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11 janeiro 2026

PENSAR (e falar) O MAIS CLARO POSSÍVEL


Se é possível neste tempo fazê-lo, na plasticidade implacável de uma era em que abundam burocratas cinzentos, zelotes disfarçados e contabilistas do vazio, enfrentemos a dura tarefa.

Se for um apelo, ao menos que o seja ao nível da proximidade histórica, uma circunstância hoje preguiçosamente abandonada em favor da encenação pífia e do espectáculo de fraca qualidade. Ouvir e ver, na campanha, expressões de um extremo ridículo, ou de uma tremenda falta de qualidade, choca a inteligência e agride a consciência. O pior é que passa e habitua. De tal forma, o uso crónico dos martelados, “servir o país”, “o meu partido é Portugal”, “é preciso pôr os interesses do país à frente...”, tão simplórios quanto enganadores, colocam os “autores” numa posição frívola e envilecida. Dirão, nada mais têm para dizer, apenas a verborreia habitual das campanhas e que possivelmente lhes dará mais algum voto. Será mesmo?

Sem querer adiantar num hipotético paralelo entre as candidaturas da Esquerda, sempre assinalo que algumas se poderão ter perdido entre a manifestação e afirmação de um desejo pessoal e a vontade abonatória sobre um vago projecto de uma sina antiga. Se bem lhes ficou, mal algum lhes irá provocar, uma vez que o seu lugar, longe da luta de classes, ficará para a história como a imagem da adequação e do ajustamento. Da Direita não me compete qualquer cometimento. Uso e feitio assentam-lhe na perfeição e na profícua acção de contrair cada vez mais o espaço público, causticar e castigar o mundo do trabalho, uma tipologia especial de crime e o castigo do capitalismo predador. Chega a ser patético, se não fosse trágico, o discurso das “reformas estruturais”, hoje já sem o pacote rendilhado com que outrora era apresentado.

 

Tudo o que poderia ser a afirmação de classe, de defesa incondicional dos trabalhadores, aparece ofuscado numa linguagem difusa e, muitas vezes, difícil de entender, quer quando se afirma, quer no momento em que se nega. Creio ser evidente, para quem se afirma do lado da Luta, que deve ser perfeitamente separado o que é a necessidade absoluta de erradicar um sistema económico e financeiro que destrói as pessoas e a natureza e a “crença” numa eventual possibilidade de o “reformar” por dentro. 

Quando existe uma desconexão sistemática entre o sentido pretendido e o sentido apreendido, tem contraponto perfeito a clareza do discurso e a afirmação positiva das propostas. Quando o abismo está perante nós e há quem queira mergulhar nele de olhos fechados, a atitude nunca poderá ser dar-lhe espaço, mas sim, fazer-lhe frente de forma decidida. Vem a propósito a grande oportunidade (ou mais uma oportunidade) para a Esquerda ocupar, de forma distinta, o debate público, possibilitado pelas presidenciais. Existiram alguns momentos em que tal poderia e deveria ser feito. 

 

A seu devido tempo assumi apoiar publicamente o Candidato António Filipe, tendo inclusivamente sido seu proponente. Se ele terá conseguido (ou não) manifestar a atitude firme que atrás aportei, será possivelmente uma das incógnitas que o futuro (que é já amanhã) irá desvendar. Sabendo à partida que há  discursos que não pedem concordância imediata, ou assumidamente pelo exagero, ou em tese por uma colagem surreal, porque o real é cada vez mais obsceno, resta a ideia, peregrina mas aplicável, da assumpção da fractura cada vez mais necessária em alguns temas decisivos e em relação às formações reais.

Hoje antecipei o meu voto no António, projectando um futuro que as circunstâncias da Luta determinarem. Se dúvidas não tive em relação ao acto em si, vejo à minha frente um montanha delas. Espero que, nas próximas semanas, seja possível escalar a montanha e partir algumas amarras. Espero. 

Espero (ainda) ter falado o mais claro possível. Se não fui capaz assumo o propósito.

 


05 janeiro 2026

 DEPOIS DO GOLPE, A “NORMALIZAÇÃO

 

Dois dias depois do golpe norte-americano que entrou na Venezuela, sequestrou Maduro e Cilia e anunciou a intenção de governar o País e os seus recursos naturais, quem esperava a natural condenação do maior acto de pirataria dos últimos anos, tem hoje como resposta, a normalização. 

 

Logo pela manhã, dois exemplos vindos das rádios: Antena 1 falava do acto como uma “operação dos EUA” e apresentava a exploração de petróleo na Venezuela cheia de defeitos, com maquinaria ultrapassada e comandada por um “ditador”; TSF lembrava a possibilidade de entrada em cena de Edmundo Gonzalez, declarado pelo ocidente decadente “vencedor” das últimas eleições presidenciais, sem nunca ter apresentado as devidas provas. Este conhecido “democrata” foi um dos participantes da Operação Condor [i]e, na era Reagan, o número dois da Embaixada da Venezuela em El Salvador, à frente da qual estava Leopoldo Castillo, Com a sua “amiga” Corina, “prémio nobel da Paz 2025”, terá organizado em 2009, segundo documentos desclassificados da CIA, a eliminação de oposicionistas salvadorenhos no âmbito da chamada Operação Centauro, uma das vertentes da referida Operação Condor. Na mesma TSF, o conhecido fórum versou  o assunto, em que o jornalista Ricardo Alexandre introduziu o tema, avançando a possibilidade de um “entendimento” entre a Presidente interina Delcy Rodríguez e a administração norte-americana, a pretexto da última declaração pública da Presidente interina.

Os títulos dos jornais burgueses, PúblicoCM e Observador apontam no mesmo sentido da propaganda, “Maduro caiu”. Dizer que Maduro não caiu coíssima alguma, mas que foi sequestrado, será irrelevante para a imprensa dominada completamente pela propaganda e seguindo, normalizando, o crime cometido pela administração norte-americana, apoiada (ainda que veladamente) pelo governo português e pela camarilha não-eleita da dita “união” europeia.

 

A normalização em curso, se nada for feito para a contrariar e impedir, produzirá um efeito catastrófico nas relações internacionais e um recuo considerável na luta pela libertação do jugo capitalista e colonialista, na Venezuela, na América Latina e em todo o mundo. O discurso oficial será (já está a ser) adoptado a nível mundial e, daqui por uns dias, rádios, televisões e jornais da comunicação social burguesa dominante irá consolidar o que já são tidos como “factos” consumados: o regime da Venezuela caiuMaduro será julgado pelos EUAas empresas de petróleo serão muito mais geridas por Washingtona “transição democrática” no país está em curso, etc..., etc... A narrativa será adoptada (já está a ser), estamos a ver, a ouvir e a ler, marteladas e expandidas à força bruta do Império e à força “benigna” da manipulação das consciências.

 

Mais logo (daqui a pouco) estaremos na rua, pelo menos no Porto e em Lisboa, (muito tarde porque, à semelhança de tantas cidades por esse mundo que, desde o dia do golpe têm saído à rua).  

É preciso resistir. 

·       Exigir a libertação imediata de Cilia e Maduro.

·       Exigir que os ianques tiram a pata da Venezuela.

·       Denunciar a atitude miserável do governo português e da chamada “união”.

·       Apoiar os trabalhadores venezuelanos na sua luta de classe contra a dominação e a exploração!

·       Apoiar os trabalhadores de todo mundo, em solidariedade com os trabalhadores venezuelanos na sua luta!



[i]  A Operação Condor, nascida oficialmente em Santiago do Chile em 28 de Novembro de 1975, completa 50 anos como uma organização criminosa das ditaduras de 8 países sul-americanos para perseguir e matar opositores políticos, até mesmo em Portugal. Em: https://comunidadeculturaearte.com/operacao-condor.../ (Jorge Campos, em 3 de Janeiro 26)

 

 


04 janeiro 2026

HOJE, AS FLORES NÃO SE ABRIRAM EM CARACAS...

 

Roubo hoje, 4 de Janeiro, ao Amigo e Camarada Rui Pereira, a citação com que abre o seu livro[i]: “A quantos, por entre as sombras, tentam entrever”.  E são tantos por entre as sombras com que pintaram o planeta, volto ao dia em que o império invadiu o País, raptou e sequestrou o Presidente legítimo e deixou atrás um rasto de morte e destruição. Se há sentimento que possa contar quantas flores terão sido pisadas em Caracas, evocando mil novecentos e setenta e três, quando o mesmo império derrubou Allende e instalou um sinistro reino de terror no Chile. E lembrando, porque é preciso acordar a gente que gosta de flores e parece adormecida à espera que lhe batam à porta e as levem para um qualquer estádio, sem ser para o jogo de futebol, lembrando, lembrando sim, que é o mesmo império que vai semeando terror em vez de flores e espalhando morte e destruição, repete-se porque é mesmo preciso repetir, é o mesmo por toda a parte, quando será possível destrui-lo antes que destrua tudo, mulheres, homens, crianças, amimais e flores. 


A perversidade do golpe de ontem, continua hoje e continuará sempre, o ogre anuncia que governará a Venezuela e que tomará conta da riqueza natural e de todas as flores que possam tentar nascer, ele lhes irá pôr a suja pata imperial em cima, porque apenas conhece a linguagem do dinheiro, do capital, da exploração e da destruição das vidas e dos sonhos de Liberdade.

Para quê pensar (ou, no limite, acreditar) que a camarilha ocidental com todos à cabeça, é ou será capaz de condenar o golpe, provavelmente à espera de umas migalhas para continuarem a desempenhar o seu papel de cães bem treinados obedecendo ao seu dono?  Sejam portugueses ou suecos, franceses ou gregos, italianos ou ingleses, travestidos em actores de guerra pífios sem nada para mostrar que não seja ódio à liberdade, embora se reclamem de representantes democráticos, que ousadia hipócrita dos acompanhantes da chacina dos palestinianos e da exclusão dos imigrantes de todas as cores. Mesmo descontando a tímida reacção espanhola, amarrada contudo a um institucionalismo que não lhe permite dizer “não” com a força necessária, porque afinal ainda há Ucrânia, os burocratas pacóvios não passam de fascistas envergonhados e de covardes mal paridos. 


A imagem perversa da propaganda ocidental é traduzida no Homem acorrentado de pés e mãos pelo carrasco norte-americano que perpetrou a invasão do Capitólio e que teve como prenda a presidência, malvado seja se crentes fossemos e lhes desejássemos o “descanso eterno” a que tem “direito”. E o que vemos e ouvimos naquilo que chamam “comunicação social”, o repetir e o matraquear das mesmas frases, agora com uma imbecilidade confrangedora, ele era (ou ainda é, porque está vivo) um “ditador” que assustava o seu povo e nem o deixava cheirar as flores, apenas a droga permitia “florescer” e, pior que tudo, a enviava para os pobres cidadãos norte-americanos, sobretudo para os enjeitados e desvalidos que só querem consumir e que, por isso mesmo, são pobres. O bloqueio “simples” e completo da informação é “democrático” e é sobretudo uma “oferta” ao cidadão, poupado a ideais comunistas e solidários, já passou o tempo disso, agora ouve e lê aquilo que for determinado, Orwell como és actual.


Os tais que “tentam entrever” são os mais perigosos, porque tentam, através de neblina, pressentir algo que vai acontecer, a significância da coisa assim o diz. Para estes é preciso um trato especial, metê-los na masmorra a todos ficaria mal, por isso vamos esquecê-los, ofuscá-los, quiçá dar-lhes algo para distrair, pode ser até uma flor qualquer com toque alucinógeno, para poderem voar nem ninho de cucos devidamente adaptado e com flores amarelas ou uma merda qualquer colorida e apelativa.

Vamos admitir que o sistema funciona para alguns. Um deles, com nome de santo[ii], estava hoje acabrunhado e triste, porque o ogre havia desmerecido a “grande democrata” corina, para ele, a flor mais indicada para a “transição democrática”. Atolados (como este) na massificação das consciências, perdidos no atoleiro neo-liberal, incapazes de uma réstia de luz nas suas empedernidas cabeças, enlatados (e entalados) na casa-comum do capital, possivelmente pintado de verde, nunca serão flores que se cheirem, quando cheiram mesmo, o melhor é mesmo afastarmo-nos. 

Tristes “democracias”, verdadeiras ditaduras do capital, disfarçadas pelo trabalho proficiente dos lacaios burgueses e pela ajuda (mais ou menos) disfarçada de outros que há algum tempo trocaram o vermelho da bandeira, pelo verde apelativo das “transformações graduais”, energéticas e/ou digitais, ou outra coisa qualquer, que parecem ter medo das revoluções, da Revolução que anda perdida por estes lados, mas que, nas américas latinas ainda resiste, com qualquer coisa florida, que causa comichão ao capital e que ainda traz, com todas as imperfeições que possa conter,  um "verde-oliva de flor no ramo", nas mãos dos "filhos da madrugada", que nos orgulhamos de ser [iii]. 


Um dia inteiro sem informação, contaminados pela propaganda e pelos comentários dos pacóvios avençados que constituem o exército odioso dos painelistas, partimos em busca das estações proibidas, para saber um pouco mais do que o que nos querem (e conseguem) impingir, descobrimos na Américas o que se passa por lá e, curiosamente também por cá. São milhares, quiçá milhões que, por esse mundo dentro, saem à rua, multidões em todos os continentes, em protesto e vigília pela Revolução Boliveriana e pela exigência da libertação de Maduro e Cilia Flores. Por este Portugal, vamos ficar à espera de amanhã, para “civilizadamente” sairmos à rua, enquanto um governo infame fala em nome dos portugueses...


Não me falem hoje (nem amanhã) nas “comparações” espúrias com a Ucrânia. O mesmo (e único) império que patrocina o genocídio em Gaza, entrou Venezuela dentro, num odioso acto de pirataria e sequestro do seu Presidente, repitamos isto as vezes que forem precisas. Não toleramos, não admitimos.

Os trabalhadores da Venezuela e do mundo inteiro sujeitos à opressão e à dominação capitalista têm capacidade para fazer uma barreira e deixar crescer em paz as flores que ontem não floriram em Caracas. 

Ressuscitemos a palavra de ordem “Ianques Fora da Venezuela!” E, desta vez, não haverá flores nos canos das espingardas.

 

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[i] “Venezuela, a montanha acima das nuvens: Uma hipótese de crónica”, Porto, UNICEPE (2025)

[iii] Referência directa a F. Assis, do Partido (dito) Socialista

[iii] Referência ao verso do poema “Canto Moço”, do albúm “Traz Outro Amigo Também”, Zeca Afonso (1970)


10 dezembro 2025

A GREVE


 

Eis que o dia se aproxima.

Um dia que será lembrado, sem sabermos se será da melhor forma.

E, por falar em lembrança, aqui recordamos o ano de 1918, em Portugal, 12 de Novembro, o início da greve, segundo o relato de José Pacheco Pereira, na sua obra de 1971, “As Lutas Operárias contra a Carestia de Vida em Portugal: A Greve Geral de Novembro de 1918”: 

Às 6 horas da manhã do dia 12 de Novembro de 1918, Lisboa acordou em greve geral. Os operários das fábricas de gás, das companhias de electricidade, dos transportes públicos, das padarias, paralisaram completamente. Não havia luz, não havia pão, não havia carros. A cidade estava às escuras e silenciosa. Só se ouviam os passos dos piquetes operários que percorriam as ruas obrigando ao fecho dos poucos estabelecimentos que ainda tentavam abrir.” 

Um dia de GREVE é sempre um dia de sacrifício do trabalhador. Perde o seu salário, arrisca a sua posição para defender os seus direitos. A sua vida e a dos seus. Na luta diária, em que a exploração continua, diz a burguesia que ele já “não existe”. Passaram a chamar-lhe “colaborador”, o seu patrão deixou de o ser, agora é “empreendedor”, a terminologia ideal para pintar a exploração de qualquer cor à vossa disposição, desde que sirva para mascarar a realidade. 

Mudou muito, desde o ano 1918. Mudou assim tanto, em mais de cem anos? 

Mudaria talvez mais a vontade que os tempos, acicatada por algumas benesses  concedidas que poderiam ter vergado a tal “vontade” de lutar. Todavia, em tempos de servidão, o que fica é a dependência, a reles submissão e a adesão ao discurso burguês que é sempre capaz de dar a volta completa, se necessário for, a sedução permanente.

Deste lado, há luta? 

O sim e o não parecem misturar-se no ar, há sempre a Poesia e as canções para nos acordar, um chamamento, “Viemos (ou vivemos?) com o peso do passado e da semente / esperar tantos anos torna tudo mais urgente”, é o Sérgio a gritar LIBERDADE. O não vagueia na praça e tenta convencer-nos (ou converter-nos) que é preciso mais “competitividade” e mais “produtividade” para poder distribuir a riqueza, conversa espúria, mas quem raio é que produz a riqueza? E volta a canção, “Senhora de preto / diga o que lhe dói...”, de novo o Sérgio a perguntar se “pode alguém ser quem não é”. Pode?

 Amanhã, Lisboa e o país acordarão com uma GREVE GERAL. 

Tudo controlado, as centrais sindicais solicitaram ao Poder a marcação do dia 11 e o Governo irá impor “serviços mínimos” e requisição disto e daquilo, para minimizar os efeitos da GREVE, porque não sei que mais, as pessoas têm filhos e netos (e, já agora, pais, tios e avós e primos, claro) que não podem ser “prejudicados” pela tal coisa da GREVE. Que tempos idiotas vivemos, quanta hipocrisia, quanta falsidade, quanta mentira. Quanta propaganda. Quando um dia acordarem e a GREVE GERAL vier para a rua, sem pedir licença, colocando o Poder em tal risco que nem sabe bem se deve “oferecer” um ordenado mínimo de mil e seiscentos, ou um médio de três mil. Quando uma ou outra parvoíce qualquer vinda da boca seca de qualquer montenegro, a gente irá dizer, com o Chico, “Apesar de você / Amanhã há de ser / Outro dia / Eu pergunto a você / Onde vai se esconder / Da enorme euforia...”, e lá estão as canções, sem elas não se fazem revoluções, rima e não é por acaso.

 Não há memória de tanta lengalenga, tanta força bruta no decreto e no papel contra quem trabalha, na “melhor economia da europa” (que raio será isso?). Quer o Poder convencer alguém no seu perfeito juízo que é preciso “ajustar” o que chamam de “pacote laboral”, para ter melhores salários e melhores pensões? Já agora, existe um “pacote empresarial”? 

Uma interpretação imediatista, poderá dar uma explicação idiota: é preciso despedir mais e melhor para reduzir o número de “colaboradores” e assim ter mais para “distribuir”. Outra (mais realista) será “reduzir” (reduzir bastante) os “Mandadores de alta finança”, nomeados pelo Zeca, nos “Índios da Meia Praia” e que, na opinião dele (que decerto subscrevemos), “...fazem tudo andar p'ra trás / dizem que o mundo só anda / tendo à frente um capataz

Muita letra sobrará, muita luta faltará, outra vez a rima a puxar-nos para a realidade. Volto ao Chico que nos diz “Você que inventou esse estado / E inventou de inventar / Toda a escuridão...” para avisar que há quem queira abrir as portas e deixar entrar a luz que falta. 

E dizer, com alguma segurança: 

Amanhã vai ser outro dia

Amanhã vai ser outro dia

Amanhã vai ser outro dia

                                            E QUE VIVA A GREVE GERAL!

 

  


24 novembro 2025

 CHOVE EM LISBOA [vais para a cama descansado?]


 

Um jornalista anda de carro pelas ruas de Lisboa, no dia 11 de Novembro de 1975. Chove e ele observa a estranha movimentação nas ruas enquanto ouve notícias pelo rádio. Em flashbacks, são lembrados os 19 meses do processo revolucionário (o sempre assumido PREC), como foi tramado o golpe pelas forças reaccionárias e todas as sabotagens e boicotes que geraram descontentamento e mobilizaram alguns sectores das Forças Armadas contra a Revolução. Qualquer semelhança entre o relato adaptado de uma crónica da época e o Chile de 73 pode ser uma pura coincidência, ou uma lembrança de que tudo pode correr mal, quando as circunstâncias se aproximam.  

 

País Portugal, 1975. Vivemos momentos dramáticos desde o passado mês de Março onde, a pretexto da aproximação perigosa da “reacção” (termo frequentemente utilizado para apelidar as forças contrárias à evolução). O correr das debulhadoras da reforma agrária, nas unidades colectivas de produção, criavam a riqueza necessária, sem capatazes, nem patrões, uma linda imagem tornada real, incómoda e ostensiva para a burguesia, que ousadia, quando os trabalhadores rurais organizados tomaram a seu cargo a gestão e o trabalho das terras grandes, naquele Alentejo perdido à mercê dos latifundiários parasitas. Pelo Algarve nasciam “índios” que moravam na Meia Praia, mesmo ali ao pé de Lagos, onde o Zeca haveria de fazer a tal cantiga “da melhor que sei e faço” e que convocava os que ali viriam morar a não trazer mesa nem cama”, porque Com sete palmos de terra se constrói uma cabana”. Com os operários a tomarem conta da produção, eram fábricas em auto-gestão generalizada, um atentado ao direito burguês e à “normalidade do estado democrático”. Com as nacionalizações a desafiarem o poder da banca e ao potentado económico-financeiro que, segundo os burocratas, é necessário ao equilíbrio social, sempre fora assim, porquê mudar agora? Que ousadia.

 

No Chile decapitaram corpos inocentes, em Portugal, decapitou-se uma Revolução. Para lembrar que, depois do 25 de Novembro, fizeram regressar os senhores do dinheiro – um convite dos bons sociais-democratas - um ímpeto paternalista sobrepunha-se e dizia que o Partido Comunista Português era necessário para a consolidação da democracia. E, em vez de julgarem e condenarem os que incendiaram as sedes das Esquerdas, apelaram á “reconciliação” e deixaram florescer os fascistas envergonhados que, na sua imensa “bondade” se iam convertendo a “democratassemelhantes em tudo aos que os reabilitaram. Decerto muito poucos imaginariam queapenas um ano depois, viria o infame Barreto, um socialistaconvicto destruir por completo a Reforma Agrária, devolvendo aos agrários tudo o que os trabalhadores produziram e melhoram. A vitória dos que nada fazem, nunca fizeram, era servida de bandeja por aqueles que apelavam à moderação, achando-se alguns deles como pais e mães da democracia. Estranho desígnio. 

 

Em Lisboa chovia a potes, no resto do País também, ao que consta da meteorologia oficial. O sol da Revolução ocultado por óculos escuros e patilhas de comandante, eis que volta a paz aos quartéis, onde havia jurado bandeira de punho erguido, eu estava entre eles e não imaginava que tal (entre outras coisas) me haveria de custar a expulsão do exército português, após ter tido o privilégio de partilhar tanta coisa com o “nosso capitão” Salgueiro Maia, na Escola Prática de Cavalaria, em Santarém. Quanta ingenuidade.

 

O Portugal que estremecia, numa inventada “Comuna de Lisboa”, olhava para trás e nada via a não ser os destroços do que se havia construído para um presente solidário e um futuro prometido (apenas melhor?). Quanta maldade.

Nesse ano que começou bem e acabou muito mal, conhecemos "Tanto Mar", onde o Chico diz que queria mesmo “estar na festa, pá / Com a tua gente / E colher pessoalmente / Uma flor do teu jardim.”. Três anos depois, ele muda a letra, constatando, “Já murcharam tua festa, pá / mas, certamente / esqueceram uma semente / nalgum canto de jardim”. Na verdade, se existe ainda uma semente, deve ter sido bem capturada e impedida de florescer. Curioso, esta versão foi gravada ao mesmo tempo com um tema onde se pode ler, “Talvez o mundo não seja pequeno (cálice) / Nem seja a vida um fato consumado (cálice, cálice)”. 

 

Viria pois a europa connosco, com todas as promessas de igualdade e democracia social, de distribuição de riqueza e “convergência”. Quanta mentira. 

Chovia em Lisboa e nós fardados na rua a manifestar de punho erguido o que havíamos jurado na parada"... ao serviço da classe operária, dos camponeses e do povo trabalhador, aceitar a disciplina revolucionária, lutar contra o fascismo e defender a Revolução Socialista”. Quanta ingenuidade, outra vez.

Regressamos ao quartel e esperava-nos a lei e o regulamento de disciplina militar do recém antigamente, o cutelo cruel do restaurado estado opressivo, bem pintado de cores “democráticas”, ou sociais-democratas enganadoras e falaciosas. Quanto respeitinho, de novo.

 

Viria mais tarde a denúncia, feita por um “Ser Solidário”, lá por meados dos anos oitenta, convidando-nos de novo a uma revolta, que já nascia na melancolia e nos convocava de novo. Primeiro, o chamamento à nova realidade, “A produtividade, ora nem mais, célulazinhas cinzentas / Sempre atentas / E levas pela tromba se não te pões a pau / Num encontrão imediato do 3º grau.” Depois, a constatação da ordem cavaquista implantada no alvos dos anos oitenta (vejam a semelhança, primeiro para as Finanças e logo a seguir para “chefe de governo”, não vos lembra nada?), “Deixa-te de políticas que a tua política é o trabalho, trabalhinho, porreirinho da Silva / E salve-se quem puder que a vida é curta e os santos não ajudam quem anda para / aqui a encher pneus com este paleio de Sanzala em ritmo de pop-chula, não é filho?” E, para terminar, a constatação actualíssima: “Entretém-te filho e vai para a cama descansado que há milhares de gajos inteligentes / a pensar em tudo neste mesmo instante / Enquanto tu adormeces a não pensar em nada”. Recordo aqui, ajudado pelo Manuel Loff, o que dizia o Cavaco, recém investido como novo salazar, a sua mulher, a propósito dos anos da Revolução, “Esta gente não está boa da cabeça, parece um país de loucos”. Dos autênticos “Loucos de Lisboa”, falaria em 1994, o João Monge: “São os loucos de Lisboa / Que nos fazem duvidar / Que a Terra gira ao contrário / E os rios nascem no mar”. Quanto vale o delírio de uma realidade assustadora.

 

Por aqui vamos então, com os tristes direitistas, eivados de Poder e acarinhados pela comunicação social burguesa, a querer festejar o que pensam (será mesmo que pensam?) ser a sua pequena vitória. No 25 do Novembro, outro tipo de loucura nada sadia, tomou conta da Revolução e tentou pintá-la de outra cor, tal como acontece com a “pintura” verde feita ao capitalismo. A social-democracia, sempre a trair os trabalhadores, tratou de virar a página, abrindo primeiro e escancarando depois, as portas aos fascismos emergentes, que hoje comandam por fora ou por dentro as políticas de miséria de um País perdido, no tempo e na memória. Quando hoje “Pergunto ao vento que passa / Notícias do meu país...”, recordo o ano de 1963 (era eu um jovem) quando Manuel Alegre escreveu aquele Poema que me traz "Uma lágrima no canto do olho"porque o associo à luta de Coimbra 69 e ao pontapé que demos no fascismo. Desgraçadamente calado pelo vento, este “nada me diz” de novo e faz da Trova, apenas a lembrança do Adriano que a imortalizou. E as notícias do meu País são hoje a imagem invertida da Revolução, em direitos vilipendiados, em ameaças à Liberdade, “cantando” sempre uma “democracia” pérfida e enganadora, num crescendo de pobreza e miséria, de propaganda e mentira, pejado de autênticos vampiros de fato e gravata que, tal como os pintava o Zeca, em  1963, “Vêm em bandos com pés veludo / Chupar o sangue fresco da manada” e que são, aos olhos de todos, “...os mordomos do universo todo / Senhores à força mandadores sem lei”, comendo sempre tudo e deixando algumas (cada vez menos) migalhas aos parvos que somos nós, embora a Ana nos lembre, "E parva eu não sou..."

 

Parvos ou não, os burocratas de Lisboa e de Bruxelas não sentem a chuva no pelo, porque têm pelo na venta, suficiente para ignorar o que se passa à sua volta. Sentados em cadeirões de pelo, instalados em poltronas ou viajando em jactos privados, não passam de charlatões. Assim os definia Sérgio Godinho, em 1971: “Entre a rua e o país / vai o passo de um anão / vai o rei que ninguém quis / vai o tiro dum canhão / e o trono é do charlatão”, enquanto denunciava: “No beco dos mal-fadados / os catraios passam fome / têm os dentes enterrados / no pão que ninguém mais come / os catraios passam fome”. Parece até que de 1971 a 2025 vai na verdade, “o passo de um anão”. Que triste fadário.

 

E Depois Do Adeus” que Abril nos trouxe, veio a estragação da Festa. Voltando à carga com o Chico, tratamos Novembro por você e dizemos com a ajuda dele, fechando a conversa: Apesar de você / Amanhã há de ser outro dia / Eu pergunto a você onde vai se esconder / Da enorme euforia / Como vai proibir / Quando o galo insistir / Em cantar / Água nova brotando / E a gente se amando sem parar”.

25 DE ABRIL, SEMPRE!


09 novembro 2025

 AS PORTAS DA GREVE

 

... Levanta-te meu povo, não é tarde

Agora é que o mar canta é que o sol arde

Pois quando o povo acorda é sempre cedo

O Trabalho”, José Carlos Ary dos Santos (1977)



Vinham do País para a Cidade, num dia de sol, de comboios, de autocarros, “...alguns por seu  próprio pé, um chegou de bicicleta/ Outro foi de marcha à ré”, quais índios de uma praia a metade, que a vida lhes tirou, ao contrário do tempo de uma Revolução que pouco mais de um ano durou e lhes tinha dado algo a que aspiravam. Quando, ao tempo, o Zeca cantava “a nobreza dos Índios da Meia Praia” talvez não imaginasse o cenário negro dos dias de chumbo que viriam e que obrigam os trabalhadores a sair à rua ocupada pelos burocratas da burguesia, ao serviço do Capital. Eis então que se fundem o “Capital” do predadores e a “Capital” ocupada, cumprindo o poema onde aparece a grande verdade sobre a propriedade subtraída, aí está então: “Pois é dele a sua história e/O povo saiu à rua”.

 

A palavra caiu na rua no exacto momento em que a mulher se preparava para declarar a sua intenção em ficar na rua para marcar o terreno que não tinha, a bem dizer, não tinha qualquer casa para viver, quanto mais terreno para criar a sua galinha, que o preço dos ovos está pela hora da morte, ocupava ela a rua como forma de fazer ver (a quem?) o seu direito a ela, de todos como ouvira dizer um dia e hoje, mais do que nunca, achou que seria a forma mais simples de cumprir esse direito. A ela se juntam cem mil, em ruas cheias de imaginação, como esta, a recordar o Grupo de Acção Cultural de 1975, orientando o sentido da Luta:

Até à vitória final

Lutaremos pela causa do povo

Opomos o trabalho ao capital

Até à Greve Geral

 

Sente-se uma alegria revolucionária na Cidade, algo que faz falta para acordar consciências e provocar os que pretendem paralisar a luta dos trabalhadores, cedendo-lhes aqui e ali as migalhas de uma má consciência. Acontece que o trabalhador, sistematicamente em construção, deu o salto necessário, que o Vinicius registou:

Foi dentro da compreensão

Desse instante solitário

Que, tal sua construção

Cresceu também o operário.”

 

Se o pacote laboral só interessa ao capital e queremos Greve Geral já, a comunicação social da burguesia oculta quase tudo. As notícias da rádio e televisão pública ficam-se por apontamentos como, "...pessoas de todas as idades desceram a Avenida da Liberdade para se juntarem nos Restauradores, onde várias figuras da CGTP discursaram.”, eram “...milhares de pessoas, vindas de todo o País”. Conscientemente ocultam, muitas vezes mentem descaradamente, parecem mais interessadas em acompanhar o futebol: na manhã deste dia de hoje, preferem as eleições do Benfica, o golo irregular do Sporting nos Açores e sei lá que mais no Porto. Da manifestação, zero, um escandaloso alheamento da realidade. O Candidato Seguro diz que o governo devia ouvir os trabalhadores, para evitar a greve do próximo 11 de Dezembro, uma provocação imensa à sua luta mostrando (finalmente) ao que vem, se necessário fora.

 

Num outro cenário, aquele em se prepara a Greve Geral, a mulher pergunta se será ouvida, os trabalhadores em comissão ou em sindicato querem saber se a greve é o “último recurso” ou se é aquele direito nobre a que têm direito. Estamos então aqui para afirmar a GREVE como um acto claro e directo de REVOLUÇÃO. Se assim o pensamos, assim o devemos levar à prática. Que se abram as portam da greve!


13 outubro 2025

 O SÍNDROME ALEXANDRA 

 

Das eleições acabadas do resultado previsto

Saiu o que tendes visto muitas obras embargadas

Mas não por vontade própria porque a luta continua

Pois é dele a sua história e o povo saiu à rua...

Os Índios da Meia Praia”, Zeca Afonso (1976)

 

O resultado, previsto ou não, das eleições acabadas, estará provavelmente à vista, mesmo que não esteja. Acontece quase sempre, no final do acto, dizer que “foi uma vitória da democracia”, que o “povo decidiu”, ou que “o voto é soberano”, asserções cujo objectivo comum é “sossegar o povo”, agora está tudo bem, votaste e pronto. Por mais bondade que exista, aquelas afirmações representam apenas a face negra da democracia burguesa e pouco (ou mesmo nada) têm a ver com os interesses do dito “povo”. 

Hoje poderá ser uma boa oportunidade para elaborar um pensamento diferente, entroncado na realidade da política portuguesa, na pobreza relativa de grande parte das candidaturas, na diferença entre as vários tipologias de eleições, na atitude dos votantes, na crítica às “coligações”, na influência crescente da propaganda em detrimento da verdade dos factos, enfim, na assumpção de um pensamento crítico que recuse de vez o institucionalismo enquanto solução redutora e ardilosa da realidade.

É costume, no caso das autárquicas, argumentar que as mesmas nada têm a ver com outro tipo de actos eleitorais, como por exemplo, das legislativas. Que têm mais a ver com as pessoas “locais”, que os partidos têm importância relativa, em privilégio do “candidato”. Que os resultados não devem ser extrapolados ou projectados a nível nacional. Ou finalmente, que sim e que não, ao mesmo tempo, como ouvimos os diversos “protagonistas” e o respectivo séquito de “ajudantes” que, na dita comunicação social, fazem exercícios fantásticos de dizer, o mesmo tempo, a mesma coisa ou o seu contrário.

 

Vendo bem, quem são e a quem pertencem as “máquinas” que comandam as campanhas? De onde vem o apoio, o dinheiro, para montar as campanhas? Quem são as pessoas candidatas e quem as escolhe? Se pensarmos um pouco, facilmente concluiremos que a origem do “mal” das campanhas está mesmo na estrutura burocrática e centralizada da organização dos partidos burgueses e, se assim os designamos, é tão só porque é a única possível, atentando à institucionalização sistemática que ostentam e como consubstanciam a tomada de poder do estado que lhes está “associado”. Como toda a “ocupação”, o caso português transforma os dois partidos do “centrão”, PS e PSD, em donos à vez do aparelho de estado. Muito embora a extrema-direita racista e xenófoba, supremacista e mesmo fascista tenha crescido com base na insatisfação popular perante o tremendo falhanço neoliberal da sua actuação, conjunta ou separada, o certo é que o último resultado de ontem, vem dar razão a uma tese de difícil rejeição. 

 

As “coligações” entre partidos e entre estes e outros movimento de cidadãos ficam-se apenas por acordos “arranjados” entre as lideranças partidárias. São o espelho da organização partidária e da sua interpretação da democracia burguesa, uns lugares para ti, o “rosto” do arranjo para mim, porque há que ter em linha de conta o valor do meu partido em relação ao teu. Mesmo com zanga provável entre “comadres”, algumas (coligações) avançam completamente afastadas da realidade e do sentir dos cidadãos, que as vêm exactamente como “arranjos” e nada mais. O caso de “coligação de esquerdas” em Lisboa é um triste exemplo de como “não se deve fazer”: tudo programado de cima com a indicação da personalidade que a chefia, pertencente ao PS, claro, mesmo sabendo que a pessoa em questão estaria, com todo o respeito, desenquadrada da questão autárquica. Depois de estabelecida, o grupo estenderia a mão ao representante da CDU, oferecendo-lhe a vice-presidência. Um reconhecimento feito ao melhor autarca de Lisboa, na opinião da grande maioria, bastava ouvi-lo discernir e falar sobe todas as matéria relacionadas com a chamada “gestão autárquica”. Dada a recusa, natural e legítima, de João, a trupe de comentadeiros, encartados ou não, da direita e de muitos da esquerda, viria desancar o “melhor candidato”, como o verdadeiro responsável pela quebra da “unidade da esquerda” e, espante-se, como a melhor “passadeira” para a vitória de Moedas. A muito poucos interessa que os dois “centrões” (PS e PSD) estiveram quase sempre de acordo, tendo o PS caucionando a maioria das posições de Moedas, chamando por isso a si a responsabilidade pelo afundamento da Cidade, em praticamente todos os desmandos de uma governação perversa. Neste particular das designadas coligações, a única coisa que se poderia apontar à CDU é mesmo não ter sido o grande impulso de uma verdadeira coligação alargada da Esquerda, mesmo atendendo à relativa pobreza e, nalguns casos, a uma perfeita irrelevância dos eventuais protagonistas. No final, a noite de ontem, Alexandra foi mesmo o espelho da derrota, tendo a seu lado os rostos acabrunhados de uma Mariana e de um Rui (já para não falar de mais), perfeitamente rendidos a uma condição de dependência e de subalternidade evidentes. 

 

Se existir uma metáfora para campanhas que, apesar de terem elevada visibilidade mediática e protagonismo centralizado numa figura carismática, não conseguem traduzir essa exposição em resultados eleitorais concretos, temos definido o “síndrome Alexandra”. Como uma “verdadeira democrata”, Alexandra assumiu inteiramente a responsabilidade pela derrota, prometeu fazer uma oposição "rigorosa, firme e prepositiva". É isso que se espera, excluindo (ou incluindo?) os parabéns à vitória de Moedas.

 

O exemplo de Alexandra serve em toda a linha para a derrota do Partido, dito “Socialista”, a nível nacional. Poderá eventualmente cantar as vitórias de Bragança, Coimbra, Faro e Viseu, mas os militantes verdadeiramente socialistas nunca irão perdoar ao desastrado líder que “escolheram”, nem ao facto evidente de um campanha falhada e derrotada. Ao falar, como sempre, sem qualquer sentido do ridículo, Carneiro disse que “...o partido voltou como grande alternativa política ao governo e mostrou vitalidade.” Fantástico.

Poderá ter havido um excesso de personalização? Terá havido uma desconexão entre os temas da campanha e as preocupações reais dos lisboetas, seja lá o que isso for? Ao contrário de João, Alexandra nunca foi capaz de enfrentar Moedas, em apontar os podres da sua gestão, porque vendo bem, eles poderão ser os mesmos, e, segundo o que se costuma dizer, as pessoas preferem o original à cópia.

O síndrome Alexandra é um bom espelho à frente do qual o PS pode puxar as orelhas até ao chão. Mas obviamente que isso não vai acontecer.


09 setembro 2025

ALEXANDRA E A “BELEZA” DE MATAR A ESQUERDA

 

Alexandra falou. Diz, “não sou técnica..., não sei dizer”, ao ser confrontada com a externalização da manutenção da Carris iniciada com o PS. Pelos vistos, também não sabe que a Carris está em outsourcing há quatorze anos, ou seja, a tal externalização, que leva a que a Empresa contrate serviços no exterior, desprezando o saber e o conhecimento dos seus trabalhadores. Também não saberá (?) que o actual Presidente da Câmara de Lisboa retirou quatro milhões de euros à empresa municipal para entregar o mesmo valor à Web Summit, com o apoio do PS. E, apenas como complemento de um mais que provável “não sabe” da “aliança”, na prática, à gestão da Direita PSD/CDS-PP, nomeadamente na descapitalização da Carris.

Alexandra, creio eu, até sabe de tudo aquilo, não pretendo passar um atestado de menoridade a uma pessoa com a sua (reconhecida) inteligência. Todavia, as expressões que utilizou numa entrevista à Agência Lusa, no passado 5 de Setembro, a propósito do trágico acidente do Elevador da Glória, são de uma confessa vulgaridade e mesmo mediocridade, exactamente iguais às que qualquer governo centrista ou partido do Poder daria. Senão vejamos, “Lisboa precisa de respostas...”, “honrar as vítimas é obter esclarecimentos”, “...é importante apurar responsabilidades técnicas e políticas”. É a tal situação, falar e não dizer nada de substantivo. Na verdade, os “responsáveis institucionais” falam a (mesma) linguagem cifrada do vazio e da hipocrisia.

Alexandra também não quer a demissão do Presidente actual, porque lá está, não o pode fazer, apesar de ser acusada de o querer fazer, com o apoio dos “sicários” do PS (nomeados e tudo). Acreditando na significância do termo, o sicário é um indivíduo que mata em troca de dinheiro, um assassino contratado, um homicida, voluntário ou involuntário, derivando o vocábulo da palavra latina “sica”, uma adaga, ou um pequeno punhal curvo. Entretanto, o acusador diz simplesmente que não há nenhum erro que lhe possa ser imputado e pavoneia-se nas televisões, quando na verdade já devia estar em prisão preventiva (há que esteja nessa condição por muito menos...). Mas, entretanto, acontece que, em nota datada do dia de hoje, António Costa, Alberto Martins, Augusto Santos Silva, Eduardo Ferro Rodrigues, Guilherme Oliveira Martins, Luís Capoulas Santos, Nuno Severiano Teixeira, Fernando Medina e Francisco Assis, acusam Moedas de “falsidades “e afirmam claramente que o dito sujeito não tem "idoneidade" ou "dignidade" para ocupar as suas funções.

Em que ficamos, então?

Alexandra, acontece que és a “cabeça” de uma coligação (PS/Livre/Bloco de Esquerda) que se pretende de Esquerda, se anuncia como tal, para destronar a Direita do Poder. A questão que se coloca é se isto é ser de Esquerda, enquanto acusam “outros” de, ao não se juntarem a este grupo, contribuem para a divisão (da Esquerda). 

Matar a Esquerda parece ser o desígnio deste grupo, atolado em contradições. O centrismo acéfalo e hipócrita do Partido (dito) Socialista conta e canta mais alto que a dignidade e a coerência.

Pode Alexandra estar convencida que é de Esquerda. 

A realidade é que parece ser mais uma a querer matá-la...


13 agosto 2025

 FOGO ASSASSINA


 
Nesta malfadada época, todos os anos a mesma cena, incêndios por todo o lado, falhas (sempre as mesmas), inoperância e incompetência generalizadas dos (i)responsáveis institucionais, juntam-se ao lamento e desespero dos que pouco têm e com nada ficam.

Não deixa de ser estranho que também (como nos outros anos) umas largas dezenas (centenas serão?) de "meliantes" se deixem tranquilamente "apanhar", em flagrante delito, a atear fogos por aí, ainda por cima com a indicação das autoridades policiais de que estão a "especializar-se" na arte do fogo. Alguém de boa fé acredita nisto, ou, no mínimo, não desconfia? Claro que, neste e noutros casos, é  tremendamente mais fácil culpabilizar individualmente, do que procurar as verdadeiras causas da(s) tragédia(s).

A tremenda incompetência não  é (como em casos semelhantes) casual. Os responsáveis partidários do centrão bem deveriam responder pela sua irresponsabilidade pela ausência de um planeamento florestal que favoreça os cidadãos, em vez de servir os interesses do poderoso e lucrativo negócio da pasta-papel. Contudo, é este panorama do país eucaliptal que temos, perfeitamente submetido a interesses privados e a tragédias constantes.

Hoje, com este governo miserável entregue à extrema-direita, já nem merece ouvir declarações, é assim mesmo, altas temperaturas (parece que é a primeira vez...), os "rurais" que não limpam os terrenos (sempre a culpabilização individual), os aviões que foram comprados sem tanques, o helicóptero que avariou, enfim toda uma série de idiotices escusadas. 

O fogo é hoje um produto para espectáculo, como qualquer outro. As televisões cumprem o papel de fornecedor de entretenimento idiota e cúmplice da mais poderosa máquina de propaganda da manipulação grosseira e da mentira descarada. Impossível, por isso, perdoar à dita "televisão pública" o papel triste que faz para acompanhar a concorrência, na estupidez de uma informação comprometida com os interesses privados, não sendo capaz de um mínimo juízo crítico. 

 

Alguém já se terá lembrado de organizar um processo-crime contra os irresponsáveis, com um historial de crimes contra o cidadão e contra a natureza, com tantos anos? De levar a tribunal os verdadeiros criminosos pela degradação do País, pela incompetência no planeamento florestal? Presumo que, por exemplo, no âmbito de uma acção popular em larga escala (iniciativa cidadã?) se poderia enquadrar a verdadeira revolta contra a situação actual. Qualquer altura será boa para fazer isso, por exemplo, já. Uma forma inteligente de virar do avesso a culpabilização individual e enquadrá-la devidamente na assumpção política do sistema e regime capitalista, predador e infame.

O fogo que hoje assassina não foi "inventado" para isto. Os que promovem, directa e indirectamente, o fogo assassino são mais assassinos que o fogo...

 

 


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