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28 janeiro, 2026

"SONETO DE INVERNO" - Afonso de Castro

 

"SONETO DE INVERNO" - Afonso de Castro 

https://voca.ro/1jLIr9cBEwkP

Voz: Anabela Quelhas

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O combustível silencioso do cérebro


 O combustível silencioso do cérebro 

Num mundo onde o digital reina, a leitura, aquela actividade que envolve páginas de papel e letras impressas, fica para trás. As crianças e os jovens, cada vez mais habituados a mensagens rápidas, títulos apelativos, muita imagem e texto curto, nos seus telemóveis, parecem querer trocar o prazer da leitura profunda por uma satisfação instantânea, efémera e transitória. Essa mudança é boa ou má? Na verdade, há mais pessoas a ler, e menos hábitos de leitura.

A ciência revela que a leitura é sempre um exercício vital para o cérebro, um combustível silencioso que alimenta e enriquece a função cerebral. E o que é mais interessante: ela não precisa de ser feita somente com livros físicos para trazer benefícios. Ou seja, ler, mesmo que seja uma mensagem curta ou uma notícia no telemóvel, estimula funções cerebrais. Contudo, há diferenças substanciais na qualidade e na profundidade dessa estimulação. Quando folheamos um livro de papel, activamos uma série de sentidos e memórias cinestésicas — a posição do corpo, a sensação do papel, o cheiro das páginas — que favorecem uma compreensão mais profunda, uma retenção maior da informação e um foco mais intenso.

A leitura digital, embora permita uma navegação rápida por textos curtos, muitas vezes estimula uma leitura superficial e impede que a leitura mais aprofundada se efectue. O nosso cérebro, potencialmente seduzido pelo dinamismo dos dispositivos, tende a processar as informações de forma mais rápida e menos profundada. Isso pode ser útil para tarefas rápidas, mas, no que diz respeito à compreensão de conteúdos complexos ou ao desenvolvimento de pensamento crítico, deixa muito a desejar. Pais e educadores estejam em alerta.

Assim como o exercício físico fortalece os músculos, a leitura exercita o cérebro, activa memórias visuais, linguísticas, motoras, e promove uma espécie de treino cognitivo constante que pode ser transformado em saber e conhecimento. Porém, nem todos os que praticam exercício físico são atletas. É necessário algo mais.

A ausência de leitura regular, em circunstâncias favoráveis à reflexão, tem consequências palpáveis. Ela limita o desenvolvimento cognitivo, empobrece o vocabulário, enfraquece o pensamento crítico e diminui a capacidade de concentração e de decisão. Sem esse estímulo, o cérebro pode atrofiar, acelerar o envelhecimento cerebral precoce e dificultar a análise de informações complexas. Uma leitura superficial, típica do ambiente digital, impede o processamento profundo necessário para compreender argumentos e desenvolver uma visão crítica do mundo, torna os leitores mais frágeis e susceptíveis de não saberem descodificar a demagogia escondida na informação que lê, distinguir o verdadeiro do falso, tornando-se alvos fáceis para serem enganados.

Pais, educadores e a sociedade têm um papel fundamental em criar ambientes que estimulem esse hábito, pois o que está em jogo não é apenas o prazer de ler, mas a formação de cérebros mais resistentes, criativos e críticos, perante o que acontece na sua vida pessoal, social e política. Saber seleccionar informação, saber interpretar e saber fazer as suas escolhas, está a ser cada vez mais urgente.

Sem leitura e entendimento profundo não há evolução civilizacional, e sim um retrocesso. O impacto do declínio do hábito de ler na formação do pensamento crítico, manifesta-se na saúde da democracia e na capacidade de interpretação da realidade.  

Publicado em NVR 28|01|2026

25 janeiro, 2026

ANTECIPANDO

 






OCA GRANDE HOTEL DO PEZO

Av. do Peso. Melgaço.

Movies












 

21 janeiro, 2026

Anita, aqui quem manda sou eu – parte dois.


 Anita, aqui quem manda sou eu – parte dois.

(texto de humor, satírico, elipsíco, parábolico, hipérbolico, eu sei lá o que é!)

Todo o bairro fica quieto só pra ver! Os vizinhos fingem que dormem ou vão fumar para a marquise, mandam uns bitaites na net e dão uns quilos de arroz, já fora da validade, e uns enlatados, para a casa do Tozé, que anda desvairado, às aranhas e tem a despensa a zero - nem papel higiénico! Na verdade, até podiam contribuir com mais uns repolhos e uns nabos para a guerra dos vizinhos, mas receiam, que isto se alastre e os filhos se envolvam na zaragata, porque sabem muito bem, por experiência própria e adquirida no meio dos balázios e das minas de uma guerra qualquer, quando a cabeça não tem juízo, o corpinho é que paga, ou quem se lixa é sempre o mexilhão.

Depois do meu telefonema a guerra entre o Tony e o Tozé, anda assim, meia morna, tipo cerveja choca, ocasionalmente operacionalizam, ora se atira com a marmelada, ora se recebe o marmelo atirado sem cavilha, com ruido um pouco menor e com horas certas para não me perturbar o sono e aguardam que eu dite ordens, mas eu quero é tratar das minhas alheiras. Que se lixem, desde que me comprem os enchidos.

Bom, eu comecei a fazer contas à vida, o vício das compras na net é terrível, nem é preciso sair de casa! Pior seria jogar no casino! Já papo Temu, AliExpress, Shein, Shopee, Worten, OLX… e é preciso ter aquilo com que se compra os melões, o money, os aurélios para os pagamentos na hora por mbway ou por transferência bancária.

Preocupado, no fim de semana, naveguei ao calhas pela net, fui dar ao google earth e toca a ver o meu bairro e a cidade, de cima, através do satélite. Descobri que o Madureira tem um piscinão, um spa, uma adega, uma vinha de Alvarinho, uma horta ecológica cheínha de alfaces, tomates e pimentos, um campo de ténis e vários turpiais[1] em ouro maciço junto à churrasqueira.

Nem pensei duas vezes, mandei lá o meu mordomo e a governanta para extrair o casal Madureira. Vieram a contragosto para minha casa, o jardineiro e a cozinheira deles, reclamaram, mas de facto eu penso que eles preferem futuramente trabalhar para mim. O casal, meti-os na despensa, e agora posso voltar à casa deles, extrair aquilo que me apetecer sem pedir autorização, é muito prático e rápido; em primeiro lugar virão os pimentos pádron. Não sei quem tratará da horta, nem quem tratará do pH da água da piscina. Mas isso logo se vê, aguentem eles na despensa, que eu rapidamente transformo a casa do Madureira em alojamento local de luxo, com 5 medronhos no booking.

Projectos para o futuro?

O meu negócio é mesmo vender alheiras, porém…

Para além de Paz e Amor, ai que lindo, ai que lindo, pretendo já no próximo Natal não ter que ir pra fila do hipermercado para comprar bacalhau. Ele virá directamente da Gronelândia para o forno aqui de casa e para a massa dos pastéis, já demolhado; dentro em breve a terra e o mar do bacalhau serão meus, com registo predial e toda a papelada que a lei manda. Não sei se o Tony também se vai meter nisso – fica com os icebergues para batizar a vodka, com cubinhos de gelo do Ártico.

Também quero o peixe-espada dos Açores, a picanha do Brasil, os charutos e rum de Cuba e o pata-negra do Alentejo – talvez para o próximo Outono, porque agora tenho a arca cheia de alheiras.

Quanto aos empreiteiros para os resorts de Gaza estão a ser seleccionados, entre os mais-em-conta, talvez escolha os chineses. Os urbanistas andam com o projecto às voltas, são uns lingrinhas, não se entendem, uff aquilo é gente complicada da cabeça!

Os Romanos chegavam e faziam uma quadrícula e já estava, uma nova cidade!

Estes querem sociólogos, engenheiros, arquitetos, geógrafos, informáticos, economistas, gestores, tradutores e representantes da comunidade. Depois acumulam actas e criam processos que nunca mais acaba… se um simples projecteco que entra na Câmara, tem que acompanhar com N processos de especialidades, imaginem Gaza, em hebraico! As normas, os decretos-lei, as revogações, as alterações, os PDMs, os aditamentos, as memórias descritivas, as análises territoriais, os cadernos de encargos, o 3D…

Uns complicados! Brevemente estarei a comprar os materiais de construção e o projecto ainda não estará pronto, aposto, nem em pen.



[1] Turpial, ide ao dicionário ou ao google que eu não estou pra vos aturar.

Publicado em NVR 21|01|2026

Parte um 

"FÁBULA DE UM ARQUITECTO" - João Cabral de Melo Neto




Voz: Anabela Quelhas 


18 janeiro, 2026