Releitura 5*
Agora, que estão ambas adultas e cansadas, cada discussão parece uma cena de comédia; há pouco tempo, seguiste-a por um corredor de sua casa lendo-lhe parágrafos de Irène Némirovsky: “Nos teus raros momentos de ternura maternal, quando me apertavas junto ao peito, as tuas unhas cravavam-se nos meus braços nus.” A tua mãe, apressando o passo com insólita agilidade a fim de te deixar para trás, murmurava: “Mas que horror, filha, as coisas que tu lês!”
No último parágrafo deste livro, María Gainza fala de “felicidade poética” quando sai do carro à porta do Centro de Terapia por Radiação de Buenos Aires e vê a neve a cair suavemente. É felicidade poética que sinto ao reler “O Nervo Ótico”, a obra que me fez perceber que o género híbrido é um dos que maior prazer me traz na literatura.
Há pormenores que se perdem na noite dos tempos e é melhor que assim seja: compreender as coisas por inteiro torna a mente inflexível.
Já antes de publicar este livro, María Gainza era crítica de arte, colaborava com suplementos culturais de jornais e revistas da especialidade, além de ministrar oficinas de crítica de arte na universidade de Buenos Aires. Em “O Nervo Ótico” transpõe os seus conhecimentos sobre um punhado de pintores do mundo inteiro, fala de alguns dos seus quadros que viu ao vivo e integra esses comentários em episódios da sua vida, desde pequenina até ao presente, de uma forma entusiasmante e orgânica.
Esta é uma daquelas experiências de leitura que deve ser feita com a Internet ao alcance do dedo para a visualização dos quadros mencionados, para se poder apreciar a pintura de El Greco, Alfred de Dreux, Miguel Carlos Victorica, Hubert Robert, Cándido López, Gustave Courbert, Mark Rothko, Henri Rosseau, Augusto Schiavoni, Henri de Toulouse-Lautrec e o meu preferido, Tsugouharu Foujita.
Nesses anos Foujita pinta também autorretratos, nos quais aparece sempre junto desse gato matreiro e sem nome que os seus amigos batizaram como Fou-Fou. Diz que pinta gatos para descansar os olhos. Se observarem esses autorretratos, tudo o que o rosto de Foujita não diz é revelado pela figura do gato: o nervosismo, a ansiedade, o desejo de ser reconhecido.
A dado momento da sua vida, devido à fobia de andar de avião, a narradora tornou-se “uma mulher parada no equador da vida” e deixou de poder visitar os museus de outros países. Haverá males que vêm por bem? Tantos gostam de fazer alarde dos monumentos e museus que visitaram no estrangeiro, mas conhecerão todos aqueles onde podem chegar em poucos minutos ou horas?
Dizes a ti própria que a imaginação continua a ser a tua aliada e que, com a que tens, a tua mente já se entretém maravilhosamente. Apanhas um autocarro, desces, entras no museu e segues diretamente para o quadro que te chama. É barato e rápido. Com algumas dessas obras tens a mesma familiaridade que com os livros da tua biblioteca ou as plantas do teu jardim. (…) Não importa o que dizem na tua família (embora os oiças na mesma, para venceres o inimigo com as suas próprias armas). (…) Quem sabe, talvez te tenhas convencido, dada a tua progressiva e alarmante tendência para viveres cada vez com menos, de que não precisas nem de grandes aviões nem de obras-primas na tua vida.