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sábado, janeiro 17, 2026

AMERA RUMO A SIDNEY

AMERA - FUNCHAL - PORTO DO FUNCHAL

(Lisboa) Olá, eu sou o Amera, não vou à Lua como a Artemis II, mas vou ficar muito mais tempo fora de casa do que eles e estou de passagem pelo Funchal. Esta poderia muito bem ser a apresentação, se o navio falasse, num filme promocional desta longa viagem. A travessia começou a meio de dezembro, na Alemanha, um sítio onde o frio é levado a sério, e termina em março, em Sydney, na terra dos cangurus. Um dia destes mostro-vos uma fotografia de um canguru na Madeira, lá pelos anos 90 do século XX, no Santo da Serra. Fotografia verdadeira, sem filtros, do tempo dos rolos de fotografias e sem aquela coisa sem sal da inteligência artificial.

Ao fundo, em silêncio, vê-se uma parte da Deserta Grande, imóvel, a assistir a mais uma destas visitas internacionais.

Na imagem também o pequeno grande protagonista: o barco do Porto do Funchal. Pequeno no tamanho, enorme na responsabilidade, é ele que ajuda os gigantes nas manobras e os faz parecer surpreendentemente ágeis. O David troca mensagens em VHF com o Golias, numa linguagem própria, que não vem nos guias turísticos.

O Amera não ficou para a passagem do ano, muita gente importante também não, fez apenas uma escala, fica bem dizer que prometeu voltar, mas a sua presença fica registada.

Boa viagem, Amera.

quarta-feira, dezembro 31, 2025

AIDAcosma

AIDAcosma, AIDA CRUISES, PORTO DO FUNCHAL

(Lisboa) Há navios que entram no Porto do Funchal de forma discreta, quase a pedir licença. Depois há estes gigantes que parecem-me estar a ficar cada vez maiores com o passar dos anos, não que eles cresçam mas as novas gerações nascem numa escala superior, como que a sugerir que as pessoas vão querer viver assim no futuro, em cidades flutuantes, sempre à procura de bom tempo.

Este é o AIDAcosma (IMO 9781877), um navio de cruzeiro operado pela AIDA Cruises. Alguns números que me impressionaram são os 17 restaurantes e as 15 piscinas. Variedade gastronómica garantida e lugares para exercitar o corpo não parecem faltar com este cartão de visita.

A imagem foi captada no Funchal, num daqueles dias em que a cidade ganha um novo bairro.

Boa viagem AIDAcosma!

domingo, novembro 30, 2025

RAFAEL BORDALO PINHEIRO

CS-TNT - LPPT - TAP PORTUGAL - A320

(Lisboa) Missão definida: ver o A350 da Qatar. Eles têm tantos A350 que devem aproveitar todas as promoções da Airbus, do tipo “compre 30 e pague 20”, ou “não perca, tudo o que estiver neste hangar de Toulouse por 100 cada um”, ou um pack família "leve um A350, um A330, um A321 e oferecemos o A319". Uma espécie de Black Friday para companhias aéreas. No entanto, o nevoeiro, essa criatura que tanto atormentou os navegadores das Descobertas, dramático e daqueles que só gostam de aparecer, teve o seu ápice exatamente na hora em que a estrela ia sair.

Quem salvou o dia foi o CS-TNT, com o nome Rafael Bordalo Pinheiro, um dos A320 da TAP que anda nas bocas do mundo por causa das célebres atualizações do software do ELAC. Aterragem impecável, se fosse no basquete era um cesto sem espinhas.

E quando passou por mim acenou! Era mesmo para mim. Olhei para os lados para confirmar e, não, não estava ali mais ninguém. À esquerda, o comandante, à direita, o primeiro oficial. O comandante mandou um cumprimento simpático. Eu, o único spotter em Figo Maduro naquela fria manhã de novembro, agradeço.

Bom descanso e obrigado, Rafael Bordalo Pinheiro, ou como se diz no Brasil, "valeu"!

sábado, novembro 22, 2025

MANUEL CARGALEIRO

Airbus - A320-251N - CS-TVN - TAP - LPPT

(Lisboa) 
A descolar de Lisboa, soberbo, o Airbus A320-251N, CS-TVN, da TAP, com o nome de Manuel Cargaleiro que nos deixou em 2024. Com os pincéis da TAP, continua a pintar os nossos céus todos os dias.

Captado a cerca de 280 metros de distância, na imagem está em processo de elegante recolha dos seus trens de aterragem ou trens de pouso, como se diz no Brasil. Em Portugal aterra-se, no Brasil pousa-se. Diz o dicionário da Priberam sobre eles: «estrutura que suporta as rodas de uma aeronave e que permite a operação da aeronave no solo». Trens de aterragem são o equivalente aos nossos pés, e como são importantes os nossos pés, quem tem pés tem tudo. 

Boa viagem Manuel Cargaleiro!

sábado, novembro 08, 2025

CARACAS

Airbus A330-941 - CS-TUG - LPPT

(Lisboa) Dizem que são precisos sete anos para se fazer uma amizade. Outras fontes garantem que bastam duzentas horas de “tempo de qualidade”, seja lá o que isso for, para se chegar a essa categoria muito especial. Coisas que se lê por aí, sem grande rigor científico, mas é sempre bom dar um ar de quem estudou o assunto a fundo.

A isto eu respondo, há pessoas que eu conheço há sete anos ou mais que preferia não ter conhecido e outras que conheci há pouco e que gostaria que um dia passassem o exame duro e rigoroso que a categoria de amigo exige.

O que eu sei é que, dentro de um avião, sentado durante muitas horas, há sempre um amigo do assento do lado. Conta-se ou ouve-se o que só os amigos mais próximos sabem, o avião é um confessionário pressurizado a 33 mil pés, sem testemunhas, sem julgamentos, nem consequências, só troca de experiências. Somos uma espécie de companheiros de cela, a vida, injusta ou não, juntou-nos neste espaço escasso.

E, quando o piloto anuncia “tripulação, portas em posição disarmed”, o que significa que já se podem abrir as portas sem que seja disparado um escorrega de festa de aniversário cheio de ar amarelo, esse amigo evapora-se. Nunca mais o vemos, nem sequer nos lembramos bem da cara. Fica apenas a lembrança de ter partilhado aqueles momentos, o espaço e, talvez, um cartão de visita que irá ser perdido nas próximas horas ou servir de marcador de livro de ocasião.

Agora lembrei-me de um deles: uma professora primária natural da Venezuela, ponto importante, também gosta de correr, toda fit. Contava ela que gostava de ensinar, das crianças, mas fartou-se de giz e reuniões pedagógicas aborrecidas mas sobretudo de contar dinheiro todos os meses. Agora é gestora de hotéis nos arredores de Londres. Nada a ver com educação, mas ganha muito melhor e isso não nos faz mais felizes necessariamente mas dá-nos mais opções de vida, não a critico, também é importante.

A senhora era de Caracas, é precisamente para lá que segue o avião da imagem de hoje, a capital da Venezuela. Fotografado de Figo Maduro que para efeitos práticos é o Aeroporto de Lisboa, este é o Airbus A330-900neo de matrícula CS-TUG e nome Pedro Álvares Cabral. Boa viagem Pedro Álvares Cabral.

Airbus A330-941 - CS-TUG - LPPT


sábado, novembro 01, 2025

LATAM

LPPT - LATAM - BOEING 777 ER

(Lisboa) O PT-MUG, Boeing 777-300ER da LATAM, deixou Lisboa esta manhã como um artista. A pista molhada serviu-lhe de palco e o spray de água transformou-se em fumo de espetáculo, com os dois motores a berrar na força máxima. Se os motores tivessem consciência estariam provavelmente a pensar: “olhem bem para mim”. Partiu para São Paulo depois do clear for takeoff. Eu estava sozinho a assistir a este espetáculo, será que os outros spotters tiveram medo da chuva que cai por estes dias nesta cidade? Senti os aplausos. Obrigado pelo momento. Isto é que se chama sair com estilo: usar quase toda a pista e despedir-se assim, em grande, como só os gigantes sabem fazer.

domingo, outubro 19, 2025

LPMA

LPMA - TAP - A320 - CS-TNJ

(Lisboa) A pista 05 do Aeroporto da Madeira (LPMA), onde já aterrei muitas vezes, e de onde descolei todas essas vezes mais uma. Porque por cada partida aguarda sempre um regresso, a viagem só se completa quando volto ao ponto de onde parti. Cada descolagem é um número ímpar, cada regresso um movimento par, é como a fase e o neutro de uma instalação elétrica, a corrente circula quando neutro e fase se encontram.

Do lado de Santa Cruz ou de Machico, já passei por ali a rir, a chorar, triste e alegre, com muitas emoções misturadas, cada emoção um ingrediente de um ovo mexido que eu sou. Cada voo traz o turbilhão de sentimentos que acompanha cada partida, cada regresso.

Em Lisboa, e em todos os outros sítios, é ao contrário: o ciclo só se fecha quando vou embora, a corrente só circula quando o interruptor se fecha.

Mas eu gosto do par e do ímpar, e gosto de encontrar estes padrões sem significado, ou com o significado que cada um de nós quiser dar, que em cada momento pode ser diferente. As viagens são únicas por causa disso: em cada movimento um circuito se fecha, do lado de cá ou do lado de lá, provocando movimentos de carga entre as fases e os neutros da vida. Porque a nossa vida é corrente alterna, é frequência, é ir e voltar de um sítio qualquer para outro sítio qualquer, por terra, por água ou por ar.

Na imagem ou na sequência de imagens, que hoje é um GIF, quem fecha o circuito é ele, o CS-TNJ, Florbela Espanca, Airbus A320 da TAP, desta vez, descola não da pista 05, mas da pista 23, em sentido contrário. Protagonista silencioso de tantas partidas e regressos, regressos que são partidas no assento do lado e partidas que são regressos no assento da frente, mesmo parados estamos sempre em sentidos contrários. Um voo, tantos sentidos de vidas.

sábado, outubro 11, 2025

SPOTTING


(Lisboa) Três ou quatro spotters, lado a lado, cada um com a sua teleobjetiva apontada para o mesmo alvo, invisível desta perspectiva. Há mais, dispersos pela colina e ao longo da vedação, é o seu ecossistema natural. Esta é também a nossa igreja, com missa ao ar livre mas sem homilia aborrecida. Os aviões são os nossos deuses, desculpem-me os crentes, mas com muito respeito, sempre. É isto que nos une, pelo menos nestes momentos, pessoas tão diferentes, vindas de mundos distantes, que se encontram sempre nos mesmos sítios, guiadas apenas pelo som dos motores e pelo cheiro a gasolina de avião, uma espécie de incenso relaxante.

Há quem venha com câmaras topo de gama, objetivas que custam o equivalente a um carro usado e há quem esteja ali com um simples telemóvel. Simples é maneira de dizer, porque hoje um telemóvel faz mais do que os computadores da NASA faziam, quando mandou as missões à Lua, mas não interessa o equipamento, o que interessa é a paixão. Essa sim, é autêntica, intensa e irracional, afinal de contas é uma paixão.

Durante aqueles minutos de disparos, todos respiramos ao mesmo ritmo, olhos colados aos pássaros de metal. É uma paixão que se consome rápido, mais rápida que um romance num concerto dos Coldplay: intensa, breve, sem promessas para o futuro. Depois, cada um vai à sua vida, edita as suas fotos, publica ou não, e nada disto aconteceu, fica um segredo só nosso, ninguém precisa de saber.

domingo, setembro 21, 2025

CS-TOG - BARTOLOMEU DE GUSMÃO

CS-TOG - LPMA - A330-200 - TAP

(Lisboa) O tempo em setembro, em Lisboa, é sempre tão rigoroso. As temperaturas caem como se estivéssemos em pleno inverno siberiano, o vento sopra com a força de um tufão em Macau, os pés não me conseguem segurar, e a chuva não cai: agride. Sair de casa com um guarda-chuva transforma-nos em Mary Poppins.

Nestas condições extremas, só um aventureiro inconsciente ousaria caminhar pelas ruas. Eu não, limitado como estou, sinto-me quase como quem caminha de canadianas por uma rua inclinada e escorregadia com os pés a implorar por descanso.

Por isso, não restou alternativa: fiquei dentro de casa. E, em vez de captar o presente, maltratado por este humor meteorológico, mergulhei nos meus arquivos fotográficos. Imagens guardadas, memórias cristalizadas em pixels, que agora ganham nova vida enquanto lá fora Lisboa se disfarça de Reykjavik em janeiro.

Spotting também se faz disto, de viajar para trás até ao passado, de redescobrir nos arquivos aquilo que o mau tempo, real ou inventado, não deixa ver no presente.

Na imagem o Bartolomeu de Gusmão inventor da Passarola, CS-TOG, é um Airbus A330-200 da TAP, já reformado, a aterrar na Madeira, na pista 05, no ano de 2014. Imagem captada em Gaula. Uma fotografia antes ou depois desta foi usada como capa de YOUTUBE de um conhecido programa de rádio e quem não gosta de ver o seu trabalho reconhecido? Nesta altura, em 2014, ainda não havia muita gente de volta dos aeroportos a fotografar ou a filmar em direto para o mundo.

Há uns dias perguntei ao ChatGPT se o Aeroporto da Madeira tinha ILS, ele respondeu que sim. Como se pode ver na imagem não tem, e eu já expliquei ao próprio porquê. Não mudou de 2014 para cá.

domingo, setembro 07, 2025

PÊRO DA COVILHÃ

CS-TXC - LPPT - Airbus A321-251NX(LR)

(Lisboa) O Pêro da Covinhã, um Airbus A321, Airbus A321-251NX(LR), em Lisboa, LPPT. O LR, se forem à procura, quer dizer long range e o X é qualquer coisa como um extra long range. É como aqueles pacotes de sumo com mais 20% grátis mas aqui o extra paga-se. É uma forma resumida do fabricante transmitir que este avião está preparado para percursos mais longos.

Enquanto eu apontava a teleobjetiva, outro spotter aproximou-se de mim e perguntou: Então, também está à espera do Emirates? Respondi com um sorriso de superioridade daqueles que se tem depois dos jogos do FC Porto: não estou à espera do Emirates, eu gosto mesmo é dos aviões da TAP, acho-os sexy.

Isto da TAP já é um amor antigo. Quando a minha irmã mais velha foi estudar para Lisboa doeu como poucas coisas doem. Depois foi a Lena, uns anos depois, a segunda irmã, a segunda partida já me afetou menos, eu já era maior e, confesso, ia ficar com a casa toda para mim. Espaços maiores são melhores para curar depressões, tenho a certeza que existe um estudo que apoia a minha teoria.

No final dos 80s e início dos 90s os aviões chegavam com um barulho ensurdecedor eram mais brutos do que são hoje. Na varanda de LPMA, mãos nos ouvidos, mas não conseguia deixar de olhar. Havia ali uma energia estranha, partidas e chegadas que se misturava com as dores e alegrias da vida. O barulho era o som da distância, das despedidas, dos regressos, do mundo que se abria cada vez mais.

Ainda assim, ir ao aeroporto para me despedir delas ou para as reencontrar era místico. Mais intenso do que todas as manhãs de oração nos Salesianos. Naquelas orações, quando cantava “a minha meta é Cristo, o meu troféu és Tu, meu Senhor”, a voz saía da boca como um som mecânico. Cantava para ir para o céu mas pensava era nas miúdas do basquete… ou na professora de matemática, enquanto o Sr. Padre Giovanni, com o seu sotaque italiano, pedia um pequenino esforço para irmos um pouco mais além e alcançarmos os nossos objetivos. Pela professora de matemática até deixei cair a nota para 57. Depois recuperei, no teste seguinte, para noventa e tal, só para ouvir a sua voz dizer: que bela recuperação, gostei muito, tenho a certeza que o 57 foi um acidente de percurso. Respondi-lhe que tinha sido apenas um ponto fora da curva. A matemática sempre se encaixa na vida real.

É por isso que continuo a olhar para os aviões com fascínio e emoção, não são só máquinas que ligam aeroportos, são cenários de despedidas, reencontros e histórias que, mesmo sem sabermos, nos mudam para sempre.