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Yesss

encontrei a caneta!


A caminho de Santiago (1)

Hesitei, e ainda hesito, em trazer para aqui a cronografia da nossa caminhada. Receio que se esperem um rol de fotos, com riachos, pôr-de-sóis, e caminhos rurais exuberantes. Tenho disso, muito, e isso será certamente o que melhor conseguirei partilhar. Mas gostaria tanto de o conseguir fazer com as outras paisagens que esta viagem nos trouxe.

Esta caminhada que fizemos, eu e o Diogo, é uma história fantástica que nada tem como se contar. Houve coisas, a cada passada mais, que fomos descobrindo no fundo de nós, uma pulsão que desconhecíamos absolutamente e que não se alcança com palavras.

Serão elas o reflexo da longa trajetória da humanidade algures em nós? Não sei. Não as justifico nem tento descodificar. Não tenho nada de místico e por isso abdico de estabelecer uma relação com as memórias herdadas da nossa ancestralidade. Seria até o mais fácil. A estatística a justificar que 99% da nossa existência humana se desenrolou a caminhar sobre o mundo e que isso nos fará cúmplices desta natureza de modo muito mais mergulhado do que supomos, quando nos despimos dos artefactos que inventámos e que hoje a toldam. E que a força disso, nos nossos memes, nos possa arrastar, de forma súbita e imprevista, para uma inesperada viagem para dentro de nós, nesse imenso território do nosso inconsciente. Mas, como disse, eu, engenheiro das coisas físicas e mensuráveis, não cairei no logro de tentar decifrar o que não tem palavras nem uma métrica onde me possa poiar.

Posso simplesmente declarar que encontrámos homens de sorriso aberto que caminhavam há meses sem parar, sem procurar nada, apenas fazendo disso desígnio, sem ponto de chegada. Visitámos um mundo vestido de cores, mar, chuva e sol, e montanhas onde viviam cavalos perdidos em estado selvagem, em que pela primeira vez nos sentimos humildes visitas e não proprietários de tudo isso. Testemunhámos famílias que pararam no meio de uma floresta perdida e empapada de chuva para simplesmente nos oferecerem um chocolate quente no frio gélido das montanhas de março.

Nesse planeta que nos era estranho até então, que não se compra nas agências de viagens, assim o fomos cumprindo dias a fio, com o pesar da caminhada, o descanso, as intempéries e os trilhos tormentosos, e nele fomos descobrindo a paz e a surpreendente natureza, do mundo e dos homens.

Cada passada, cada dia passado, foi entranhando esse mundo que afinal desconhecíamos. E foi-o de tal forma que essa manifestação infinita da natureza caminhou também ela, para dentro de nós. Há viagens que a gente faz, e outras que nos fazem a nós. A cada dia que parávamos, desfalecidos, mas orgulhosos, sentíamos essa pulsão. Bebíamos um copo de vinho, recolhíamos o trilho feito para dentro de nós e sorríamos em silêncio. Também nisso tive sorte. Ao poder fazer esta caminhada com alguém especial, que sabia aguardar pelo meu cansaço, que tinha o mesmo ritmo que os meus silêncios, que seguia no mesmo desvario que eu, fui também conhecendo melhor o meu filho. Nunca com tão pouco, pouco mais que umas botas e uma mochila, tive a oportunidade de conhecer tantas coisas verdadeiramente importantes.

Enfim. Sim, tentarei aqui trazer breve reportagem fotográfica, em modo cronológico, desta nossa singular caminhada. Mas não se espere muito, pois sou péssimo fotógrafo. Arriscarei até juntar alguns relatos e pequenos dislates circunstanciais que a cadência da caminhada foi estimulando. Mas fica tanto por contar, tantas coisas que não se desenham com palavras.

Comecei por dizer que : Esta é uma história fantástica, mas que não tem palavras que a contem. Oxalá assim possa permanecer dentro de mim. Apesar de tudo, continuarei agnóstico. Lido bem só com o mundo, o homem e a minha própria natureza.


Abrunhal

(na morte do João Oliveira, out. 2016)

O Abrunhal, lá na beira baixa, era o território incontornável das férias grandes da minha infância. Recordo por lá o entusiasmo incontido com que recebíamos  as suas indicações, apontando sempre para espalhafatosos planos em que fazíamos de cúmplices da sua rebeldia. E assim nos entretinha pela tarde fora, sem isso do ‘mais velho’, apenas fazendo andar em nós a sua própria irrequietude, nisso divertindo-nos a nós também.

Hoje, a sombra por baixo do enorme medronheiro que abrigava tantas das nossas brincadeiras ficou mais desabitada. Já somos só dois. Ressoam risos, ainda, a coberto da canícula do verão, por debaixo do medronheiro. O medronheiro que por lá continuará. E ele também, nesse espaço da infância que viverá sempre dentro de nós. E os gambozinos, que ele nos ‘ensinou’ a caçar.


Entardecer

Caminho agora mais devagar, porque já me cansei de tanto correr. Sorrio mais, porque já não encontro sentido no que me fazia rir desbragadamente. Vou cada vez mais ignorando o que antes me levava ao descontrolo. Os meus olhos emudecem-se mais vezes, mas já não só pelas coisas tristes. Noutros tempos em que a vida e o corpo me levavam sôfrega e desenfreadamente, pensava que envelhecer seria trazer mais cansaço, um faltar de energia que nos ia fazendo mais mansos. Não é. É apenas ela a fazer o tempo mais devagar, a trazê-lo para o nosso passo, agora mais curto e demorado.

Estraguei imensas coisas, atropelei muita gente, magoei-me tantas vezes por coisa nenhuma, sempre nesse correr de chegar mais depressa e mais longe a um lugar qualquer. Agora a vida traz-me menos velocidade, e sem essa vertigem há uma serenidade lenta que acontece. Esse banco onde mais vezes me vou sentando, como quem pausa à beira da estrada, e onde por vezes já consigo ver as cores e os detalhes das coisas que passam por mim e até o sentido das coisas que os outros me querem dizer quando se calam – quem diz que se ouve pior quando aqui chegados, fala simplesmente da acústica, não do escutar. E já consigo olhar para eles quando olham para mim. Mas olhar mesmo. Às vezes admirá-los. Dantes quase só tinha tempo para me admirar a mim.

Envelhecer não é ser mais trôpego e lento. É apenas ir ficando sentado mais vezes e mais demoradamente nesse lugar que a vida agora nos oferece para podermos fazer as pazes connosco e fruir do que outrora não tivemos tempo. Um dia dirão que a minha cabeça já não é o que era e, de lá do fundo dessa pressa, amigos, alertarão até para cuidados médicos. Talvez venham a perceber que não somos nós a desligar. Que estamos simplesmente a deixar-nos ficar mais tempo sentados nessa pedra à beira da estrada. E não há pressa nisso. É só isso. Deixarmo-nos ficar, poder ir indo.


(das coisas que me arrependo de ter escrito no FB)

Tu não choras pelos que partem. Choras porque ficas sem eles. A dor é tua, não deles. Há um estranho mecanismo que nos faz transportar essa pena para eles, como se eles a sofressem, que não exclusivamente nós. E isso, julgá-los em perda, com dor, cerceados do que tinham para viver, seja o que isso for, faz-nos doer muito mais. O luto tornava-se tão mais sofrível se o não fizéssemos, se sentíssemos que apenas tínhamos de enfrentar o nosso sofrimento. Que, fosse qual fosse o caminho que eles haviam trilhado, o tinham cumprido. Mas em nenhum de nós se manifesta essa capacidade de racionalizar a morte. Projectamo-la neles, nos que partem, e deixamos de dominar a nossa dor. Na verdade, nunca a dominaremos.


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