Hora da Verdade
Uma parceria entre a Renascença e o jornal “Público”. Entrevistas aos protagonistas da atualidade. Quinta às 23h20.
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"Parte do eleitorado toma decisão cada vez mais tarde, alguns no local de voto"

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"Parte do eleitorado toma decisão cada vez mais tarde, alguns no local de voto"

15 jan, 2026 • Liliana Monteiro (Renascença) e Helena Pereira (Público)


Diretor-geral da GFK Metris defende que candidatos presidenciais “não deviam” falar tanto das sondagens. António Gomes compara as sondagens a um "jogo Sporting-Benfica aos 45 minutos”, em que ninguém sabe como vai ficar o resultado final.

"As sondagens são como um jogo Sporting-Benfica aos 45 minutos"
"As sondagens são como um jogo Sporting-Benfica aos 45 minutos"

António Gomes, diretor-geral da GFK Metris, responsável por vários inquéritos e sondagens políticas, afirma que estudos mostram que uma parte dos portugueses decide em quem votar muito próximo do ato eleitoral.

Em entrevista ao programa Hora da Verdade, da Renascença e jornal Público, o especialista em sondagens diz que a decisão, às vezes, chega mesmo na hora de colocar a cruz no boletim.

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António Gomes refere que, nesta segunda semana de campanha para as eleições presidenciais, o eleitorado está atento já não tanto à linha política e ideológica, mas ao fator empatia com o candidato.

Considera que as sondagens têm influência na escolha do candidato, sublinhado que essa escolha é feita de acordo com uma de quatro tendências: o voto em quem vai na frente, voto por pena de quem está em segundo, a desistência de voto por certeza de vitória ou de derrota.

Questionado sobre as críticas tecidas muitas vezes às sondagens, apontadas como tendo pouca credibilidade e andarem algumas vezes longe do resultado final, lembra que são uma fotografia de uma intenção de voto num momento específico, que pode no final ser distinto.

Destaca o protagonismo das sondagens nesta campanha para as presidenciais pelo facto de estarem envoltas em grande dúvida e indecisão dos eleitores.

Nesta entrevista ao programa Hora da Verdade, António Gomes explica ainda que impacto podem ter as acusações e escândalos políticos na hora do voto.


O período de campanha rima com sondagens, gráficos, muitas percentagens que vão surgindo, rima também com pouca confiança dos cidadãos na avaliação destes trabalhos, que muitas vezes dizem "erram sempre".
Acho muito injusto. Francamente, acho que não erram. A história diz-nos até o contrário. É importante produzir pedagogia, dar a conhecer às pessoas o que é uma sondagem. E uma sondagem mais não é do que uma fotografia num determinado momento. Uma sondagem feita a um mês [do dia de votação] não é uma previsão. É tão-somente uma medição da intenção de voto naquele momento. Não se propõe dizer quais vão ser os resultados no dia das eleições.

E influenciam ou não a escolha dos eleitores?
Influenciam.

É importante produzir pedagogia, dar a conhecer às pessoas o que é uma sondagem

As pessoas gostam de escolher um candidato que sabem que está bem colocado? Ou seja, unirem-se aos vitoriosos?
Cientificamente, há quatro fenómenos das sondagens. O primeiro, chamado efeito "bandwagon": as pessoas querem votar em quem sabem que vai à frente, ou seja, queremos ir na carruagem da frente. O segundo, chamado efeito "underdog", que tem a ver com ficar com pena de quem está em segundo. "Oh, está tão afastado, então eu vou beneficiá-lo." E depois há mais dois fenómenos, que são a desistência por certeza de vitória e a desistência por certeza de derrota. A desistência por certeza de vitória é: "já ganhou, então não preciso de ir lá". E a desistência por certeza de derrota é: "bom, isto é tão mau que eu prefiro não ir lá".

São quatro efeitos. Dois beneficiam quem vai à frente. Dois prejudicam quem vai à frente. Quem quiser instrumentalizar as sondagens não sabe qual é o efeito que vai ter. Estes são imprevisíveis.

As sondagens assumiram um papel relevante porque existem muitas dúvidas. O nosso processo mental não está habituado a ser confrontado com uma escolha tão alargada. Nas eleições legislativas, há muitos partidos a concorrerem, mas o voto contribui para uma representação parlamentar. Aqui não. No final, só vamos ter um Presidente. Lentamente, as pessoas começaram a afunilar nas respetivas escolhas e as sondagens têm um papel relevante porque ajudam como pistas para que as pessoas comecem a pensar.

Normalmente, as pessoas perguntam-me quem vai ganhar. Desta vez, ouço mais vezes a pergunta: afinal, em quem é que eu devo votar? Ou seja, quais é que podem ser os candidatos em que o meu voto possa ser mais útil?

Nesta campanha há alguns candidatos muito irritados com sondagens e há quem fale até de se proibir sondagens na reta final da campanha. Vê alguma utilidade nisso?
Já foram proibidas um mês antes, uma semana antes. A mim choca-me que isso possa representar regredir para um tempo em que havia uma presunção de que o eleitorado não está preparado para saber ler o que as sondagens dizem. Mas consigo compreender outra coisa, que é: então, se as sondagens podem potencialmente influenciar, o que é que podemos fazer para que isso se mitigue? Eu acho que se pode fazer isto que estamos aqui a fazer, que é tentar fazer perceber ao eleitorado o que é que é uma sondagem.

Há uma metáfora especialmente feliz. Podemos dizer: olha, o Sporting está a jogar com o Benfica, está no intervalo e está o Benfica a ganhar 3-1 ou o Sporting a ganhar 3-1, mas faltam 45 minutos. Nós estamos a dar uma fotografia do jogo. O facto de estar 3-1 não quer dizer que o resultado final seja ou o Sporting ou o Benfica ganharem forçosamente só porque estão à frente. Na segunda parte, se houver uma inversão, o Sporting ganha por 4-3 ou o Benfica ganha por 4-3. Então, se as pessoas perceberem o que é que isto significa, entendem melhor o que é uma fotografia num determinado momento.

As sondagens adquiriram um protagonismo nestas eleições que nem sempre têm, porque existe uma enorme indefinição

Os próprios candidatos dão demasiada importância às sondagens, isso pode estar a ser contraproducente?
Estão a dar. As sondagens adquiriram um protagonismo nestas eleições que nem sempre têm, porque existe uma enorme indefinição. Quando a indefinição é menor, ninguém olha. Por exemplo, nós estamos a olhar para variações decimais e toda a gente escuta, ah, subiu o desvio. Se fosse nas últimas eleições legislativas ou em 2024, ninguém queria saber de décimas de variações. O que as sondagens nos estão a dizer é que elas próprias, no seu poder preditivo, não sabem. Nunca mais isto se arruma. Os políticos procuram, naturalmente, dizer: não, as sondagens não estão a traduzir o que se passa no terreno ou as sondagens podem errar. Mas eu não descarto ninguém.

Esta campanha está também marcada pela "tracking poll" de uma das televisões e, portanto, estes resultados diários têm sido levados muito para o terreno. Tem uma metodologia diferente, ou pelo menos há ali variáveis diferentes. É uma vantagem para consolidar esta escolha do eleitorado, este acompanhamento diário?
A "tracking poll" é mais um instrumento para o eleitorado e para os políticos interpretarem quais são as tendências. Ponto final, parágrafo. Uma "tracking poll" são várias fotografias. Ao fazermos várias fotografias, ficamos com um fotograma que nos dá um filme.

O filme é este: as tendências. É só isto que ela procura apreciar. Não procura ter um exercício previsional. Não deve procurar fazê-lo. E sabemos hoje que uma parte do eleitorado toma uma decisão muito em cima do ato eleitoral.

Cada vez mais tarde?

Mais tarde. Sábado e, dependendo das eleições, até tomam uma decisão no local de voto. Podem perguntar: então qual é o interesse de publicar uma sondagem? A sondagem aprecia tendências, e essas tendências devem ser colocadas em perspectiva no comentário, quer por parte dos políticos, quer por parte de todos. Essa tendência confirmar-se-á ou não? Veremos no domingo.

As pessoas convivem bem com a maior quantidade de informação. Quanto mais sondagens houver, melhor. É importante perceber que utilidade e que valor relativo lhe devem ser dados. Essa, sim, deve ser a questão. Nestas eleições, há maior volatilidade, ou seja, há maior risco de vários serem eleitos e, portanto, em consequência disto, o que é que as pessoas fazem? Os próprios protagonistas, que são os candidatos, falam de sondagens. Não deviam.

Dependendo das eleições, até tomam uma decisão no local de voto

Olha-se muito ou demasiado para isso e não tanto para questões da vida do dia-a-dia, que deviam ser debatidas nas campanhas?
Vou fazer uma previsão, não numérica, mas de experiência, de leitura de sondagens e de interpretação do momento em que estamos. Nós tivemos debates, tivemos os candidatos todos a enunciarem os seus elementos de diferenciação doutrinários ou ideológicos. O Presidente da República não é um primeiro-ministro. Até meados da semana passada, questões de natureza política eram colocadas em cima da mesa.

A partir da [última] segunda-feira, uma parte do eleitorado começou a construir um processo novo. O momento da política já existiu e agora eu vou procurar elementos de identificação empática com a pessoa. Estamos neste momento a valorizar mais a empatia. Acho que é por serem presidenciais, e acho que é por ser este momento. Eu vou ter de escolher pela pessoa. A pessoa tem de me dizer alguma coisa. Porque ele é simpático, porque ele é isto, porque é aquilo.

Por serem presidenciais, acha que pesa mais esse tipo de características?
Acho, acho. E acho que o processo de decisão é "porquê?" e "porque não?". Acho que vão atrás da singularidade do que é que aquelas pessoas representam para eles. O que é que eu quero de um Presidente? Eu quero uma pessoa com quem gero algum tipo de relação empática. Eu não quero o candidato mais afetuoso. É aquele com quem eu gero uma empatia singular.

E acusações de assédio sexual como a que surgiu nesta reta final ajudam nesse filtro?

Não consigo, nesse caso específico, dizer qual é o impacto que tem. Pode ajudar a que as pessoas entendam que é um ataque e, em consequência, optar por votar no candidato porque acham que é injusta a acusação que ele sofre. Ou o contrário, haver um risco de desmobilização. Mas eu não dou por certo nem um nem outro.

O eleitorado não gosta da maledicência se for a maledicência pela maledicência. Agora, se houver uma suspeita, e há evidências no sentido dessa suspeita, naturalmente penaliza.

Houve um ataque muito forte de Gouveia Melo a Marques Mendes. Acha que isso pode ter prejudicado Gouveia Melo, por exemplo?
Acho. Acho que pode ter prejudicado Gouveia Melo, pode ter prejudicado Marques Mendes. O eleitorado português, embora goste de ver um "reality show", em política tem algumas reservas em relação aos ataques pessoais.

Isso não está a mudar?
Quando a acusação está associada a um ato que significa um aproveitamento de uma situação de vantagem no exercício de um cargo público, isto é, corrompeu, recebeu dinheiro ilícito, desviou dinheiro, as pessoas hoje, mais do que nunca, estão muito atentas e penalizam. Quando não é tanto neste território, já não é tão claro que as pessoas reajam sobre o assunto. O eleitorado português tem muito mais bom senso do que muitas pessoas possam pensar.

E uma das coisas a que normalmente reage mal é a maledicência regurgitada. Isto é, o eleitorado tem alguma dificuldade em perceber, por exemplo, porque é que estão a ir buscar um caso que tem 20 anos.

O eleitorado português, embora goste de ver um "reality show", em política tem algumas reservas em relação aos ataques pessoais

O Chega vai sendo alvo de vários casos relacionados diretamente com pessoas do partido, mas Ventura tem tido sondagens favoráveis.
Porque Ventura vale mais do que a votação do partido. É um partido muito construído à volta de André Ventura, está mais imune à possibilidade de um acontecimento com um líder partidário do Chega prejudicar a votação do Chega. Se alguma coisa fosse dita ou provada contra Ventura, então, aí sim, o projeto Chega acabaria.

E o que é que aconteceu com Gouveia e Melo? Há alguns meses, as sondagens davam-no com uma votação muito expressiva, coisa que não se tem verificado nos últimos estudos. O que é que explica isso?
Eu não me precipito a excluir ninguém. As sondagens começam a dar sinais de diminuição, mas o facto de estar a diminuir não significa que até domingo esta tendência se confirme. Há um ano, ele era o único candidato oficial ou algo parecido. O risco de a sua própria base diminuir era óbvio.

Pode-se analisar a performance dele nos debates, no posicionamento da campanha, por exemplo, no ataque a Marques Mendes. Há um Gouveia e Melo antes e depois do debate com Marques Mendes. E aqui tem a ver com os valores que Gouveia e Melo procurou passar. Primeiro, passou os valores de alguém muito próximo do chefe de Estado, com um sentido de cuidado no que dizia. Depois, inverteu a maneira como se posicionou.

Qual é a leitura que faz do facto de a sondagem do PÚBLICO/RTP/Antena 1, divulgada esta terça-feira, ter dado um resultado muito próximo daquele que é o da "tracking poll"?
Não me surpreendeu. Há uma sobreposição numérica aproximada. Num cenário a cinco, uma transferência de voto vale por dois. As pessoas, ao verem esta indefinição, têm maior propensão para poder dizer 'olha, eu há uma semana pensava em votar em "A" e agora estou a pensar em votar em "B". Isto tem um duplo efeito do ponto de vista contabilístico e matemático.

O facto de já haver a perspetiva e de muito se falar da possibilidade de uma segunda volta interfere ou não na forma de escolha desta primeira votação dos eleitores?
Já foi mais importante. Quando o grau de indefinição entre os candidatos é tão grande na primeira, o eleitorado não faz essas contas.

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