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quinta-feira, janeiro 01, 2026

2026


Pronto! Façam favor de comentar aqui no blogue, se acaso quiserem. Já está re-aberto o espaço de comentários. E tenham o melhor ano de 2026 possível! 

quarta-feira, dezembro 31, 2025

Durmam bem!

A dramatização dos momentos políticos é um velho tropismo das sociedades. Ora, na realidade, Portugal vive hoje na pacífica normalidade das suas instituições e, no leque dos candidatos com hipóteses reais de chegar a Belém, nenhum ameaça a República. Por isso, durmam bem!

Um Natal quase europeu

Um dia, no primeiro semestre de 1985, o então diretor-geral dos Negócios Políticos do MNE, o embaixador Matos Proença, deslocou-se a Luanda, em cuja embaixada eu era então primeiro-secretário, com uma década de carreira.

No fim de um jantar, na residência do embaixador António Pinto da França, ficámos lado a lado num sofá e ele comentou: “Você já está cá há mais de três anos. O que pretende vir a fazer no futuro?”. Disse-lhe que tinha pensado concorrer a um lugar na nossa embaixada na Haia. Fez uma cara surpreendida: “Para a Haia?! Que diabo quer ir fazer para a Holanda?” Não sei o que respondi.

De caminho, na conversa disse-me uma coisa que, de certo modo, alterou o modo como eu via o meu futuro: “Não sei se sabe, mas estes anos em Angola mudaram bastante o modo como você é olhado nas Necessidades. Para melhor! A sua cotação subiu, pelo bom trabalho que se sabe que aqui tem feito”. E eu que não fazia a menor ideia de que o imponderável “mercado” dos claustros me começava a ser favorável! Logo coloquei isso a crédito do apreço que Pinto da França tinha pelo modo como eu trabalhava.

À época, posso agora confessar, as minhas expetativas, em termos de futuro profissional, eram bastante moderadas. E, curiosamente, estava perfeitamente acomodado a elas. Depois de uns discretos anos iniciais em Lisboa, num setor periférico da área económica, seguidos de uma pouco relevante passagem por Oslo, que me coube em rifa sem pedir, tinha sido empurrado para a embaixada Luanda, também sem ser ouvido e sem que me tivesse sido dada outra opção. Embora me achasse, sem modéstia, um “safe pair of hands” para qualquer tarefa, tinha a sensação de que o ambiente dentro do MNE nunca me iria ser favorável. Tinha mesmo a perceção de que tinha entrado, de forma quase irremediável, na “slow lane” profissional. É verdade, era assim que eu então via as coisas.

A minha posição política, que não escondia perante ninguém, e que afirmava, com regularidade, de um modo talvez pouco maduro e até provocatório, parecia-me uma insuperável barreira para poder vir a fazer uma carreira de topo. Mas não estava aberto a mudar de atitude. Assim, quando muito, entendia que podia ambicionar postos de importância média. A aposta na Haia tinha precisamente essa lógica: um posto sereno e confortável, embora com holandeses...

Porque vivia a vida profissional de forma bastante isolada, não fazendo parte de quaisquer grupos ou “networks" dentro da casa, não fazia a menor ideia de como o meu trabalho era olhado. Isso não significava que, intimamente, não achasse que fazia bastante bem aquilo que me competia. 

Ao dizer o que me disse, Matos Proença, um homem discreto, cordial e bastante competente, que viria a morrer muito cedo, fez-me rever essa minha perspetiva. A ser verdade o que ele afirmava, talvez eu pudesse ter direito a outras ambições. 

E Matos Proença logo acrescentou algo que me criou uma vontade nova: “Como sabe, no dia 1 de janeiro do próximo ano, Portugal vai entrar para as Comunidades Europeias. Estamos a preparar uma equipa para isso. Acho que você tem todas as condições para poder ter um lugar de chefia nessa área, na parte da cooperação política europeia. Quer que fale no seu nome ao secretário-geral?“ Disse-lhe que sim, que estava interessado, claro! Luanda era um posto pesado, tinham sido três anos de vida difícil, pelo que era um novo desafio que parecia promissor.

Mas havia um íntimo mas. A Europa? A CEE? Eu era então muito pouco europeísta. Não tinha a fé dos convertidos à religião federal de Monnet & Schuman, mantinha uma leitura algo soberanista da gestão dos nossos interesses, preocupava-me muito a ideia de partilhar o poder nacional, achava que nos iriam impor uma matriz liberal que podia limitar uma possível evolução no "caminho para o socialismo". O quê?! estar-se-ão a perguntar. É verdade! Ao contrário de outros, sou um orgulhoso herdeiro de todo o meu passado. Em 1986, eu ainda pensava assim. Não era contra a aventura europeia, mas era um euro-cuidadoso.

Entretanto, os meses andaram e mais nenhuma notícia me chegou. Matos Proença tinha saído do lugar que ocupava, para ser embaixador na ONU. Achei que o assunto tinha morrido. E preparei-me para viver 1986 em Angola. E, depois, quem sabe, talvez fosse para Haia ou coisa parecida.

Até que um dia, creio que em meados de outubro desse ano de 1985, Pinto da França recebeu um telegrama pessoal do secretário-geral, João de Sá Coutinho, a determinar a minha apresentação em Lisboa, com caráter de urgência. Era expressamente mencionando no texto que me esperava um lugar de chefia nas Necessidades. O embaixador não ficou muito satisfeito com a minha súbita partida, mas teve a amiga atitude de a não inviabilizar.

E lá parti, à pressa, para Lisboa, menos de um mês depois. Como tinha a casa em obras, fui obrigado a ir viver para um apartamento vago, emprestado por um amigo. Depois de mais de três anos de Luanda e sete de estrangeiro, senti que, no fim de contas, iria ser bom regressar a Lisboa. A minha mulher podia voltar ao seu emprego, embora tendo perdido anos de antiguidade e a hipótese de qualquer promoção ou chefia, pelo facto de me ter acompanhado. Mas estávamos felizes na antecipação do novo capítulo de vida que íamos ter. Foi muito bem disposto que me fui apresentar ao secretário-geral.

Sá Coutinho mandou-me sentar na velha cadeira de palhinha que estava em frente à sua secretária e, por uma qualquer sombra no seu olhar, tive um súbito mau pressentimento. Que logo se confirmou: “Ó Seixas da Costa, não tenho boas notícias para si. Houve aqui em Lisboa uma mudança de planos e eu queria perguntar-lhe se não precisa de dois ou três meses, com calma, para pôr em ordem a sua vida.” 

Eu não estava a perceber nada, mas já começava a perceber tudo. Ainda arrisquei: “O senhor embaixador sabe bem que vim à pressa de Luanda, a minha bagagem pessoal ainda nem chegou, apenas porque, num telegrama seu, há poucas semanas, me foi confirmado ir ter aqui um lugar de chefia. O que é que mudou?”

O secretário-geral, um homem grande, pessoa cordial, um aristocrata limiano, com fama liberal (no tempo em que os liberais eram outra coisa e tinham boa fama), estava visivelmente embaraçado: “Meu caro, não quero nem posso ir muito longe, mas foi a política que se meteu no meio disto tudo. O lugar já não é para si. Não vai ser possível ter nenhum lugar de chefia”. 

O meu choque era compreensivelmente grande: “E há alguma ideia sobre o que vou fazer?” Sá Coutinho rodava em torno da secretária e confessou: “Por ora, nada. Mas vá falar com o Gregório Faria, que está a montar as coisas das Comunidades Europeias, na Visconde Valmor, nas áreas mais técnicas. Pode ser que ele tenha qualquer coisa para si”. Senti que ficou muito aliviado quando me viu sair do gabinete. 

Entre a visita de Matos Proença a Luanda e a minha chegada a Lisboa, tinha tomado posse um novo governo, em inícios desse mesmo mês de novembro. O primeiro ministro chamava-se Aníbal Cavaco Silva. Ao sair do Ministério, atravessando os corredores e o pátio, tive o alívio de não me cruzar com nenhum colega, que pudesse inquirir-me sobre o meu destino, nesse que era já um imperativo regresso a Lisboa. Que lhes podia eu dizer?

No dia seguinte, fui recebido pelo embaixador José Gregório Faria, recém-nomeado diretor-geral das Comunidades Europeias (era a designação, à época). Foi simpático, mas revelou-me que, não apenas não tinha, de imediato, nenhum lugar para mim nem, muito menos, qualquer lugar de chefia. Pior ainda: não tinha sequer onde me sentar, de tal modo o novo serviço estava cheio dos técnicos que tinham transitado das estruturas que tinha negociado a adesão. Os diplomatas eram por ali muito poucos e, quase todos, estavam acantonados numa única direção de serviços, essa já sem lugar para mais ninguém. 

Toda a boa-disposição criada em torno do meu regresso a Lisboa tinha-se desvanecido. Estava a viver numa casa emprestada, com a vida improvisada, sem nada para fazer, sem perspetivas de futuro num tempo político tumultuoso e que, pelos vistos, dava ares de me ir ser profissionalmente hostil. 

O meu Natal de 1985, em Vila Real, não foi dos mais simpáticos.

Em Portugal, à época, vivia-se a campanha das eleições presidenciais. À esquerda, Soares, Zenha e Pintasilgo disputavam o eleitorado. A direita, mais unida do que nunca, tinha Freitas do Amaral como candidato. Os comícios sucediam-se, o país estava ao rubro.

O candidato que mais me agradava era Salgado Zenha, que logo se percebeu que não teria qualquer hipótese. A maioria dos meus amigos eram pintasilguistas. O ambiente de crispação política que atravessava Portugal era imenso. O chapéus de palhinha e os “loden” pelas costas eram a imagem de marca da direita em ascensão. Aos meus olhos de então, uma vitória de Freitas quase que podia trazer o fascismo de volta, de tão sinistro me parecia o grupo de gente que o rodeava - alguns são hoje bons amigos meus e um dia tive uma conversa curiosa sobre tudo isto com Freitas do Amaral. O que, por esses dias, me estava a acontecer profissionalmente não ajudava a que criasse uma opinião diferente. Bem pelo contrário.

Votei Zenha na primeira volta e, naturalmente, escolhi Soares na segunda. A noite da sua vitória - ou melhor, a derrota de Freitas - foi talvez a momento mais feliz que tive em política, em toda a minha vida. Isso mesmo: mais do que a vitória do PS, em outubro de 1995, ou a de Sampaio, meses depois.

Neste entretanto, depois de passar umas semanas em casa, fui chamado à direção-geral das Comunidades Europeias, onde, sentando-me aqui e ali, fui ajudar a montar um serviço de cifra para a nova estrutura e me foi dada uma tarefa curiosa e divertida: elaborar um conjunto de ordens de serviço, “pedagógicas”, para moldar aquele imenso grupo de técnicos à “liturgia do MNE”, numa expressão interessante de Gregório Faria. Em cerca de dez diretivas, ensinei como se escreviam os “telegramas’, as “notas verbais” para as embaixadas estrangeiras e outras regras básicas da diplomacia. Um dia, finalmente, fui colocado na direção de serviços das Relações Externas, embora com funções muito limitadas. Mas essa é outra história.

Foi assim, desta forma um tanto atribulada, que eu cheguei ao novo Portugal europeu. 

Vale a pena dizer que o ambiente na direção-geral das Comunidades Europeias - ou na “Visconde Valmor”, como o serviço melhor era conhecido nas Necessidades - era excelente, com grande predominância feminina, gente competente e entusiasmada com as novas tarefas. Era um tempo em que todos estávamos a aprender a nadar nas águas europeias. As idas a Bruxelas, aos grupos de trabalho dos nossos respetivos pelouros, eram momentos interessantes. Para mim, o único verdadeiro problema que enfrentei foi ter de trabalhar num “open space”, sala com pé direito muito baixo, onde toda a gente falava alto ao telefone. Logo eu, que só sei trabalhar em gabinetes de porta fechada. Cheguei a pôr tampões nos ouvidos...

Mas, pronto!, foi assim que entrei "na Europa". Nos anos seguintes, a minha vida profissional deu algumas voltas, e a Europa entrou nela de roldão. E a Europa também entrou em mim - e me convenceu. Oito anos depois, vim de Londres para ser sub-diretor-geral dos Assuntos Europeus, como o setor tinha passado a chamar-se. Um ano mais tarde, fui convidado para ser secretário de Estado da área. 

Lembro isto hoje, precisamente 40 depois da nossa entrada para as Comunidades Europeias - a União Europeia ainda estava para nascer.

Pensando bem, tudo me podia ter corrido bastante pior.

terça-feira, dezembro 30, 2025

Sol a mais

Ontem estive no funeral de uma pessoa que me era próxima. O dia estava radioso. Detesto funerais com bom tempo. A despedida de alguém deve rimar com chuva e dia pesado.

É só saúde!


Dizia alguém: "Este tipo, sendo liberal, só pode estar a gozar connosco! E fala como se fosse para o governo!" Mas há uma parte do país que se deixa embalar por este discurso modernaço, como se alguém que foi gestor público de topo, nomeado pelo CDS, venha de fora do sistema.

Rir é o melhor remédio

Gouveia e Melo tem toda a razão em queixar-se do facto de terem ido desenterrar casos antigos, só para atrapalhar a sua campanha. Contudo, ser ele a falar de "assassinatos de caráter", depois das suspeitas não fundamentadas que suscitou sobre Marques Mendes, dá vontade de rir.

Notícias

Será uma incontrolável raiva pelo êxito alheio? Coloquei um recorte do "Público", com os cargos obtidos na Europa por portugueses. Fiquei à espera da réplica adversativa, do "mas...", que sabia que viria por aí. E veio, claro. A vesícula de alguns portugueses nunca nos desilude.

Emprego

É escandaloso o que está a passar no aeroporto de Lisboa, com repercussão reputacional muito negativa na nossa imagem de país com pretensões a ser uma potência turística. Se o senhor almirante, como espero, vier a ficar sem futuro institucional em 18 de janeiro, poderia ter ali um belo teste às suas consabidas qualidades de organizador logístico. O país agradeceria.

Embrulhem!

 


Incompetência

É extraordinário que, num processo tão previsível e calendarizado como é uma eleição presidencial, seja "impossível" evitar que os nomes dos candidatos rejeitados pelo Tribunal Constitucional apareçam nos boletins de voto. Isto só tem um nome: incompetência. 

Justiça

Não faço ideia se o almirante fez ou não fez ajustes diretos. Não voto nele, claro, mas nada indica que não seja um homem sério. Há que interrogarmo-nos sobre a razão por que, em momentos políticos sensíveis, surgem estas "fugas" da justiça. A nossa democracia também se mede por isto.

segunda-feira, dezembro 29, 2025

Seguro

Posso perceber que muitos socialistas gostassem de ver António Vitorino presidente da República. Contudo, não consigo entender, salvo por um exercício de masoquismo, a razão pela qual, na eleição que aí vem, hesitam um segundo que seja entre António José Seguro e os seus competidores.

"Olhe que não, olhe que não"


Desta vez, falamos do Natal.

Veja aqui.

Estava assim



BB do outro lado


Hoje, dia em que tanto se falará da BB, aqui fica outro BB, o genial Bertolt Brecht, comunista como já não está na moda alguém ser. O seu "Sobre o pobre B.B.", traduzido por António Cícero:


"Eu, Bertolt Brecht, sou das florestas negras.

Minha mãe me trouxe para as cidades

dentro do ventre. E o frio das florestas

estará comigo ao me cobrir a laje.


Na cidade de asfalto estou em casa e a caráter,

com todos os últimos sacramentos

ministrados: jornais, tabaco, conhaque:

desconfiado, indolente e enfim satisfeito.


Sou amável com os outros. E visto

meu chapéu-coco, como todo o mundo.

Digo: são bichos de cheiro esquisito

e também digo: e daí? Também sou, no fundo.


Às vezes, nas cadeiras de balanço,

coloco algumas moças, de manhã,

e digo: em mim vocês têm, eu garanto,

alguém em quem não podem confiar.


À tarde me reúno com colegas.

Tratamo-nos de “gentleman”, então.

Eles dizem, com os pés à minha mesa:

as coisas vão melhorar, e não pergunto quando.


Na madrugada cinza, abetos mijam

e piam os pássaros, que são seus vermes.

Na cidade, meu copo se esvazia,

largo o charuto e durmo um sono leve.


Assentamo-nos, uma geração leviana 

em prédios que quiséramos indestrutíveis

(assim construímos os arranha-céus da ilha de Manhattan e as finas antenas sobre o Atlântico a nos divertirem).


Destas cidades ficará quem as atravessou, o vento!

A casa faz feliz quem nela come: quem a esvazia.

Sabemos sermos efêmeros

e que depois de nós o que virá será sem valia.


Nos terremotos vindouros, que não seja meu fado

deixar por amargura o meu Virginia se apagar,

Eu, Bertolt Brecht, largado nas cidades de asfalto,

oriundo das florestas negras, no ventre da mãe, tempos atrás.

Antas

Como sportinguista, assumo, por regra, a atitude do pessimista, do cético no êxito: se o ano correr mal, "eu bem dizia"; se correr bem, "tudo o que vier à rede...". Este ano, com o Benfica a ficar para trás, preocupa-me o Porto. Aquela ideia de mudarem de treinador foi péssima!

Pipi

No passado, era muito popular na cultura social lisboeta a figura do "pipi". Tratava-se de uma personagem masculina muito penteadinha, muito Brylcreem, de galã canastrão a querer disfarçar a idade. Antes desta campanha presidencial, já quase tinha esquecido a figura.

Zelensky

Goste-se ou não da personagem Zelensky e daquilo que ela representa, é irrecusável ser alguém que, desde há cerca de quatro anos, é a cara de um projeto para um país que eventualmente terá nascido contra a lógica da História. Se outra for a Ucrânia, Zelensky terá de sair de cena.

Apresentação

 


Trump

Passados estes dias agitados, alguém um dia irá publicar um estudo científico sobre a figura de Donald Trump, sobre o seu perfil psicológico. Posso estar enganado, mas quero crer que se chegará à conclusão de que a maior potência do mundo esteve à mercê de uma pessoa perturbada.

Presidenciais

Não irei votar em Marques Mendes, pelo menos na primeira volta. Mas acho miserável a campanha negra de que é objeto, por parte de gente sem um passado cívico minimamente relevante para poder chegar a Belém. Marques Mendes está a pagar o banho de decência que um dia deu ao PSD.

Lembrar


Para lembrar o dia de 2025 em que a Europa foi chamada a despacho a Washington...

domingo, dezembro 28, 2025

O lugar do Eurico


Ontem, (também) morreu Eurico de Figueiredo. Tinha 86 anos. 

Na minha adolescência, em Vila Real, o nome de Eurico de Figueiredo identificava um estudante de "ideias avançadas", saído anos antes da cidade, que liderara as lutas académicas lisboetas de 1962 e que, depois de uma agitada passagem pela universidade de Coimbra, se exilara na Suíça. 

Conheci muito bem o seu pai, Otílio de Figueiredo, médico e figura maior da vida cívica de Vila Real, com quem trabalhei de perto na aventura oposicionista da CDE de Vila Real, em 1969. 

Só vim a conhecer o Eurico muito depois do 25 de abril, quando regressou a Portugal para exercer psiquiatria e, posteriormente, para se envolver na ação política, da qual um dia acabou por se cansar - e talvez com razão.

Não éramos íntimos, mas fomos desenhando uma relação de amigos. Há anos, convidou-me para apresentar um seu livro. Depois, contracenámos com o seu velho comparsa de Genebra, António Barreto, numa evocação qualquer no teatro de Vila Real. Já o não via há bastante tempo.

Lembro uma história que, por equívoco, nos ligou e sobre a qual um dias nos rimos. Estávamos em julho de 1999. Eu era então, desde há três anos e meio, secretário de Estado dos Assuntos europeus.

Um dia, informei o gabinete do primeiro-ministro de que necessitava de falar com António Guterres, com alguma urgência. Horas depois, foi-me perguntado o motivo da reunião, para justificar a pressa com que pedia o encontro. Mandei dizer que não revelava. No dia seguinte, já um pouco irritado, voltei a insistir. Ao final desse dia, o primeiro-ministro recebeu-me.

António Guterres acolheu-me com um sorriso e a grande simpatia com que sempre me tratou.

- Este seu pedido de reunião, com caráter de urgência, criou por aqui alguma especulação, como já deve ter percebido.

Eu já então presumia essa especulação. Num segundo, liguei-a ao facto de, três dias antes, ter estado numa audiência, também a meu pedido, com o presidente da República, Jorge Sampaio. Que diabo um simples secretário de Estado, lugar subalterno no governo, quereria, na mesma semana, das duas principais figuras do Estado?

Esclareci então António Guterres que a razão da minha visita nada tinha a ver com aquilo que fora tratar com o presidente. No seu caso, eram assuntos estritamente ligados às questões europeias, mas que exigiam uma orientação urgente do primeiro-ministro. A particular sensibilidade do tema recomendava, porém, uma conversa pessoal. Só isso.

Guterres disse-me então das razões da especulação em S. Bento.

- Como você sabe, estamos em pleno processo de formação das listas de candidatos a deputados à Assembleia da República. E, como também é público, Eurico Figueiredo deixou vago o lugar de cabeça de lista por Vila Real, que também é a sua terra. Houve muita gente que pensou que você, sendo embora independente e não militante do PS, poderia estar interessado no lugar e que era essa a razão por que pretendia falar comigo com urgência. Eu, contudo, conhecendo-o, devo dizer que nunca pensei que quisesse ser deputado. Mas também achei que seria legítimo se acaso o quisesse ser.

E tinha toda a razão. A vida parlamentar nunca me seduziu minimamente. Mas, à distância, fiquei sempre com a curiosidade de saber o que teria acontecido se eu, de facto, tivesse tido essa pretensão. Assim, salvo na boataria entre S. Bento e o Rato, acabei por não me "cruzar" com o meu amigo Eurico Figueiredo nos caminhos da representação política de Vila Real.

sábado, dezembro 27, 2025

Segurança

Um amigo, membro de uma tertúlia a que pertenço, que há meses nos tinha anunciado o voto no almirante, acaba de dizer que, tudo ponderado, decidiu que vai votar em António José Seguro. 

Há pouco, li que um dos mais ferozes opositores dentro do PS a esta candidatura concluiu que ela é a única que recolhe "os mínimos", o que imagino indicia que pode afinal vir a ser essa a sua escolha final.

Isto ainda se vai compor, meu caro António José Seguro!

Viana


Sou de Vila Real, mas também me sinto muito de Viana, a terra do meu pai. Ligam-me a Viana memórias de infância e juventude. Por lá passei muitas férias - e as férias costumam ser, e no meu caso foram, uma parte boa da vida. 

Vou a Viana sempre que posso, ando por aquelas ruas como se fossem da terra onde nasci. A cidade retribui-me: sou seu cidadão honorário e tive o gosto de ser presidente de honra da maior romaria do país, a Senhora da Agonia.

Em Viana vivia a minha avó paterna, que partiu há muito com uns respeitáveis 93 anos, depois de 55 anos de viuvez. Conservou até ao fim uma jovialidade que nos marcou a todos. Por ali tive tias e tios que, com o tempo, foram desaparecendo. E bastantes primos. 

Há semanas, um deles, com a minha idade - como eu, há muito emigrado em Lisboa - saltou fora da vida, horas depois da nossa última conversa a dois. Hoje, outra prima, a decana da família, já na casa dos 90, deixou-nos. Na semana passada, ao telefone, tínhamos combinado que iria vê-la a Viana, daqui a dias, como há anos fazia. Vou, mas para o funeral.

Há meses de dezembro menos tristes, podem crer.

sexta-feira, dezembro 26, 2025

O meu "grupo" do Natal


A Consoada aproximava-se. Da sala, já me pediam para preparar os vinhos, pelouro irrecusável que há muito me cabe. A tarde tinha sido de um lado para o outro. Dei conta de que ainda havia imensa gente a quem gostaria de mandar uma mensagem de Boas Festas. Não havia manifestamente tempo para uma nota personalizada a cada um. Que fazer?

Talvez uma frase simples chegasse, para que essas pessoas soubessem que não me tinha esquecido delas. Por SMS ou Whatsapp? Há amigos que se queixam de que uso demasiado SMS, num tempo em que toda a gente utiliza mais o Whatsapp. Fui então para o Whatsapp. No iPhone, no espaço de endereços, fui acumulando os nomes das pessoas a quem iria enviar a mensagem. Muitas. Tantas que optei por ficar a meio. Faria outro "carregamento" depois. 

Intimamente, pensei que estava apenas a criar, para mim próprio, uma lista de endereços. E, nesse engano de alma ledo e cego de quem usa o Whatsapp menos do que devia, fugiu-me o dedo para "Novo Grupo". E aí cliquei! O que fui fazer?! Nunca na vida tinha criado um grupo de Whatsapp - e logo fui fazer uma imensa asneira a meia hora da Consoada. Nabo informático como sou, não é que me excluí, em seguida, do grupo, ainda antes de o eliminar?! Só o contacto de um amigo, que tinha estranhado tudo aquilo, me permitiu, por seu intermédio, avisar e tentar explicar àquele heteróclito grupo de pessoas o que é que ali faziam, todas juntas, por minha iniciativa. Confesso que avancei para o bacalhau da Consoada num estado de serenidade que rimava mal com a data.

O "meu" grupo do Natal, sem que o criador o possa eliminar, ainda deve andar pelo Whatsapp. Só espero que quem dele involuntariamente faz parte o vá abandonando. De uma coisa podem essas pessoas estar certas: tinha a intenção de lhes desejar Boas Festas! Valha-me ao menos isso! 

... e Carter dá a notícia!

 


quinta-feira, dezembro 25, 2025

Natal


Em Vila Real, Natal sem briol não tem graça.

A revelação


Foi numa noite de Consoada como esta, há bem mais de sete décadas. Em casa da minha avó paterna, em Viana do Castelo, a família tinha estado reunida no jantar de Consoada. No dia seguinte, os meus pais e eu partiríamos de comboio para Vila Real, onde teria lugar um jantar no dia de Natal, desta vez com os meus avós maternos e a família desse lado. Foi assim, por muitos e bons anos, a geografia dos meus Natais.

Para mim, por essas horas, só havia um tema importante: os presentes. Na manhã de 25, junto ao presépio e à árvore, sabia que iriam surgir coisas que, segundo a narrativa que dominava a minha cabeça, o Pai Natal ali teria colocado durante a madrugada. E, na noite seguinte, quando chegasse a Vila Real, outro conjunto de presentes estaria à minha espera. De certo modo, eu sentia-me beneficiado, em relação a alguns dos meus primos. É que o Pai Natal faria duas deslocações por minha causa. 

A noite de Consoada em Viana estava a terminar. Os meus tios começavam a despedir-se e a sair para as respetivas casas. Foi então que um primo, um ano mais velho do que eu, me chamou a um corredor interior daquela grande casa do Largo Vasco da Gama e, com um sorriso de superioridade, de quem sabia mais do que eu, me disse: "Queres ver os teus presentes?". E abriu a porta de um compartimento interior, apontando-me umas caixas coloridas. "Ai julgavas que era o Pai Natal?! Quem comprou as coisas foram os teus pais...". E, imagino que contente com a minha cara, correu e desapareceu de cena.

Não me lembro de ter sentido um grande desapontamento, como hoje seria bonito dizer. Não posso mesmo excluir que a revelação tivesse apenas confirmado alguma coisa que eu já suspeitasse, talvez mesmo uma dúvida sobre dificuldade logística da imensa tarefa do Pai Natal. De uma coisa tenho a certeza: custou-me imenso a adormecer. Não terá sido pela desilusão induzida pelo gesto do meu primo, mas apenas porque passei algum tempo a magicar que diabo estaria dentro daquelas caixas. Dali a horas, contar-me-iam, como habitualmente, a história de que tudo se ficava a dever à gentileza anual de um errante tipo de barbas brancas. Intimamente, devo ter-me sentido mais forte perante os meus pais: é que eles não sabiam que eu já sabia a verdade!

O mundo no ano que acaba


Há muitos anos, a RTP, à volta do Natal, fazia um programa em que resumia a situação internacional no ano prestes a terminar. Eu ainda não tinha a diplomacia no meu radar profissional mas recordo-me bem que organizava sempre a minha vida de modo a poder ver esse programa, feito de colagem de filmes que sintetizavam o curso da vida pelo mundo.

Lembrei-me disto na terça-feira ao gravar, com António Freitas de Sousa, a penúltima edição do ano do nosso podcast "A Arte da Guerra". É que optámos, nesta edição, por fazer um bosquejo pelo que nos pareceu ser mais importante no ano de 2025.

Começámos, sem surpresa, por Donald Trump, tentando caraterizar o que ele trouxe de novo à América e ao mundo. Depois falámos da Europa e do seu difícil papel de charneira entre o poderoso vizinho atlântico e a Rússia. E, finalmente, abordámos ... o resto: a China, a Índia e por aí adiante. Isto é: tentámos "meter o Rossio na Betesga".

Nos dias de hoje, o tempo que as pessoas estão dispostas a perder, á frente de um écran, é em regra inferior à duração de uma análise como aquela que a nossa "A Arte da Guerra" promove, todas as semanas, há quase cinco anos. Se optássemos por ser mais sintéticos, teríamos com certeza uma maior audiência. Contudo, e com pena nossa, o que temos para dizer não cabe num "espartilho" mais pequeno. E estamos muito confortáveis com o número de pessoas que nos vê.

Se estiver disposto a perder (não tenho a imodéstia de escrever "ganhar ") alguns minutos, basta clicar aqui.

terça-feira, dezembro 23, 2025

Somos todos dinamarqueses

 


Receita

 


A cortina

Gronelândia ou Venezuela vs Epstein: nada melhor do que começar uma guerra para esconder um imenso embaraço.

Ó diabo!


A propósito da Cimpor, o "Observador" coloca-me hoje como secretário de Estado de Cavaco Silva. Espero que o senhor professor não se tenha ofendido com o lapso; eu já perdoei. Não sabemos como reagiria António Seixas da Costa Leal, um estimável e muito competente servidor público, que foi subsecretário e secretário de Estado, tendo chegado a ministro, mas que já se foi desta vida em 2007. 

Classe Trump


Trump anunciou que os EUA vão construir umas dezenas de novos navios de guerra, que se chamarão "classe Trump".

Surgiram já especulações sobre o formato desses navios.

Em que ficamos?

 


Afinal havia outro!


Não, não houve apenas um almirante em Belém. Este também foi presidente da República, embora fosse confessadamente monárquico... 

Faltará muito?

 


Não é?

Já me tenho perguntado sobre se a uma pessoa como eu, que não vê debates eleitorais nas televisões nem reconhece a voz de alguns dos candidatos, não deveria ser retirado o direito de voto. Sábios são os que se atulham dessa informação! O voto deles devia valer mais, não é?

domingo, dezembro 21, 2025

Boas Festas!


A todos os que acompanham este espaço, deixo os meus votos de Boas Festas, com o desejo de que 2026 venha a ser um ano melhor do que alguns pessimistas auguram.

sábado, dezembro 20, 2025

"A russa a caminho do Marão"

Dentro de dias, terá passado uma década desde que este artigo surgiu no "Diário de Notícias", assinado pelo jornalista José Ferreira Fernandes. Há minutos, a internet lembrou-mo. 

"Um amigo e, embora só recentemente conhecido, um rapaz do meu tempo, o embaixador Francisco Seixas da Costa tem um blogue. Há dias, a caminho da sua terra, passou por Amarante, foi atestar a uma bomba e encetou conversa com os olhos não mediterrânicos da garagista. "De onde é?" e tal, seguido de respostas em reticências, de alguém resignado a tão pouco se saber do seu país. Russa... de uma ilha... a norte do Japão... Rapaz do meu tempo, do tempo em que os atlas eram devorados com uma vontade que atestava na suspeita de talvez nunca se ir nem a Badajoz, Seixas da Costa disse-lhe: "É de Sacalina?" E a mulher derreteu-se: "Estou em Portugal há 12 anos. É a primeira pessoa que me disse o nome da minha ilha."

Porque também sou um rapaz do meu tempo, eu também diria Sacalina e, como gosto de apostar, talvez prescindisse da sugestão sobre ser do norte do Japão. A russa: "Sou duma ilha..." E eu, logo: "Sacalina!" E como gosto também de competir aproveitei para mandar ao meu amigo uma pergunta, em SMS: "De que país era capital a cidade antigamente conhecida como Santa Maria Bathurst?" Tinha uma armadilha, a Wikipédia não reconhece esse nome inteiro, só Bathurst, antigo nome da capital da Gâmbia, hoje Banjul. O nome da capital, no meu tempo liceu, incluía a ilha onde Bathurst estava (Santa Maria), nome completo que desapareceu bem antes do advento desse saber universal que é o Google. A resposta veio no quinquagésimo de segundo, afastando a hipótese de pesquisa prévia (que, aliás, não serviria de nada): "Gâmbia." Na verdade, porque ele é diplomata, escreveu em forma de dúvida delicada: "Gâmbia?"

Só confirmei o que já sabia, Seixas da Costa é um trota mundos, o seu blogue chama-se Duas ou Três Coisas, um piscar de olho ao filme de Jean-Luc Godard, Duas ou Três Coisas Que Sei Dela, sendo ela, Paris, onde ele foi embaixador. Apesar de ser sobre Paris, o filme tem como protagonista Marina Vlady (olha, outra russa pelo mundo), atriz a quem o realizador cometeu a tolice de pedir em casamento no começo das filmagens. Tendo levado com o pés, Godard nunca mais falou com a sua atriz durante a rodagem, com exceção de algumas ordens ditas para o microfone de orelha, a que ela tinha de responder olhando a câmara. Um dia, Godard atirou-lhe: "Define-te numa palavra!". Marina Vlady respondeu (e está no filme): "Indiferença." O exato oposto do que define Seixas da Costa, mesmo quando para numa estação de serviço a caminho do Marão.

Aquele breve diálogo quase trasmontano que culminou em Sacalina já me deu para três parágrafos, muitos comentários no tal blogue e, até, a poemas de amigos que partilham com Seixas da Costa uma mesa no bar Procópio, em Lisboa. Julgo que o desinteresse que os jornais colhem nos quiosques tem muito a ver com a indiferença com que eles passam por uma russa numa estação de serviço no caminho para o Marão. E, o que mais é, uma russa de Sacalina.

Um comentador do post prestou uma homenagem: garantiu que conhece uma aventura contada por Hugo Pratt na ilha russa. Estarei talvez enganado mas Corto Maltese nunca desembarcou em Sacalina. Mas há erros que revelam boa ciência: aquelas ilhas agrestes do extremo norte, com povos exagerados como os russos, cruzando-se com civilizações que desaparecem, são cenário típico do marinheiro de perfil cortado à faca. Estou a ver Corto Maltese a gostar do concerto duma nivkh, de um povo perdido que tange os tinrin, instrumentos em que, como todos sabemos, as cordas são vibradas com a língua.

A ilha Sacalina - lá vem o meu liceu, grande como Portugal, 600 mil habitantes, no extremo-nordeste da Ásia - foi disputada durante séculos pela Rússia e o Japão, e depois da II Guerra ficou soviética. Os japoneses levaram os aïnous, os russos ficaram com os nivkhs, cada um com as suas minorias, ambos povos siberianos. No ano passado, a empresa estatal Gazprom descobriu jazidas colossais de petróleo, a juntarem-se ao gás natural da ilha que já era o de maior produção na Rússia.

Já decidi, no próximo Natal vou encher o depósito a uma certa estação de serviços a caminho do Marão. Se a russa não estiver lá, deduzo que acabou a ironia da venda a retalho tão longe da grande produção (de Amarante a Moscovo, 4,5 mil quilómetros, de Moscovo a Sacalina, 9 lmil). Se a russa estiver, quero saber dos muitos portugueses que, ao longo de 2016, lhe falaram do nome da sua ilha. Se eu não ficar satisfeito com a curiosidade dos portugueses, sigo outra sugestão de Seixas da Costa e em Amarante compro lérias, papos d"anjo, São Gonçalos, foguetes e brisas do Tâmega, doces de tanger a língua."

Há dez anos, a palavra "Rússia" soava diferente aos ouvidos de muita gente. Há poucas horas, passei junto àquela estação de serviço à saída de Amarante para Padronelo e, pela enésima vez, resisti à tentação de perguntar o que é feito da russa que por lá trabalhava quando aqui escrevi o texto a que dei o título "O Dr. Ladislau e a bela russa da bomba de gasolina".

sexta-feira, dezembro 19, 2025

Os desafios da Europa

 


God bless the World

In recent years, the world has come to know Donald Trump. It has been a one-way process: the steady confirmation of his boundless narcissism, supported by a circle of loyal aides who not only refuse to restrain his most authoritarian impulses but actively encourage and applaud them.

Day after day, Trump shows an uncontrollable personality and an almost childish fascination with power. He gives speeches and takes actions whose absurdity he seems unable to recognize. It is doubtful that he understands the silent contempt and mockery his behavior provokes, even among Republicans who, despite supporting him, have a political record that suggests they should think differently. Trump appears immune to ridicule, absorbed by the power he holds and the belief that his authority has no limits. His former chief of staff told Vanity Fair that Trump “thinks he can do whatever he wants” — a statement that says it all. 

Considering his recent behavior, some now wonder if the U.S. president is showing signs of mental decline. Many of his actions seem unstable, and some childish ones — like the caricature plaques about his predecessors displayed in the presidential gallery — suggest a loss of judgment and emotional control. 

If Trump were the leader of a small country, his power would face real limits. History is full of megalomaniac dictators who, no matter how authoritarian, eventually met external barriers to their ambitions. Trump, however, commands the power of the world’s largest military force — one he likes to promote and favor. This leads some to fear that he might try to use it to remain in power, claiming an internal “war” and imposing an exceptional regime. 

With Trump, anything seems possible. What does not appear likely, however, is any institutional move to require a medical evaluation of his sanity. Even as the signs of disturbance grow — and as his actions may put global stability at risk — there seems to be no one inside the American system willing or able to stop this drift. 

Americans often say, “God bless America.” I have no faith, but I fear instead what Trump’s America might do to the world.

"God bless the World"


Nos últimos anos, o mundo aprendeu a conhecer Donald Trump. Foi um processo evolutivo de sentido único: a afirmação constante de um narcisismo sem limites, alimentado por uma corte de servidores que, percebe-se agora melhor, não só se abstêm de conter as suas pulsões mais autoritárias e arbitrárias, como as estimulam e aplaudem. 

Dia após dia, Trump confirma uma natureza incontrolável e um fascínio quase infantil pelo exercício do poder, que o leva a discursos e atitudes cujo ridículo parece não reconhecer. É duvidoso que tenha consciência do desprezo e do escárnio silencioso que o seu comportamento suscita, inclusive entre muitos republicanos que, apesar de o apoiarem, têm um historial político que apontaria para uma atitude bem diferente. Trump parece imune ao ridículo - vive enlevado pelo poder de que dispõe e pelo caráter ilimitado da sua autoridade. Sintomático disso é o testemunho da sua chefe de gabinete, que declarou, numa entrevista à Vanity Fair, que Trump “acha que pode fazer tudo o que quiser”.

O que hoje se questiona, perante a sucessão dos seus comportamentos, é se o presidente dos Estados Unidos não revela já sinais de declínio mental. Muitas das suas atitudes roçam o desequilíbrio, e o caráter pueril de algumas delas - como as caricatas placas de comentário sobre os seus antecessores, afixadas na galeria dos presidentes - parece denunciar uma perda de discernimento e de controlo emocional.

Se Trump fosse líder de um pequeno país, sujeito a constrangimentos reais no exercício do poder, haveria limites à sua arbitrariedade. A história está repleta de ditadores megalómanos que, por muito autoritários que fossem, encontraram barreiras externas às suas fantasias de grandeza. Trump, ao contrário, dispõe do poder da maior força militar do mundo - que tende a cortejar e favorecer, o que leva alguns a temer que possa tentar instrumentalizá-la para se manter no poder, invocando um cenário de “guerra” interna e instaurando um regime de exceção.

Com Trump, tudo parece possível. O que não se vislumbra, porém, é a possibilidade de uma intervenção institucional que o submeta a uma avaliação médica de sanidade. Por muito que os sinais de perturbação se acumulem - e que deles possam advir gestos ou aventuras com potencial de pôr o mundo em risco —, nada indica que alguém, no interior do sistema americano, esteja disposto ou seja capaz de travar a deriva.

Os americanos costumam repetir “God bless America”. Eu, que não tenho fé, temo antes pelo que a América de Trump possa fazer ao mundo.

quinta-feira, dezembro 18, 2025

"Janus"

Foi hoje apresentado na Universidade Autónoma de Lisboa o anuário de relações internacionais "Janus", relativo a 2024/2025, numa edição conjunta do Observare e do Clube de Lisboa / Global Challenges.

Como presidente do Clube de Lisboa / Global Challenges e investigador do Observare coube-me falar do tema que marca este número da Janus - "Guerras - as mediáticas e as esquecidas". 

Dei ao meu texto o título de "A Luisinha Carneiro vive em Kharkiv". Pode lê-lo aqui.

A unanimidade na UE


No seu recém-publicado livro "O Divórcio das Nações - o colapso da ordem mundial visto por dentro", João Vale de Almeida, um credenciado funcionário português dentro das instituições comunitárias, que ocupou os mais importantes cargos no quadro da ação externa da União Europeia, escreve este parágrafo em que muitos deviam refletir.

quarta-feira, dezembro 17, 2025

Só visto! Contado ninguém acreditaria!



Placas colocadas por ordem de Donald Trump sob as fotografias oficiais de Barack Obama e Joe Biden, na Casa Branca.

terça-feira, dezembro 16, 2025

Os caminhos da justiça

Em 2019, numa publicação no Twitter, inseri um comentário crítico sobre uma atitude de um treinador de futebol, que tinha acabado de observar na televisão. Curiosamente, precisamente por virtude do comportamento que eu tinha criticado, esse profissional do desporto viria, dias mais tarde, a ser punido pela justiça desportiva. 

Uma expressão que eu tinha utilizado nesse texto no Twitter, para qualificar essa mesma pessoa pela atitude que tinha tido, foi por ela entendida como ofensiva, pelo que encaminhou o assunto para a justiça. 

A magistrada encarregada do processo apresentou, à margem das audiências, uma proposta de conciliação que teria permitido o encerramento do mesmo: eu aceitei os termos dessa proposta, o queixoso não aceitou. 

Em 2023, no termo do processo, a justiça portuguesa decidiu que eu deveria pagar uma indemnização a essa pessoa, bem como uma multa ao Estado português e as custas do processo. Assim fiz. 

Porque sempre considerei, como afirmei em tribunal, que o que tinha escrito no Twitter se inseria plenamente dentro dos limites da minha liberdade de expressão, apresentei uma queixa sobre a decisão da justiça portuguesa junto do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem. 

Constatou-se agora que a minha diligência tinha pleno sentido. Aquele tribunal europeu apresentou recentemente uma proposta de resolução conciliatória, para eu poder desistir da minha queixa. Aceitei a proposta que me foi feita. O Estado português também aceitou, o que, pela sua parte, constitui o reconhecimento implícito de que iria ser condenado se acaso eu tivesse decidido levar o processo até ao seu termo. 

Vou assim ser ressarcido pelo Estado português por um montante que cobre a indemnização e a multa que tinha pago, bem como as custas do processo, além de incorporar uma compensação por outros danos que o curso do processo na justiça portuguesa me causou. 

São estes os caminhos da justiça.

16 de dezembro de 1965


Faz hoje 60 anos. Tudo começou numa conversa, num passeio ali pela avenida Carvalho Araújo, em Vila Real. Tínhamos 17 anos. A conversa nunca mais parou. Continuou pelo Porto, Lisboa, Oslo, Luanda, Londres, Nova Iorque, Viena, Brasília, Paris e, por fim, de novo, Lisboa. Foi - e continua a ser - uma serena aventura. Aqui chegados, o que pedimos à vida? Somos modestos: só pedimos tempo.

segunda-feira, dezembro 15, 2025

Quem negoceia?

Pode estar a haver um grande equívoco semântico quando se fala de "negociações" sobre a Ucrânia que estarão a decorrer em Berlim. Está a ser criada uma expectativa que pode ser bem ilusória. Ninguém "negoceia" nada por ali, a menos que Witkoff tenha um "mandato" russo...

Não há limites?


Donald Trump escreveu isto hoje na rede Truth Social:

"Aconteceu algo muito triste na noite passada, em Hollywood. Rob Reiner, um cineasta e estrela de comédia outrora muito talentoso, mas atormentado e em declínio, faleceu juntamente com a sua esposa, Michele, alegadamente devido à raiva que provocava nos outros através da sua enorme, inabalável e incurável aflição por uma doença mentalmente incapacitante conhecida como Síndrome de Perturbação por Trump (em inglês Trump Derangement Syndrome – TDS). Era conhecido por enlouquecer as pessoas com a sua obsessão furiosa com o Presidente Donald J. Trump, atingindo novos níveis de paranoia à medida que a Administração Trump superava todos os objetivos e expetativas de grandeza, e com a Idade Dourada da América sobre nós, talvez como nunca antes. Que Rob e Michele descansem em paz!"

Leiam bem! Este tipo de discurso "justificativo" já ultrapassa as piores expetativas.

Fiado


Deve ter dado para pagar a fiança...

Se eles o dizem...

"Raramente tenho visto um governo tão falho de ideias, a navegar à vista e sem um projeto mínimo para o país como está a ser este segundo governo Montenegro". Belisquei-me: quem me dizia isto há dias, quase sem pedir segredo, era um destacado militante do PSD. Não me atrevi a contrariá-lo...

De nada!

Posso dar um conselho para o período das Festas? Evite o tema das presidenciais. Ninguém tem uma boa razão, minimamente suscetível de ser aceite pelo outro, para justificar uma preferência em matéria de candidato a Belém.

Prova provada

A melhor prova de que a greve geral foi um êxito foi ver um político populista dar o dito por não dito e colar-se de imediato a ela, passando a defender a legitimidade e a justiça do movimento grevista. O importante é saber de onde sopra o vento...

Elucidário

Por aqui e nas televisões, devem estar a emergir comentários segundo os quais é um "exagero" considerar de extrema-direita a agenda do candidato vencedor das eleições presidenciais do Chile. Alguns diraão que se trata de um programa liberal... e ficará tudo dito!

domingo, dezembro 14, 2025

Teresa de Sousa


Desde há décadas, mantenho com a minha amiga Teresa de Sousa, que há muito considero ser a mais qualificada jornalista portuguesa em temas internacionais, um animado diálogo crítico, feito de muitas convergências e de algumas divergências - umas táticas, outras estratégicas. 

No quadro do Forum Demos, um espaço de livre debate incansavelmente animado pela serenidade inquieta do Álvaro de Vasconcelos, temo-nos encontrado e desencontrado ao longo dos últimos anos. A Teresa, tal como o Álvaro, é oriunda de um tempo de luta anti-fascista que teve como referente as ideias maoístas puras e duras, das quais estive sempre bem distante. A partir daí, inicialmente sob a influência de um certo atlanticismo tributário da Guerra Fria a que não fui sensível, ambos evoluiram para um europeismo com tons federalizantes, do qual só muito lentamente me fui aproximando, na construção de um olhar, comum no essencial, sobre o mundo que nos está próximo. 

Nos últimos tempos, voltámos a divergir um pouco: por exemplo, não olhamos da mesma forma as soluções práticas para o conflito ucraniano ou as virtualidades de figuras como Biden, Macron ou Merz. Mas, vá lá!: coincidimos, no essencial, na nossa perspetiva sobre a figura de Trump. A vida em democracia é isto mesmo: diálogo aberto, confrontação de ideias.

Teresa de Sousa vai amanhã receber um doutoramento "honoris causa" pelo ISCTE. Nada poderia ser mais justo. É a homenagem certa a uma grande jornalista, a uma intelectual de imenso mérito, a uma mulher livre, uma das figuras mais interessantes da geração política que lutou para que Abril se concretizasse e que, daí para a frente, defendeu sempre, com grande coerência, as ideias em que genuinamente acredita.

Parabéns, cara Teresa! Honra ao mérito!

Belos anos


A professora Raquel Soeiro de Brito, numa efeméride que o "Público" hoje muito justamente assinala, fez 100 anos.

Raquel Soeiro de Brito, que durante a última década encontrei no Conselho da Ordens Honoríficas Portuguesas, que ambos integramos a convite do Presidente da República, foi minha professora de Geografia, nos idos de 68, no ISCSPU - isso mesmo, com um "U" no fim, como o Ultramar que o país então "tinha". Isso passou-se há 57 anos. 

Numa dessas suas interessantes aulas, que os alunos não esqueciam, ela contava a aventura que havia sido a missão que desenvolveu nos Açores, por ocasião do surgimento do vulcão dos Capelinhos, acompanhando o histórico geógrafo Orlando Ribeiro. O acontecimento tinha ocorrido uma década antes, em 1957, fez agora 68 anos.

Olhei para a minha estante e deparei com a primeira edição da mais clássica obra de Orlando Ribeiro - "Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico". É de 1945. Há 80 anos.

Tantos mas belos anos!

Muito parabéns, cara Professora! 

Poodles

Entre nós, a nova estratégia de segurança dos EUA está a fazer as delícias do comentariado da extrema-direita e aparentados. Nas redes e nos jornais, apressaram-se a gabar a "sensatez" do texto e a radiografia da Europa ali desenhada. Os nossos "poodles" daquela América nunca surpreendem!

sábado, dezembro 13, 2025

Mundos & Fundos

O arresto dos fundos russos pela UE é perfeitamente coerente com a postura que esta tem assumido face à causa ucraniana. 

Contudo, é bom ter claro que, para sempre, a Europa vai perder a imagem de um espaço confiável para depósito de valores internacionais. 

sexta-feira, dezembro 12, 2025

Comentários


Desde há meses, por razões que expliquei, deixei de admitir comentários no blogue. Vários amigos, contudo, continuam a alimentar a ideia de que a vida por aqui se torna bastante mais animada com a existência de comentadores. Não duvido. Contudo, ela também se torna-se frequentemente mais turbulenta e polémica, o que me obriga a ser bastante seletivo e, por isso, desagradável para alguns. Enfim, não se pode ter o melhor de dois mundos. Mas "let's give it a try". A partir de 1 de janeiro de 2026, o blogue voltará a aceitar comentários.

Alfenim


Posso confessar um segredo? Até há uns meses, só vagamente tinha ouvido falar do alfenim. Hoje, na Casa da América Latina, como presidente do júri do Prémio Científico Mário Quartin Graça, anualmente atribuído uma tese de doutoramento em Ciências Sociais e Humanas, anunciei a premiação de um estudo universitário sobre a trajetória histórica, no espaço ibero-americano, dessa massa de açúcar que é conhecida como alfenim. Da autoria da historiadora brasileira Amanda Geraldes, a tese revela o percurso interessantíssimo daquele produto, ao longo dos tempos e das civilizações. No meu caso, quase que senti uma "vergonha" dupla: só recentemente vim a conhecer melhor o alfenim, muito embora seja vice-presidente da Academia Portuguesa de Gastronomia e presidente da Assembleia Geral da Associação Protetora dos Diabéticos de Portugal. Aprende-se até ao fim da vida! 

2026

Pronto! Façam favor de comentar aqui no blogue, se acaso quiserem. Já está re-aberto o espaço de comentários. E tenham o melhor ano de 2026 ...