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Katya's Reviews > A Vida de Beethoven

A Vida de Beethoven by Romain Rolland
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«Ele tinha um belo sorriso», dizia Moscheles, e, durante uma conversa, um ar muito amável e encorajador. Em contrapartida, o riso era desagradável, violento e contraído, além de ser breve - o riso de um homem que não está acostumado à alegria.


Arrisco dizer que quando Bernard Rose escreveu o guião de Immortal Beloved este livro lhe ecoava na mente. Os pontos em comum são mais do que muitos e isso revela a importância que esta biografia crítica de Romain Rolland tem quando se fala de Beethoven, sobretudo porque esta obra cumpre exatamente aquilo a que se propõe: procura explicar a obra do compositor à luz da sua vida (e vice-versa) - o que cumpre muito bem, apesar de seguir determinada ordem de ideias em função de objetivos que ultrapassam o cariz biográfico do texto:

Beethoven era uma força da natureza, e era um espectáculo de uma grandeza homérica assistir a esse combate de uma potência elementar contra o resto da natureza.


Por outro lado, esta biografia acaba por ser tanto sobre Romain Rolland como sobre Beethoven já que é a paixão de um que nos traz a vida do outro - Rolland era crítico e professor de arte e música, e um ferveroso defensor de um humanismo de cariz internacional, o que justifica não só a escolha de Beethoven como um ídolo (a sua ideologia estava muito próxima daquela que o biógrafo defendia), mas também a abordagem holística que dele e da sua obra faz.

Caro Beethoven! Muitos elogiaram a sua grandeza artística, mas ele é bem mais do que o primeiro dos músicos. Ele é a força mais heróica da arte moderna. É o maior e o melhor amigo dos que sofrem e que lutam. Quando estamos tristes pelas misérias do mundo, ele é aquele que vem ter connosco, tal como se ia sentar ao piano de uma mãe de luto, e, sem uma palavra, consolava a que chorava, com o canto do seu lamento resignado. E quando somos vencidos pelo cansaço do eterno combate inutilmente travado contra a mediocridade dos vícios e das virtudes, é um bem inefável ganhar forças neste oceano de vontade e de fé.


A vida do compositor é subejamente conhecida: uma infância martirizada, uma saúde debilitada, inúmeros desgostos pessoais (amorosos e familiares), a falta de reconhecimento efetivo - Beethoven sempre foi largamente admirado como génio musical, mas igualmente esquecido como homem - e uma morte anónima. Um pouco por isso, talvez, Romain Rolland se atém de seguir a estrutura habitual nas biografias, acabando por criar uma compilação crítica de fontes primárias, mais ou menos fiáveis, - textos avulsos e cartas pela mão de Beethoven e aqueles que lhe foram mais próximos - procurando, ao invés de retratar a vida terrena do compositor, biografar o seu génio profundamente humanista:

Divindade, penetras lá do alto no íntimo do meu coração, conhece-lo, sabes que o amor dos homens e o desejo de fazer o bem habitam nele! Oh, homens, se lerem um dia isto, pensem que foram injustos comigo; e que o infeliz se consola ao encontrar um infeliz como ele que, apesar de todos os obstáculos da natureza, tudo fez o que estava em seu poder para ser admitido na categoria dos artistas e dos homens de elite.


Sendo Romain Rolland um académico, o livro acaba enriquecido por inúmeras referências para prosseguir na leitura acerca da vida e obra do compositor de Bona - e isso é um fator de peso aqui. Não se podendo descolar o caráter ideológico do teor biográfico, ainda assim, é uma obra que vale a pena ler - desde que não seja a única - sobre um dos maiores vultos da música e da história da humanidade.

«Quero agarrar o destino com todas as forças. Ele não conseguirá dobrar-me totalmente. Oh! É tão belo viver a vida mil vezes!»
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Reading Progress

March 19, 2024 – Started Reading
March 19, 2024 – Shelved as: to-read
March 19, 2024 – Shelved
March 19, 2024 –
page 20
19.61% "(1816) É um pobre homem aquele que não sabe morrer! Quando eu tinha quinze anos, já o sabia."
March 20, 2024 –
page 25
24.51% "Wegeler disse que nunca viu Beethoven sem uma paixão levada ao extremo. Esses amores parecem ter sido sempre de uma grande pureza. Não há nenhuma relação entre a paixão e o prazer. A confusão que se estabelece nos nossos tempos entre uma e outra apenas prova a ignorância que a maior parte dos homens tem quanto à paixão, assim como a sua extrema raridade. Beethoven tinha o seu quê de puritano."
March 21, 2024 – Finished Reading

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