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quinta-feira, julho 15, 2010

Exercício 3

Quando era pequena, sentava-me na cozinha, ao pé da minha bisavó Paula, enquanto ela fazia o almoço. Eu queria sempre ajudar, com o passe-vite cor-de-rosa, passava a batata, depois juntava-lhe a manteiga, o leite, o sal, a pimenta e a noz moscada e mexia muito bem...
«Já mexeste?»Perguntava a minha avó antevendo com um sorriso a resposta.
«Já, vó!» Respondia eu, ainda a lamber os dedos e a taça.
Lá dentro, depois de atravessar o longo corredor, ficava a sala de costura e a sala das provas, onde as minhas tias recebiam as senhoras que lhes encomendavam vestidos, casacos e blusas e as torturavam com as mãos geladas, da má circulação, e com os alfinetes, que marcavam o tamanho da bainha.
«Ana Maria, anda cá cumprimentar uma senhora!»
Lá ia eu, educada e bem mandada, contudo secretamente contra-feita, beijar as faces das senhoras que exalavam um perfume enjoativo e adocicado.
Na Primavera, era altura das grandes limpezas: as roupas eram retiradas das gavetas das cómodas e dos guarda-fatos; mudavam-se os papéis que forravam os interiores e juntava-se naftalina, disfarçada com o aroma da alfazema, em saquinhos de pano ou em raminhos.
Agora já não sou pequena, mas continuo a gostar de puré, como a minha bisavó fazia, e aprendi a apreciar outros paladares e condimentos que ela desconhecia. O aroma dos oregãos na melhor tosta do mundo e o sabor do caril de gambas do meu pai.

Exercício 2

Meses, anos, décadas a coleccionar panos, paninhos e panais, enxoval guardado religiosamente no bafio do tempo. Ali estava o baú, qual caixa de Pandora.
Antonieta não queria morrer solteirona, mas o tempo passava e ela ainda não conhecera a sua alma gémea. Na realidade, qualquer alma lhe servia, pressionada pelos fios brancos que lhe decoravam a cabeça.
Francisco José, o merceeiro, viúvo e honesto, parecia fazer-lhe a corte, mas o que parece nem sempre é e Antonieta era uma mulher séria.
- Bom-dia, menina Antonieta, com tem passado?
- Bem, muito obrigada.
-Aquie tem as suas compras, fiz uma atenção no preço...
- Agradecida.

*
- Bom-dia, menina Antonieta! Gosta de ovos de codorniz? Tenho ali uns bem fresquinhos!
- Agradecida, senhor Francisco José.
Pois, o senhor Francisco José era de facto atencioso.
Talvez um dia, junto das maçãs e da barra de sabão azul encontrasse uma caixa e dentro da pequena caixa estivesse o ambicionado anel de noivado.

Exercício 1

Pela estrada fora conduz sem tino, como se tivesse um encontro com o destino. Continua pela estrada florestal, curva, contra-curva, até chegar à rotunda, sai na segunda à direita. Mais uma rotunda e ainda outra, sempre à direita. Percorre a recta até ao farol. Chega.
«Proibido caminhar na falésia»
Sai do carro, abre o porta-bagagens, retira a sua cana-de-pesca. Caminha em direcção à falésia, na íngreme rocha encaixa a cana e fuma um cigarro, inspirando a nicotina juntamente com a maresia.
De repente a linha dá um esticão. Ergue a mão a tempo de agarrar a cana, debate-se com ela, até que vê o seu adversário: mulher-peixe-encantada!
«Ó senhor, senhor!! Não viu o sinal?! É proibido caminhar na falésia!»
Sem saber como, tinha fechado os olhos, dormindo serenamente na desconfortável rocha.

Escrita Criativa parte 3

Terceira sessão, com demasiada conversa e pouca acção...

terça-feira, julho 13, 2010

Exercício 3

Sentou-se no tear, como lhe tinham ensinado, e começou a entrelaçar os fios. Lentamente as cores, tal como as suas mãos, bailarinas exímias, dançavam e geravam movimentos, formas e feitios.
Antigamente as suas mãos eram rugosas, as enxadas não podiam esperar. Agora que casara não precisava de trabalhar a terra, os seus irmãos mais novos herdaram essa obrigação.
Sua sogra ensinara-lhe como fiar a lã, com a roca e o fuso, e depois, mais tarde, como transformar aqueles fios em tapeçarias. Mas o toque desagradável da lã em tempos de calor perturbava-a, deixava-a inquieta, começava a sentir os seus pés presos nos pedais, um calor na nuca e a cabeça a estalar.
Não tinha saudades da enxada, mas do céu aberto, dos campos e dos pássaros. Na sua cabeça rodopiavam imagens tecidas pela memória. Respirou fundo, bebeu um pouco de água e sorriu, ao pensar na vida que tinha dentro de si.

Exercício 2

Quando for grande não quero ser rabugenta, passar os dias a dizer mal da vida: da minha, dos outros, da nossa.
Quando for grande quero sorrir de manhã, quando abrir as portadas da velha janela do quarto, quero sentir o perfume das flores do jardim, quero ouvir os miados teimosos dos gatos, quero saborear as nêsperas e os diospiros.
Quando for grande quero dizer «BOM-DIA» aos meus, aos vizinhos e aos estranhos.
Quando for grande quero pintar a lua e as estrelas no tecto e sonhar com o brilho dos olhares.
Quando for grande quero ter muitos amigos e preservá-los sempre, para sempre.
Quando for grande não quero ser só.

Exercício 1

Com um pedaço de pão alimentava os pombos do parque, era uma rotina que se tinha imposto. De manhã, bem cedo, apanhava o autocarro, que durante anos o levara ao trabalho, e dirigia-se ao parque. Ali ficava a alimentar aqueles bichos odiosos com pequenas migalhas, com o olhar perdido nos sonhos não concretizados. Nas fundas olheiras desenhavam-se as preocupações quotidianas: contas...credores...solidão...
Os pombos eram agora a sua motivação para não se deixar enterrar na depressão e no ócio.
Recordava os colegas de trabalho e as suas conversas, agora só lhe restavam os pombos.
« Lamentamos muito, mas esperávamos uma pessoas mais nova, com mais dinamismo, para exercer estas funções» disseram-lhe na última entrevista a que fora.
«Velho... Velhos são os trapos!» pensou; e continuou a atirar migalhas de pão aos pombos.

Criatividade à força parte II

segundo dia da formação... e os resultados são:

segunda-feira, julho 12, 2010

Exercício 3

A história do cavalo liberto, que galopava por entre vales e montes, já não há ninguém que a conte. Os rios já não correm por baixo das pontes e a neve que cobria o cume da montanha já não se vislumbra no horizonte.
No livro proibido e secreto, há histórias sem fim, onde os animais e os homens convivem... assim o dizia a minha bisavó, mas disso nada sei, eu apenas conheço a terra árida, as fontes secas e as árvores mortas.

Exercício 2

Sobrevoava a aridez da cidade sem imaginar o esperava encontrar. No corredor de vultos, a solidão impunha-se; pela janela via o azul do céu manchado por fiapos de nuvens e lá em baixo, no contraste da luz e das sombras, desejava encontrar um rumo, o seu rumo.

Exercício 1

As palavras são um conjunto de letras
As palavras são arbitrárias
As palavras são sentimentais
As palavras são funcionais

Há palavras que magoam
Há palavras que trazem alegria
Há palavras que são inócuas
Há palavras que não devem ser pronunciadas

Com palavras canto
Com palavras escrevo
Com palavras digo o que penso
Com palavras aprendo

Quero que as palavras se libertem
Quero que as palavras cheguem aos ouvidos de todos
Quero que as palavras fiquem em silêncio, quando não fazem sentido
Quero que as palavras sejam verdadeiras

Criatividade à força

Após uns tempos de indiferença, eis que se regressa com os conteúdos da acção de formação: Escrita Criativa...

Criatividade tirada a ferros em tardes quentes e pouco arejadas, com apontamentos de sujidade nos estores, como a atenta colega S. constatou!

sábado, maio 02, 2009

“Ela nunca foi feliz…”, disse ele. Assim, como se fosse dele a prerrogativa de afirmar a sua não-felicidade. A sua existência foi negada num segundo, tal como toda a sua descendência. A sua passagem resumida a uma frase… Um conjunto de palavras “ela”….”nunca” …. “foi”…”feliz”…
A verdade só ela o soube, só ela o afirmou para si, já que nunca foi de exteriorizar o que verdadeiramente sentia. As verdades que criaram sobre ela são como muros que crescem à volta de uma casa e lhe tapam o horizonte e a luz. Memórias construídas por partículas soltas, que se cosem umas às outras, utilizando linhas que já costuraram outras histórias, entrelaçando-se assim uma vida noutra.

sábado, fevereiro 07, 2009

arte & política

(festa do avante setembro/2007)

quarta-feira, janeiro 28, 2009

Egos... :)

Happy B. to me

Happy to be Me!

terça-feira, janeiro 27, 2009

dying slowly