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domingo, 18 de janeiro de 2026

O desassossego do Mar




Poema do Mar

O drama do Mar,
O desassossego do Mar,
    sempre
    sempre
    dentro de nós!

O Mar!
cercando
prendendo as nossas Ilhas,
desgastando as rochas das nossas Ilhas!
Deixando o esmalte do seu salitre nas faces dos pescadores,
roncando nas areias das nossas praias,
batendo a sua voz de encontro aos montes,
baloiçando os barquinhos de pau que vão por estas costas...

O Mar!
pondo rezas nos lábios,
deixando nos olhos dos que ficaram
a nostalgia resignada de países distantes
que chegam até nós nas estampas das ilustrações
nas fitas de cinema
e nesse ar de outros climas que trazem os passageiros
quando desembarcam para ver a pobreza da terra!

O Mar!
a esperança na carta de longe
que talvez não chegue mais!...

O Mar!
saudades dos velhos marinheiros contando histórias de tempos passados,
histórias da baleia que uma vez virou a canoa...
de bebedeiras, de rixas, de mulheres, nos portos estrangeiros...

O Mar! 
dentro de nós todos,
no canto da Morna,
no corpo das raparigas morenas,
nas coxas ágeis das pretas,
no desejo da viagem que fica em sonhos de muita gente!

   Este convite de toda a hora
   que o Mar nos faz para a evasão!
   Este desespero de querer partir
   e ter que ficar!

Jorge Barbosa

(Ambiente, 1941)


Jorge Vera-Cruz Barbosa ( 1902 -1971) foi um escritor cabo–verdiano.
Colaborou em várias revistas e jornais portugueses e cabo–verdianos e ainda na revista luso-brasileira Atlântico.. Com a publicação do seu primeiro livro, Arquipélago em 1935 foi um marco para o nascimento da poesia cabo-verdiana...
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BANA

Mar é morada de sodade




Bom domingo, amigos.

Abraços

Olinda




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imagem: pixabay
Ver Claridade
Jorge Barbosa - características essenciais - aqui


quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Mamãe-Terra




MAMÃE

Mamãe-Terra,
venho rezar uma oração ao pé de ti.
Teu filho vem dirigir suas súplicas a Deus Nossenhor
por ele
por ti
pelos outros teus filhos - espalhados
na superfície cinzenta do teu ventre mártir,
Mamãe-Terra

Mamãezinha,
dorme, dorme,
mas, pela Virgem Nossa Senhora,
quando te acordares
não te zangues comigo
e com os teus meninos
que se alimentam da ternura das tuas entranhas.

Mamãezinha,
eu queria dizer minha oração
mas não posso;
minha oração adormece
nos meus olhos, que choram a tua dor
de nos quereres alimentar
e não poderes.

Mamãe-Terra,
Disseram-me que tu morreste
e foste sepultada numa mortalha de chuva.
O que eu chorei!

Sinto sempre tão presente no meu coração
o teu gesto de te levantares
buscando o pão para as nossas bocas de criança
e nos dirigires a consolança das tuas palavras
sempre animadoras..

Eu procurei o teu túmulo
e não o encontrei.
E depois,
na minha dor de filho angustiado,
numa migalha de terra
no meio do mar.

Embarquei num veleiro
e fui navegando, navegando...

Não morreste, não Mamãezinha?
Estás apenas adormecida
para amanhã te levantares.
Amanhã, quando saíres,
eu pegarei o balaio
e irei atrás de ti,
e tu sorrirás para todo o povo
que vier pedir-te a bênção.
Tu não deitarás a bênção.
E eu me alimentarei do teu imenso carinho...

Mamãezinha, afasta-te um bocadinho
e deixa o teu filho adormecer ao pé de ti...


(In Claridade, n.2,1936)


Baltasar Lopes da Silva (1907-1989) foi um escritor, poeta e linguista de Cabo Verde que escreveu em português e em crioulo. Com Jorge Barbosa foi um dos fundadores da revista Claridade. Em alguns dos seus poemas usou o pseudónimo Osvaldo Alcântara. Encontra-se colaboração da sua autoria na revista luso-brasileira Atlântico.

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Humbertona - 
Rapsódia de Mornas







Continuação de boa semana.
Abraços
Olinda

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Imagem: pxabay
Liberdade, Palavra e Futuro - Manuel Ribeiro Semedo - aqui
Homenagem a Humbertona - aqui

sábado, 10 de janeiro de 2026

O Cais e a Cidade Velha

 


POSTAL


deste lado da ilha
o cais e a cidade velha
datam de muito tempo,
mas a cidade é um poema
não cresceu. é sempre a mesma.
todos os dias igual:

o mesmo outeiro da cruz
desterro, fontes e fortes
igrejas, lendas, sobrados
estreitas ruas, mirantes
portões, sacadas de ferro
poetas, becos, telhados
serestas, maledicência
saveiros, pregões de rua
cantaria, mal-amados
rios (chão, templo e canteiros)
de peixe e palafitados)
ladeiras, moças bonitas
recato e amor nas janelas
casarões azulejados.

cidade em traje a rigor
vestida à colonial
meu mundo, meu porta-jóias
meu bem, meu cartão postal.

brisa de maré vazante
sem similar no país.
quietude pousada na água
caminhos feitos de história.

gente vem ver São Luís!




Manuel dos Santos Lopes (1907-2005) foi um ficcionista, poeta e ensaísta e um dos fundadores da moderna literatura cabo-verdiana que, com Baltasar Lopes da Silva e Jorge Barbosa, foi responsável pela criação da revista Claridade.
ver mais aqui





Assol Garcia - 
Rapsódia de Mornas



Bom fim de semana, amigos.

Abraços

Olinda


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Cidade Velha - aqui
imagem - pixabay
Ver aqui - Manuel Lopes