Artigo baseado na apresentação feita durante a PythonBrasil 2025 em São Paulo.
Por Que Isso Importa
Dominar processos seletivos é uma habilidade específica — e essa habilidade não tem nada a ver com trabalhar. Você pode ser um excelente profissional e ser péssimo em processos seletivos, e vice-versa. São competências distintas.
As coisas são como são
Esse texto não vai tentar idealizar o assunto. Os processos seletivos são injustos, falhos e desgastantes e nós, candidatos, sempre estamos na situação mais vulnerável.
Aceitar isso é o primeiro passo. O jogo tem regras, e conhecê-las é a sua vantagem.
Marketing & Venda
No processo seletivo o produto é você. E como qualquer produto, ele precisa ser bem posicionado e bem apresentado.

Durante um processo seletivo, o candidato precisa demonstrar interesse genuíno pela vaga (nem que seja pelo salário), que se preparou para aquela oportunidade específica, que tem as habilidades necessárias para o trabalho, que vai entregar o que é esperado, que cresce continuamente, e que sabe trabalhar com pessoas.
Cada ponto desses não precisa ser declarado explicitamente, precisa transparecer na sua postura e nas suas respostas ao longo de todo o processo.
Todo processo seletivo envolve muitas pessoas e uma característica humana importante é a de gostar de ouvir histórias. Por conta disso, uma forma bastante efetiva para trabalhar o seu marketing e seu processo de vendas é o storytelling.
Se você conseguir embalar suas qualidades, suas limitações e seus diferenciais dentro de boas histórias, as suas chances aumentarão absurdamente.
A Preparação
Existe uma expressão antiga que diz:
“Me dê seis horas para derrubar uma árvore e eu passarei as quatro primeiras afiando o machado.” — Abraham Lincoln(?)
Todo bom profissional precisa investir tempo na preparação. Uma boa preparação poupa muitas dores de cabeça e frustrações na nossa carreira e não é diferente para encarar uma jornada de processos seletivos.
“Cabeça”
O ponto mais importante de toda a preparação é mental: prepare-se para ser rejeitado. Processos seletivos são, na prática, um teste da sua capacidade de lidar com rejeição. O processo inteiro é feito de rejeições, afinal, quando você para de ser rejeitado é porque o processo está terminando.
A minha dica é tentar encarar cada “não” como “alguma outra pessoa tinha uma correspondência melhor com essa vaga”, não como “você é incapaz”. Você não é um conjunto de habilidades laborais. É uma dica mais fácil de oferecer do que praticar mas com o tempo você vai ficando melhor nisso.
Currículo e Presença Online
Tenha um Curriculum Vitae base genérico (ex. “Desenvolvedor Backend”), sem nível hierárquico, de uma ou duas páginas, focado no seu principal ponto forte, com contatos e sem firulas. Esse CV servirá de base para ser adaptado conforme a vaga.
Seu perfil no LinkedIn deve estar em Português e Inglês, com as experiências descritas usando a Técnica STAR (mais sobre ela abaixo). Complete o perfil com um hub de redes sociais profissionais como site pessoal e perfil no GitHub. Lembre-se de manter somente conteúdo profissional nessas redes. Política eleitoral, futebol e tretas ficam fora.
Não é obrigatório mas pode ser adequado fechar o seu perfil em suas redes sociais pessoais durante essa etapa. Não é incomum que recrutadores dêem uma espiada nas redes sociais pessoais dos candidatos. Eu sei que isso não é legal e não deveriam influenciar na sua candidatura mas, como eu disse, as coisas são como são e (ainda) não é o momento de lutar para mudá-las.
Técnica STAR para Descrever Experiências
A Técnica STAR é a forma mais eficaz de descrever experiências técnicas, tanto no LinkedIn quanto em entrevistas. A sigla representa Situação, Tarefa, Ação e Resultado:
- Situação: O sistema de deploy da empresa era manual e causava erros frequentes.
- Tarefa: Automatizar o processo para reduzir falhas e tempo de entrega.
- Ação: Implantei um pipeline de CI/CD no GitHub Actions com testes automatizados e integração ao Cloud Run.
- Resultado: O tempo de deploy caiu 70% e os incidentes pós-release reduziram em 90%.
O padrão funciona porque força você a contextualizar o problema, mostrar sua contribuição concreta e quantificar o impacto, exatamente o que um recrutador ou entrevistador quer ouvir.
Carta de Apresentação
Tenha um modelo de carta de apresentação pronto para ser personalizado. Um modelo eficaz é simples e direto:
Olá [nome do(a) recrutador(a)],
Meu nome é [...] e estou entrando em contato sobre a vaga [...] pois acredito que tenho as habilidades necessárias para contribuir com a [nome da empresa] no desenvolvimento de produtos como [lista de produtos
que você buscou no site da empresa].
Gostaria de participar do processo seletivo e ter a oportunidade de descrever minha experiência em [lista de experiências específicas relevantes para a vaga].
Em anexo segue meu CV e meu perfil no LinkedIn pode ser visualizado em [...].
Obrigado,
[seu nome]
Organizando os Processos
Mantenha um Kanban com as colunas Vaga, Contatado, Em Processo, Resultado. Em cada card, registre o link da vaga e o nome do contato.

Use uma agenda dedicada exclusivamente para compromissos de processos seletivos e nunca deixe uma entrevista passar despercebida. Perder a hora de uma entrevista pode ser fatal.

Equipamento para Entrevistas Remotas
Mesa, cadeira e computador: nada de celular.
A máquina deve estar estável (nada de software Alfa/Beta), com terminal e navegador abertos e prontos para uso, ou seja, esteja com o machado afiado e pronto para a ação mesmo se tentarem te pegar de surpresa.
A câmera deve estar posicionada na frente ou levemente acima do rosto, para que você olhe o recrutador nos olhos.
A iluminação deve ser direta para o rosto. A luz natural de uma janela funciona bem mas não descarte a possibilidade de uma iluminação dedicada.
Para o áudio, use microfone, fone ou headset com fio: bluetooth acabando a bateria no meio da entrevista é constrangedor.
Mantenha um fundo limpo ou um background virtual estático e neutro. Se tiver um fundo que deixe alguns hobbies aparentes tudo bem. Mas lembre-se: esses elementos do fundo podem causar distração no recrutador e tirar ele do que realmente importa: você.
Entre na sala de reunião alguns minutos antes e teste imagem e som. Tenha papel e caneta à mão para anotar perguntas.
A Prospecção
Onde Buscar Vagas
O LinkedIn, ao menos para programadores, continua sendo a fonte mais eficaz. O plano Premium ajuda, mas mesmo sem ele dá para filtrar boas oportunidades. Em seguida vêm os sites de vagas, depois networking e eventos, e por último indicações.
As vagas por indicações geralmente têm as melhores chances mas infelizmente são mais raras.
Tipos de Oportunidades
Nem toda vaga é igual. Eu classifico as vagas em três categorias:
- Vagas dos sonhos: são aquelas onde a empresa, o projeto ou o salário são exatamente o que você quer, mas a aderência às suas habilidades ainda não é total.
- Vagas qualificadas: são muito alinhadas com o que você sabe fazer, mas sem muita empolgação com a empresa ou remuneração.
- Vagas fraudulentas: geralmente são criadas para aplicação de golpes ou criação de base de dados. Fuja delas.
O Processo
Defina um número máximo de processos simultâneos: se estiver desempregado, quatro é um bom limite; se estiver trabalhando, dois. Gerencie tudo no Kanban e revise todos os cards toda manhã.
Nunca se atrase para compromissos, mas esteja preparado para atrasos do recrutador. Sempre mencione que você está em outros processos, mesmo que não esteja. Se estiver empregado, garanta que o recrutador saiba disso também.
Seja transparente com os recrutadores sobre o andamento desses processos e caso tenha algum imprevisto que te impeça de participar de alguma reunião avise o recrutador o mais rápido possível.
A Entrevista
Storytelling
A melhor forma de lidar com uma entrevista é embrulhar ela em uma boa história que descreva a sua jornada com seus avanços, obstáculos, superações, etc. Lembre-se que o recrutador é um ser humano como a gente.
Então, ao interagir com ele, apresente-se profissionalmente e construa uma narrativa de crescimento com as suas experiências. Se for seu primeiro emprego ou uma mudança de área, experiências indiretas também valem.
Respeito também é fundamental. O recrutador é um trabalhador tal como você e não um adversário.
Se você fica nervoso com entrevistas eu recomendo que você treine com um amigo antes de entrevistas importantes e não use LLMs durante a conversa, a menos que o entrevistador peça explicitamente.
Durante a entrevista tem uma regra: não minta. Mas se precisar omitir algo, vá em frente. “Enfeitar” pode 😛
Tenha “portos seguros” preparados para perguntas difíceis. Tenha um bom exemplo de trabalho em equipe, de superação, de aprendizado técnico, de colaboração, de projeto bem sucedido e de projeto fracassado. Quando uma pergunta difícil chegar é só sacar a carta certa e mostrar.
Invente um motivo alinhado com o contratante para o seu interesse na vaga: “preciso pagar as contas” tem que virar “vi que vocês estão trabalhando bastante com a tecnologia X e é exatamente a área em que quero focar minha carreira”.
Nunca fale mal de experiências anteriores. Resignifique essa experiência para algo como “uma experiência importante onde cresci muito com a ajuda do time”. Uma demissão injustificada se transforma em algo que “te deixou triste, pois tinha planos de ficar por muito tempo”.
Tenha também uma explicação natural para períodos de desemprego: estudando um idioma, sabático, empreendendo, etc.
Se for um problema de saúde pode mencionar mas lembre-se que ainda existe muito preconceito com alguns tipos de problemas (principalmente psicológicos/psiquiátricos). É uma merda, eu sei, mas… “As coisas são como elas são”.
Sempre que a entrevista abrir espaço, faça perguntas sobre a empresa. Ao menos uma pergunta para cada área:
- Pessoas: tamanho e perfil do time, organização das equipes, plano de carreira.
- Processos: metodologia ágil, pipeline de tarefas, time de produto.
- Tecnologia: stack, CI/CD, modelo de deploy, testes automatizados, code review.
Red Flags na Entrevista
Alguns comportamentos durante a entrevista indicam uma vaga problemática (aka vaga arrombada):
- Perguntas sobre filhos ou planos para tê-los (especialmente para mulheres)
- Comentários ou perguntas sobre aparência física
- Questões de foro íntimo: relacionamento, moradia, política
- Perguntas sobre saúde
- Histórico de layoffs recorrentes na empresa
- Sinais de precarização do contrato: PJ obrigatório, sistemas de tracking de trabalho, cultura de “trabalho duro” como valor
Se mesmo assim você precisar muito da vaga: omita planos de maternidade/paternidade, use roupa neutra, evite comentar sobre família ou tratamentos. E comece a procurar outro emprego assim que for contratado.
O Teste
Existem diferentes tipos de entrevistas técnicas e dinâmicas de avaliação técnica. Se algumas empresas adotam uma entrevista simples outras poderão pedir para você programar alguma coisa (live coding) ou até mesmo entregar algum projeto completo.
Entrevista Técnica
Tudo o que falamos sobre participar de uma entrevista com um recrutador e a importância de conduzir um bom storytelling se aplica também na entrevista técnica.
Para ter um bom resultado nessa fase é importante que você chegue sabendo tudo sobre as tecnologias usadas pela empresa. Também é importante que você “perceba” o seu entrevistador, por exemplo, programadores podem ser péssimos entrevistadores, ou o entrevistador pode ter menos experiência do que você. Nesses casos é importante que você faça a entrevista render bem. Você precisa ser mais proativo em expor suas habilidades.
Alguns entrevistadores querem ver como você trabalha; outros se importam mais com o seu conhecimento sobre ferramentas específicas.
Em toda a entrevista técnica é importante sempre pensar em voz alta. Mais do que saber sobre as coisas que você já sabe o entrevistador também está avaliando sua capacidade de pensar sobre os assuntos.
Ao longo da minha experiência eu consegui distinguir três tipos de perguntas técnicas nessa fase:
- Perguntas abertas: perguntas tais como “como você modelaria um CRUD de Clientes?” pedem que você percorra um raciocínio, não que chegue a uma resposta perfeita.
- Perguntas fechadas: são aquelas como “o que esse código imprime na tela?”. Elas têm uma resposta certa. Para esse tipo de pergunta é possível responder “não sei, precisaria consultar” sempre que você não souber a resposta.
- Perguntas opinativas: são feitas para saber se suas opiniões estão alinhadas com os valores da equipe, por exemplo, “o que você acha de SOLID?”. A resposta adequada para essas perguntas pedem que você seja genérico e equilibrado: “sei o que é, já trabalhei em projetos que usam e em outros que não. Como em tudo, tem prós e contras.”
Duas respostas curingas que salvam: “Não sei, mas imagino que…” e “Depende, pode me falar mais sobre…”.
Por último é importante evitar polêmicas sobre as escolhas técnicas da empresa, mesmo que eles deem abertura.
Live Coding
Treino é treino e jogo é jogo. Live coding é jogo. Pratique em plataformas como LeetCode, HackerRank, CodeWars ou Advent of Code.
No momento da prova, pergunte se o entrevistador quer ver testes automatizados ou só o código. Se ele pedir testes esteja preparado para escrever testes.
Como eu disse logo acima é importante que você diga tudo o que está pensando e fazendo em voz alta para o avaliador conseguir entender o seu jeito de trabalhar.
Quando estiver trabalhando no problema sempre faça o código funcionar primeiro, mesmo com um algoritmo ingênuo ou ineficiente, para depois tentar otimizar e melhorar. Deixe claro para o avaliador que você vai fazer isso: “vou resolver dessa forma mais simples para garantir que entendi o problema; depois eu otimizo.” Se conseguir explicar a ineficiência em termos de complexidade algorítmica (Big-O), melhor ainda.
Teste de Projeto
Este tipo de avaliação está caindo em desuso, mas ainda pode ser encontrada por aí.
Sempre “cobre” para fazer o teste. Empresas estrangeiras pagam por eles mas se a empresa não paga pelo teste peça que pelo menos você coloque o resultado no seu portfólio pessoal no Github. E fique atento a empresas que usam testes como trabalho gratuito.
Faça somente o que o enunciado pede, ou seja, cuidado com over-engineering. É muito comum que o candidato, por querer mostrar todos os seus conhecimentos de Design Pattern, SOLID, etc encha o código de complexidade desnecessária.
Foque no que é importante e poucas pessoas fazem: documentação, testes automatizados, arquivos de configuração, e padronização de código.
Esse projeto costuma subsidiar alguma entrevista futura então esteja consciente do que você programou e lembre-se que é muito difícil ter essa consciência quando o código foi escrito por um modelo de IA.
Red Flags no Teste
Fique atento a três comportamentos problemáticos durante avaliações técnicas:
- Dogmatismo: “só um modelo/linguagem/arquitetura presta, o resto é lixo” sem uma explicação ou justificativa sólidas.
- Desleixo: desprezo declarado pelas boas práticas de engenharia de software.
- Compartimentação extrema: times ou indivíduos muito segregados em funções específicas, o famoso “super-herói”.
A Negociação
Passadas todas as etapas do processo é chegada a hora da conclusão e da negociação.
Em Caso de Recusa
Agradeça o tempo e a oportunidade e não se esqueça de pedir feedback técnico: “poderia me dizer quais pontos não me qualificaram para que eu possa estudar mais sobre eles?” Pergunte sobre futuras oportunidades: “existe alguma política para aplicar a vagas futuras?”
O objetivo dessas perguntas é simples: registrar que você realmente queria a vaga.
Em Caso de Contratação
Ninguém está fazendo favor para ninguém. O seu trabalho tem valor e precisa ser remunerado adequadamente.
A pretensão salarial é sua.
Diga ela, qualquer que seja. É função do contratante decidir o que fazer com essa informação. Negocie sempre o salário e trate benefícios, bônus, ações/options, e outros adicionais como brindes.
Sobre PJ vs. CLT
Faça as contas direito considerando rescisões, impostos, multas e garantias. Pergunte-se sempre o motivo pelo qual o empregador prefere o risco trabalhista de uma contratação PJ? Porque vai te pagar mais ou porque vai gastar menos?
Se a empresa tiver um orçamento menor do que sua pretensão, negocie revisões salariais preventivamente: “aceito entrar por X, mas quero uma garantia para chegar em Y em Z meses.”
Créditos da imagem em destaque: JOB INTERVIEW ..” by Bill Strain, CC BY 2.0













