Cantagalo é uma fazenda de café em Minas Gerais, na passagem do século 19 pro 20, aquele miolo da história em que tudo parecia estar acontecendo: pós abolição, pós Proclamação da República, um rabicho do ciclo do ouro, o ciclo do café torando. Desse fervo histórico sai a história de três gerações de uma família, com seus agregados e seus segredos, seus suspenses e suas surpresas. E é uma dessas histórias em que parece ter o Brasil inteiro: terra, família, costumes, escravidão, miscigenação, religião, poder. Eu levei um susto de ver um livro tão consistente, tão bem amarrado, tão bem escrito e com tanta coisa importante sobre costumes, organização social, economia, tudo de um jeito orgânico e sem aquela cara de livro que faz um esforço maior do que o talento do autor para ticar todos os temas que precisam ser discutidos hoje em dia. Entre a subjetividade encantatória de cada uma das preciosíssimas personagens e a estrutura histórica — violenta, desigual, de um país que é cordial até a página dois —, surge uma escritora iniciante bem impressionante, capaz de incorporar, mais que um sotaque do século 19, uma gama delícia de sotaques mineiros, e toda uma modelação dessas vozes, quando muda, por exemplo, de classe, de raça, de situação social. Nisso, Fernanda olha para o passado projetando o presente (ou vice-versa?), porque a história diz muito sobre o que nós somos, como país, como sociedade. Pra quem gosta de um romanção histórico, com tensão, aventura, surpresa e reviravolta, esse é totalmente o livro do ano.