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terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Os amigos são infiéis

 



OS AMIGOS SÃO INFIÉIS

 

 

Os amigos são infiéis como a noite grande.

Os amigos vão morrer

como a água que cai desmorona.

Eu reencontrei os amigos e eram outros

e eram os mesmos.

A mesma indiferença nos unia nos separava

nós nos demos as mãos no escuro

e eram cobertas de escamas como as mãos dos répteis

nós não éramos os mesmos

nós não éramos outros.

Todas as palavras são insensatas

nós nos assassinamos com a ausência das palavras.

Os amigos enlouqueceram e estão me chamando

estão me chamando com insistência.

Eu enlouqueci e estou chamando ninguém na noite grande

pedras caem me sepultam.

Eu penetro no fogo não quero encontrar os amigos mortos

eu sou um morto clamando na eternidade.

Só a paixão me salva

só a paixão me condena irremediavelmente.

Penetro no fogo e morro

o fogo me salva

e o silêncio.

 

J. C. Brandão


sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

O olho mágico

 


                                             https://cronicascariocas.com/olho-magico/

 

 

                    O olho mágico

  

            A menininha se aproximou com um objeto na mão. Mostrou para o menininho sentado no banco, num canto isolado.

            – Me dá um pedaço do seu lanche. Eu te mostro o meu olho – disse.

            O menininho ficou olhando com olhos tímidos. Depois passou o pão com mortadela para ela, que lhe passou o olho.

            Era bonito, como um olho de gente. Ele nunca tinha reparado que ela tinha um olho de vidro. Era tão alegrinha. Ele até diria: “Tem uns olhos lindos.”

            Os dois comeram juntos. No intervalo, enquanto mastigavam, erguiam o olho contra o sol. Era azul, da cor do céu, combinava com a carinha alegre da menina.

            – Um dia você me dá o seu olho? – o menino disse.

            – Dou – ela disse, rindo com os dois olhos azuis.

            – De verdade? Eu vou poder levar para mim? – ele disse.

            Ela riu encantada, ele riu encantado. O olho azul outra vez nas mãos sorria como se fosse mágico. O menino pulava de contente:

            – É meu! É meu! Vai ser meu! Vai ser meu!

            Quando a menininha se mudou daquele lugar, não foi embora para sempre; o menininho já tinha ganhado o olho mágico e ficava vendo nele o sorriso da menininha. Nas horas mais tristes da vida, ele tirava o olho do bolsinho da calça, apertava contra o coração e sabia que nem tudo estava perdido:

            – É meu! Ela é minha! Ninguém morre para sempre, ela deixou o olho para mim.  Beija o olho com carinho, ergue contra o sol e suspira:

– Amorzinho!

 

 

 

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

7 conselhos para o Ano Novo


 

7 CONSELHOS PARA O ANO NOVO  

 

 

1.      Acabe com todos os ratos

mas não se espante se sobrar algum.

Os ratos são sempre os últimos a abandonar o navio.

 

2.      Extermine as malditas baratas

mas não se espante demasiadamente se muitas sobreviverem.

As baratas são os bichos mais resistentes do planeta.

 

3.      Evite furacões, tsunamis, inundações.

Evite a seca, evite o fogo.

A natureza está pronta para nos dar o troco.

 

4.      Não corra, não beba, não mate, não morra.

Ou simplesmente: devagar com o andor que o santo é de barro.

Não se precipite.

 

5.      Uma pitada de humor não faz mal a ninguém.

É uma maneira de se levar a vida.

Rir do nariz dos outros é melhor do que lamentar o próprio.

 

6.      Duvide de quem tem uma fé inabalável em Deus.

Duvide de quem tem uma falta de fé inabalável em Deus.

Duvide de quem não duvida.

 

7.      Desista da poesia enquanto é tempo.

É um ofício inútil.

É um vício.

Muitos poetas foram presos – pasmem! – por escrever poesia.

E continuaram a escrever mesmo privados da liberdade.

A poesia é um vício incontrolável.