvidos. Como costuma acontecer em novelas, as coisas que dão certo são espremidas até que delas não pingue mais nada, e alguns personagens e situações tolas irritam muito mais do que empolgam. Tem luta pelo voto feminino, exploração da miséria, trabalho escravo, amor entre mulheres, críticas à política e à polícia.

Há uma notável cota de nordestinos autênticos entre os atores, mas mesmo aqueles vindos de outras regiões não fazem feio. Novelas passadas no interior profundo, porém, parecem padecer de certa "síndrome de Pantanal": com frequência, tudo em Guerreiros do Sol fica muito lento e contemplativo, com todo mundo falando baixinho e cheio de glicose nas palavras. Haja close, haja afago, haja frase feita... Há ainda um excesso de filtro amarelo, mas a bonita cenografia compensa certos deslizes.

Entre os nomes do elenco, além dos já citados, veem-se ainda Alinne Moraes, José de Abreu, Daniel Oliveira, Kelner Macedo, Nathalia Dill, Marcélia Cartaxo, Luis Carlos Vasconcelos, Theresa Fonseca, Alexandre Nero, Tuca Andrada e Kaysar Dadour, entre outros. Sendo uma novela sobre bandos de cangaço em luta contra a polícia, o que mais tem é gente perdendo a vida na bala. Tente não se apegar muito a ninguém, vai por mim.

Como primeira novela de seu catálogo, Guerreiros do Sol conta muitos pontos a favor da Globoplay. Apesar de curta, ainda tem umas gordurinhas a cortar, mas cativa a audiência. Ao ser exibida na Globo, perderá algumas cenas mais sangrentas ou chocantes, e pode-se entender por quê. Na guerra de repercussão online, perdeu para a Beleza Fatal, da HBO Max (que já engatilhou Dona Beja para fevereiro). Quem sabe agora, com a visibilidade da TV aberta, ganha mais espaço na memória coletiva do Brasil noveleiro.

14/01/2026

Mar de ausências e silêncios


Uma crítica do filme
O Filho de Mil Homens

Temos aqui um claro exemplo do que torna o modelo de negócio e produção artística da Netflix um problema: um filme tão bom, tão forte e tão bonito deveria ter feito carreira no cinema - e arrisco que teria feito bonito. Porém, exceto por algumas exibições em festivais e privilegiadas salas de arte, O Filho de Mil Homens chegou direto no streaming. Parece cruel e injusto para com um filme de tamanha qualidade.

O livro homônimo do angolano radicado português Valter Hugo Mãe é um dos mais tristes em que já pus os olhos. A história do pescador Crisóstomo, entremeada com a de outros personagens igualmente trágicos, era uma leitura tocante, mas, por vezes, difícil, tamanhas as provações e que seus personagens eram submetidos. Quase não havia trégua na dor física e/ou emocional que os atravessava.

O filme de Daniel Rezende também não poupa o espectador. Não chega a ser chocante, mas esteja avisado de cenas de nudez frontal masculina e de sugestão sexual. Além de ocasional violência física, existe muita violência psicológica: as coisas ditas pelas bocas maldosas das "pessoas de bem" do vilarejo - e mesmo pelos protagonistas entre si, em momentos de tensão - podem machucar tanto quanto um soco.

Desde o surpreendente Bingo - O Rei das Manhãs (2017), tudo que eu podia usar para qualificar o trabalho de Daniel Rezende eram os filmes da Turma da Mônica, todos muito bonitinhos, mas bobinhos - portanto, a expectativa era baixa, admito. O Filho de Mil Homens, porém, é o belo fruto de uma enorme sensibilidade e de um bom gosto raro em nosso cinema.

Primeiramente, salta aos olhos a beleza da fotografia de Azul Serra. Desde as paisagens naturais até os interiores das casas, Serra entrega imagens de composição exemplar, que colam em nossas retinas, ampliando a força dramática do roteiro de Daniel Rezende. As filmagens foram realizadas em Búzios (RJ) e na Chapada Diamantina (BA), separadas por quase 1.500 km, mas somos persuadidos a crer que são dois cenários do mesmo lugar. As cores, os enquadramentos, as soluções técnicas (como começar o filme com tela quadrada e terminar com ela expandida), é tudo de uma excelência ímpar.

Toda a beleza da fotografia, porém, significaria pouco, se estivesse aliada a um roteiro piegas. A opção de Rezende em manter a crueza das páginas do livro revela-se um tremendo acerto. Coaches de autoestima e influencers de fofura podem até gostar do filme, mas devem relutar em usar cortes dele, sob risco de ter seguidores assistindo-o e cogitando processá-los, por motivo de pintos balançando em close-up (mas, cá pra nós, é uma possibilidade que me diverte).


Existe ainda, o elenco totalmente entregue a seus papéis. Rodrigo Santoro adiciona mais um desajustado à sua já extensa galeria. O pescador Crisóstomo é um eremita, evitado até pelos colegas pescadores, por conta de sua biografia problemática. Sua única companhia é um boneco de pano, estranhamente carismático em seu silêncio. Ao atingir os 40 anos, ele decide que não quer mais ser sozinho e deseja começar uma família. Seu desejo vai, aos poucos, sendo atendido por meio de encontros mais ou menos casuais: primeiro, ele conhece o precoce menino Camilo (Miguel Martines); depois, chega Isaura (Rebeca Jamir), cujo casamento acaba mesmo antes de começar. Por fim, Antonino (Johnny Massaro), um rapaz gay que não tem paz em casa, nem fora dela.

As histórias desses estranhos se entrelaçam e se assemelham, enquanto produtos do descumprimento das expectativas e convenções sociais. Enquanto estão ali, tentando realizar os sonhos de felicidade dos outros, ao custo de seus próprios sonhos e felicidade, essas pessoas se veem apequenadas, limitadas, presas em cubículos literais ou simbólicos (lembra da tela quadrada mencionada acima?). Somente quando abraçam suas próprias imperfeições e as alheias é que aprendem a sentir-se livres. Não é fácil o caminho, não é indolor o processo, mas o horizonte que se estende à sua frente faz tudo valer a pena. Famílias escolhidas, forjadas na dor e na empatia, também são famílias.

É um filme de coragem tremenda - não pela nudez ou pela libido em cena, mas por expor as entranhas mais profundas e apodrecidas de pessoas cuja maldade, com frequência, manifesta-se disfarçada de um suposto amor ou temor a Deus. Certas coisas que são ditas no filme chegam a incomodar fisicamente. O preconceito é realmente um vício (como em oposição à virtude) dos mais hediondos, mas nem todo mundo tem coragem de vestir a carapuça que o filme lhe estende.

O Filho de Mil Homens é, enfim, um dos filmes mais bonitos que tive o prazer de assistir, em forma e conteúdo, prova inegável do talento superlativo de todos os envolvidos. É maravilhoso que ele seja brasileiro, pois é mais um que coloca nosso cinema em pé de igualdade com o melhor que é feito lá fora. Se um filme assim não merece a tela de cinema, eu não sei dizer qual outro mereceria.

13/01/2026

A felicidade é uma arma quente


Uma crítica da série
Pluribus, da Apple TV

Não há coisa que divirta mais a Hollywood do que imaginar o fim do mundo. Em filmes e séries dos mais diversos gêneros, o mundo já foi inundado, congelado, invadido, detonado por fora e por dentro. Pluribus vem somar-se a esta já longa mitologia, trazendo o que talvez seja o fim de mundo mais tranquilo já visto. O ideal é começar a vê-la sem saber de nada, mas, a esta altura, sendo a série mais vista na história da Apple TV, no mínimo, alguém já falou dela perto de você.

Quando um sinal alienígena é traduzido como uma sequência de RNA e reproduzido em um laboratório astronômico, não demora muito até que uma pequena distração vire um pesadelo: o vírus escapa e vai contaminando as pessoas, transmitido pela saliva. Após uma pequena convulsão, as pessoas contaminadas despertam integrando uma espécie de mente-colmeia, partilhando toda sua memória e conhecimentos com todos os demais indivíduos do planeta, unidos em perene igualdade e felicidade.

Bom, quase todos: a escritora Carol Sturka (Rhea Seehorn) testemunha os espasmos e a posterior conversão de todos ao seu redor, mas ela, por sorte ou azar, mostra-se imune. A mente-colmeia não consegue absorvê-la e espera que Carol se junte voluntariamente, mas garante que jamais a forçará a unir-se e vai prover por ela até que mude de ideia. Furiosa porque sua namorada não sobreviveu à conversão - e, ora bolas, porque o livre-arbítrio foi tirado de oito bilhões de pessoas e o planeta virou uma utopia desprovida de personalidade - Carol começa a imaginar se consegue salvar o mundo.

Carol Sturka e Zosia, sua "babá" convertida: o fim do mundo é um porre

Pluribus marca o retorno de Vince Gilligan à televisão, após o sucesso e prestígio das séries "irmãs" Breaking Bad e Better Call Saul - desta vez, trocando a Netflix pela Apple TV, que vai rapidamente se tornando a rival por excelência da HBO em respeito à inteligência do público. Gilligan traz de volta suas assinaturas narrativas e visuais: os silêncios prolongados, os diálogos econômicos mas cortantes, os planos abertos grandiosos, os close-ups longos e incomuns, as rimas cromáticas. Não é para viciados em adrenalina, definitivamente.

Não é muito óbvio o objeto da crítica de Pluribus. Gilligan parece preferir que o espectador se ocupe de decifrar suas intenções, o que configura uma bem-vinda exceção num meio que vai sendo progressivamente empobrecido, com produtos feitos para garantir o entendimento de uma geração desfocada, que assiste à TV desviando os olhos para o celular e depois corre para procurar um vídeo de "final explicado". Gilligan não está nem aí pro seu TDAH, seja real ou da Shopee. Se você pega o celular porque está tudo muito parado numa cena, ele mete um lance importante justamente quando você não está prestando atenção - e aí, lá vai você, tendo que voltar dez segundos.

Aliás, entendo a felicidade compulsória da mente-colmeia justamente como uma crítica à massa que habita as redes sociais sem qualquer filtro crítico, reproduzindo trends e colocando sua privacidade e segurança em risco em troca de engajamento vazio, apresentando apenas o lado bonito da sua existência e uma felicidade encenada. Carol é como aquela comentarista que vai lá no teu post e diz que te conhece bem demais pra cair no teu papinho de "só agradecer".

Pode ser Carol a criticada, também: com sua teimosia birrenta e determinação em ser chata apenas porque sim, Carol, a "heroína", testa a nossa paciência em diversos momentos, como aquele amigo militante que está cego para qualquer ponto-de-vista alternativo. Pode ser uma crítica geral ao conformismo e ao comportamento de rebanho. De novo, Gilligan não oferece uma explicação fácil e limpinha. Ele quer que você pare, pense e tire suas conclusões.

Seja como for, o que não falta em Pluribus é material de identificação. Outros onze humanos são imunes como Carol, mas ela percebe que dez deles não compartilham de sua indignação e disposição de trazer o mundo de volta ao que era. Afinal, quem não gostaria de viver em um mundo em que a tristeza, a fome e a violência foram abolidas? Para um deles, pelo menos, viver em um mundo perfeitamente seguro e feliz parece valer o sacrifício da própria individualidade. A maioria, porém, quer apenas seguir perto de seus amigos e parentes, mesmo que não sejam mais exatamente quem eram, e desfrutar da disposição extrema dos convertidos em agradar aos ainda despertos, aspecto que torna o mauritano Koumba Diabaté (Samba Schutte) um inegável favorito. Ele só quer transar e "luxar", e eu não me sinto capaz de julgá-lo.

Diabaté: não sou rico, mas me permito certos luxos...

Há momentos em que Pluribus parece correr atrás do próprio rabo, mas a apatia e o tédio são inerentes à situação de Carol como alguém que teve a entrada ao "paraíso" negada e, agora, por indignação genuína ou orgulho besta, se nega a entrar com um convite tardio. A atuação explosiva de Rhea Seehorn, premiada com o Globo de Ouro e o Critics Choice Awards, revela novas camadas de Carol a cada episódio, da esperteza analítica à tristeza autodestrutiva, com direito à tentação de simplesmente entregar-se ao que parece impossível de combater (e, secretamente, tão desejável). Por sorte, Carol não está só: o único humano desperto que rejeitou o encontro inicial parece ainda mais determinado que ela em acabar com a invasão. O perigo vem do Paraguai e seu nome é Manousos Oviedo (Carlos-Manuel Vesga).

Pluribus tem três temporadas previstas, o que, para mim, já parece muito. Sempre existe a chance de que o sucesso a estique além do razoável, mas torço para que Gilligan seja como Carol Sturka e resista ferozmente à tentação da felicidade por meio do dinheiro fácil, o que parece uma tática da mente-colmeia para absorvê-lo. Se o mundo vai acabar em apatia e sorrisos amarelos, que não sejam os nossos, pela decepção. Por enquanto, em sua primeira temporada, Pluribus me deixou bastante feliz, mesmo desperto (ou será que estou?).

05/01/2026

Música & Mágica #9


CAETANO VELOSO
Estrangeiro
1989

Em 1989, ao mesmo tempo em que a geração BRock estava lançando discos elogiados e bem-sucedidos (Big Bang, dos Paralamas; Õ Blésq Blom, dos Titãs; As Quatro Estações, da Legião Urbana), havia no ar claros sinais de desgaste e mudança: a estética e a sonoridade "gringas" das bandas começavam a perder a atenção do público e da mídia, e o país voltava a olhar para dentro de si: o sertanejo e a axé music estavam surgindo para as plateias fora de seus estados originários, o romantismo desbragado de FM de Sullivan e Massadas ainda reinava, e até a estrangeira lambada ajudava a chamar atenção para a música feita na região Norte.

É bastante irônico que Caetano Veloso tenha escolhido esse contexto para lançar um álbum chamado Estrangeiro, que soava muito brasileiro e muito "do mundo" em iguais proporções. A produção esmerada dos brasilianistas Arto Lindsay e Peter Scherer deu ao disco timbres fortes, dignos de discos gringos, e a percussão de Carlinhos Brown e Naná Vasconcelos (1944-2016) deixavam pouca dúvida sobre seu alto teor de brasilidade.

"O Estrangeiro" (a canção tem o artigo masculino que falta ao nome do disco) abre com impressões de estrangeiros famosos sobre a Baía de Guanabara, principal cartão-postal do país. Na rebuscada letra, cheia de menções a artistas e movimentos culturais, Caetano, baiano radicado no Rio desde jovem, mistura suas próprias percepções às alheias, abraçando umas e refutando outras. Não finjo entender plenamente suas intenções, mas não há como ficar indiferente ao riff hipnótico de piano, a percussão poderosa, a gravidade da interpretação, e os mil barulhinhos eletrônicos sabiamente colocados.

"Os Outros Românticos", dedicada a Jorge Mautner, parece versar sobre a amizade dos dois, enquanto alude a Pixote e crianças abandonadas. Sobre mais uma base pesada de percussão, a letra de Caetano é vertida para o inglês e declamada pelo produtor Arto Lindsay, na segunda metade da canção.

Caetano em 1989

Para as mulheres de sua vida, Caetano dedica duas belas canções. Paula Lavigne é a musa da bossa "Branquinha", em que ele parece mal acreditar que ela pudesse ter-se interessado por "um velho baiano, um fulano, um Caetano, um mano qualquer". Para a primeira esposa, Dedé, Caetano dedica a delicada e sofisticada "Este Amor": "o que ela me fez sofrer, o que ela me deu de prazer, o que de mim ninguém tira".

A admiração por João Gilberto (1931-2019) é reafirmada na funkeada "Outro Retrato" e na bossa "Etc.", enquanto "Jasper" tem poesia em inglês sobre teclados bonitos e climáticos. "Rai das Cores" fala disso mesmo: as cores das coisas. Parece óbvio falar que o mar é azul e a rosa é rosa, mas Caetano o faz com curiosidade e graça.

Dois momentos maravilhosos do disco são aqueles dedicados ao chamado "Brasil profundo", aquele pouco óbvio a uma mídia então acostumada a achar que o país era apenas Rio e São Paulo, "e o resto ao resto", para citar o próprio Caetano.

A primeira é a canção que se tornou simbólica da ascensão de Carlinhos Brown como compositor de prestígio: "Meia Lua Inteira" já era conhecida na Bahia por uma versão eletrificada do Chiclete com Banana, mas, ao ser incluída na trilha da novela Tieta, da Globo, ganhou o mundo na versão de Caetano. Os versos de fonética percussiva e nem sempre decifráveis de Brown trouxeram um frescor à MPB que se espalhou rapidamente. Ajudava muito que a música fosse um samba reggae delicioso, levado sobre riffs de teclado precisos e imediatamente reconhecíveis.

A segunda é "Genipapo Absoluto", que encerra o disco. A grafia atípica talvez traga referência a uma paquera de alguma festa de São João, em "junhos de fumaça e frio", quando se toma licor de jenipapo como se fosse água, na Bahia. A emocionante letra ainda traz menções carinhosas aos pais de Caetano, e evoca saudade de tempos mais simples, que pareciam perdidos para as novidades (de quase 40 anos atrás, mas, sim).

A sensação de ouvir Estrangeiro pela primeira vez foi a de estar escutando um disco extremamente moderno, carinhoso com o Brasil e culturalmente relevante. Não deixa de ser curioso que o polimento final tenha sido por um estadunidense (Lindsay) e um suíço (Scherer), mas, sejamos justos: mesmo nem sempre sendo um artista fácil (pelo que canta ou pelo que fala), Caetano sempre pautou sua carreira (que tinha em 1989 pouco mais de 20 anos) por um amor imenso ao Brasil e aos brasileiros. Tudo que ele diz e faz reverbera. Tudo mesmo.

* * * * *

Caetano Veloso
Estrangeiro
Produzido por Arto Lindsay e Peter Scherer
Lançado em 12 de novembro de 1989

1. O Estrangeiro
2. Rai das Cores
3. Branquinha
4. Os Outros Românticos
5. Jasper
6. Este Amor
7. Outro Retrato
8. Etc.
9. Meia Lua Inteira
10. Genipapo Absoluto

01/01/2026

A Flecha do Caçador


Uma crítica do omnibus
Arqueiro Verde por Mike Grell, Vol. 1

Este foi o primeiro omnibus que eu li. É verdade que eu já li Sandman Edição Definitiva, com mais de 600 páginas por volume, o que é mais do que alguns "busões" que a gente vê por aí, mas foi o primeiro oficialmente batizado como tal. Tendo estreado no formato, posso afirmar: eu não gosto dele.

Veja bem, este aqui, com suas 768 páginas, nem é dos mais volumosos. Fico imaginando o pesadelo que deve ser manusear as quase 1.300 páginas do primeiro volume com a Sociedade da Justiça por Geoff Johns. Um omnibus te obriga a ler sentado à mesa, como se estivesse debruçado sobre um Vade Mecum pra estudar Direito. Nada mais avesso à ideia geral do que é ler um gibi.

Antes que algum defensor de editora se apresse me desqualificar, deixo claro que não culpo a Panini Comics por nada disso. Ela não inventou o formato, cuja única vantagem consiste na semelhança com o hábito de maratonar uma série: você vai lendo os capítulos sem parar (se puder) e, de repente, dá conta de uma fase inteira. Porém, posso perfeitamente culpá-la por não apostar (ou não apostar também) em formatos menos "tijolescos": por exemplo, imagina essa fase do Johns saindo em uma A Saga da Sociedade da Justiça? Bem mais legal.

Disclaimer feito, vamos ao material em si.

O Arqueiro Verde já tinha uma tradição de tramas mais próximas da vida real, desde a famosa fase da road trip com o Lanterna Verde, escrita por Denny O'Neill e desenhada por Neal Adams, nos anos 70. Para esta versão, de 1987, o editor Mike Gold (que escreve um divertido posfácio) convenceu Mike Grell a voltar para DC Comics, sob pretexto de reinventar o Arqueiro Verde como um caçador urbano.

O primeiro fruto desse trabalho foi a graphic novel em três partes The Longbow Hunters, publicada no Brasil como Os Caçadores, a partir de janeiro de 1989, pela Editora Abril. Naquele fim de década, gibi de luxo ainda era um formato que dava seus primeiros passos por aqui, muita coisa chegando por conta do aniversário de 50 anos do Batman. A série, escrita e desenhada por Grell, colocava Oliver Queen contra traficantes de drogas, serial killers e a máfia japonesa Yakuza, na figura de uma ninja fatal chamada Shado, ela própria uma exímia arqueira. Além de um realismo que ainda era quase novidade, Os Caçadores tinha arte e acabamento gráfico de alto padrão, na época. Era um troço de encher os olhos do adolescente de 15 anos que eu era então.

A graphic novel abre este primeiro volume do omnibus de Arqueiro Verde por Mike Grell. Completam o livro as 20 primeiras edições da então nova revista do Arqueiro Verde, em que Grell dá continuidade à sua abordagem realista do herói. Pra começo de conversa, nada de Star City ou qualquer outro lugar que só existe no gibi: Oliver Queen e Dinah Lance (a Canário Negro) passam a viver em Seattle, metrópole real, chuvosa e cinzenta. As ameaças no caminho de Ollie são traficantes de drogas e de gente, ladrões, políticos e parte da polícia local que não aceita vigilantismo, por mais bem-intencionado. O compromisso com a verossimilhança é tanto, que nem se fala no grito sônico da Canário.

Na maioria das edições de Green Arrow, a arte ficou por conta de Ed Hannigan (em estilo bem próximo ao do próprio Grell), mas também é possível conferir o talento de Eduardo Barreto, Dan Jurgens (já com traços reconhecíveis do estilo que o consagrou na revista do Superman), e mais alguns outros. As tramas são rápidas, resolvendo-se em duas ou três edições, e os finais parecem, hoje em dia, até meio abruptos - mas era um tempo em que ninguém fazia vídeo explicando final de gibi ou de filme: o que não estava explícito era completado na imaginação do leitor, e ninguém morria por usá-la. Era uma abordagem digna da Vertigo dentro do universo regular da DC, explicitada pela recomendação a leitores adultos na capa.

As tramas são todas minimamente interessantes, e não há uma edição que se possa chamar de ruim. Entre os extras, existem fichas e estudos de personagens, capas de edições encadernadas e, para minha surpresa e confusão, diversas capas do título do Arqueiro Verde de 2012, dentro dos famigerados Novos 52. Meio aleatório, mas nada de que valha a pena reclamar, diante da alta qualidade geral do material reunido aqui. Volto a frisar, não gosto de omnibus, mas não vejo certas coisas ganhando novas chances por aqui em outro formato - então, tratei de garantir este primeiro volume, e mal vejo a hora de achar o segundo por um preço que não seja uma dolorosa flechada na minha carteira.

Prestação de contas

Primeiro dia do ano e aqui estou, para prestar contas sobre o sorteio do Sandman: Prelúdio, realizado no dia 19/12 e vencido pelo leitor de longuíssima data Rodrigo Bertuol, de Curitiba, PR. Parabéns e boa leitura!

15/12/2025

Resumão 2025 (Melhores do Ano)




FILMES


A Hora do Mal, de Zach Cregger - Depois do ótimo Noites Brutais, Cregger retornou com um filme que parece um filhote bastardo de M. Night Shyamalan com Sam Raimi. Estranheza cômica e brutalidade sangrenta dividindo o mesmo espaço. O nome de Amy Madigan (a pavorosa Tia Gladys) começa a ganhar força para o Oscar de 2026.


F1, de Joseph Kosinski - Este filme cumpre com excelência certas expectativas que Kosinski deixou frustradas com Top Gun: Maverick. História mais consistente, veterano (Brad Pitt) dividindo a tela numa boa com um novato em ascensão (Damson Idris), e resultado final que não parece apenas uma peça de propaganda de orçamento inflado. É cinema pra valer.


Faça Ela Voltar, de Michael Phillipou e Danny Phillipou - Fale Comigo foi interessante, mas os irmãos Phillipou voltaram com sangue nos olhos para este filme: o trauma e a perda são o tema de um filme incômodo e violento, que gruda em nossas retinas e mentes por dias. Não a vejo tendo chances no Oscar, mas a atuação de Sally Hawkins é um colosso.


Pecadores, de Ryan Coogler - Um filme de gângster, que é um filme de vampiros, que é um musical. Não é indecisão: tudo está tão bem mesclado, que só podemos qualificar como alquimia. Em seu primeiro grande projeto pessoal e original, Ryan Coogler beirou a genialidade. Que atire a primeira pedra (na própria cabeça) quem não se arrepiou na cena do baile.


Uma Batalha Após a Outra, de Paul Thomas Anderson - Aos poucos, o cinema de PTA vai encontrando um caminho do meio entre o alternativo e o mainstream, respeitando a inteligência de quem vai ao cinema e preservando o senso de diversão e espetáculo, sem deixar de apontar o dedo para a cara feia da América de Donald Trump (no post anterior, uma crítica mais detalhada).


SÉRIES


A Diplomata (T3), Netflix - Trocando patriotadas malucas por uma visão realista e pragmática das relações internacionais, as desventuras da embaixadora americana Kate Wyler (Kerri Russell) para preservar os interesses nacionais e respeitar a soberania dos aliados rendem ótimos diálogos, regados a muito orgulho ferido, conchavos, concessões e sexo. É só gente falando o tempo inteiro, mas é sensacional e altamente viciante.


Andor (T2), Disney+ - Uma aula magna sobre a crueldade dos governos totalitários e a importância de combatê-los. Não se vê um Jedi por perto, mas, mesmo assim, Andor é o melhor produto com a marca Star Wars a sair dos estúdios da Disney. Fazendo ponte perfeita para a introdução de Rogue One (2016), chega em ótima hora para nos lembrar que não existe isso de "lado bom da ditadura".


Pluribus (T1), Apple TV - Vince Gilligan retoma a parceria com a maravilhosa Rhea Seehorn para mostrar o apocalipse mais sereno que já se viu: um vírus alienígena se espalha e a humanidade vira uma grande mente de colméia, com todo mundo feliz e dividindo memórias, conhecimentos e habilidades - exceto por 12 sortudos (?), entre os quais, a irascível e enlutada Carol Sturka (Seehorn), que se recusa a aceitar numa boa tanta paz e amor.


Task (T1), HBO Max - Foi anunciada como minissérie, mas já anunciaram uma segunda temporada, e eu não reclamo se virar uma antologia, na linha True Detective. Quando um grupo começa a atacar pontos de fabricação e distribuição de drogas para roubar dinheiro, o agente Tom Brandis (Mark Ruffalo) larga a "boa vida" do trabalho burocrático (e do recorrente alcoolismo) para investigar os crimes em campo. Vários níveis de miséria humana e ótimas atuações.


Terra Indomável, Netflix - O ano já começou a mil, com esta minissérie que mostra o oeste selvagem mais selvagem que já se viu. A promessa de terras e riquezas na costa pacífica leva gente boa e gente muito ruim a cruzar caminho em Utah, onde os fanáticos da igreja mórmon se somam aos enormes perigos naturais e humanos. É tudo tão potente e cuidadoso que lembra mais um produto da HBO que da Netflix.


QUADRINHOS


O inquestionável destaque do ano foi o sucesso da linha Absolute - que, a bem da verdade, começou lá fora no fim de 2024 e, em tese, deveria chegar ao fim com a derrota de Darkseid ao fim do evento DC K.O, mas é improvável que a DC vá jogar no lixo gibis que vendem tanto. Para mim, o Superman de Jason Aaron foi intragável desde o começo; o Batman de Scott Snyder começou muito bem, mas foi virando paródia de si próprio e me perdeu.

Já a Mulher-Maravilha de Kelly Thompson e Hayden Sherman é um gibi impecável, que não perdeu fôlego ao longo de suas atuais 14 edições. Traz uma ótima caracterização da heroína, que não teme ameaça ou sacrifício algum, exalando bondade e bravura, em arcos que se concluem a cada duas ou três edições.

Outro que também segue uma cartilha de quadrinismo clássico, com uma interpretação quase ideal do personagem, é o herói visto em Batman: Dark Patterns, maxissérie escrita por Dan Watters e, também, desenhada por Hayden Sherman. Nos quatro arcos de suas 12 edições, um vilão clássico repaginado (Scarface) e três novas ameaças, entre as quais sobressai o apavorante Wound Man. Aguardo ansioso pra ter na estante a versão nacional, a ser anunciada pela Panini.


MÚSICA

Eu não escutei nenhum discaaaço gringo em 2025, o que, logicamente, não significa que não tenha saído nenhum. A culpa foi minha, pois me dediquei mais a ouvir velharias - segundo o wrapped do Spotify, eu tenha 34 "anos musicais" como ouvinte, dando preferência a material das décadas de 2000 e 2010. Então, já que não me lembro de nenhum grande disco gringo no ano, me abstenho de fazer uma lista de melhores, mas posso afirmar que um disco muito bonito que escutei este ano foi o elegantíssimo R&B de Beloved, do Giveon.


Já na música nacional, 2025 foi um excelente ano, principalmente entre os independentes, que demonstraram riqueza e vigor musicais. Entretanto, exceto pelo já resenhado disco do Seu Pereira, me faltou tempo para uma audição mais cuidadosa e analítica dos indicados, por isso a falta de textos sobre eles (prometo ser menos relapso em 2026). Os cinco melhores discos brasileiros que escutei este ano foram:


Joaquim, Varanda dos Palpites
Luedji Luna, Antes que a Terra Acabe
Luedji Luna, Um Mar para Cada Um
Raquel Reis, Divina Casca
Seu Pereira e Coletivo 401, Obsoleto


02/12/2025

Uma Batalha Após a Outra


A fotografia granulada, combinada à tendência de alocar suas histórias no passado, confere aos filmes de Paul Thomas Anderson um ar de coisa vintage, se não francamente antiga. Ele certamente não se incomodaria em ser confundido como contemporâneo do jovem Martin Scorsese ou de Stanley Kubrick, para mencionar apenas dois de seus ídolos e claras influências. Suas histórias são contadas através de personagens desesperados, disfuncionais, traumatizados, arrependidos. Não é o que se possa chamar de cinema das multidões, mas, aos poucos, a resistência do público vem diminuindo.

O primeiro de seus filmes que assisti foi talvez o mais difícil deles, Magnólia (1999), com suas tramas entrelaçadas e o final mais intrigante daquele fim de século, muito discutido e pouco assistido de fato. Era apenas seu terceiro filme e, dois anos antes, ele já havia dado à luz uma pequena obra-prima, Boogie Nights. Desde então, o homem enfileirou filmes com roteiros que privilegiam a inteligência do espectador, direção estilizada, visual impecável e atuações soberbas. É dele, por exemplo, o filme chamado, em diversas listas, de melhor do século 21 (e eu concordo), o monumental Sangue Negro (2007). É raro que um filme de Paul Thomas Anderson não seja lembrado nas indicações ao Oscar.

Não deve ser diferente em 2026, quando Uma Batalha Após a Outra deve figurar em categorias importantes. Talvez seja o mais convencional entre seus dez filmes, mas, ainda assim, é um ao qual não se assiste impassível, principalmente por seus paralelos com a realidade dos EUA no presente. O momento da história não é explícito (e ainda existe um salto de 16 anos), mas só não vê quem não quer: ricaços supremacistas comandando o país, cidadão comum sem perspectivas, polícia e exército truculentos e imigrantes perseguidos.

Quando o fictício grupo revolucionário French 75 ataca um campo de detenção de imigrantes, Perfidia Beverly Hills (Teyana Taylor) é a líder de campo e "Ghetto" Pat (Leonardo DiCaprio) é seu namorado especialista em explosivos. O grupo liberta os detidos e Perfidia humilha sexualmente o oficial Steven Lockjaw (Sean Penn), que fica obcecado por ela e a surpreende durante um novo ataque. Quando o grupo é traído e vários de seus membros são capturados ou mortos, Perfidia foge do país e deixa com Pat a filha recém-nascida. Anos depois, a menina e Pat vivem como fugitivos, ele sob novo nome (Bob), mas Lockjaw ainda os persegue, agora com motivos mais pessoais.

As ótimas cenas de perseguição com carros (especialmente aquela no sobe-desce dos pontos cegos da Rota 78) aproximam Uma Batalha Após a Outra de um filme de ação mais convencional - ainda que ninguém seja sobrenaturalmente bom ao volante, pois os personagens de PTA são gente comum, mesmo as que têm aspirações e trabalhos incomuns. É por isso que as trocas de tiro são desajeitadas e as fugas nem sempre acabam bem. Isso é ótimo, e, felizmente, o público começou a entender, fazendo deste o maior sucesso comercial do diretor - o que significa cerca de 200 milhões de dólares para um custo médio de 150 milhões. Nada tão impressionante, mas lembre-se que estamos falando de um filme com quase três horas de duração, de um diretor tido como "difícil". 

Brilhantismo técnico à parte, o filme apoia-se na entrega de seu elenco, com interpretações que devem receber acenos no próximo Oscar, especialmente Sean Penn. Seu Steve Lockjaw é hipócrita e patético, mas nem por isso menos perigoso. O ator some debaixo da pele do militar e tem algumas das melhores cenas do filme. DiCaprio é mais contido, mas Pat/Bob é um personagem muito rico em sua total inadequação e incansável dedicação no posto de pai de uma filha que pode nem ser sua. Também a intérprete da menina, Chase Infiniti, é um furacão. Pragmática e esperta, Willa é mais mãe de Bob do que filha e já começa a buscar seus próprios caminhos na luta e na vida. É possível que ainda sobrem acenos/prêmios para Regina Hall e Benicio del Toro.

Tendo visto mais de metade de sua filmografia, posso dizer que Paul Thomas Anderson já é um de meus favoritos, porque seu trabalho nada com força contra a maré de mediocridade e apatia que sempre ameaçou engolir Hollywood - e imagina viver num mundo em que os filmes (e a arte em geral) não servem para cutucar nossas feridas, somente nos anestesiar e desmobilizar de qualquer desejo de mudar este mundo horrível em que vivemos. Não imagine demais: já acontece, e é por isso mesmo que o cinema de PTA e semelhantes é tão necessário.

03/11/2025

Olhe! Lá no céu!


Hoje, 3 de novembro de 2025, o Catapop completa 20 anos. Quem chega por aqui agora ou frequenta há pouco tempo e só vê post do ano passado pra cá, pode nem acreditar que ele existe desde quando a internet era só mato que abrigava bichos extintos, como Orkut, Limewire, mIRC e Discador UOL.

Escolhi a ilustração acima porque cogitei fazer a alusão de que "20 anos passaram feito uma nuvem", mas, olha, seria mentira. Eu gastei muito tempo com este blog, fosse mantendo-o vivo e produtivo ou apenas respirando por aparelhos. Houve momentos em que eu me sentia meio obrigado a estar sempre dando opinião sobre tudo e, quando não dava, me sentia meio mal (uma espécie de ensaio pra insanidade das redes sociais).

No começo, escrevia várias vezes por semana. De vez em quando, não tinha saco pra ele por meses e sumia. Além do mais, a vida te impõe outras prioridades e escrever sobre gibi ou filme é o de menos. Minha frequência foi caindo até restarem os atuais dois ou três posts por mês, em média, quando muito - e tudo bem: saber que minha opinião pode encontrar eco no peito do leitor é legal, mas entendo que ela não é realmente importante. Deixar de me sentir "necessário" foi uma grande lição que a velhice (real e virtual) me ensinou.

De 2018 a 2024, o Catapop foi a mesma coisa com outro nome, A Era do Ócio - e, entre 2021 e 2024, funcionava apenas no Instagram. Até que, no começo do ano passado, me cansei de cortar meus textos ou fragmentá-los em comentários. Decidi não apenas retomar a escrita livre no site, mas voltar com o nome original, muito associado à minha pessoa, entre amigos e leitores fiéis. Dois anos depois, sigo acreditando que fiz a coisa certa.

Eu sempre brinco que tenho "dois leitores e meio", e entendo que a galera de hoje prefere assistir vídeos sobre essas coisas que comento, mas o que eu gosto de fazer é escrever. Além do mais, vejo amigos e estranhos com queixas de conteúdo derrubado, por uso de imagens e sons, não importa se pouco ou muito. É um estresse que não desejo pra mim - sem falar da obrigação de postar com data marcada. Nada me impede de mudar de ideia no futuro, mas não será hoje.

O material arquivado do Catapop começará a rever a luz do dia, aos poucos, num esquema tipo "vale a pena ver ler de novo". O primeiro texto escolhido, bastante comentado à época (2008), é um apanhado de músicas e artistas que fizeram a glória da dance music, ali, no começo da década de 90. O texto original será acrescido de notas atuais, refletindo o que mudou desde a publicação original.

Outras tradições também estão sendo retomadas, como você pode ver rolando a tela. Já tem mais um sorteio no ar e também voltam as coletâneas de música, antes oferecidas em mp3. Hoje, basta montar uma playlist, e ninguém precisa se perguntar "será que tem vírus?" (nunca tinha). Eu uso Tidal, mas você pode pegar os nomes das músicas e remontar no seu app, seja qual for. Pode até usar a capinha bonitinha que eu fiz. =)

Em prol de minha saúde mental, eu me convenci de que escrevo este blog para mim, e que é apenas um bônus interessante que haja quem goste de lê-lo. Mesmo aceitando que eu possa nunca virar influencer de qualquer coisa, porém, gosto e sinto falta de interação com leitores - acredite, eu entendo quem resiste a "perder tempo" deixando comentário, mas, sua opinião é um feedback importante. Concorde, discorde, mas DIGA ALGO (e não só quando tem sorteio, interesseiro/a/e). Senta aí, que eu gosto de conversar e acabei de passar um café.

Bem-vindos aos próximos 20 anos do Catapop! Obrigado pela companhia até aqui.

Escuta Aqui, Vol. 1


A última coletânea criada pro Catapop, há 10 anos, tinha este mesmo nome, após oito outras que se chamavam Música Para Seus Ouvidos (pomposo, admito). Como tudo aqui ganhou clima de recomeço desde o ano passado, uso do meu direito de fazer um reboot na coleção, relançando o número 1 com uma nova coleção de 10 canções (tamanho de um LP decente) capazes de colocar um sorriso em seu rosto durante uma faxina ou como "ruído de fundo" de seu estudo ou trabalho. Espero que goste - e volte pro Volume 2, todo de música brasileira, que já está no forno.

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Pearl Charles, "What I Need" - Filha do diretor de Borat, Larry Charles, Pearl já tem três discos lançados, e eles são bem legais. Esta faixa vem do segundo, Magic Mirror. Ela faz uma mescla do pop açucarado dos anos 60 com country-folk dos 70 (a slide guitar dá todo um charme). Moça pra se prestar atenção.

Khruangbin & Leon Bridges, "Texas Sun" - Não há como ficar indiferente ao clima de road trip que esta parceria evoca, como um dia tranquilo - porém, escaldante - dirigindo por estradas do interior. Gruda nos ouvidos e na memória que é uma beleza, e eu sou capaz de apostar que tem poderes terapêuticos.

Brittany Howard, "Stay High" - O singelo clipe estrelado por Terry Crews, com Brittany em vários outros papéis, torna tudo melhor, mas esta faixa de Jaime (2019), primeiro solo da vocalista do Alabama Shakes, se sustenta sozinha. Passaria perfeitamente como faixa de Sound & Color (2015), do AS.

HAIM, "The Steps" - As irmãs Haim (Alana, Este e Danielle) não precisam me provar mais nada, desde que lançaram esta pepita de pop rock, em 2023, segunda faixa do seu terceiro álbum, Women in Music Part III. Recado reto pra vacilão que tem medinho de mulher com iniciativa e sucesso.

Wilco, "Meant to Be" - O orgulho de Chicago pinçou este single do álbum Cousin (2023). Por baixo das ocasionais experimentações, respira uma banda que entende que dizer ou escutar que "nosso amor deve existir" pode ser tudo que a gente precisa. 30 anos e o Wilco não perde a mão - nem as manhas.

Kings of Convenience, "Rocky Trail" - Foram 12 longos anos entre Declaration of Dependence (2009) e Peace or Love (2021), mas Erlend Øye e Eirik Bøe voltaram aos violões para evocar a magia harmônica de Simon & Garfunkel modernos, com as mais lindas desculpas que se pode pedir.

Richard Hawley, "The Ocean" - Egresso dos obscuros Longpips e tendo colaborado com gente como Pulp e Paul Weller, Hawley construiu uma carreira solo que tangenciou o genial em Coles Corner (2005). Como uma maré que sobe aos poucos, este hino termina por afogar o ouvinte... em pura beleza.

CousteauX, "Your Day Will Come" - Além de citar o oceanógrafo francês Jacques Cousteau (cuja família deve ter recebido mal a honraria, o que obrigou a adição da letra X, em 2016), a banda inglesa estreou em 1999 com um álbum cheio daquela fleuma barítona ouvida em David Bowie e Scott Walker.

Pretenders, "The Buzz" - Delícia extraída de Hate for Sale (2020), mostrando que a veteraníssima Chrissie Hynde e seus comparsas ainda eram capazes de reproduzir a alquimia pop de hits do quilate de "Brass in Pocket" ou "Never Do That". O refrão lânguido é muito gostosinho de cantar junto.

The Glorious Sons, "A War on Everything" - É tão anacrônica em sua rebeldia adolescente e vontade de fugir (qual é o gen-Z que quer sair de casa?), que só mesmo o brilho soft rock da faixa-título do terceiro disco da banda canadense faz a gente acreditar que alguém vai sentir saudade dos pombinhos.

SORTEIO - Sandman: Prelúdio, um sonho de HQ


Quase duas décadas após concluir Sandman, o autor Neil Gaiman decidiu reabrir as portas do Sonhar, para contar uma história anterior ao clássico épico publicado na Vertigo. Atendendo a uma antiga demanda dos leitores - que, por vezes, sentiam que a arte nem sempre acompanhava a qualidade do texto - ele chamou para a empreitada um superstar capaz de traduzir em imagens o clima onírico das aventuras de Morfeus, em formas, cores e diagramação incomparáveis: J. H. Williams III.

O resultado se chamou, no Brasil, Sandman: Prelúdio. Saiu primeiro em minissérie de 3 edições e, depois ganhou este encadernado de luxo que estamos sorteando. Para adentrar mais uma vez (ou pela primeira vez) o mundo dos sonhos com Gaiman e Williams III, é bastante fácil:

1) Repostar conteúdo do Instagram em seu story vale um número pro sorteio;

2) Motivar um amigo a seguir nosso Instagram (peça a ele pra dizer seu nome como indicador via DM) vale dois números pro sorteio;

3) Um comentário aqui no blog, em qualquer post, vale três números. Então, se você comentar em dois, terá seis números, e assim por diante. Claro que falar apenas "disse tudo", "parabéns", "adorei" e coisas do tipo NÃO contam como um comentário. Melhore, amiguinho, e argumente! Se você ainda não leu, assistiu ou escutou o objeto do texto, fale de seu interesse ou expectativa - ou da falta destes. Pelo amor de Morfeus, não esqueça de se identificar! Anônimos não participarão do sorteio;

4) Somente residentes no Brasil podem participar e o livro será enviado pelos Correios;

5) O sorteio fica marcado para o dia 19 de dezembro de 2025, através do site Sorteador.

No mais, não tem mais. Boa sorte a todos que participarem!

Baú do Catapop #1

Esta seção vai fuçar na memória arquivada do blog, em busca de postagens que foram especialmente populares ou que merecem uma nova avaliação, à luz das mudanças por que passaram o mundo e este que vos escreve. Os comentários atuais serão feitos em azul itálico.

O primeiro texto resgatado para as comemorações dos 20 anos é um apanhado que publiquei em 14/10/2008, reunindo nomes e canções da Dance Music dos anos 90 - a geração que, entre o fim de minha adolescência e o começo de minha vida adulta, embalou noites suarentas na Usina de Som, saudosa boate de Ibotirama, no oeste baiano, onde vivi entre 1984 e 1999.

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PUMP IT UP!
A Dance Music dos Anos 90
Originalmente publicado em 18/10/2008

Os anos 80 já estão gravados no inconsciente coletivo como uma década de grande criatividade na cultura pop. Passadas várias ondas revivalistas de bom e de mau gosto, o saldo geral é bastante positivo. Não há mais necessidade de explicar ou de defender aquele período.

A esta altura, também os anos 90 já foram louvados e atacados na grande mídia e nas análises pessoais de quem os viveu. Os ciclos de reavaliação de uma década costumam começar após 20 anos, com ondas menores de redescoberta a cada 10 outros.

Lá por 2010, estaremos novamente ocupados, fazendo uma triagem semelhante nos anos 90, “a década em que a melodia morreu”, segundo meu amigo Marcelo Borges, de Itumbiara/GO. A facilidade pop dos anos 80 deu lugar a experimentações que testavam a receptividade e, não raramente, a paciência dos ouvintes. Aqui no Brasil, a coisa ficou especialmente indigesta: fazer música simples, de um gênero só, ficou praticamente proibido. Todo mundo tinha que fazer MPopB, skate-metal, manguebit, forrócore e outros bichos esquisitos. Deu alguns bons frutos e gerou uma montanha de coisas horrorosas, algumas das quais se arrastam por aí até hoje.

Admito dificuldade semelhante à de Marcelo, embora menos intensa: muita coisa surgida nos anos 90, mesmo quando fruto de mistura de estilos, como Chico Science & Nação Zumbi, bateu em mim de primeira.

Os primeiros anos da década de 90 foram marcados pela ascensão da dance music, do underground a gênero “respeitável” e, principalmente, rentável. Desde o fim da era disco, nos primeiros anos da década de 80, a música criada exclusivamente para dançar, sem letras “conscientes” ou cabecismos fora de hora, não tinha tanta força. A febre das batidas aceleradas conquistou dois terços do planeta e fez espumar de raiva o terço restante (leiam-se os carrancudos roqueiros da época, metidos a salvar o mundo e remoer existencialismos).

Você, entre 20 e 25 anos, talvez seja novo demais para lembrar, mas houve um tempo em que ir a uma boite para dançar não era, como hoje, sinônimo de logo ver-se cercado de bichas musculosas, suadas e seminuas. Herdando o espólio das famosas danceterias da década passada, sacudir o esqueleto nos clubs noventistas era, até certo ponto, um programa razoavelmente hétero.

Como se pode notar, o fato de ser gay e já me sentir razoavelmente resolvido com isso desde 2000 não me impedia de reproduzir homofobia sistêmica e internalizada, como se um programa "razoavelmente hetero" fosse garantia de qualquer coisa mais tranquila ou divertida (spoiler: não é).

Como toda febre musical que se preze, a dance music dos 90 tinha representantes realmente criativos, one-hit wonders azarados e picaretas de primeira grandeza. Mesmo que a house music já começasse a fazer barulho, a ponto de a revista Bizz dar destaque e até capa para nulidades como Yazz e Bomb The Bass, o primeiro arrasa-quarteirão mundial da dance music era um forte riff de guitarra sampleado e acompanhado de um brado feminino: “I’ve got the power!”. Era "The Power", do projeto alemão Snap, comandado pelo rapper Turbo B. As batidas funky vitaminadas pela eletrônica, os clipes aeróbicos e singles certeiros como “Mary Had a Little Boy” e “Oops Up” transformaram o Snap em um sucesso avassalador. Em 1992, passado o bode da fórmula, eles voltaram mais suaves e legaram ao mundo a então onipresente “Rhythm Is A Dancer” (Clube das Mulheres, alguém?).

Turbo B, o MC do Snap

Não muito tempo depois de “The Power”, outro riff sampleado e mais um grito de guerra contaminaram o planeta: “everybody dance now!”, que tornava “Gonna Make You Sweat”, do C+C Music Factory, imediatamente reconhecível. A dupla formada por Robert Clivillés e pelo já falecido David Cole foi um dos primeiros a receber o rótulo de “respeitável” pela imprensa, que se esforçava para não se afogar na maré de nomes e singles que desafiavam critérios e faziam sucesso astronômico da noite para o dia e desapareciam com a mesma velocidade, sem deixar rastro. A “cara” do C+C Music Factory era o bombado e marrento rapper Freedom Williams, que depois achou que era “artista” e meteu-se em carreira solo, logo voltando ao anonimato.

"The Power" e "Gonna Make You Sweat" seguem sendo, para mim, as melhores músicas desse período no gênero.

C+C Music Factory (nas extremidades, Robert Clivillés e David Cole, falecido em 1995)

Clivillés e Cole ainda provocaram os roxos fãs do U2, fazendo não apenas uma, mas duas versões do hino “Pride (In The Name Of Love)”. Eu ouvi ambas e aprovei. Outro astronômico sucesso da dupla foi a maconheira “Take a Toke”, que aqui na Burrolândia tem fama de “romântica”. Ah, se os pombinhos que se enroscam ao som dela soubessem...

Perdão pelo elitismo linguístico de outrora. Ninguém tem obrigação de saber inglês só pra curtir um som - e ela passa, sim, por romântica (só que com maconha).

Dois verdadeiros furacões da dance music foram, também, protagonistas de grandes escândalos, à época. Depois que a dupla Milli Vanilli foi desmascarada como meros dubladores, após terem recebido vários Grammy, o vexame voltou a ocupar os noticiários, desta vez com Black Box e Technotronic.

O Black Box era um fabuloso projeto de italo house (a mais puxada para a disco music, cheia de cordas e pianinhos) cuja imagem pública era a da linda modelo Katrin Quinol. Não demorou até que alguém descobrisse que aquele vocal esplêndido, improvável para alguém tão magra, pertencia à rotunda Martha Wash. Ela buscou na justiça sua fatia da fortuna gerada com singles impecáveis como “I Don’t Know Anybody Else”, “Ride On Time”, “Everybody Everybody” e a cover de “Fantasy”, do Earth, Wind & Fire. Dreamland era, reconhecidamente, um dos poucos LPs de dance music que valiam a pena inteiros.

Katrin Quinol e Martha Wash, dubladora e verdadeira voz do Black Box

O caso do Technotronic foi mais simples. Os vocais e raps que pareciam pertencer à curvilínea Felly nada tinham de espetaculares. Mesmo assim, tratava-se de mais um caso de gato por lebre: quem cantava era a baixinha e andrógina Ya Kid K, que assumiu sem pudor a frente do grupo já no segundo single, “Get Up (Before The Night Is Over)”. Além deste, “This Beat Is Technotronic” e “Move This” fizeram tanto ou mais sucesso que a estréia do grupo, “Pump Up The Jam”, de onde saiu o bordão “pump it up”, que, no Brasil, ganhou a corruptela “poperô” e passou a designar a dance music que freqüentava as Jovem Pan da vida e os cd players de agroboys e outros tipinhos infelizes.

Queria dizer que sinto muito pelo ataque gratuito aos agroboys, mas estaria mentindo. Não atacar agroboys o suficiente transformou o mainstream brasileiro na mesmice cafona que é hoje.

Capa de Pump Up The Jam, a hoje clássica estréia do Technotronic

Estes são apenas alguns dos nomes mais famosos da época. Seria impossível falar de todo mundo em poucos parágrafos e não cometer injustiças. Por exemplo, como eu poderia deixar de mencionar o trio de produtores ingleses Stock, Aitken & Waterman, que revelaram Rick Astley, Kylie Minogue e ressuscitaram a então defunta carreira de Donna Summer? É gente demais e, infelizmente, não dá mesmo para citar todo mundo – até porque não há muito que falar sobre a maioria deles, exceto que deixaram canções que ainda ecoam pelas boites, rádios e academias mais nostálgicas.

Pouco tempo depois deste texto sair, Rick Astley conheceria novo sucesso na era dos memes, com "you've been rickrolled". Donna Summer, por sua vez, faleceria em 2012. Kylie Minogue segue viva e diva.

Eis aqui uma seleção de 10 12 músicas para encher um CD curtinho uma playlist curtinha e bem farofa, mas perfeitamente decente.

Shake that body!


01 – “Gonna Make You Sweat”, C+C Music Factory
02 – “The Power”, Snap
03 – “3 a.m. Eternal”, The KLF
04 – “Get Ready For This”, 2 Unlimited
05 – “I Don’t Know Anybody Else”, Black Box
06 – “Cinema”, Ice MC
07 – “Pump Up The Jam”, Technotronic
08 – “The Hitman”, AB Logic
09 – “Be My Lover”, LaBouche
10 – “It's My Life”, Dr. Alban
11 - "Respect", Adeva (cover de Aretha Franklin, já cover de Otis Redding, que foge da obviedade)
12 - "Finally", CeCe Peniston (das melhores letras românticas em melodia dançante que se pode ter)