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quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

"Gaivotas em Terra…"


Começa a ser comum ver gaivotas em terra por aqui.

Mesmo quando não há sinais de "tempestade"...
Isto não acontece apenas devido à proximidade do Tejo ou do Atlântico.
Aliás, eles estão aqui, desde sempre.
Até parece que as gaivotas estão a querer fazer parte da paisagem diária de Almada...



[Luís Alves Milheiro, in “Largo da Memoria”, 18 Dec 13]


(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

"As noites calmas..."


Há noites assim, calmas e solitárias.
Parece que está tudo a dormir e que a noite nos pertence, completamente...
Estava ali, sentado, à beira rio, à espera de ti e do cacilheiro que te transportava para a nossa Margem, quase sem pensar em nada, além do Tejo e da Lua.
Foi então que, sem nenhuma razão aparente, lembrei-me que na infância os dias são quase infinitos, temos tempo para fazer tudo.


[Luís Alves Milheiro, In “Largo da Memoria”, 21 Mai 13]


(Fotografia de Luís Eme - Tejo)

sábado, 22 de novembro de 2025

"No tempo em que éramos quase pobres..."


«No tempo em que éramos quase pobres, tinha poucos amigos da minha idade com carro.
Aos vinte e muitos poucos anos recordo que boa parte dos amigos da "borga", com quem me aventurava na noite, eram todos ligeiramente mais velhos que eu.
Estou a falar da primeira metade dos anos oitenta. Há quase trinta anos...
Dentro da noite, conhecíamos algumas mulheres, quase "aves nocturnas", que também escolhiam a quinta-feira como espaço de diversão, escapando às enchentes do fim de semana.
Como ninguém tinha carro e gostávamos mais de gastar dinheiro em cerveja que em táxis, esperávamos quase sempre pelo primeiro barco da manhã.
Nem sempre estávamos em bom estado, mas como éramos jovens, não custava nada fazer uma directa. O quase ligeiro peso dos olhos era coisa pouca, mesmo quando com mais uns "quilos" depois do almoço...
Esperávamos muitas vezes o barco à beira-mar, a olhar o rio com a neblina matinal, quase sempre divertidos e sem esperar que aparecesse ele rei dom Sebastião.»

[Luís Alves Milheiro, in "Largo da Memoria”, 16 Dec 11]


(Fotografia de Luís Eme - Tejo)


domingo, 9 de novembro de 2025

"A minha primeira Cacilhas..."


A primeira vez que me recordo de ouvir falar de Cacilhas, foi nas páginas de um dos livros de leitura da escola primária.

Era um texto de algum escritor (tenho de investigar o caso...) que vinha acompanhado de uma imagem nocturna do Tejo, com um Cacilheiro a fazer a travessia e tinha como fundo as luzes da Outra Banda.

Não me lembro do conteúdo do texto, mas pela imagem que ficou gravada na minha cabeça, à distância de mais de meio século, penso que se devia falar do regresso a casa das muitas pessoas que trabalhavam em Lisboa e viviam na outra margem do Rio. 

Sim, a Cacilhas desse tempo, não fugia do epiteto de "dormitório da Capital", que continua actual...

[Luís Alves Milheiro, in "Casario do Ginjal", 04 Nov 25]

(Fotografia de Luís Eme - Tejo)


terça-feira, 28 de outubro de 2025

"Uma paixão que me tira o fôlego..."


«Eu sou uma lisboeta naturalizada, não me entendam mal. Se alguém quiser mandar-me para a minha terra, não será para Lisboa. Mas tenho por esta cidade um amor daqueles que não se explicam, uma paixão que me tira o fôlego sempre que vejo uma nesga de Tejo a espreitar por uma viela. Fico sem ar quando estamos muito tempo longe e não consigo imaginar como é que alguém consegue gostar de viver noutro lugar.»

[Margarida Davim, “Visão”, 12 Set 25]

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quinta-feira, 16 de outubro de 2025

"O espelhado e tranquilo estuário do Tejo"


«Fiel ao sentimento de saudade ficou a obra de Francisco Smith, mas para sempre impregnada da fina luminosidade e do colorido natural da sua cidade - desta Lisboa, que se mira no espelhado e tranquilo estuário do Tejo, sob o céu azul do céu puríssimo, perfumada, fresca do hálito marinho.»

[Manuel Mendes, in "Colóquio Artes e Letras", Maio de 1962]


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, 20 de setembro de 2025

ninguém toma banho duas vezes no mesmo rio...


«Diante dos meus olhos fluíam as águas turvas do Tejo e realmente o filósofo acertava quando sentenciava a conhecida divisa de que tudo flui e ninguém toma banho duas vezes no mesmo rio. Tanto pelo rio, que é diferente na mesma curva, verde, negro, pardo, ocre, cinzento-aço ou loiro-cinzento, como pelos olhos que o olham volúveis, cambiantes, inquietos, viajantes da alma que jamais repetem a mesma inclinação no olhar. O meu tinha naquela manhã a suave queda da evocação e do sonho.»

[Susana Fortes, in "Querido Corto Maltese"]


(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


sexta-feira, 12 de setembro de 2025

A noite de Lisboa...


«Lá fora uma chuva sem peso confundia-se com a humidade do rio. Saímos para a noite do nosso tempo, para os reflexos luminosos dos candeeiros no asfalto brilhante, para o uivo das sirenes e dos motores, para a respiração inconfundível da cidade. Mandámos parar o primeiro táxi que descia a Avenida da Liberdade e preparámo-nos para rodear a noite de Lisboa pela margem norte do Tejo rumo ao Atlântico.»

[Susana Fortes, in "Querido Corto Maltese"]


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, 3 de setembro de 2025

"Aquilo era o Mar..."

 

«Para mim, vir para aqui já era ir a Nova Iorque. Não se respirava no país, mas eu respirava quando vinha a Lisboa. A primeira coisa que fazia era sair no Rossio e dirigir-me ao Tejo para respirar o mar. Aquilo era o mar.»

                                                           [Eduardo Lourenço, “Público”, 11 de Maio 2014]


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, 30 de agosto de 2025

"O Mês"...

 

O Mês

Os espelhos partidos vidros restos
as fogueiras os séculos os degredos
saía-se do medo em largos gestos
o mês rompia pelos dedos.
[...]
As sílabas sublevadas o azul o som
partiam-se as vogais no tom inverso.
Era o mês em que Charles Fourier e André Breton
passaram por Lisboa a cavalo num verso.

A subterrânea floração e seu mistério
era o mês com seu rio pela rua
na minha língua abril é um falanstério
na outra face da lua,
[...]
Colhemos então as barcas sobre o Tejo
navegação por dentro - metáforas à solta em cada
rua: Lisboa entre a memória e o desejo
era o mês da pétala lusa.
[...]
Dai-me de novo as grandes subversões idiomáticas
as inesperadas e loucas opções de classe. Dai-me outra vez
as gramáticas perdidas das ilusões fantásticas
as páginas a abrir as manhãs mágicas o mês.

[Manuel Alegre, in "Livro do Português Errante"]

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, 20 de agosto de 2025

A "Marcha de Belém"

 

"Marcha de Belém" (2025)

Lisboa tem a cor de uma saudade
 Que canta quando brilha o nosso Tejo
 Lisboa é a dor de uma ansiedade
Que quando não te vê, rouba-te um beijo
E olhando de mansinho a noite escura 
Passando a cidade em sobressalto 
Salpicando a cidade de outras cores 
No preto e banco do chão de basalto
[...]

Henrique Vales


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

quarta-feira, 13 de agosto de 2025

"Praça João do Rio (ou o segundo poema do português errante)"


"Praça João do Rio"

Lisboa é esta praça com árvores e com pássaros
melros piscos toutinegras rouxinóis
e barcos inconcretos nos telhados onde
o azul do céu é já um mar do avesso
um reflexo do Tejo ou talvez um
pressentimento de ocidente ocado Cabo Raso
um navegar só verbo em navio nenhum.
Lisboa é esta janela de onde vejo
tudo o que não se vê que é o que há mais
em Lisboa onde se mesmo sem ver o Tejo
e onde cada varanda é sempre um cais.
Lisboa é esta praça e esta janela
minha nau capitânia sobre o insondável
dentro de casa eu vou de caravela
Bartolomeu Dias neste mar inavegável
não há Índia perdida que não possa ser achada
Lisboa é esta praça e esta viagem
esta partida mesmo se parada
este embarcar no azul até chegar àquela margem
em cuja linha só o abstracto pensamento passa
a margem única e absoluta não mais que pura imagem
sem precisar sequer sair da Praça
João do Rio número onze quarto direito
onde eu Ulisses vou à proa
além de qualquer cabo e qualquer estreito
em Lisboa por dentro de Lisboa.

[Manuel Alegre, in "Livro do Português Errante"]

(Fotografia de Luis Eme - Lisboa)