Aos 8 meses de gravidez, me sentindo pesada, torcendo pro bebê aguentar firme ai dentro por mais 2 meses, enquanto as vezes me assusto pensando nos efeitos desses mesmos meses no meu corpo, andei pensando em como tem sido gestar. No geral, a gestação não é mesmo uma experiencia individual, e eu teria muito pouco a adicionar ao que o senso comum já sabe: um início de asia, medo e cansaço, um segundo trimestre de mais disposição, constantes dores do crescimento, emoções de descobertas, sentir os movimentos, e um terceiro trimestre que vai chegando na exaustão, nada novo sob o sol.
Mas o que me intrigou mesmo é o tanto que, nesses tempos de redes sociais, de conexão infinita, a tendência geral é de viver uma experiência completamente padronizada e igual, desde as fotos que se tira e posta, das legendas que se usa, dos memes que se compartilha, aos ritos que se vive (chá disso e daquilo, ensaio, you name it), e aos produtos que se compra. Principalmente vindo das amigas do Brasil, me vi com um grande checklist na mão, e extremamente irritada em como tudo parecia completamente pasteurizado: 9 de 10 pessoas me chamando de gravidinha (peguei irca da palavra rs), falando em nenê no forninho, perguntando sobre chá revelação, chá de fralda, ensaio fotográfico, me mandando os mesmos memes de gestante cansada, gestante neurótica, gestante isso ou aquilo. Sério, que bode rs.
Primeiro que parece até que essas pessoas, que em sua maioria são pessoas queridas que já estiveram mais ou menos próximas, não me conhecem, né.. pelamor gente, eu lá tenho cara de quem faz chá revelação?! Mas depois eu fiquei pensando em como várias amigas que também não tem cara de quem faz chá revelação acabaram fazendo, e eu comecei a sacar que a tal da culpa materna começa bem cedo, já na gestação. Tenho amigas que fizeram o chá, o ensaio, porque ficaram com medo de se arrepender depois. Afinal, de contas, todo mundo faz, né? A gestação vira um grande checklist das coisas que todo mundo faz, das fotos que todo mundo tira, dos milestones que todo mundo vive, mesmo antes do bebê nascer, e aí as pessoas acabam já vivendo um FOMO.
Também refleti como, muito rapidamente, a gente já vai sendo reduzida ao papel de mãe. Digo reduzida sim, porque toda mulher com filhos segue sendo mãe, filha, esposa, parceira, amiga, colega, profissional, etc. Mas de repente, todo mundo só enxerga a mãe. Talves eu tenha ficado (mais) azeda nesses meses, não duvido rs, mas comecei a me irritar muito com algumas pessoas que há muito não me ligam pra perguntar da vida, do trabalho, de coisas que me são caras, mas de repente tavam me bombardeando toda semana com mensagem carinhosa perguntando como vai essa gravidinha?, cadê foto da barriguinha?, já ta comprando as coisas do quartinho?. Eu realmente não quero ser uma ranzinza rs, mas chegou num momento em que eu tive que dar uns cortes, porque eu não ligo de falar da gravidez, muito pelo contrário, eu adoro, mas eu não deixei de ter outros assuntos. Nesse meio tempo eu tive uma reestruturação no trabalho, passei por um processo seletivo, consegui uma vaga bacana para quando eu voltar da licença, me envolvi em projetos super legais, mas a grande maioria das pessoas nunca nem perguntou sobre nada disso.
Pra encerrar o rol de reclamações, queria ainda resmungar sobre o consumismo que envolve essa fase. Uma vez li num livro sobre como gestantes são a mina de ouro do capitalismo: não somente elas estão gerando a nova leva de consumidores (se sua mãe é uma consumidora de marca X, tem grandes chances de você vir a ser também), como elas estão dispostas a não dar nada a menos que o melhor para suas crias. E ai lhes pergunto: quem define o que é o melhor? Pois é, também não sei, mas parece que ta definido rs. O creme anti estria TEM que ser o da marca x, a bomba de extração de leite TEM que ser a da marca y, mamadeira só a da marca z, senão da cólica, tudo TEM que ser desse jeito senão você vai padecer e não vai ser no paraíso, e pior: mais uma vez, vai padecer porque não fez o que todo mundo faz, que é comprar esse produto milagroso. Que maravilha deve ser pra uma marca conseguir ser defininda como A marca que TEM que ter. Mal precisa fazer marketing. A moral da história é que, de repente, sem você nem ter pedido, ta lá com uma lista de compra na casa dos milhares de francos na mão - e imagina em real, meu povo.
Eu só comecei a compartilhar a gravidez, mesmo com família e amigos próximos, quando já passava dos 3 meses, e fui postar em redes sociais sobre eu já devia estar com uns 5 meses, então essas demandas demoraram um pouco pra chegar até mim, e mesmo assim, quando chegaram, encheram meu saco. Cada vez que eu ia pesquisar algum desses itens, eu chegava a conclusão de que acaba sendo mais fácil mesmo seguir a manada, porque 90% dos sites, listas e recomendações apontam pra elas, e pra passar disso você tem que escarafunchar muito, pesquisar muito. Eu fui ficando cada vez com mais preguiça, e acabei deixando tudo pra depois rs. Então agora, quando já beirava a entrada no último trimestre, foi que eu realmente comecei a preparar a casa pra receber seu novo morador.
E aí, eu cheguei a conclusão que, se você conseguir se livrar dos outros, da pressão dos outros, do barulho dos outros, a gestação é muito gostosa rs. Aqui no nosso cantinho, onde eu, meu marido, meu cachorro e meu bebê fomos vivendo os últimos meses, foi só aconchego. Tem hora que tudo que você precisa é mesmo desligar o fio da internet (ainda mais se você mora fora, já que ninguém vai bater na sua porta rs), e aí fica tudo uma delícia: ver a barriga crescer, sentir o bebê mexer, imaginar o futuro, começar a organizar esse futuro. Foi muito gostoso começar a comprar roupinhas, receber presentes, pensar os ajustes que precisaríamos na casa (executar esses ajustes foi, e está sendo, menos gostoso rs). A Suíça também demanda muito planejamento, e precisamos nesse tempo já buscar e registrar com um pediatra, escolher uma creche, registrar esse bebê que nem nome tem para ter um plano de saúde. Tudo isso foi dando bastante concretude pras mudanças que, para além do meu corpo, estamos prestes a viver.
E ai minha conclusão foi que, enquanto estou amando estar grávida, na maior parte do tempo estou odiando papo de grávida rs. E percebi que não é pelo papo em si, mas pela abordagem. Me dei conta que, com amigas com quem falo de tudo, quando chegamos nos assuntos dos preparativos, dores e angústias da gravidez, eu adoro tagarelar. Mas odeio falar sobre isso com quem SÓ quer falar sobre isso, com quem adquiriu um interesse extra sobre minha vida agora que ela não é só mais minha.