28 novembro 2016
DECLARAÇÃO (28 Novembro 2016)
Declaro por este meio que nasci há 7 horas atrás.
Nestas horas de vida, já aconteceu muita coisa,
nomeadamente muitas chamadas telefónicas, muitos emails, muitos posts facebook,
coisas que percebo agora são essenciais a sobrevivência da espécie. Lá fora
está um bonito sol de inverno que nos dá calor e alimenta animais e plantas. Assim
mesmo parece que há quem prefira viver na sombra. De outros, claro. Da janela
aprecio a vida, nas suas formas mais estimulantes. Efectivamente, “Adoro o campo, as arvores e as flores, jarros
e perpétuos amores”[1] e
já aprendi, como diz a canção, a moralizar. Conheço
outras canções, que me transportam para um mundo diferente, que entretanto devo
vir a conhecer também. Quero, por exemplo, “…The delight alone or in the rush of the streets, or along the fields
and hill-sides/The feeling of health, the full-noon trill, the song of me
rising from bed and meeting the sun.”[2]
Declaro ainda que já nasci outras vezes.
De umas vezes gostei, de outras talvez nem tanto. Existi
por aí, corri montes e vales a procura de coisas diferentes, algumas encontradas,
outras nem por isso, a busca continua, de vida em vida renovada, renascida.
Aprendi.
Em outras vidas percorri e corri e terras e
lugares que conservo na memória. E onde volto sempre que tenho tempo, que dizem
que é sempre curto. Ou breve. Em breves momentos percebi que outras gentes,
outras sensibilidades e outras vivências são demasiado importantes, para que as
esqueçamos. Fazem parte de nós, mexem connosco, arrepiam-nos às vezes. Aquecem-nos
no frio e confortam-nos a noite para não ficarmos sozinhos. Dão-nos o alento
que precisamos para continuar a nascer. Fazem parte dos nossos dias, falam connosco,
brigam também, riem e choram ao nosso lado, crescem connosco. Nascem de novo
também.
Declaro finalmente estar pronto a assumir todos os
compromissos que esta declaração acarreta, ou seja, nenhum.
Declaro que nasci para ser livre e selvagem, no
sentido poético do termo. Tal e qual, como na canção. Vim de uma terra
provavelmente assombrada e “…do ventre de minha mãe / não pretendo roubar
nada / nem fazer mal a ninguém”[3].
Não me comprometo pois em quaisquer actividades ou
iniciativas que possam de alguma forma colocar em perigo a minha frágil existência
(apenas 7 horas), bem como todas aquelas que me impeçam de ter em mim “…todos os sonhos do mundo”[4]. Bem
sei, ou penso que sei (é ainda cedo para saber) que tenho deveres sociais a
cumprir, mas quero saborear a ideia de não fazer nada que me perturbe ou me
prejudique. O meu primeiro dia vai ser assim.
Sei entretanto que vou estar com quem gosto de
estar e que gostam que eu esteja com eles. Mas sei também que gostaria de estar
hoje com muito mais Amigos, embora de facto esteja mesmo, porque nunca os
esquecerei.
Declaro, e com isto termino, afirmando que estou
cá.
Atenção, estou mesmo!
Alf.
[1] Extracto de “Efectivamente”, álbum “Psicopátria”, GNR, 1986
[2] Extracto de “Song of Myself”, Walt Whitman, 1892
[3] Extracto de “Fala
do Homem Nascido”, António Gedeão, 1958
[4] Extracto de “Tabacaria”, Álvaro de Campos 1928
21 novembro 2016
O conceito de “pobreza energética” foi introduzido pela investigadora britânica
Brenda Boardman, nos anos 90 do
século XX. Retrata a situação das famílias que possuem uma renda limitada, ou
mesmo nenhuma, para pagar as necessidades de energia doméstica. A pobreza
energética também é considerada quando as famílias não podem dispor de (pelo
menos) 10% do seu rendimento para custear a factura energética. O trabalho de investigação
de Brenda, que já foi directora do Lower
Carbon Futures e assessora da direcção do UK Energy Research Center, é dirigido para a redução da demanda de
energia em toda a economia do Reino Unido, em particular para o edificado. Em 2008,
existiam só na Inglaterra, 5 milhões de famílias em situação de pobreza energética.
Com a aproximação do Inverno, rigoroso em algumas zonas do nosso País de
que Trás-os-Montes é um bom exemplo, imaginamos pelo menos 30% da população
dessa região, passando muito frio e entregue a sua sorte, por não possuir as
condições mínimas para se aquecer. O caso particular da freguesia de Rio de Onor, em Bragança, retrata 75% dos habitantes em
pobreza energética. Os dados da OMS para Portugal, datados do ano 2008, já
revelavam uma taxa de 28% da população portuguesa em situação de pobreza
energética. Não esqueçamos que a situação de desemprego continuado, que afecta
muitas famílias, acarreta necessariamente incapacidade para pagar água e luz, uma
dramática tragédia social dos tempos que correm, onde as necessidades básicas
deveriam estar protegidas e devidamente salvaguardadas. Estamos na Europa, em
pleno século XXI.
Um estudo recente, integrado no projecto ClimAdaPT.Local – Estratégias
Municipais de Adaptação às Alterações Climáticas, uma parceria de 26 autarquias
portuguesas e da Agência Portuguesa do Ambiente, concluiu que, em média, 29% da
população não tem capacidade de aquecer as casas no Inverno nem arrefecê-las no
Verão.
Vale a pena lembrar um dos compromissos, a nível mundial, traduzido no Objectivo
número 1, dos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), “Erradicar a pobreza em todas as suas formas
e em todos os lugares”. A luta por este objectivo passa necessariamente
pela consideração da pobreza energética, como uma das facetas preocupantes da
pobreza em geral.
Fernando Alves, na sua crónica (Sinais) de hoje na TSF, fala da pobreza
energética como um epidemia, que atinge hoje em Espanha, aqui tão perto, 5 milhões
de pessoas, a propósito da morte de uma ansiã de 81 anos de Reus, por incêndio provocado
pelas velas que usava em sua casa, após o corte de energia por falta de
pagamento. “Velando a noite antiga”
chamou ele a sua crónica, onde diz que “velar
é permanecer aceso”…
14 novembro 2016
Existem muitos trumps por aí. Escondidos
quiçá num discurso pacífico alguns. Outros, porventura mais ousados, envoltos
numa capa de nacionalismo radical. Muitos, são hoje, os lídimos representantes
de uma direita passadista, que encontraram um lugar nas chamadas “democracias
ocidentais” e que representam a franja lúmpen de uma pequena e média burguesias
desencantadas com o “progresso” do capitalismo agonizante.
O discurso oficial é porém hoje
muito mais poderoso. O discurso da subjugação ao poder da finança é amparado e
confortado por uma elite da comunicação social, entretanto agrilhoada pelo
poder férreo de empresas privadas que foram crescendo à medida que se
desenvolvia uma teia de interesses confessados. Se tal não bastasse, a circunstância
de uma pérfida manipulação de consciências, levada sistematicamente a peito
durante aproximadamente as duas últimas décadas, acabou por traçar o cenário
ideal para o esvaziamento completo do esquema formal de funcionamento dessas “democracias”.
Vale tudo para esses agentes infiltrados do capital. Redacções completamente
acéfalas produzem diariamente em programas de rádio e de televisão a mais
rasteira informação, eivada de pequenos factos, subjugada ao poder do futebol,
interessada na pequena intriga e , muitas vezes, na mais despudorada mentira. Que
alimentam nos cidadãos, no mínimo, a convicção da inevitabilidade, a mais
poderosa das armas que invoca, subtil ou expressamente, a indiferença.
Os dados estariam potencialmente
lançados para colocar no poder uma besta. Não difere em nada de um Pinochet, ou
de um Obiang, ou até de um Erdogan que, de forma subtil, caminha a passos
largos para uma ditadura feroz, a pretexto da luta contra o terrorismo. Aparenta
semelhanças com todos os representantes da extrema-direita, na França e no
Reino Unido. Significativamente ou não, o seu primeiro gesto político foi precisamente
com estes últimos. E continuará decerto com todas e todos aqueles que, em
qualquer parte do mundo, se dedicam à “doce tarefa” do extermínio de todas as
resistências. Acaso será inocente o apoio desse grupo abjecto que dá pelo nome
de Ku Klux Klan e a festa que fizeram após a “eleição”?
A ilusão aparente de que seria
um anti-sistema apenas cai nas consciências vazias da ignorância a que foram
reduzidas algumas franjas do eleitorado do seu País. A fantochada, idiota de
tão evidente, que significa uma eleição nos EUA, produziu o resto. Está para se
saber se o pretenso falhanço de todas as sondagens não foi senão mais uma das
encenações em que o sistema é pródigo. O anti-sistema é então uma máscara, um
embuste completo, que apenas representa a tábua de salvação possível para uma “causa”
que parecia perdida. O personagem não passa de um testa de ferro do sistema
mais corrupto e indigno, que é no fundo o sistema financeiro, que gera crises
em seu próprio proveito, semeando crimes impunes e desigualdades permanentes.
23 outubro 2016
“Sou da geração sem remuneração
E nem me incomoda esta condição.
Que parva que eu sou!...”
E nem me incomoda esta condição.
Que parva que eu sou!...”
“Parva Que Eu Sou”, Pedro Silva
Martins, Porto 2011
Assim se define, assim se apresenta.
Ele faz parte do mobiliário urbano, das cidades onde passeia a sua existência
efémera. Tratado e preparado nos laboratórios da pretensa inovação, polvilhado de
lugares-comuns, etiquetado à maneira, preso por fios ténues de uma esperança
que raramente encontra. Receita normalmente a doxa, ilustrando termos e frases, fora do contexto, que captou e interiorizou,
em sessões contínuas de powerpointes com cores berrantes e setas e setinhas
para baixo, para cima e para o lado e estrelinhas a pulsar. Os mentores falam,
exultando as virtudes do empreendedorismo, como tábua miraculosa de salvação universal,
nesta sociedade em que se perderam os valores e já não faz sentido (para elas e para eles) distinguir
direitas e esquerdas, patrões e trabalhadores, ricos e pobres, a classe média é
tudo o que resta. Viver na mediocridade, para um sucesso prometido, mas tão
distante como a Terra da Lua.
O idiota funcional é culpado de tudo, incluindo o de não ter lugar onde,
de não ter emprego, e claro, de sempre se confinar a sua zona de conforto, seja
lá o que isso for. Culpado, sujeita-se ao rigor invernoso da conformidade e à
canícula sufocante da prevalência.
Millor Fernandes disse um dia que “quando
um técnico vai tratar com imbecis, deve levar um imbecil como técnico”,
ironia suprema que poderia ilustrar os montes de sessões de preparação para “jovens
empreendedores”, onde a insignificância é directamente proporcional à dose de imbecilidade
do discurso da classe dominante e da camarilha de actores que constantemente manipula
e oprime.
Os perdedores deste mundo são todos, com raríssimas excepções,
empreendedores. Que são paridos para implementar, um termo tão idiota, mas
sempre e sempre declaradamente funcional. Do outro lado emergem “empreendedores de palco que vendem palestras
e enchem salas de congressos, com um discurso que está normalmente mais próximo
do de um pastor evangélico do que de um professor de economia” [Soeiro, 2016].
Se ao menos de autonomia das pessoas se tratasse. Bem pelo contrário, a
teoria da subjugação e da impotência contra o sistema, floresce num pretenso imaginário
económico e social, criando o idiota funcional, um triste retrato que pretendem
pintar os seus perigosos ideólogos.
As papas e os bolos que enganam os tolos, do saber popular, terão neste
particular a lição máxima que a vida acaba por ensinar.
Ouve a canção, fica atento e (se puderes) muda de figura!
14 outubro 2016
“Hey, Mr. Tambourine Man, play a song for me”
Longe vão os tempos da revolução cantada, tocada e
brandida pela animosidade de uma burguesia acomodada, mas firme no seu posto. As
guerras do Vietname e da Coreia traziam os vozes, no vento, do protesto e da
insubmissão.
Dylan foi, provavelmente sempre, um insubmisso. A sua voz
foi mudando ao longo de um tempo que mudava também. Mas como se sabe, mudam-se
os tempos, mudam-se as vontades, assim como a vontade de mudança parece mudar
também. Dizia ele que os tempos estão a mudar, antecipando quiçá a adaptação
que o tradicionalismo burguês ia fazendo a novas formas de conhecimento e de
discurso formal.
Agora Dylan é Nobel de uma literatura, que vai conhecendo
novos e improváveis intérpretes. Se soubesse cantar, Dario Fo, que recentemente
nos deixou, talvez conseguisse melhor “questionar
a autoridade e o apoio à dignidade dos caídos”.Ou que a voz sempre surda
dos oprimidos fizesse chegar à Academia Sueca mais e melhores intérpretes da
Revolução inacabada, mas sempre e cada vez mais, Permanente. Se pudera falar
dela sem lhe dizer o nome, diria o grande Mustaki.
Misturaram-se em Dylan todas as contradições sociais. Todos
cantávamos nos anos loucos, algumas das suas canções, sabíamos as letras de cor
e salteado, ao som dos acordes da viola que nos acompanhava para todo o lado, “Knock, knock, knockin' on heaven's door”,
as portas de um céu em que não acreditávamos e que a outros parecia então
sorrir.
Sentados agora as portas de um outro céu em que todas as
respostas estão soprando no vento, sentimos que se calhar também fomos
laureados. Tenho para mim, lembrando o “Em Órbita”, que passava as 7 da tarde
no antigo Rádio Clube Português, no final dos anos 70 e onde Dylan passava à
margem das classificações para os melhores do ano, que a nomeação vem
precisamente desses anos.
Para o Poeta vai a glória. Para nós, a secreta lembrança,
a cumplicidade assumida.
08 outubro 2016
PIRELIÓFERO
Nome pouco comum, que evoca o “pir” de fogo e o “hélios” de sol e liga “forus” que conduz. A máquina que conduz o fogo do sol.
Em quatro fantásticos dias, dos Arcos de Valdevez a Sorède, atravessando a
Espanha, calcorreando a Catalunha e os Pirenéus Orientais, tanta gente boa que
conhecemos ou simplesmente reencontramos. Fizemos a homenagem ao Homem que
desde finais do século IXX até aos anos trinta do século XX, de Portugal a
França aos Estados Unidos da América, haveria de levantar bem alto a bandeira
do Conhecimento. E ainda, as bandeiras do Desenvolvimento e da
Sustentabilidade, da Ecologia, da Ecosofia, enfim da Ciência, da Técnica e da
Tecnologia no espírito do Humanismo.
O dia 29 de Setembro 2016 ficará marcado pela inauguração do Pireliófero.
As intervenções desse dia haveriam de lembrar como foi possível chegar até aqui
e ter diante de todos, não só a máquina, mas também aquelas e aqueles que
contribuíram para que tal fosse agora possível.
Jacinto Rodrigues, o académico português que há muitos anos vem pesquisando
e divulgando a obra do Padre Himalaya, brilhou em Sorède, como só ele sabe,
historiando e contando estórias. Filosofando sobre a sustentabilidade, rebuscando
a vida do MAG Himalaya, trazendo para o sol do dia, o sol da energia aplicada
mesmo ali na sua frente.
Estivemos em Sorède em homenagem ao Homem, ao cientista e a sua obra. Uma
réplica da máquina, que haveríamos de apreciar, na sua imponência majestática e
na sua tremenda presença. Todos os que estiveram na manhã de 29 de Setembro
puderam testemunhar a figura incontornável daquele que bem poderia figurar como
o Leonardo Da Vinci português, dada a sua capacidade de antecipar questões
ligadas ao Desenvolvimento, nas mais variadas esferas do conhecimento, da
química à electricidade, da mecânica à termodinâmica. Mas ainda, da
arquitectura dos territórios à hidrografia, das questões económicas e sociais.
O denominador comum de todas as intervenções centrou-se no paradigma "Usando o passado para construir o futuro, " tendo por base as energias renováveis e
naturalmente, o forno, como precursor para o meio ambiente e desenvolvimento
sustentável, a natureza, elemento do nosso planeta.
No dia seguinte, subimos a 750 metros de altitude para ver o local onde o
Padre Himalaya construiu o primeiro forno solar. Caminho de pedras, caminho de cabras,
sempre a subir, tal como o encanto e a emoção. Imagino o Manuel Gomes a subir,
quiçá com um burro carregado de espelhos e outras peças de maquinaria. Tudo
para conseguir captar ou capturar um sol que nunca o abandonaria e que ele
“perseguia” com o intuito de poder desvendar a sua enorme força energética,
ainda para mais ao alcance de todos, de uma forma sustentável. Pedras e mato,
no caminho da energia, esta a espreitar por entre a imensa floresta, escondida
no mais recôndito sítio. Ela que se oferece a quem a quiser entender, a quem a
quiser aqui buscar. E usar, a bom proveito para os fins que se entender.
A natureza a funcionar, sim. Sobes e sentes oxigénio a mais, num ar mais
difícil de respirar, as pernas a tremer. Lá em cima o sítio exacto, onde no ano
longínquo de 1900, o Padre Himalaya haveria de construir a primeira máquina que
conduz o fogo do sol.
Vale sempre a pena lembrar a Obra e o Homem. O evento de Sorède foi um
exemplo vivo da Ciência, Técnica, Tecnologia e Humanismo. Face ao já previsto esgotamento
dos bens naturais e das energias convencionais ou fósseis e ainda a destruição
alargada da biodiversidade, é imperioso abordar todas as questões ligadas ao
Desenvolvimento. Sob os seus mais variados ângulos como a que reporta à
contaminação tóxica e à poluição global do ar, da água, da terra e dos
organismos vivos. Um desenvolvimento sustentável, ecologicamente sustentável,
social, ambiental e politicamente empenhado, na construção de um novo modelo
global para erradicar a pobreza, na promoção da prosperidade e o bem-estar de
todos, na protecção do ambiente e no combate às alterações climáticas, seguindo
assim o compromisso da cimeira das Nações Unidas de Setembro de 2015.
Aquilo que possamos fazer pela Natureza e pelo Homem, nela enquadrado e
cúmplice directo da sua sustentabilidade, decerto determinará o futuro do
planeta.
Padre Himalaya!
03 outubro 2016
Na entrevista ao Jornal Público de hoje (3 Outubro) ao PM do Governo de
Portugal, existem várias “armadilhas” montadas pelo jornalista de serviço. Nada
que seja incomum. Apenas para registar a enorme manipulação de grande parte da
comunicação social e particularmente deste periódico.
A primeira questão e a forma como é colocada são assaz paradigmáticas. O jornalista
David Diniz (DD) afirma “…sem dinheiro e
com Bruxelas a condicionar a política orçamental”. O chavão “não há dinheiro” é um (apenas um) dos
pontos de convergência entre os chamados “jornalistas económicos” e a Direita
radical. Trata-se de uma invenção que enforma a propaganda mediática para assustar
a população menos avisada, que constitui, a acreditar nas sondagens, a massa
votante nos partidos do centro partidário. Tal propaganda acaba mesmo por
funcionar, fundamentalmente por duas ordens de razões, sendo a primeira o
simples facto de que a forma como é exposto ser de tal forma redundante a
positiva que parece mesmo verdadeira. A segunda razão é do foro psicológico e
funciona exactamente da mesma maneira que a asserção passista[1] “vivemos acima das nossas possibilidades”,
punitiva e castradora de consciências. De tal forma são as pessoas massacradas
com este tipo de publicidade enganosa, que acabam por a interiorizar.
A organização da entrevista obedece a um formato ardiloso. Começa por perguntas
e respostas a ocupar o lado esquerdo, páginas 2, 4 e 6. E no lado direito,
páginas 3 e 5 são apresentados textos onde são inseridas afirmações do PM, mas
onde não existe contextualização a não ser a “verdade” discursiva do autor da
peça. Um evidente exemplo é a forma como a questão das pensões é abordada. Na página
3 é elaborada uma pretensa posição do Partido Socialista, ou neste caso
particular do António Costa (AC), que o Jornal tenta “opor” às posições concernentes
do PCP e do BE. Todo o texto, a 3 colunas, é uma montagem abstrusa, com uma única
finalidade (sempre a mesma) de tentar mostrar à opinião pública eventuais discrepâncias,
neste caso concreto chamam-lhe “dissabores”, entre os partidos da Coligação.
Na página 5, a mesma situação, agora acerca do famigerado “índice de crescimento” da economia. Este
é aliás um tema (mais um) recorrente e que integra um discurso catastrofista,
afinal o “cântico” da Direita. Uma vez mais. O título “Economia deverá crescer pouco acima de 1% este ano” é da autoria de
DD. É o que se lê quando se olha a página 5. O restante, o que diz o PM, acaba
por não-se-ler, no sentido do condicionamento do que o artigo “obriga” a ler. O
exemplo do que pensa AC e toda a Coligação está de facto lá, “o que vai permitir às nossas empresas serem
mais competitivas é terem pessoal mais qualificado”. Tal é porém ofuscado
pelo citado título.
Na página 6 há uma questão que, da forma como é colocada, não passa de uma
vulgar provocação. Ao PM e ao país inteiro. Vejamos, relativamente a uma
putativa posição de P. Passos Coelho (PPC), “…tem medo que as contas não batam certo no fim de 2016 e que ele tenha
razão?”. E, no final da resposta de AC, DD ataca “…não vale a pena repetir”, soberba arrogância. Mesmo ao lado, a
montagem do Jornal coloca uma foto de PPC. E a investida de DD continua, depois
de AC explicar o seu ponto de vista sobre a forma como tem sido construída uma
imagem negativa do País, o jornalista volta á carga, “…a verdade é que a economia não está propriamente em aceleração, o
investimento…” . O restante conteúdo da página 6 é, segundo a “cartilha
Gomes Ferreira[2]”,
não propriamente uma entrevista, mas sim a afirmação constante da “verdade”,
segundo DD, ao bom estilo do outro (o da cartilha). O que parece (…) é que a DD
não interessa propriamente ouvir o que pensa o PM, mas sim afirmar a sua
posição própria, punitiva e passista de toda a Direita. Brilhante.
A contribuição do Jornal Público para o esclarecimento da população é
rematada, de forma redundante, com a publicação de “cinco gráficos para perceber como está a economia ao fim de um ano”,
sem qualquer referência a uma fonte. A “verdade” está sempre nos gráficos,
interpretados aliás de forma grosseira. A posição do Governo aparece sempre
como contraponto, desmontada pelo autor Sérgio Aníbal, presumível autor dos
gráficos (?) que encimam a página 8: “1,1%
para o crescimento de 2016 e 2,8% para o défice público durante a primeira
metade de 2016”.
O Jornal Público nem se dá ao trabalho de disfarçar a sua simpatia (e
apreço?) a PPC, ao dar-lhe mais de metade da página 10 (Política), uma bela
foto “institucional” a entrar para uma viatura que se presume “oficial” e ainda
as habituais afirmações rascas que o caracterizam, menção especial para a “acusação ao Governo e dos partidos que o
apoiam de quererem construir uma sociedade mais pobre e mais injusta”. É mesmo
preciso muita lata…
Como bem disse António Barreto, “Quase
não há comentadores isentos, ou especialistas competentes, mas há partidários
fixos e políticos no activo, autarcas, deputados, o que for, incluindo
políticos na reserva, políticos na espera e candidatos a qualquer coisa!”[3].
E assim se faz Portugal. Ou o querem fazer…
[1] Passista, de Passos e C&a
[2] Do autor José Gomes Ferreira, jornalista de “análises económicas” da SIC, licenciado em Comunicação
Social pelo ISCSP da Universidade Técnica de Lisboa, onde se “notabilizou”
como um aluno mediano a Matemática e com dificuldade em perceber equações
(informação Wikipedia)
[3] In “As notícias na televisão”, artigo de opinião, DN, 25 Setembro
2016
29 agosto 2016
FORA DE SERVIÇO
Ouço a rádio
Não vejo televisão.
Passa por mim qualquer coisa como uma sombra de um tempo passado. Entre festivais
de verão e fogos florestais, existe uma secreta tradição de passadismo,
misturada com uma dose extra de estupidez de verão. Desculpável, pois claro.
Que dizer de tanta verborreia, do Brasil à Europa, que caiba em linhas
singelas, para entreter incautos cidadãos e cidadãs, enlevados entre um banho
de mar e uma toalha estendida ao vento? Fiquem onde estão, nem precisam sequer
fazer um pequeno esforço de se levantarem, alguém vela por todos vós, a
segurança social está firme no seu posto, não resta uma sombra por ocupar, vá
lá, afirma-se que lá mais para Setembro rebenta tudo com a proposta de
orçamento. Sentença, mais uma, de painelistas profícuos, que antevêem (outra
vez) num qualquer Pontal a esperança ultima da nação, ao mesmo tempo que
relatam “Mata mulher com caçadeira e
suicida-se”.
Passa a vida estival em burkini e
se calhar apanhas uma multa, poderia ser uma das frases da actualidade, que retiradas
do contexto, produzem o mesmo efeito que fora dele. Ainda bem que há Algarve,
todos por lá passam e também eu, embora possamos encontrar em uns e outros
razões diversas. Mas nada disso interessa, estamos (estivemos) enlevados nos olímpicos
jogos, esperamos tudo de atletas distintos, fizemos o choradinho do costume e aterramos
na Liga NOS, que se perdeu o Campeonato Nacional de tempos idos, que é o que
conta, por mais promessas e juras que façamos sobre a importância dos outros “esportes”.
Em tempo de férias, uma inevitabilidade constante, penso sempre nas palavras
do sábio Zaratustra, que “Fora de Serviço”, dizia “Agora, porém, estou fora de serviço; encontro-me sem amo, e, apesar
disso, não sou livre; por isso só me comprazo nas minhas recordações” (a)
A vida flui como dantes, será “… sempre
a perder” como diz a canção (b)?
---
---
(a)
In “Assim Falava Zaratustra”, pág. 403, F. Nietzsche ( 1883/85)
(b)
Referência a letra de “Homem
do Leme” dos Xutos & Pontapés
04 julho 2016
EMPATE ANTES DO FINAL…
Estranha sorte de
empata. Imensa sabedoria porém do Homem que ganha com os empates. Porque há
quem empate para empatar mesmo, num aborrecido registo que nos maça, por não
produzir outro resultado que não seja o incomensurável tédio que arrasta para a
linha de fundo. Engenheiros que somos, da obra e da palavra, tentamos entender
o mundo como uma sucessão contínua de acontecimentos aleatórios, com os quais convivemos
e muitas vezes nos debatemos em polémicas redutoras. Alguns de nós serão,
aquilo de Marcel Duchamp chamava “Engenheiros
do Tempo Perdido”, uma alusão simples e quiçá profética à construção
patética de cenários aburguesados e conservadores. Quando acordamos para a
realidade apenas vemos sombras, empatados que andamos por quem nos quer
progressivamente amarados a uma visão unívoca e pindérica, oriunda de mentes
menores, embora terrivelmente eficazes nos seus propósitos e objectivos de
dominar e pisar consciências e direitos.
A terrível eficácia
do engenheiro, aprendida em livros e sebentas é progressivamente pincelada pela
vida, nas suas múltiplas e talvez inesperadas facetas. Moldado em termos
humanos, o engenheiro quer demonstrar que a sua obra só faz sentido se for útil
à comunidade. A sorte que o tempo lhe confere é apenas entre a ideia e a obra. Entre
o pensamento e a acção. Usando a eficiência conceptual e a eficácia certeira.
Se o engenheiro conseguir
ser, segundo o universo pessoano, um “recortador
de paradoxos”, irá aproximar-se do intelectual na sua plenitude, ousando
então compreender que a forma de realizar poderá ultrapassar a própria realização.
Aí, mesmo que o empate subsista e que alguém tente sabotar a obra e/ou o seu
percurso, virá o decisivo momento do penalti, que retira a dúvida e estabelece
o resultado. A utilidade prática do engenheiro nunca se esgota contudo na obra,
disseminada que seja a ideia, no sentido do progresso social, da igualdade e da
Liberdade.
Na senda da busca
pelo saber, poderemos atentar no engenheiro Álvaro de Campos. “Toda coisa que vemos, devemos vê-la sempre
pela primeira vez, porque realmente é a primeira vez que a vemos…É pena a gente
não ter exactamente os olhos para saber isso, porque então eramos todos felizes”[1]
A felicidade é agora
e mais que nunca um direito a reclamar. Solnado diria, bem a propósito “façam favor de ser felizes”. Seguimos-lhe
as pisadas, rumo ao golo, mesmo que seja com a mão, roendo bem a canela do
adversário. Há que mereça bem mais do que isso…
20 junho 2016
A DIMENSÃO
"A desvalorização do mundo humano
cresce na razão directa da
valorização
do mundo das coisas"
Karl Marx
A estátua e o homem. O exagero não estará
porventura na dimensão do órgão, mas poderá residir no facto em si, atribuindo
uma messiânica função a quem não tem, lá está, a dimensão suficiente. Pondo de
lado o órgão, claro. O que se vê em campo, pela tal selecção a quem alguns
querem atribuir a dimensão nacional e uma representatividade que ultrapassaria
a nação e se projectaria na tal globalidade europeia ou mesmo mundial, não fora
a traição dos resultados, pese sempre a postura em campo, que se diz digna,
superior e de bom recorte técnico. Brinca-se hoje com o poste, fosse ele a
origem de todo o mal, a angústia do penalti aqui em toda a sua (imaginem!) dimensão.
Aquele que era, pelos vistos, um desígnio, legitimamente configurado para a
vitória total, voa agora baixinho rasteiro, ao nível do gramado, que de tão sintético
se torna verdadeiro. O homem que se diz o melhor do mundo e possivelmente arredores,
é realmente soberbo na linguagem gestual que ostenta a cada jogada, a cada
paragem de jogo, para as câmaras, para a ribalta que o lançou como um produto
acabado do consumismo e da mais patética e promíscua socialite, uma dimensão
que nos ultrapassa e terá quiçá compreensão ao nível do etéreo, nunca lá
chegaremos, nem a tal aspiramos, de simples mortais que somos, sem direito a
estátua, nem a tamanha dimensão. Se acreditarmos no jargão popular, esse sim ao
nível do comum dos mortais, “quanto mais
se sobe, maior é a queda”, decerto que já não queremos subir a tal
dimensão, donde excluímos naturalmente o órgão, sobretudo aqueles que o podem
ter.
Por alguma razão ao ouvir hoje a estação de rádio
TSF conceder 25 minutos a uma conferência de imprensa de um jogador, a quem
colocaram as questões mais parvas e contudo profundas, retorquindo o dito
(jogador) com o mais redondo discurso, embora revelador, senti o verdadeiro
significado da dimensão. E ainda, o verdadeiro sentido da essência, numa angélica
busca interior da maior dimensão. Conclui, imaginem, que basta marcar um golo
ao adversário e não sofrer nenhum, para seguir em frente.
Seja lá para onde for…
15 maio 2016
TOURADA
“Afirma com
energia o disparate que quiseres e acabarás por encontrar quem acredite em ti”
Virgílio Ferreira
Eu
sabia.
Haveria de estar em frente da TV precisamente um quarto para o meio-dia.
Daria para gravar, mas ao vivo era outra coisa. E sabia que, do outro lado do
mundo, haveria uns não sei quantos milhões a ver a coisa que dava por cá, um prodígio
de valor porque, como um dos intérpretes viria a dizer, o nosso produto é bom. Já
há uns dias atrás, um idiota mascarado de economista trocaria uns quantos papéis
com números manipulados, para mostrar ao povo que o apocalipse se aproximava
perigosamente e era preciso fazer qualquer coisa para subtrair o poder a quem o
tinha usurpado, na gloriosa pátria bem-amada. Onde o produto, não nos
esqueçamos, é bom, dando portanto para exportar, enriquecendo assim a suposta e
inerente taxa que faz a riqueza do país aumentar. Não interesse para quem, isso
é outra história.
Havia
de tudo na messe, era só apostar e aparecia sempre um tipo de calções com a
bandeja das oferendas que um catroga qualquer (dava por esse nome) coleccionava
aos milhões e passava para o outro lado do mundo, numa orquestrada sinfonia
espaventosa. Embora em tempos idos, o tal tipo pregasse a pobreza como onírica ventura.
Não havia pois qualquer dúvida, era o acontecimento do século, no rescaldo do
13 de Maio, de boa memória para a populaça, um bom negócio afinal para juntar
umas coroas, em velas, passeatas e afins. A pátria vendida a preço de saldo,
mas com aquela garra lusitana que orgulhava sempre o pequenote rapazola que
andava sempre (havia-lhe ganho o gosto durante 4 anos) com um emblema na lapela
e chutava sempre para canto, quando se falava em inaugurações.
O
país rendido aos pés da estupidez, marchava direitinho para a terra santa, enquanto
uns quantos empunhavam estranhas bandeiras, umas com uma seta para cima e
outras com um alvo e duas setas apontadas para ele, em que só acertavam de cada
vez que falhavam. Que me lembre, havia uma senhora de crista, que gritava bem
alto o peixe que vendia, bem fedorento diga-se entretanto, de podre que devia
estar.
Era
para ser festa uma dia depois, quando a maralha descesse a rua e irrompesse na
praça, onde um marquês ostenta uma bandeia encarnada. Mas tão não era novidade,
de há 3 anos a esta parte, nada de anormal, muito embora a saudável estranheza
de muitas bandeiras vermelhas na rua, assuste sempre aqueles (e aquelas) que
preferem a cova da iria à cova da moura, vá lá saber-se porquê, mistérios insondáveis
quiçá.
Havia
ainda uma estória mal contada e que envolvia o tipo que andava a tirar o tapete
aos colégios, uma trama imensa, um golpe insidioso contra a “liberdade de escolha”, que para os
detractores não era mais que a obrigação que a maioria terá em lhes amparar e
confortar o luxo a que divinamente têm direito.
No
meio de tanta confusão ficamos sem saber quem ganhou o jogo, embora a esperança
fique de pé, para mais logo a invasão ser uma vaga de fundo. Sabemos que, hoje
como antes, “toureamos ombro a ombro as
feras”[1].
E que na tourada da vida acabaremos sempre por ter que “pegar o mundo/pelos
cornos da desgraça/e fazermos da tristeza/graça”[2].
Quanto
ao resto, que nos valha são marcelo, senhor de Belém e de todos os afectos. Amém.
25 abril 2016
OS FILHOS DE
ABRIL
“O
homem não teria alcançado o possível se,
repetidas
vezes, não tivesse tentado o impossível.”
Max Weber
Ei-los que chegam
de todo o lado às ruas, praças e avenidas a louvar a Festa, que em tempos foi bonita
pá, sim senhor e agora, muitos anos depois, tanta água do rio que passou e que
percebe não volta a passar, para o bem e para o mal da esperança que sempre nos
conforta.
Eles
são os filhos da Revolução, a quem passamos um património pleno de convulsões e
contradições. São agora maiores, vacinados pelos tempos amargos dos dias de
chumbo que ainda nos assolam, pela sua tremenda marca.
São
altivos e sabem porque a árvore não deu frutos, pelo menos os suficientes para
alimentar a luta que deve ser permanente, como a Revolução, que assim nos
ensinaram. E se contestamos quase tudo, tal não contestaremos, porque faz parte
da nossa cultura.
A
rua nos obriga a vir gritar a Liberdade. Desceremos a Avenida proclamando o
reinado das pessoas dignas e lembrando os tempos “…dos passeios que demos/Pela cidade? Dos dias que passámos/Nos
braços da cidade?/Coleccionámos gente, rostos simples, frases/De
nenhum valor para além do mistério”[1]
Os
filhos de Abril sabem que devem continuar a tarefa suprema de interpretar a
Democracia na sua plena asserção. Que lhes compete lutar quando as forças nos
começarem a trair. Agora, no tempo em que estamos lado a lado, queremos sempre
saber se basta “…agitar a malta”, ou
se o que faz falta mesmo “…é dar poder à
malta”[2].
Acreditamos que sim, que a nova esperança que reina em Portugal seja a
afirmação de poder mudar, de poder inovar, de poder construir.
Sabendo
que a “liberdade está a passar por aqui”,
embarquemos na Maré Alta[3]
de Abril, gerações juntas na mesma empresa, rio de esperança, flor sem tempo,
terra da fraternidade!
25
DE ABRIL, SEMPRE!
[1] Extracto de “Surrealismo/Abjeccionismo”, Alexandre O´Neill, 1963
[2] Referência a canção
do Zeca
[3]
Extracto da canção, Sérgio Godinho, 1971
17 abril 2016
O ABRIL DA NOSSA MEMÓRIA
Da memória colectiva se escreve um país, se constrói uma
identidade, se afirma uma vontade imensa de Liberdade. Crescemos de certa forma
com Abril, no ano 74 do já passado século, que contudo é a nossa referência de
conceitos, princípios e determinação pela mudança. Fizemo-nos adultos,
formamo-nos cidadãos, afirmando valores de contestação de uma sociedade podre,
castradora e ruim. E, convém não esquecer, repressiva e asfixiante, na vertente
fascista nacional protagonizada por lacaios de uma ideologia nefasta da
crueldade e da miséria. Passamos por tudo isso, privamos com todos os que
sempre acreditaram. E “Foi então que
Abril abriu/as portas da claridade/e a nossa gente invadiu/a sua própria cidade”[1].
O exemplo de uma tribo que emergiu quando necessário, tornando dia a longa
noite, acordando para a dignidade.
Passaram tantos anos, tantas desilusões, tanta água que, ao
invés de limpar a sujidade e a miséria, parecia alimentar a fonte da iníqua
injustiça. Nunca se deixou de lutar, é verdade, mas parecia sempre uma luta
desigual, uma frente que avançava num ritmo tão lento que exasperava. Alguém
teria dito “Temos fantasmas tão
educados/que adormecemos no seu ombro…”[2]
. Eles que porventura nos tolhiam o espírito e nos toldavam a memória? E nos
dificultavam o raciocínio lógico que permitiria vislumbrar mais longe do que a
varanda do sótão? Se pudéssemos enterrá-los, explodiriam as consciências e
libertaríamos a tribo de Abril para a sua verdadeira vocação, rejeitar os
dogmas e afrontar o poder, restaurando a dignidade perdida, promovendo a
esperança.
Escrevemos hoje 17 de Abril, porque não podemos esquecer o mesmo
dia do ano 1969. Em Coimbra, lançaríamos nesse dia um firme e violento golpe no
regime fascista, que iria continuar nos meses seguintes com acções de luta, na
academia e junto das populações. E levaríamos a Lisboa a 22 de Junho, na final
da taça de Portugal uma das manifestações que mais abalou o regime e que
levaria a substituição do ministro Saraiva, um dos pilares do fascismo
marcelista.
A circunstância de a Esquerda ser agora maioritária no
Parlamento e apoiar um Governo que reverte os malefícios de 4 anos de chumbo e
de mais de 30 de compromisso, em nada afecta o apelo irresistível da rua para
ocupar um espaço de luta permanente, a 25 de Abril e no 1º de Maio. Assim pugnaremos
sempre por uma sociedade que aposte nas pessoas e não nos malfadados mercados,
fonte de desigualdade, exploração e corrupção.
Na imensa vaga passadista que atravessa a Europa, o poeta no
Governo, poderá ser a afirmação da benignidade da política, levando a
imaginação ao poder, ou pelo menos a Cultura a um lugar que perdeu durante anos
a dignidade a que tem direito.
Abril abre portas na nossa memória…
[2]
Extracto de
“Queixa das Almas Jovens Censuradas”, Natália Correia, 1957