Cresci no número 23 da Rua da Ascensão, no 27 vivia a Palmira, muito apreciada por todos. Voz doce, suave, diria até frágil, parava muita vez lá à porta e trocava dois dedos de conversa com a minha mãe.
“Ai esta rapariga, coitada(!), não tem sorte nenhuma!” – Repetia (invariavelmente) a minha mãe enquanto fechava a porta e começava a contar ao meu pai as desgraças mais recentes na vida da outra. Eu limpava as bochechas do beijo da Palmira, guardava o rebuçado que ela me oferecera no bolso, e ia brincar. Nunca comia o rebuçado, não que não fosse gulosa, mas havia nela qualquer coisa que me perturbava e tinha nojo dos rebuçados. Imaginava-a em casa, a dar uma lambedela em cada um, e a voltar a embrulha-los. Naturalmente nunca disse tamanho disparate à minha mãe, e se o tivesse feito, ter-me-ia rendido (no mínimo) um enxota moscas.
De vez em quando a Palmira levava-me a passear com ela, convidava-me e eu ia, aceitava sempre numa mistura de medo de a contrariar e culpa, a pobrezinha estava tão sozinha e tratava-me sempre tão bem, que me sentia culpada pelos pensamentos macabros que ela despertava em mim. Um dos sítios onde íamos sempre era acender uma vela a nossa Senhora.
“Para ajudar o meu Porfírio onde ele estiver, e quem sabe um dia trazê-lo de volta.” Dizia-me.
Não me lembrava dele, eu era muito pequena quando, segundo se dizia, ele tinha fugido com uma amante – “Ordinarão! Com uma mulher tão boa em casa.” – dizia sempre a minha mãe. Havia histórias em que se contava que o tinham visto lá para os lados de Lisboa, mas a verdade é que nunca se soube bem o que tinha sido feito dele. A cada boato que surgia, a podre Palmira enrugava na sua tristeza. Não tinha sorte nenhuma, mas ainda assim, mantinha a fé e acendia uma vela por ele à Santa. Curiosamente colocava a vela sempre no mesmo sítio, o lugar mais alto do queimador, se por um acaso lá estivesse outra ela tirava-a e colocava a dela.
“Não olhes assim para mim rapariga. Não vês que o meu Porfírio precisa muito que nossa senhora o ajude?” – Nesses momentos parecia-me perversa e eu sentia-me culpada por o pensar.
A Palmira envelheceu cedo, diziam que pela dor e pela solidão, nunca se lhe conheceu outro homem, era uma mulher séria. Na boca de muitos, praticamente uma Santa. Merecia melhor sorte. Teria ela uns 50 e tal anos, quando se começou a vê-la falar sozinha pelas ruas e a dizer que os ouvia – “Larguem-me demónios” – gritava. Logo ela, que sempre tinha sido tão boa… pobrezinha, não tinha tido sorte nenhuma. Morreu ainda antes de completar os 60, carcomida pela solidão, pela tristeza e pela loucura. Pobre Palmira. Fechou-se o número 27 da Rua da Ascensão, sem o Porfírio ter voltado.
No ano passado o sobrinho dela começou a fazer obras na casa. No chão da sala encontraram três ossadas, um adulto e dois bebés. Disseram depois os especialistas que foram enterrados em alturas diferentes, primeiro, uma menina recém-nascida e um homem adulto, uns anos depois um rapaz também recém-nascido.
Eu (?), tenho pesadelos com a Palmira, e um medo terrível de gente boazinha…