[go: up one dir, main page]

dezembro 31, 2003

FIM DE ANO. Do outro lado do mar chegam risos, é bom ouvi-los. Dizem que a rainha do mar está de braços abertos nesta noite. As princesas vestem-se de branco e dançam na praia, o que é uma vantagem de sensibilidade sobre o mundo que, deste lado, se esgota numa madrugada de ressaca.

LIVROS DO ANO, 6. {Poesia} José Bento, Alguns Motetos (Assírio & Alvim).
José Tolentino Mendonça, que organiza o livro e selecciona os poemas, diz que a poesia de José Bento segue uma «condição quase clandestina». Há outra coisa admirável nesta poesia (como na do próprio Tolentino, na de Osório, Franco Alexandre, J. Alberto Oliveira, Mexia, ou na de José Agostinho Baptista, entre outros), que Tolentino nota: a sua perseguição dos caminhos secundários. A alegria destes versos vem desse «diálogo com os clássicos», coisa a que nos temos furtado tão abundantemente: «O rio ou o olhar que, de tão lento e lúcido,/ nos delata o que somos, impiedoso,/ até nos acusar do que ignoramos/ é-nos menos hostil do que o desprezo/ de quem nem a mercê gratuita nos concede/ de um sobejo, um aceno, um mudo insulto.»

LIVROS DO ANO, 5. {Romance} Antonio Muñoz Molina, Sefarad (Editorial Notícias).
O tema de Sefarad é o cenário de morte que se estende através do nazismo e do comunismo. A editora portuguesa alterou o subtítulo («Entre o Nazismo e o Comunismo, Um Romance sobre o Exílio.») para o amenizar na capa («Entre o Nazismo e o Estalinismo»), num exercício de marketing político para salvar o mercado ideológico, separando artificialmente comunistas e estalinistas. Kafka está presente em todo o livro, como uma sombra tutelar que não larga os criminosos, para que não esqueçamos as suas vítimas, ou seja, os perseguidos do nazismo e do comunismo. Já ouvi dizer que se tratava de um «romance perigoso»; reconheça-se alguma coragem nesta hipocrisia: é tão corajosa como maldosa, porque estes crimes não prescrevem. Sefarad é, por outro lado, um texto sobre o exílio, sobre os que vivem nessa dimensão extraterritorial sem pátria que não seja toda a superfície de uma fé, um livro, um amor inconcluído.

LIVROS DO ANO, 4. {Ensaio} Harold Bloom, Gênio (Objetiva [Brasil])
O livro leva o subtítulo «Os 100 autores mais criativos da História da Literatura» e o título original é Genius. A Mosaic of One Hundred Exemplary Creative Minds (edição de 2002 nos EUA, de 2003 no Brasil, o que é trabalho sério para quase 900 páginas). O que me intriga é saber que Bloom assusta tanta gente, sobretudo ignorantes e modernos. Tenho cada vez mais uma reacção à flor da pele contra os modernos, e acho que isso se deve à sua falta de inteligência cada vez mais evidente. Bloom não é um guru, e tem coisas vagamente irritantes (a sua guerra surda com Steiner é uma delas, quando diz que não o conhece), mas a forma como lê a literatura do mundo é fascinante, liberto dos complexos de criatividade e da histeria que destrói a serenidade da leitura. Camões, Pessoa, Eça, Machado de Assis são os autores de língua portuguesa que distingue nesta lista de cem autores. Camões, como o texto «mais politicamente incorrecto», a flor do épico; depois Eça, em A Relíquia, pelo peso do erotismo; Pessoa (ao lado de Whitman e de Crane) como o génio múltiplo: «Pessoa, poeta cuja pureza se compara à de Valery, Crane, Lorca e Wallace Stevens», e a uma outra lista onde estão Elizabeth Bishop (leiam, por favor) ou John Ashberry e Dickinson. E, remotamente, herdeiro de Shakespeare, Keats, Shelley e Browning. Finalmente, justiça de Bloom em relação a Machado, que, com Eça, situa no mesmo grupo de Flaubert, Borges ou Calvino: Memórias Póstumas de Brás Cubas é o eleito, como o grande livro sobre a mortalidade.

LIVROS DO ANO, 3. {Poesia} Daniel Faria, Poesia (Quási)
Daniel Faria é uma revelação para muitos de nós. Sim, estivemos desatentos durante muito tempo, entretidos a ler os herdeiros de Herberto e os poetas de museu. Homens que são como Lugares mal Situados é um livro fantástico, de 1998, e Dos Líquidos uma obra de referência na poesia de hoje (é de 2000). Enquanto nos entretínhamos, Daniel Faria morreu. A sua obra foi publicada pela Quási e está a entrar em reedição.«Homens que são como lugares mal situados/ Homens que são como casas saqueadas/ Que são como sítios fora dos mapas/ Como pedras fora do chão Como crianças órfãs/ Homens sem fuso horário/ Homens agitados sem bússola onde repousem/ Homens que são como fronteiras invadidas». Lê-lo é prestar-lhe homenagem e, simultaneamente, rir do sistema literário que não vê dois palmos à frente das suas prateleiras e cumplicidades.

LIVROS DO ANO, 2. {Ficção} Richard Zimler, Meia-Noite ou o Princípio do Mundo (Gótica).
Quem gostou de ler O Último Cabalista de Lisboa (1996, Quetzal) sabe que se tratava de um primeiro volume; o resto da trilogia apareceria. O segundo volume é Meia-Noite ou o Princípio do Mundo, uma história dividida em duas partes: a primeira passa-se no Porto, durante as invasões napoleónicas, e o seu personagem é John Zarco, um rapaz que se descobre judeu secreto, herdeiro de todas as perseguições que foram feitas aos judeus; é um mundo triste, cheio de lama, esse Porto de 1800 (curiosamente, o Porto não fez autos-de-fé, não acendeu as fogueiras da Inquisição), onde chega Meia-Noite, um escravo liberto africano, com quem John se salva de vários perigos. A segunda parte passa-se nos campos de escravos da Carolina do Sul, no outro lado do Atlântico, e é uma longa elegia contra o racismo, a escravatura e a crueldade. São dois tipos de extermínio: o dos negros e o dos judeus, num romance escrito à maneira clássica, assumindo o risco do romance histórico tradicional. Zimler é uma pessoa de grande sensibilidade.

LIVROS DO ANO, 1. {Ficção} Mário de Carvalho, Fantasia para Dois Coronéis e uma Piscina (Caminho).
O ano estava a terminar sem um livro que se risse muito de nós próprios. Estava triste e banal, cheio de ressentimento. Mário de Carvalho escolheu a ironia, o riso, a gargalhada, a comédia. E fez bem, fez-nos bem. Escolheu falar do país tagarela, falador, excessivo, falho de seriedade e de inteligência. Dois coronéis (Bernardes, que foi de esquerda, Lencastre, que foi de direita), duas mulheres (a fabulosa Maria das Dores, campeã na arte de utilizar palavrões e que está a escrever uma tese sobre História da Arte em Évora), um vedor chamado Samuel Elói (fantástico, personagem saborosa), um rapaz que gosta de grafiti e de tags, um mundo colorido. E, até, um personagem virtual como o «tio de Samuel Elói», que aparece para brincar com o narrador e corrompê-lo com notas de euro, para que ele trate melhor o seu sobrinho no romance.
Não tenho dúvida de que se trata de um dos livros do ano. É um dos livros mais divertidos de Mário de Carvalho.

LIVROS DO ANO. Durante os próximos dias, aparecerão pequenos textos com este título. O resto não me apetece comemorar. Nem os blogs. Os livros, muitas vezes, são a única coisa pública que fica (o resto, ou é uma grande alegria no coração, que não se pode partilhar em balanço nenhum, ou não merece ser distinguido). Por mim, para já, escolherei os livros.

CASA PIA. De repente, toda a gente sabe onde estava no dia tal, e que o dia tal era o dia em que aconteceram tais coisas. Não é extraordinário?

ESTRANGEIROS E EMIGRANTES. Vários estudos europeus têm dado conta de uma situação alarmante em relação ao nosso país. Eu tenho sérias dúvidas sobre a metodologia de alguns deles, mas reconheço que nem todos podem estar errados. Já não me comovem os estudos sobre a depressão nacional e sobre o estado de infelicidade que aparecem em algumas dessas sondagens europeias – fazem parte do chamado estilo português e são o resultado de duas décadas que, tendo sido prodigiosas em termos de transformações sociais, foram menos sérias em outros aspectos. O chamado défice (eu escrevo o chamado défice porque uma larga percentagem de portugueses desconhece do que se trata) é o resultado dessas duas décadas de asfalto, betão, fomento de uma indústria de corrupção e de subsídios, diminuição nos investimentos em ciência e educação, férias no Algarve e telemóveis ao desbarato. Isso tinha de ser pago. Estamos a pagar. É bom que não se esqueça.
Mas há um dado incómodo, ao qual os portugueses dão pouco relevo – mas que tem na sua base uma questão de carácter e uma matéria de sensibilidade geral. Tem a ver com as questões da emigração e com o racismo.
O ministro Paulo Portas acha que o império nunca foi racista, que o colonialismo português foi sempre benévolo e carinhoso. Trata-se de uma mistificação alarve e, em certa medida, criminosa. Criminosa porque, dita desta maneira, ignora parte essencial da nossa História, como se tivéssemos de esconder de nós próprios as chagas que transportámos; alarve porque tem objectivos políticos menores e banais, evidentes a olho nu. Sim, o nosso império era provinciano, a nossa crueldade foi relativa – se comparada com a brutalidade espanhola e o racismo anglófono. Mas nada nos autoriza a essa lavagem indigna do nosso passado. Nessa matéria – e como escrevi um livro com o título Lourenço Marques, em que defendi o direito de os portugueses assumirem a sua margem de felicidade africana – não deve haver preconceitos.
Mas o pormenor mais assustador tem a ver com os emigrantes que neste momento vivem em Portugal. As posições adoptadas pelo PP, nomeadamente, no que diz respeito à entrada de cidadãos estrangeiros e em matéria social e assistencial, parecem-me próprias do pior que há em nós, e que esses estudos europeus têm revelado: os portugueses têm escondido, lá no fundo, um pequeno pecado racista, e são os europeus menos receptivos a acolherem cidadãos emigrantes. Não é motivo de orgulho. Portugal, nessas duas décadas prodigiosas (retiro a expressão a António Barreto) utilizou a emigração como motor de desenvolvimento. Fez pontes e estádios com fundos europeus e emigrantes de Leste e de África. Nem sempre tratou bem esta gente. Se um dos partidos da coligação no governo se prepara para adoptar políticas de exclusão em relação à emigração e aos emigrantes, isso constitui – claramente – uma pulhice. Política e humanitária.
Portugal tem enriquecido o seu tecido social com essa presença de brasileiros, de gente de Leste, de africanos. Os brasileiros que estão em Portugal, ao contrário do velho racismo português, deram-nos lições de abnegação, de esforço, de criatividade e de alegria. Os emigrantes de Leste são uma das forças de trabalho qualitativamente mais honestas e sérias que temos entre nós. Os africanos, isolados e metidos em guetos em redor de Lisboa, são a memória desse racismo que não conseguimos controlar nem dirimir.
Ignorar essa gente, tratá-los como cidadãos de segunda categoria, diminuir os seus direitos, escondê-los, é vergonhoso. Não sou sensível ao discurso monótono da esquerda sobre o assunto, porque também acho que ser de esquerda não tem nada a ver com isso. Basta estar acordado.

dezembro 29, 2003

NÃO. Devia escrever mais vezes «não» desde que o Ter que Ser Português resolveu contabilizar, numa folha de excel, todas as ocorrências da palavra «não» no Aviz: «188 vezes desde 1 de Outubro», ou seja, «1,4% das palavras escritas». Ah, ironias do «patrulhamento ideológico»... Não gosto do frio. Não gosto do Inverno.

LAMENTOS. Frequentemente a queixinha aparece elevada a arte; é quando é mais ridícula. Ao folhear a imprensa atrasada vejo uma entrevista do ex-ministro Catroga a queixar-se de que Portugal não tem elites e, talvez pior para ele, não tem capital. A queixinha (tirando aquilo em que o «Praça Pública», pela televisão, transformou Portugal) é isto mesmo: vejam, faltam-nos elites, falta-nos capital; como podemos nós fazer um país de uma coisa destas? De facto, o ministro Catroga nunca poderia representar nenhuma parte das nossas elites.

dezembro 28, 2003

A NOITE, O QUE É?, 35. Quando eu chegar, alguma coisa chegou antes de mim. Visitarei a relva da grande tarde, a sombra das árvores, a mesa das refeições. Serei aguardado enquanto durar o meu coração. Entretanto, oiço a voz como uma recordação, o último gesto dos aeroportos.

A NOITE, O QUE É?, 34. Abrir um caderno {The night writing} e escrever pela noite fora, enquanto não chega o Inverno. Nunca se escreve tudo, nunca se chega ao fim. Agora, que olho os teus olhos, sei como se começa a escrever pela noite fora, como se ouvem os ruídos, como se ouve a respiração. Ao recuperá-la, não se perde de novo, não se adormece sem ouvir essa voz a que sempre se pertenceu. A noite é isto, afinal, chegar e partir, enfrentar as horas, esperar.

O MEDO DO INVERNO. O Aviz tem esta característica lamentável e não-periódica: de vez em quando, cala-se. Depois, regressa como se não fosse nada. E não é.

dezembro 19, 2003

HANNUKAH. Hoje é véspera de Hannukah, a semana que assinala o milagre da luz, o milagre do tempo — e a o milagre da sorte. Interrompe-se o silêncio para assinalar a festa das luzes. Depois, voltará o silêncio sobre a noite, sobre o dia, sobre o Inverno.

Há semanas, dias, alturas em que o silêncio é a única resposta a um mundo que anda muito tagarela — mas a culpa não é do mundo, não. Não dou voz a tamanha arrogância; o mundo é como é, e como já há muito se sabia. De resto, o Aviz tem esta característica lamentável e não-periódica: de vez em quando, cala-se. Não é por mal. Só que não há muito a dizer — nem sobre o circo à volta de Saddam, nem sobre as metas do défice, nem sobre a constituição europeia, nem sobre literatura. São ondas, coisas que vão e vêm, que se soltam às temporadas. Todos somos um pouco errantes, um pouco.

dezembro 13, 2003

MAIS CÉU. Com o fim do dia há mais coisas que desaparecem no lugar onde a noite brilha. Precisamos sempre de promessas.

VÉU, KIPPAH E OUTROS SINAIS, 1. Devia existir, na proposta de legislação francesa, um tom mais cuidado — não se trata apenas de puro jacobinismo. Como reconhece Pacheco Pereira, não é uma questão simples. Provavelmente, é «uma das questões menos simples». Por um lado, está em jogo a ética republicana e a necessidade de manter os sinais do estado laico — a ideia de um estado laico é uma das condições essenciais da democracia. Por outro, a imposição de um «grau zero» que se traduz pela proibição de usar véu ou kippah nas escolas, por exemplo.
Há questões que não são acessórias neste debate — por agora apenas franco-alemão (uma delas tem a ver com a recusa das mulheres muçulmanas em serem atendidas por médicos-homens em hospitais públicos). Do ponto de vista ocidental, há uma certa normalidade no debate, que sustenta a existência de regras civilizacionais e culturais que não podem ser postas em causa pelo uso de símbolos como o véu islâmico ou o kippah judaico, por exemplo. O Nuno Guerreiro escreveu um texto curioso no seu blog, que troca os pontos de vista, e que merece ser lido com atenção: o que significa o uso de véu ou de kippah para uma muçulmana ou para um judeu, respectivamente?
O que eu acho temível é o optimismo manifesto dos defensores da proibição, como o ministro francês dos Assuntos Sociais: a sua ideia de uma «integração liminar» na República desta forma simplista, que visa manter a «ordem pública».

CANDURA, SERÁ ISSO? A candura é uma coisa que se descobre em certos momentos — instantes fugazes — sobretudo numa época de ressentimento geral. Há pessoas em quem se descobre essa candura, apesar de tudo o que as separa de nós. Será isso?

RESSENTIMENTO, 2. E o ressentimento está ligado à vigilância permanente, às comparações abusivas, ao controle à distância, ao patrulhamento ideológico. E se não está, é meio caminho.

RESSENTIMENTO. O ressentimento apoderou-se da blogosfera nos últimos tempos sob a máscara do debate. Não, não é que deva existir um debate «frouxo», inócuo — falo dos termos do debate. Mas, como tenho dito várias vezes, longe de mim tentar propor «um tom», seja lá isso o que for, uma espécie de norma bem-educada de dizer as coisas. Às vezes, basta ler os adjectivos — quando não há nome (designação, pessoa, outro, coisa) que não tenha um adjectivo por perto.

Evidentemente que o «ressentimento» é outra coisa, uma espécie de marca da cultura oficial contemporânea. Por exemplo: todo o texto que nos é estranho passa por ser a manifestação de um pecado original; os outros transportam sempre um vírus. Nesses casos, até o riso é feito de ressentimento.

A NOITE, O QUE É?, 33. As noites duram meses, pequena medida para a vida toda que nos aguarda. Por vezes, um relâmpago no meio do Inverno é tudo o que lembramos desse tempo de espera; mas há mais: duas frases, um mapa estendido na mesa, promessas. O que brilha mais na noite nunca tem nome certo, nessas alturas pouco importa o resto, tudo o resto.

A NOITE, O QUE É?, 32. A meio da noite, nem todas as perguntas são inquietas. Há umas mais do que outras, mas eu pergunto invariavelmente pelo que mudou a minha vida — uma varanda sobre a tarde, sobre o mundo, sobre a relva do mundo, as árvores magníficas, o riso, cheiro do café, os livros, a estrada dos coqueiros, a cor do mar. O que tranquiliza a noite, depois, são os sonhos em que encontro as coisas que amo.

dezembro 12, 2003

MARCELO E O FIM DE UMA ERA. O Pedro Peixoto, do blog Intimista, comenta, por mail, o texto anterior sobre «o riso de Marcelo»; diz o Pedro: «Ao ler os seus últimos posts deparei-me com um deles, em que ironiza com a risota incontrolável do Prof. Marcelo à frente das câmaras da TVI. Afirma o distinto Viegas que tal comportamento constitui “o fim de uma era”. Desculpe a minha ignorância, mas fiquei sem perceber a que se refere. É que não acredito que a popularidade do Prof. Marcelo resvale pela atitude humana que teve, pois rir é das melhores coisas que se pode fazer. Aliás, até penso que o riso de Marcelo o favoreceu, pois aos olhos do povo fica bem que os políticos deixem de ter o ar demasiado sério que costumam ostentar. Neste aspecto, Marcelo, sem querer, voltou a primar pela diferença...»

UM CONCURSO COMO OS OUTROS. Aconteceu num debate na universidade de Bir Zeit, na Cisjordânia, entre activistas do Hamas e da Fatah. Pergunta o representante do Hamas: «Hamas activists in this university killed 135 Zionists. How many did Fatah activists from Bir Zeit kill?» Como a notícia vem na Associated Press, não duvido.

dezembro 11, 2003

PORMENORES GRÁFICOS. Os leitores do Aviz que usam Macintosh (excepto OsX 10 ou superior) continuam a ter problemas ao usar o Internet Explorer — terão de escolher Unicode ™ UTF-8. Nos browsers Netscape, Opera ou Safari não existem esses problemas. Vamos resolver isso.

BOLSAS, 2 Escreve, por mail, o António Fonseca (que mantém o blog Formato 1): «Se “correr por gosto não cansa” porque é que escrever literatura por gosto há-de cansar ao ponto de tal ser compensado por decreto? Todos sabemos que não vivemos num sociedade igualitária em oportunidades, mas há coisas mais importantes do que a criação artistica para usar dinheiros públicos: a saúde, a educação, a segurança, as infraestruturas económicas, e a preservação da arte, dos costumes, do saber e do bom gosto. A criação artística, situando-se no domínio do simbólico, como aliás manda o bom senso, não deveria ser subsidiada ao nível do criador mas do consumidor. Para a poluição ambiental há muito que se chegou à mesma conclusão e que é o método adequado e mais justo, claro que no sentido contrário.»

dezembro 10, 2003

ESCRITORES, EDITORES, BOLSAS. Recebo do Nuno Seabra Lopes — editor — um mail sobre o texto «Bolsas». É como segue:
«Concordo plenamente consigo quando afirma não gostar da ligação (e aproveitamento) entre política e criação cultural, presumo que pelos mesmos motivos. Por outro lado, não vislumbro qualquer necessidade de atribuir bolsas de criação dado que em muitos casos a sua aplicação não traz nem um aumento de obras, nem um real valor cultural. Não há, nem deixa de haver, uma associação directa entre o valor entregue por bolsa e o aumento da genialidade do autor, ou sequer de qualidade visível das obras. Se um autor tem qualidade, a qualidade dele não depende do valor entregue.
É igualmente verdade que falamos de uma profissão (ainda que muitos só possam nela trabalhar em
part-time ) e, como tal, requer o devido rendimento pelo trabalho despendido. Mas é aí que entramos em semidesacordo...
Realmente o valor auferido pela venda de uma obra é muitas vezes irrisório e, de todo, poderá pagar o tempo ou trabalho lá despendido. Mas discordo consigo ao atribuir as culpas excessivamente para o quem lhe está directamente a montante: os editores. A injustiça não está nas percentagens porque, se fizer os cálculos, o valor que recebe por obra não varia assim tanto do valor que a editora recebe pela venda líquida das obras. Se, porventura, recebe 10% do preço de capa (valor padrão) recorde-se que o editor vende às livrarias por cerca de 50% do valor de capa. A esses 50% terá que retirar os seus 10% (que saem directamente destes 50%), terá que retirar igualmente as despesas externas da gráfica (regra geral), que saem a pelo menos 15% do valor final (com sorte!), valor esse que sai também da parte da editora.
Com isso temos 50-10-15= 25%. Depois temos que pagar o imposto à Dr.ª M.F.Leite! Temos que pagar as despesas das pessoas que colaboraram na feitura da sua obra. Relembro-lhe que só em revisões (2 provas com confrontação, por exemplo) podem sair 5% do valor total da obra. Se contar com despesas correntes de paginação, mão-de-obra, concepção da capa, luz, água, papel, segurança social, blá, blá, blá... verá que o valor que sobra não é elevado. A grande diferença é que o editor recebe pequenas parcelas de inúmeras obras. Porventura terá sorte numa ou noutra obra com melhor saída comercial mas, conhece o mercado português e sabe que um sucesso em Portugal é muito pouco para um autor ou uma editora.
A culpa? Certamente dos editores e de todos os restantes actores culturais. Não há um mercado decente nem real vontade de o criar. A aposta na qualidade e na inovação é reduzida e as editoras têm vindo a sobreviver graças às evoluções tecnológicas que lhes vão caindo milagrosamente em cima e os subsídios absurdos e raros que tornam muitos editores em esmoladores sem noção da profissão.
Os autores devem lutar por receber os valores devidos das cópias piratas (fotocópias e companhia) devem fomentar a venda dos vossos livros por intermédio de animações várias e constante esforço de promoção – também vos compete vender o fruto da vossa profissão. Deverão chatear constantemente as editoras para que façam um bom serviço de distribuição e venda das obras. Deverão lutar por direitos de rescisão de contrato, valores de direitos subsidiários, obrigações de promoção e venda de direitos, etc. Devem também estar atentos às muitas trafulhices que se vão fazendo por este meio, muitas delas são tão estúpidas que servem somente para evitar despesas em vez de servirem para ganhar riqueza.
Não quero defender a minha profissão opinando contra a sua, isso seria ridículo e pouco condicente com a minha e a sua forma de pensar (presumo). Há realmente muita culpa nos nossos editores, muita falta de formação e profissionalismo, muita gente que entra no meio com ideias giras e poucos conhecimentos de edição ou gestão. Assim, acabam por criar projectos com fraca viabilidade e pouca garantia de crescimento e qualidade. Portugal é assim mesmo, cheio de sapateiros a gerir fábricas de móveis. Sei que conhece alguns e compreende o que lhe falo.
Uma outra questão prende-se com os autores que, muitas vezes, recusam trabalhar com grandes editoras por não “gostarem” dos seus modos de trabalho — chamam-lhe mercadores de livros e coisa e tal (na verdade são-no mas, muitas vezes é uma opção profissional; não tornemos isto num maniqueísmo: artista/empresário, bom/mau, porque estamos a lidar com um produto comercial do qual depende todo o sucesso financeiro da empresa, dos seus empregados, da qualidade futura e continuidade das obras, da sua promoção, exportação e venda de direitos). Recusam trabalhar com editores ou formatos estabelecidos. Esquecem-se que as “grandes editoras internacionais” que vendem milhões de exemplares são o suprasumo desse ideal mercantil. Caem num paradoxo.
Compreendo essas decisões e até as apoio — quando têm razões para tal —, mas depois não se deverão queixar dos fracos rendimentos. Editoras alternativas ganham valores baixos: é um direito que traz consequências. É uma opção, não uma tragédia.»

BLOCO DO EU SOZINHO. Vejo que o Ricardo Gross, do Babugem, também ficou feliz ao ouvir Los Hermanos e Bloco do Eu Sozinho.

É A GLÓRIA. Ontem, no Porto, o Joel Neto ficou mudo. Eu compreendo e passo a contar: ao fazer o check-in no hotel, altas horas, perguntou-lhe a recepcionista, estendendo-lhe a ficha: «Maurício Mattar?» O Joel emudeceu. Ia responder qualquer coisa como «não, não sou eu», mas emudeceu. Não é todos os dias que o autor de um livro como O Citroën que Escrevia Novelas Mexicanas é confundido com o galã brasileiro. Juntei, baixinho: «Sim, é o senhor Mattar.» (Fiquei cheio de inveja porque os actores brasileiros de telenovela costumam ter direito a suite e tudo.) Hoje de manhã, ao apanhar o avião rumo a Lisboa, às sete e vinte, o Joel ainda estava mudo. Maurício Mattar, caramba.

NOVO GRAFISMO. O Aviz tem a partir de hoje um novo aspecto gráfico, que só é possível graças ao excelente Luís, do ADzivo. Há coisas a corrigir nos próximos dias, sobretudo para quem usa Internet Explorer para Macintosh (se os problemas persistirem, por favor ler em Unicode UTF-8; em Mac não há problemas de leitura no Netscape nem no Opera, mas o ideal, mesmo, é o Safari e o MacOsX…). Creio que em PC não há problemas — mas, confesso, não vi ainda, porque uso Macintosh.
Mais uma vez, agradecimentos públicos ao Luís.

dezembro 08, 2003

A NOITE, O QUE É?, 31. Há um momento qualquer em que fico mais comovido. Lembro-me de uma coisa ou de outra, coisas vagamente sem importância, sem certeza e sem razão. Então, passo por vários mapas onde gostaria de viajar, de levar a noite em passeio.

BOLSAS. Nos comentários, um pouco por todo o lado, sobre as bolsas de criação literária lêem-se coisas espantosas, infelizmente por parte de quem as defende de forma incondicional, como se fosse obrigação do Estado pagar os seus escritores. Não é. Nunca concorri a nenhuma delas e não recebi nenhum subsídio — mas não me incomoda que alguns escritores tenham obtido bolsas por um período determinado. Acho que fizeram bem. No geral, negoceio com o meu editor e isso basta-me. Mas é o meu caso e eu não gosto de juízos morais — e também não gosto desse processo de intenções que faz disto um caso político, até porque acho que, em circunstâncias ideais, o Estado não devia ter nada a ver com o domínio da criação — não gosto do Estado nem da galeria de comissários do gosto (sobretudo quando são vanguardistas, porque têm tendência para se tornarem pequenos ditadores), funcionários da «divisão de estética e metacrítica», pedagogos oficiais e ressentidos com poder. Sobretudo isso — não gosto do Estado nem do seu ressentimento. O desejo de ser pago pelo Estado assusta-me. É uma dependência medíocre. Mas, como escrevi, é uma opção pessoal.
Muita gente fala «dos escritores» como se aqueles que não vivem dos seus direitos de autor, ou seja, do seu trabalho como escritores, fossem herdeiros de fortunas familiares e tranquilizadoras, pagos por «internacionais do capital» ou felizardos que arranjaram dinheiro ao virar da esquina. Não: são pessoas que muitas vezes têm um emprego normal (ou banal, ou desinteressante, ou fascinante, ora bem ou mal pago), que escrevem porque isso é uma razão superior na sua vida (e dormem menos, e não gastam o que lhes apetece, e têm um tempo controlado de maneira diferente), que têm vida familiar ou não, que acreditam ou não no que fazem, que esperam um dia poder viver só do que escrevem e lutam por isso com alguma tenacidade. Alguns são professores, outros são bancários, outros são advogados, outros são funcionários do Estado, o que forem. Conheci muitos ao longo dos últimos vinte anos. Conheci bastantes. Vivem em Lisboa, no Porto ou na província — alguns mudaram-se para a província porque aí têm mais tempo e melhores condições financeiras (três deles acabaram de publicar os seus livros — que são bons, e vendem razoavelmente). Alguns aceitaram «a lei do mercado» — e sabem que não serão recompensados financeiramente no imediato, mas continuam a acreditar no seu trabalho —, outros participam dela — e escrevem romances populares, ou mais «vendáveis» (não acho um crime, não).
Passeando pela lista dos escritores realmente significativos (eu escrevi: significativos) dos últimos vinte anos — no estrangeiro —, vejo que nenhum deles teve uma bolsa para primeira obra. Nem para segunda. A maior parte nunca teve, aliás. E os melhores deles todos até são os que conheceram outro mundo para lá da literatura, desde enfermeiros que ganharam o Goncourt, até jardineiros que arrebataram o Booker Prize. (Em vez de — em Portugal — pedir apoio ao Estado, que tal melhorar as condições de retribuição por parte dos editores?) E acho que, por muito genial que um autor se julgue (daquilo que eu conheço, boa parte deles acha-se verdadeiramente injustiçado por ainda não ser venerado), se ao fim de vários livros não se consegue «viver da literatura», acho que é da mais elementar lei da modéstia, do bom-senso e da própria sanidade mental, que se viva de outra coisa para se poder continuar a escrever livremente, sem constrangimentos e sem ressentimentos.

O RISO DO PROF. MARCELO. Primeiro passaram aqueles livros todos no ecrã, mas isso já não nos faz rir. Porém, aquele riso incontido no final, aquela dificuldade de o controlar, aquele sem-nexo das frases, tudo isso anunciou, sem querer, que o prof. Marcelo tanto podia estar a falar da revisão constitucional como dos bombeiros de Celorico. É, portanto, o fim de uma era. «O!, that a man might know/ The end of this day's business, ere it come;/ But it suficeth that the day will end,/ And then the end is known.» [Shakespeare, no Júlio César]

MANUAIS ESCOLARES. Há nesta notícia um pouco de tudo, mas acho que fica bem falar apenas da incredulidade — a Porto Editora vai substituir a página do seu manual de Português B, para o 10° ano, com a menção ao Big Brother, colocando em seu lugar outro concurso televisivo. Eles não percebem nada, há nesta gente um descaramento que não recua diante de nenhum absurdo. Retirando o Big Brother do manual, as consciências podem voltar para o armário e o debate fica interrompido; o novo concurso televisivo, «muito mais inócuo» — e da RTP — acalma as hostes, amaina a tempestade, lava a cara do ridículo. As coisas ficarão assim, porque «nem o Estado nem os editores podem fazer censura sobre os autores dos livros». Esta declaração, de «liberalismo» de pacotilha, só engana papalvos. O que está em causa, aqui, não são «os autores dos livros» — são «os autores dos livros escolares». Ora, quando se fala de «livros escolares» não falamos do novo romance de Rui Nunes nem do livro de José Mourinho: falamos da escola propriamente dita. E, portanto, nem sequer estão em causa os professores (longe disso), nem os autores dos livros escolares. Está em causa a «vastíssima sapiência» que tomou conta dos programas de ensino do Português e desistiu da inteligência, da literatura, do conhecimento, da cultura. Esse lado de Portugal, muito moderno há vinte anos, muito avançado há trinta, ressentido contra a cultura, formado com um altíssimo nível de clichés, pronto a repetir banalidades e erros históricos, a desculpar erros de ortografia e imprecisões de cronologia — esse lado de Portugal envergonha-nos.

dezembro 06, 2003

A NOITE, O QUE É?, 30. Esperar. Se não ouvir essa voz, a impressão de que toda a vida foi em vão, desordenada, sem varandas sobre a tarde, sem música, sem riso, sem vagas no mar. É por isso que, muitas vezes, nos encontramos nos sonhos.

LER AO ACASO. Um dia escrevi que alguns dos blogs mais fascinantes eram os que assumiam a sua condição religiosa sem serem pios, ou catequéticos ou, sequer, «donos da verdade» (como o Voz do Deserto, o Crónicas Matinais, o Rua da Judiaria, o A Bordo, por exemplo, ou o Guia dos Perplexos). Ou seja, não escondem a sua comoção. Mas ainda não tinha citado o Bengelsdorff.

PROPINAS E LUTAS ESTUDANTIS. O Tchernignobyl, do Blogue de Esquerda II refere que «ataquei» o «rosto visível da liderança dos estudantes de Coimbra, Vítor Hugo Salgado»: «Choca-me que uma miríade de personagens supostamente vindas da esquerda e com um passado de lutas estudantis, desate a proferir discursos semelhantes logo que abandona os estudos e se insinua por confortáveis carreiras académicas ou políticas, temperadas aqui e ali com a respectiva perninha em qualquer croniqueta em jornal ou revista de referência.»
E eu pensei: «Ei! Ei! Não é nada disso... Eu nunca tive um passado de lutas estudantis nem venho supostamente da esquerda.» Eu era só um estudante que vinha da província e que não sabia quantas paragens de autocarro tinha de deixar passar antes de chegar à Av. de Berna. Mas vale a pena explicar?

TENTAÇÃO. Nas últimas semanas o país manifestou uma das suas tendências mais soturnas: decidir sobre quem tem direito a falar. Durante meses, o juiz Rui Teixeira foi acusado de quase tudo — quando falou, finalmente (sobre outros assuntos), quase todos os colunistas acharam que ele não devia falar, fosse em que circunstância fosse. O dr. Sampaio falou sobre as revisões constitucionais (nem foi especialmente mau, o seu discurso, batido de longe pelo do Alentejo quando decidiu propor a “despenalização” dos touros de Barrancos, pelo de Angra sobre o “respeitinho aos políticos” e pelo de Braga — mais recente — sobre a Justiça). Santana Lopes, que tinha proposto uma revisão absurda (o Senado das corporações era só o princípio), achou que o dr. Sampaio devia estar calado e que não tinha nada que falar. Ferro Rodrigues achou que era absurdo mandar calar o presidente e que, pelo contrário, se havia alguém que podia falar, era precisamente Sampaio — em contrapartida, disse que aos membros do governo estava vedado manifestarem-se sobre a Constituição. Esta tendência para mandar calar é, no mínimo, interessante.
É verdade que vai por aí uma gritaria insuportável, mas candidatos a mandarins não faltam.

ANTI-SEMITISMO E ANTI-ISRAEL. Caro João: obrigado pelo teu texto sobre o anti-semitismo: «Ao Aviz só posso dizer que o anti-semitismo está para durar. Como todos os males, por mais que se combatam. Muito sinceramente, acho é que acusar a União Europeia de fazer o jogo do anti-semitismo não leva a lado algum. E acho que entrar no maniqueísmo de comparar as medidas policiais/legais, ou mesmo a cobertura mediática, do anti-islamismo com o anti-semitismo é completamente injusto. O Francisco fala de exposições de cartazes anti-semitas em França, logo o país onde o Estado está a travar uma feroz luta contra as tentativas de uma quase-islamização de escolas e repartições públicas. A Europa não pode servir de bode expiatório para tudo.»
Parece que, finalmente, nos entendemos na «blogosfera» a propósito do anti-semitismo — o que não quer dizer que passemos a estar de acordo em relação ao assunto, nomeadamente acerca das razões que levaram à não divulgação imediata do documento em forma de draft, o que significa que, ou as nossas fontes são diferentes (necessariamente, são), ou o entendimento que fazemos das justificações também o são (provavelmente).
De facto, sempre lutei neste blog contra a designação do anti-semitismo como uma realidade política ou estritamente política. Quando se continua a fazer a divulgação da palermice dos Protocolos dos Sábios de Sião, não é só a questão palestiniana que está em causa (sobre isso já disse o suficiente e não preciso de reafirmar o mesmo de todas as vezes que falo do assunto: estado palestiniano, já; apoio — expectante — em relação ao documento de Genebra). É o anti-semitismo claro e histórico. A televisão egípcia terminou agora a exibição de uma série inspirada nessa mistificação (a televisão egípcia é o estado egípcio), que passará agora na Síria. No passado, esses países (através da Liga Árabe) propuseram colaboração ao regime nazi para «completar o trabalho na Palestina». Ainda não mudou a pauta.
Quando eu falo da Europa, caro João, não falo da União Europeia: falo da Europa. A melhor abordagem a este assunto é, em meu entender, feita por George Steiner (que nunca pode ser acusado de sharonista ou de coisa semelhante): o anti-semitismo europeu é um «mistério teológico» — «um ódio sem objecto actual» possível por «certas falhas do tecido cultural ocidental» («o anti-semitismo soviético talvez seja a expressão mais paradoxal do ódio da realidade pela utopia fracassada», tal como o «anti-semitismo nazi» foi uma «retaliação demente, uma insurreição contra a insistência de uma visão intolerável e uma larga medida de automutilação»; «A sociedade secular, materialista, belicista, da Europa contemporânea tentava extirpar de si própria, da sua própria herança, esses portadores de ideal arcaicos, ridiculamente obsoletos, mas apesar disso indestrutíveis. No vocabulário nazi que fala de “parasitas” e de “limpeza” há uma intuição intempestiva da natureza infecciosa da moralidade.»).
Quando Steiner procura explicar o fenómeno do anti-semitismo na Europa tem em atenção a figura do judeu que vem de Shylock, evidentemente, e os seus estereótipos banais (a usura, o deicida, o habitante do gueto, a cumplicidade da finança) — mas não basta. Razão porque fala numa dimensão teleológica do anti-semitismo e porque a sua investigação acaba por, muitas vezes, desembocar na investigação sobre o lugar do céu e do inferno na Europa (de todas as imagens do paraíso perdido, «a do Inferno [os judeus] é a mais fácil de recriar»). É isso que o leva a escrever que, contra todas as expectativas (as que foram criadas pela ilusão de que mais desenvolvimento equivale a mais humanização, a legenda do «longo Verão» da Europa entre 1880 e 1915 e, depois, a do renascimento europeu nos anos trinta), «a imagem da cultura do Ocidente [...] transformou-se ou num absurdo com laivos de racismo, ou numa peça de museu». Daí que — é este o ponto — «ao contrário do que acontecia nas fantasias das fábulas apocalípticas do século XIX, a barbárie irrompeu do coração da Europa». E mais: «Minada pelo tédio e pela estética da violência, uma considerável fracção da intelligentsia e das instituições da civilização europeia — as letras, as universidades, o mundo das artes — deram mais ou menos calorosamente as boas-vindas à instauração da inumanidade.» Essa inumanidade é a indiferença.
[A propósito: lembras-te das crónicas de Vítor Cunha Rego sobre o assunto? É curioso que tenha sido um inesperado cronista, cinzento até certo ponto, Francisco Sarsfield Cabral, que no teu jornal levantou recentemente esse assunto.]
Os meus receios sobre o anti-semitismo não têm a ver, unicamente, com as manifestações anti-judaicas, mas com a marca essencial da política comum europeia: a indiferença (a «terrível incapacidade de estupefacção», Steiner outra vez). O seu zénite na década passada foi a destruição da ponte de Mostar e do que ela significava para um mundo possível e para uma Europa vasta e acolhedora — perante a indiferença da opinião pública e de grande parte dos intelectuais. Interessa-me o anti-semitismo por várias razões (uma delas é, necessariamente, pessoal — e indiscutível, intransmissível até certo ponto); porque, em épocas de crise, desde o século XI, a reacção anti-semita é sempre uma solução mais fácil: é o bode expiatório. Não há maneira de a Europa resolver esse problema nem de enfrentar esse fantasma.
Por isso, quando mencionei o assassinato de dois estudantes judeus nas ruas de Paris no Verão passado, não os mencionei porque fossem judeus — mas porque a «indiferença» foi maior por serem judeus. Porque eles merecem castigo por qualquer coisa cometida noutro lugar do mundo? O que aconteceu quando o Guardian imprimiu na primeira página aquela fotografia de uma manifestação contra a guerra no Iraque onde uma rapariga segurava o cartaz «kill the jews»? E o que aconteceria se um cartaz dissesse «kill the muslims»? Não «kill the arabs», mas «kill the muslims». Quando mencionei as exposições anti-semitas numa universidade francesa não culpava o estado francês, que já tem entre mãos o problema do tchador como aspecto central da sua ética republicana — mencionava a maré negra que torna possível essa indiferença.
Finalmente, uma nota: este assunto não tem a ver com a distinção «esquerda»vs.«direita», tal como não permitirei que o anti-semitismo seja incluído na categoria «racismo» (a ideia da «raça judia», como ambos sabemos, tem assinatura; a do «problema judeu» também — não há raça judia nem problema judeu, ponto). Levantaram-se vozes dizendo «vêem, vêem, foi Cohn-Bendit que levantou o problema...», para dizer «foi a esquerda que chamou a atenção»; essa deslocação é inaceitável, como se pairasse sobre a esquerda uma acusação de anti-semitismo em sentido restrito (a sua matriz é a «questão judaica» de Marx, sim, e o resto do estalinismo), como se ser judeu implicasse um voto à direita. Esse absurdo, sim, é que é desrazoável.

dezembro 05, 2003

CÉU. Canções que se ouvem, rápidas a passar. Rimas feitas e desfeitas, o que não sai da pele, o que fica no céu azul, o que cola à pele, o que fica gravado como um sinal de quem se encontra no meio dos sonhos. Às vezes espera-se a madrugada, que a noite passe, de outras espera-se o fim dos caminhos, à espera da noite. É tão de repente que se vêem as coisas perfeitas.

ANTI-SEMITISMO. [Actualz.] Depois de ler o relatório sobre o anti-semitismo europeu — que a UE não quis publicar (Manifestations of Anti-Semitism in the European Union. First Semester 2002, draft de 20 de Fevereiro de 2003) — vejo que não traz grandes novidades. Regista o tom geral, que já se conhecia mas que não aparece nos jornais nem nas televisões. Por detrás disso há «ocorrências banais»: grafitis nos cemitérios judeus e profanação de alguns deles, cartas anónimas, fóruns da Internet, cartazes claramente anti-judaicos, cartoons da imprensa, apedrejamento de sinagogas (a de Lisboa está nesse número, precisamente na véspera da Oração pela Paz que juntou judeus, muçulmanos e cristãos no seu interior — o relatório cita explicitamente esse acto, a que nenhum jornal português fez referência, de resto) e destruição de algumas delas, assassinato de estudantes judeus em França, organização de exposições anti-semitas em universidades francesas, tentativa de vedar o acesso a estudantes judeus em universidades inglesas, campanhas telefónicas e de mails na Alemanha, intimidação crescente em Espanha, insultos no metro de Paris, destruição de livrarias em Itália, primeiros ataques na rua a grupos de estudantes nas ruas de Antuérpia, incitamento à violência e à «vigilância» por parte de grupos e jornais de extrema-direita (em França, na Bélgica e na Holanda), vandalismo sobre sedes de associações culturais e cívicas de matriz judaica, «forwards» de mails anti-judaicos (não me refiro a anti-Israel) em universidades e instituições públicas (em Portugal tivemos um caso com alguma repercussão na Universidade de Trás-os-Montes, com protecção da direita católica e da esquerda-PCP), publicação — mesmo na chamada «imprensa de referência» austríaca, italiana, grega e alemã — de cartoons e textos anti-semitas, existência de milhares de grupos (islâmicos fundamentalistas, de estudos islâmicos, negacionistas e revisionistas, neo-nazis, fascistas, «radicais de esquerda», racistas, etc.) que na internet mantêm páginas anti-judaicas e anti-Israel, etc., etc., etc.. A enumeração destes casos aproxima-se bastante da estatística e, como se sabe, a valorização da estatística aproxima-se, por seu lado, da banalização dos factos. Neste caso, da banalização do mal.
Nada disto é estranho ou surpreendente a não ser a extrema gravidade da sua recorrência e da sua regularidade. Quando se somam os incidentes, os números são assustadores — mas a sua desvalorização na imprensa (cinco linhas de uma «breve», dez linhas inseridas numa notícia sobre o Iraque, etc.) impede um retrato de conjunto. Essa banalização é grave e esconde outro ponto essencial, que aliás o relatório (tanto na sua versão «curta» como na versão «completa») cita: o anti-semitismo nunca desapareceu da Europa e, desde os anos cinquenta, foi mantendo vários limbos onde se desenvolveu. A matriz intelectual desse anti-semitismo europeu é evidente e compreensível, dado que engloba os dois lados do «espectro político tradicional». Há nesse anti-semitismo europeu os mesmos sinais do velho anti-judaísmo de rua, o que vem de 1502 em Lisboa, o que vem das ruas de Toledo ou de Sevilha, o que vem de Évora durante o século XVI, o que vem de Vilnius e de Riga.
Por outro lado, há um dos aspectos mais importantes que o relatório aborda (e que fui desafiado a debater pelo Statler, do Blogue dos Marretas, aliás): a confusão entre aquilo que é assunto estritamente relacionado com Israel e aquilo que é «estritamente judaico». Os cépticos em relação ao estudo sobre o anti-semitismo, por exemplo, mantêm — com razão — que muitos dos ataques anti-judaicos são apenas anti-Israel. É verdade. Mas não deixa de ser curioso que, sobretudo a partir da Páscoa de 2002, tenham sido colunistas de esquerda ou católicos a insistir nessa paridade. Textos nessa altura publicados pelo dominicano Frei Bento Domingues, por exemplo (no Público) não estabeleciam distinção entre judeus, israelitas, hebraicos ou sionistas — tudo é o mesmo, seguindo, aliás, uma orientação pré-conciliar católica, que teve no teólogo Carreira das Neves alguns momentos altos e próximos do discurso de Santo Ofício (nomeadamente quando, na rádio, falava do «exército judeu» e do «exército dos judeus»). A imprensa marcha nessa mesma linha: «exército judaico», «exército hebraico», etc., etc. Se compararmos com os cuidados (que se devem valorizar, aliás) exercidos pela mesma imprensa a propósito do mundo islâmico (o que é Islão, o que é muçulmano, o que é fundamentalismo), estamos perante um défice claro.
Outro ponto que me parece importante, deste relatório, é o facto de assumir que nos países da UE houve o cuidado de criar uma política de prevenção contra o anti-islamismo na sequência do 11 de Setembro — são raros os ataques a mesquitas, centros de estudos islâmicos ou muçulmanos. No caso do anti-semitismo, ou actos anti-judaicos, não houve esse cuidado. Pelo contrário, verificou-se que certas universidades francesas autorizaram (cito o Libération, que publicou reportagens sobre o assunto, ao contrário do Le Monde, por exemplo) exposições e afixação de cartazes anti-semitas.
Parecem-me, por outro lado, muito obtusas as razões que levaram à não publicação deste relatório; a confusão entre actos anti-judaicos e actos anti-Israel não decorre da leitura do relatório, uma vez que há, nas suas páginas, explicações suficientes para distinguir uns dos outros. A questão, aqui, não tem a ver com o racismo (isso é o que eles, os anti-semitas primários, queriam! — claro, tratar os judeus como uma «raça») mas com o facto de a barbárie estar sempre à espreita. Não contem comigo para discursos sobre vitimização.

Como observação final, parece-me que esta conversa sobre anti-semitismo e não-anti-semitismo é uma soma de complexos. A tentativa de negar a existência dessa onda de manifestações, indícios e sinais anti-judaicos é tão absurda como a vitimização absoluta de sinal contrário — apenas leva mais facilmente à perseguição e ao abjecto que está em crescendo. Há um crescendo de lugares-comuns e de banalidades; um crescendo de tentativas de diluir diferenças (nomeadamente entre «críticas a Israel» e «judaísmo») e de juntar tudo no mesmo saco. Isso parece-me o pior de tudo. O anti-semitismo existe, os seus sinais estão aí evidentes, indicando que a Europa não mudou muito.

Sobre o «fenómeno anti-Israel», parece-me normal e também «compreensível» — mas isso será matéria para outro texto.

Só mais uma nota: no Brasil, foram assassinados dois estudantes. Ela era judia, ele não. Namoravam e tinham ido acampar; os seus corpos foram encontrados dias depois. Descobri o assunto na primeira página da Folha e segui-o durante duas semanas — até que entrei, depois de várias buscas na internet, nos fóruns que tratavam do assunto. A quantidade de mensagens e de intervenções anti-semitas (onde também havia mensagens anti-Israel, anti-quase-tudo) a propósito da morte de Liana Friedenbach e de Felipe Caffé foi tão impressionante que obrigaria qualquer um a sentir-se incomodado. Ora, essa natureza do anti-semitismo é que me incomoda. Qualquer debate sobre o assunto deve separar os dois campos. Se querem a minha opinião sobre os ortodoxos e os partidos haredim e Sharon, escusam de se incomodar — estão no arquivo deste blog. Podem ler antes.

dezembro 01, 2003

UMA IDEIA. Pelo que leio nos jornais, este ano haverá cadeirinhas vazias ao lado daqueles cavalheiros que fazem de Pai Natal, nas ruas e nos centros comerciais de Mogiel — uma cidadezinha sensata da Nova Zelândia —, para que as crianças não se sentem nos joelhos do velhinho. Assim, sentadinhas nas cadeiras e não nos joelhos do Pai Natal, sempre se evitam queixas sobre pedofilia. A ideia, diz a senhora de Mogiel que organiza as festas de Natal, é que as crianças não «possam pôr em causa, um dia, o comportamento do Pai Natal». Eu sempre desconfiei dele. Agora, tenho um receio: sabe-se que a Nova Zelândia é do outro lado do mundo, mas hoje em dia a viagem é rápida.

NOTA ATRASADA SOBRE A QUEIMA DAS FITAS. O Bruno Sena Martins ficou preocupado com a minha nota sobre a hipótese de a Queima das Fitas de Coimbra não se realizar. O Bruno viu-me a «a exultar tão prontamente com uma tal notícia» e pergunta se eu teria a «noção do terrível impacto económico que isso terá para milhares de pessoas que nesta cidade vivem do comércio — é que para elas a notícia não podia ser mais desastrosa». Ó Bruno, caramba! E passa pela cabeça de alguém que a ideia do «luto académico» vá para a frente de modo a prejudicar os milhares de euros que a «academia» e os organizadores da festa embolsam todos os anos? E as cervejeiras, essa instituição de inegável parceria académica, desistiriam de contribuir para o aperfeiçoamento da malta universitária de Coimbra com os seus barris e a sua publicidade nos concertos do Quim Barreiros? E se a «academia» não organizasse aquela coisa, não acha que alguém por ela o faria, mesmo pagando «direitos»? Infelizmente, o espectáculo das fitinhas benzidas e das batinas vai continuar. Já não acredito nas boas notícias.

MAS, PORÉM. Vício de citar Stephen Jay Gould: «Certa vez, George Burns afirmou, com inegável justiça, que a vitória dos New York Mets no campeonato de 1969 foi o primeiro milagre incontestável desde que o Mar Vermelho se abriu. Sendo assim, se Deus de facto acena para nós por meio de eventos cruciais da nossa cultura secular, o dia 23 de Outubro de 1996 foi marcado por um milagre de relevo. Os New York Yankees venceram aquele jogo.»

COISAS COMPLICADAS, EU SEI. De vez em quando há, nos blogs, uma inexplicável tendência para complicar aquilo que pode ser simples, como concordar, discordar, citar, dizer que se gosta de um filme ou de um livro. É, certamente, vício de linguagem. A coisa anda ali à volta, à volta, à volta. Nessas alturas lembro-me de uma frase de Stephen Jay Gould: «Sim, eu sei. A Terra, de facto, gira em volta do Sol, e a evolução de facto regula a história da vida, mas duvido que algum dia possamos identificar Jack, o Estripador.»

DOIS MARES. «Nadie puede escribir un libro. Para/ Que un libro sea verdaderamente,/ Se requieren la aurora y el poniente,/ Siglos, armas y el mar que une y separa.» [Jorge Luis Borges]

novembro 30, 2003

A NOITE, O QUE É?, 29. Revelações de quase todos os dias: onde é a tua casa, onde fica esse lugar em que te sentes próximo da terra, próximo do céu (quando o céu está mais próximo da terra), próximo de ti? Há um destino errante na tua vida, olhas para ele quando a noite se mantém em silêncio, como se fosse um reencontro. E depois fazes a pergunta: onde é a tua casa, onde é o teu lugar, onde adormeces no meio das árvores, onde nasce o teu dia? E as imagens voltam, como o cenário diante de uma varanda debaixo desse céu do sul: Cassopo, Fénix, Grou, Centauro, o Cruzeiro do Sul, Mimosa e Acrux. Estrelas de outro mar.

O ESTADO E OS ESCRITORES. Instalou-se algum burburinho em redor de um texto de José Pacheco Pereira sobre «O Escritor como Funcionário Público». Um dia participei num debate da SIC sobre a matéria e estava do outro lado do que Pacheco Pereira defendia — o fim das «bolsas de criação artística» para escritores. A razão porque então defendi (estávamos em 1995) essas bolsas era fácil de ver: o Ministério da Cultura e os institutos tutelados pelo MC atribuíam (e continuam a atribuir) bolsas, subsídios e apoios financeiros ao teatro, ao cinema, às artes plásticas até aos desfiles de moda; o fim das «bolsas de criação artística» para escritores configurava uma espécie de corte selectivo — deixando de fora (ou mantendo «dentro») o pessoal do teatro e do cinema, ou seja, da indústria. Ou seja: alimentava-se uma vasta corte de funcionários na área das «artes visuais» e «do palco» que se achavam investidas do direito divino ao subsídio. Para eles, raramente se falava em cortes ou no fim dos subsídios.
No caso dos escritores, o principal problema tinha a ver com a selecção dos projectos, evidentemente: era absurdo atribuir uma bolsa a alguém que nunca tinha escrito um livro — mas foi isso mesmo que se fez. E também era absurdo atribuir uma bolsa ao escritor fulano ou à romancista fulana só porque o seu nome evocava «enormes contributos à literatura do nosso tempo» — o que os dispensava, em muitos casos, de apresentar prova de que tinham escrito fosse o que fosse. Há excepções claras a esta situação, e alguns autores foram honestos ao ponto de mencionar, nos seus livros, que os tinham escrito graças a uma bolsa.
A questão, aqui (na nota de JPP), não é a das bolsas — mas sim a ideia do direito dos escritores ao apoio do Estado, e a de que sem o apoio do Estado a literatura portuguesa desaparece. Ora, eu sou pelo desaparecimento dessa literatura portuguesa apoiada pelo Estado e que só sobrevive com o apoio de subsídios (e do teatro também), porque não me parece justo que o Estado ande a subsidiar «criadores» que têm medo de arriscar (e, mais do que isso, acreditem, de correr qualquer risco na literatura como na vida) e que pensam ser dever do Estado apoiar a sua preguiça intelectual, a sua inflexibilidade e uma sobranceria agressiva que se vai tornando congénita e doentia à medida que os anos passam — além desse direito divino ao subsídio.

HISTÓRIA AO ACASO. Histórias destas acontecem todos os dias — os «consumidores» nem sempre têm os seus direitos defendidos — mas há pormenores absurdos em muitas delas. Sempre me interroguei, por exemplo, sobre livros mal traduzidos, com gralhas em excesso, capas e miolo mal impressos, páginas que se soltam, etc. O direito do consumidor não trata do assunto, como acontece (felizmente) com os iogurtes, a roupa ou a alta-fidelidade. No caso dos carros (ah, o poder da indústria automóvel...), parecem existir esses pormenores macabros — informaram-me que, mal o comprador meta as mãos no carro novo, acabadinho de comprar, não tem direito a «substituição do produto» mesmo que os defeitos sejam absolutamente notórios. Este caso merece atenção; não pensem nele em particular. Pensem que podia ter acontecido com qualquer pessoa.

novembro 27, 2003

E-MAIL. Mudou a caixa de correio, o link está aí à esquerda.

A NOITE, O QUE É?, 28. Não conseguir dormir longe dessa sombra, dos ruídos da noite, estradas solitárias, nomes desiguais, designações. Como uma tempestade, a noite termina à hora a que acordo, demasiado tarde para ouvir esses ruídos, demasiado cedo para falar.

OBRIGADO. Ele é um mago dos templates. Agradecimentos ao Adzivo por me ter ajudado a corrigir alguns defeitos gráficos do Aviz.

AFINAL, ERA VERDADE. Ana Gomes, Eduardo Prado Coelho, Jorge Wemans, Luís Nazare, Luis Osório, Maria Manuel Leitão Marques, Vicente Jorge Silva, Vital Moreira. Todos juntos?

novembro 26, 2003

A NOITE, O QUE É?, 27. Entre dois mares, entre dois climas, entre as árvores. Quando chove, de noite, precisamos mais de saber onde está o rosto que mais se ama — é uma coisa que ainda não tem nome, essa imagem que protege do vazio. Mais tarde, quando chega, traz consigo toda a madrugada.

ARQUIVAR O ANTI-SEMITISMO. Nunca deixes que os dados estraguem uma «boa ideia».

novembro 25, 2003

O QUE FALTA À BLOGOSFERA, 4. O Pedro Adão e Silva publicou no País Relativo um texto sobre o assunto (que vem, aliás, de um primeiro comentário do Paulo Querido) e no qual toca em pontos essenciais, nomeadamente quando diz que o blog é «antes de mais, o espaço de tudo o resto que me interessa»: «Gosto de ter vida para além da vida que agora me ocupa 90% do tempo profissional (a política), mas, também, porque faz parte da minha agenda pessoal, mas, também, política, escrever sobre um disco de que gosto, um concerto a que fui, um filme a que quero ir ou qualquer outra coisa de que no momento me apeteça falar. Escrevo quande tenho vontade e até tê-la, sem agenda, nem coerência.» Há uma passagem do seu texto que nos põe em completo acordo e que contraria a ideia da «agenda a todo o custo»: «A blogsfera foi uma coisa fantástica que aconteceu e, por isso, espanta-me que neste espaço de liberdade, de incoerências e cuja principal virtude é a total amálgama de temas, de tons, de sujeitos e de registos, haja permanentemente uma tentativa de impor a alguns bloggers uma agenda que não a sua — pessoal, idiossincrática, mas, ainda, assim transmissível.» Percebo o que o Pedro quer dizer quando diz que escrever sobre um livro, um filme ou um concerto, sendo matéria pessoal, «também» faz parte da sua agenda política — como uma contiguidade — mas conviria esclarecer mais esse aspecto.
Já agora, e o Pedro não levará a mal, lembro-me de uma entrevista que fiz com Álvaro Cunhal (para o «Escrita em Dia», na SIC, há anos): antes da entrevista, durante um café, falámos de livros que tinha lido, dos seus gostos pessoais, etc. Depois, no estúdio, quase no final da entrevista a pergunta apareceu, natural, no fio da conversa — que livros andava a ler. «Isso não vou dizer.» Porquê? No fundo era também isso que queria saber. «Porque os meus adversários podem pensar que as próximas iniciativas políticas do meu partido, por exemplo, podem depender dessas leituras.» Aí está. Do género: o que vai o PS fazer depois de o Pedro ter visto o Mystic River?

INTELECTUAIS, TRADUTORES DE CÓDIGOS. Sobre este assunto (referido num texto de ontem), Carlos Pereira da Cruz escreve por mail:

«Não sou um intelectual, sou um consultor de gestão, de produtividade, de todas essas coisas técnicas. Lembro-me sempre do comentário que Popper fazia ao pensamento de Espinosa — que defendeu a liberdade de pensamento como um direito inalienável, de que nem um tirano, por muito que tente, consegue despojar-nos. Popper escreveu no seu livro Em Busca de um Mundo Melhor: “Creio, todavia, que já não é possível estarmos de acordo com Espinosa neste ponto. Talvez seja verdade que a liberdade de pensamento nunca poderá ser completamente reprimida. Pode, porém, ser pelo menos abafada de modo considerável. Isto porque sem uma livre troca de ideias não pode existir uma efectiva liberdade de pensamento. Precisamos dos outros para com eles testarmos as nossas ideias, para verificarmos se são plausíveis.” Na minha modesta opinião espero que continuem a existir pessoas que possam dedicar a sua vida a pensar, a elaborar uma matriz de conceitos que todos nós, que não somos profissionais do pensamento, podemos ler, escutar, discutir e sentir que ficamos mais ricos porque a quantidade de conceitos que podemos abarcar se alargou, enquanto estudava e amava química na universidade delirei com Toqueville, insultei a escola que me ensinou história da filosofia e nunca me deu a conhecer Popper, ou Bertrand Russell; ainda hoje ando com uma cópia sublinhada e anotada de Ortega y Gasset. Nada disto é directamente utilizável no meu dia a dia profissional, mas se não conhecesse o pensamento destes autores não seria o que sou hoje.»

O QUE FALTA À BLOGSFERA, 3. Também A.E.F. escreve — de Timor — sobre o mesmo texto, mas acerca do «efeito pernicioso» dos «blogs mais mediáticos»:

«Devo dizer que, embora compreendendo o fenómeno e o que querem dizer, não me assustam nada o “efeito pernicioso” e/ou o “efeito totalitário”. É bom ler, é bom ouvir (ler) o que os outros têm a dizer, é bom reflectir sobre as opiniões dos outros, ainda mais de quem tem o exercício de pensar como “profissão” ou “passatempo” (nem todos têm!; alguns não podem), ganhando “protagonismo” natural com isso pela qualidade das intervenções, pelo destaque de uma carreira, ou por conquista diversa (independentemente de se concordar ou não com elas). O pior é quando não há massa crítica. Considero poder dizer, sem grandes reservas ou medo de ofender a pátria, que estamos mal nesse aspecto em Portugal. Estamos mal na família, estamos mal na escola, estamos mal em sociedade (em termos gerais). Fico triste por dizê-lo. […] Gosto de Portugal, sou Português (soa bem, não soa?), “apesar” de ter nascido em Angola e de também me sentir Angolano, e agora Timorense, porque não? E é por isso que não fico calado com medo que me acusem de anti-pátria ou coisa que o valha. Digo-o para reflectir na mudança, na melhoria. E já agora devo dizer-lhe que, apesar de lidar com pessoas que usam a cabeça como maior instrumento de trabalho (devia ser assim), tenho, em tantas ocasiões, usufruido de mais cultura, de mais sensibilidade, de mais motivação para pensar e de ideias diferentes nesse biótopo estranho, próximo e tão distante, que é a blogosfera. E, com tudo isso, com a admiração que nutro por certas pessoas, não me sinto domado ou conquistado, apenas atento, mais desperto, mais rico, porque posso “trocar impressões” com mais gente, outra gente.»

O QUE FALTA À BLOGOSFERA, 2. Por mail, o Carlos Antunes comenta a ideia de que «ninguém pode impor silêncio seja a quem for, nem pode obrigar seja quem for a falar sobre aquilo que acha que devia ser matéria para pronunciamento»:

«É natural que se tenha esquecido de uma excepção a esta “máxima” aparentemente certeira: a táctica do espelho. Ou seja, aquilo que é (já) designado como “metabloguismo”, os blogs de e sobre blogs. É uma coisa tão irritante como aqueles miúdos que imitam todos os nossos gestos, palavras, tiques e trejeitos. E, se reparar bem, já existe muito disso no blogbairro: blogs que se limitam ao copy&paste, à citação gratuita e aleatória com o mesmo critério de qualquer lista de compras; ou listas de endereços encaixados à matroca em “classes”, tipos e sub-tipos; canibalizações da produção alheia, sem uma vírgula de conteúdo próprio. Na “blogosfera”, é possível impor silêncio, sim, com esta “técnica” parasitária. Foi o que aconteceu com o Bloco-Notas; limitava-se a informar os bloggers portugueses, todos os dias, de quantos blogs existiam, quais e onde, e, destes, os que tinham actualizações, e quando. Se bem que, parcialmente, isto foi sistemática e — repito — irritantemente reproduzido, em triplicado, parasitado até à exaustão, vigiado, acossado. Obviamente, o Bloco-Notas fechou. O que fazíamos servia mais os parasitas do que os utilizadores; estes, devido a alguma idiossincrasia misteriosa, preferiam a cópia ao original. Portanto, andámos sete meses a trabalhar para parasitas e havia que acabar com isso. Não é isto uma forma insidiosa de silenciamento? De resto, visto de outra forma, é o que se lê no seu “post” sobre a “Patrulha Ideológica”, […] que resume perfeitamente o assunto. Contradiz a tese da impossibilidade de silenciamento na “blogosfera”, mas não se pode ter tudo. O silenciamento não pode, por definição, ser barulhento.»

KIPPAH. A propósito das dúvidas sobre o conselho do rabinato de Paris acerca do uso de kippah (comentado pelo Nuno, do Rua da Judiaria), a Ana Albergaria fornece alguns exemplos úteis sobre o anti-semitismo francês que continua, aliás, uma larga tradição europeia (à esquerda e à direita) que convém não ignorar. [Ver a nota do Alberto Gonçalves, no Homem a Dias, bem como a chamada de atenção do Luís Carmelo no Miniscente] Há dois pontos que gostaria de destacar: 1) existe uma tendência para a vitimização que ocorre no contexto do shoah business e que me parece uma tentação perigosa; 2) o conselho do rabinato de Paris sobre a abstenção no uso de kippah é compreensível mas não deve significar que se aceita a intimidação ou que se acatam as «instruções mais politicamente correctas» (reenvio para o texto do Crónicas Matinais) para esconder aquilo que não oferece motivos para ser escondido. Mas, de facto, só quem está lá é que pode reagir e falar com inteira propriedade. O anti-semitismo não se apaga com as declarações de tolerância institucional.
Tudo isto nos traz de volta, evidentemente, o debate sobre a «tradição judaico-cristã» na Europa e as polémicas sobre a inclusão de «Deus na Constituição europeia». Na altura também comentei que essa inclusão era duvidosa; nessa matéria, as lições europeias são pouco recomendáveis (tirando os oásis da Holanda e de Antuérpia) e as ondas de violência e de perseguição são cíclicas e fatais, localizáveis a olho nu. Nem é preciso fazer (mais) um inventário.
[Actualização:O A Bordo aborda o assunto de um ponto de vista curioso ao manifestar as suas dúvidas sobre o conselho do rabino chefe: sobre «a dificuldade de determinar o que é prudente».]

novembro 24, 2003

MAL, RAZOAVELMENTE MAL. Eduardo Prado Coelho escreve hoje, no Público, sobre «a necessidade de intelectuais» («eles são um produto originalmente francês»): «O intelectual tem que saber que a sua função é hoje sobretudo a de um tradutor de códigos culturais e que essa função implica uma análise cuidadosa e uma utilização sagaz do sistema dos “media”. Precisamos ainda de intelectuais? Claaro, a resposta é sim. Mas como funcionam eles em tempo de blogues?» Mal, razoavelmente mal. Mas há aqui um pequeno perigo: supondo que a sua função é sobretudo a de «tradutor de códigos culturais» (coisa de que eu duvido), é bom não empobrecer ainda mais a palavra.

SEI QUE NÃO É IMPORTANTE, MAS... A pequena nota de Freitas do Amaral sobre a «necessidade» de uma cadeira de cultura geral no Secundário continua a suscitar comentários aqui e ali (comentários recentes no Grande Loja, por exemplo, ou no Ideias Soltas). A mim, a sugestão do professor parece-me tão exuberante como a de incluir o Big Brother nos manuais do 10º ano ou de escolher o livro de memórias literárias do dr. Soares como referência para estudos literários.

KIPPAH. O caso lembrado pelo Rua da Judiaria — o rabinato de Paris desaconselha o uso de kippah na rua devido à onda de anti-semitismo em França — lembra o de um funcionário da KLM que desaconselhava que se pedisse comida kosher a bordo dos voos para Oriente. Mas tenho dúvidas sobre a declaração do rabino-chefe de Paris (a notícia vem no Herald Tribune); por um lado, alerta para um perigo real de que há provas substanciais; por outro, fomenta o desejo de vitimização e aceita a intimidação. Não sei, não sei.

novembro 23, 2003

A NOITE, O QUE É?, 26. Muitas vezes, esperar que o frio passe, que a noite propriamente dita vá de um lado a outro, que os cigarros acabem, que o silêncio não se perceba mais. Esperam-se muitas coisas, nessa altura: a voz, os olhos, a cor dos olhos, aquilo que ficou, aquilo que será, uma nova vida. Escreve-se devagar, cada palavra tem um som, uma letra, um mapa. Lembro as plantas, a tarde, o anoitecer antes da noite verdadeira. Lembro de ficar acordado à espera.

O QUE FALTA À BLOGOSFERA. O Paulo Querido publicou no seu blog um bom texto com este título. Trata, no essencial, de questões que já preocuparam por diversas vezes os blogs mais atentos ao «fenómeno» (hoje já não é fenómeno nenhum) — e é muito pertinente. Aborda, também, o «efeito pernicioso» dos blogs «mais mediáticos» — o Abrupto, o Dicionário do Diabo ou o Aviz, por exemplo — nomeadamente o seu compreensível efeito totalitário (a expressão é minha, não do Paulo — mas acho adequada à circunstância). Ora, há aí um problema que não tem a ver com o peso de um blog, com a sua influência ou a sua presença permanente, mas com a forma como é feito. Só posso falar por mim, até porque o blog é só meu. Comecei o Aviz como toda a gente: para experimentar e para ver se era possível dizer alguma coisa. Acabou por ser um diário com poucas interrupções; nunca medi audiências e o assunto pouco me interessa; tem uma circulação que desconheço (uso o netcode.pt para fazer rastreio de «referências» e não para contar visitas); é «intimista» quando me apetece, confessional quando preciso, irritado quando acontece. Ainda no meu caso — o que é estritamente pessoal, portanto, oscilando nesta fronteira do semi-público — nem sequer o faço para escrever sobre coisas «que não cabem noutro lugar» ou para «fazer exercício». Faço-o enquanto houver blogosfera, e mais nada — e enquanto tiver tempo ou precisar de escrever sobre o que me apetecer, sem agenda, sem alguém a pedir-me satisfações. Esta questão da agenda reconheço que é importante, mas não me interessa para nada; continuo a dizer que escrevo sobre o que me apetece, quando posso (ou não posso evitar), sobretudo porque não tenho e nunca tive responsabilidades políticas, mas também não reinvindico nenhuma inimputabilidade política.
A blogosfera é uma comunidade disponível, muito aceitável culturalmente, e tenho aprendido bastante com ela. Se conhecemos pessoalmente os autores de blogs, sabemos que os seus defeitos e vastas virtudes continuam; dos outros, só conhecemos os textos e o mau carácter (que transparece sempre), o que é bastante. Como em todo o lado, essa disponibilidade afecta tanto os «blogs mais mediáticos» como os absolutamente anónimos graças a essa pequena mas graciosa circunstância de não haver controle sobre o que possam dizer uns dos outros, ao contrário da televisão ou dos jornais, por exemplo.
Não me agradaria nada ver os blogs (como estes, que leio) transformados em «órgãos de comunicação social» com o peso jornalístico que lhe é atribuído muitas vezes. Mas isso é com cada um. Confesso, aliás, que os blogs menos interessantes são os que estão permanentemente dependentes da agenda dos jornais — à esquerda e à direita. Não porque acabem a falar uns para os outros, coisa que é inevitável em tudo (e não me parece mal, pelo contrário; pelo menos fala-se para alguém), mas porque a mim me interessam menos. Quando escrevo que a mim me interessam menos, isso significa, também, que sou e sempre fui contra um «estatuto editorial» da blogosfera (já escrevi aqui sobre isso), contra a limitação dos temas, contra a limitação dos tons em que se escreve. A blogosfera agrada-me também por isso, por poder ser anárquica nessa matéria e ninguém poder impor ao Pacheco Pereira que não escreva sobre a luz, o equinócio ou a filatelia, ou ao Pedro Mexia que não escreva sobre bandas pop, actrizes bonitas ou fenomenologia, ou impor ao Náufrágios que só escreva sobre barcos encontrados no fundo do mar dos Açores, ou proibir o Jorge Marmelo de escrever sobre literatura brasileira. Ninguém pode obrigar o Joel Neto a comentar o Benfica, pedir ao Contra a Corrente que não seja de Évora, ou exigir ao João M. Fernandes que seja «politicamente certinho» e que não se diverta quando quer. É como pedir-me que não me divirta sinceramente com um dos blogs de que mais gosto (e que mais invejo pelo permanente sentido de humor), o dos Marretas, por exemplo, ou alguém irritar-se por o Tiago ser protestante e o Rua da Judiaria ser judeu. Se o Alberto Gonçalves, que geralmente escreve sobre política, quiser escrever sobre aqueles dois restaurantes fantásticos de Bragança e de Mogadouro, isso é mau? E se o Avatares de um Desejo, o A Aba de Heisenberg e o Klepsydra decidirem que durante uma semana só comentam futebol? Temos polícia à porta?
Daí que, embora não concorde com as posições políticas de muitos «blogs políticos», não estou para dar lições nem para ir, a correr, recebê-las. Aliás, uma das coisas boas da blogosfera é precisamente isso: o ar ridículo que toma logo quem aparece a dar lições, a vestir-se de sacerdote, a impor uma agenda ou — vamos lá... — a aborrecer-nos com a sua infinita presciência, quase sempre gritada com a impressão de que se ganhou uma grande batalha intelectual.
Ou seja: a blogosfera também me agrada porque ninguém pode impor silêncio seja a quem for, nem pode obrigar seja quem for a falar sobre aquilo que acha que devia ser matéria para pronunciamento.
Ora, apesar do «efeito pernicioso» dos «blogs mais mediáticos», reconheço que muitos textos que me comoveram, que chamaram a minha atenção por motivos sérios ou risíveis, vêm de blogs anónimos (ou, pelo menos, de pessoas que não conheço). São, como escrevi antes, relâmpagos que iluminam a paisagem. A paisagem, nós sabemos como é: tem os seus declives, os seus rios, as suas montanhas — mas os relâmpagos não são previsíveis como a paisagem. De vez em quando descubro um blog que tem aquela frase, ou que vê aquele pormenor. Como isto não é uma batalha letal, não digo que eles estão certos — digo só que me juntei a eles, que os juntei nas minhas leituras, que me comoveram de alguma maneira. O que me basta perfeitamente. Se quiser mais, vou à biblioteca.
O resto é como na vida em geral. Não gostam? A porta está aberta nos dois sentidos. Só está cá quem quer.

PATRULHA IDEOLÓGICA. O pior da patrulha ideológica não é discordar, detestar, estar contra, ter outros argumentos, ter aliados, cumprimentar os amigos (com «o excelente», «o imprescindível», etc.) antes de dizer uma frase, criar famílias de adjectivos em vez de geografias de afectos, ser facilmente visível, irritar ou ser irritante; não. O pior é estar sempre vigilante — sobre cada vírgula, cada frase, cada ideia. Não discute, não argumenta; não. Tem apenas a obsessão de impor a sua linguagem, a sua conversa, de limitar o espaço que não controla. E um prazer absoluto quando distorce, cita incorrectamente, descobre um fragmento maldito. A patrulha ideológica afirma a superioridade moral do debate — desde que seja com o seu dicionário. O que lhe escapa, morde, sobretudo para se distinguir. Esse sentido policial da discussão acaba por transpor-se para vida propriamente dita, chata, antipática, desgraçada.

RELÂMPAGO. Coisas que aparecem no meio do céu: «Mortalidade: Desde que me apaixonei, tenho medo de morrer.»

CULTURA GERAL, 2. Também por mail, o Francisco Serafim comenta a tentação da «cultura geral»: «Penso que o que a escola já faz é dar cultura geral, aliás, talvez seja esse o grande erro do nosso ensino. Todos os alunos saem da escola a saber que o Vasco da Gama encontrou o caminho marítimo para a Índia, mas são poucos os que sabem por que razão houve a vontade e a necessidade de encontrar um caminho por mar para a Índia.»

novembro 22, 2003

QUEIMA DAS FITAS. De entre os mails que recebi sobre o assunto (voltarei a ele), registo o do Tape-Error404: «Realmente, não entendi bem porque é uma boa notícia não haver queima das fitas em Coimbra. Pessoalmente estou-me nas tintas, mas não acho boa nem má notícia. Mas que é notícia, é. Lembrei-me se não estaria (eventualmente de forma muito remota) a pensar nos peregrinos de Fátima que passam por Coimbra nessa altura, vindos do Norte, e que activam o “pause” da meditação temporariamente.»

CULTURA GERAL. A questão da introdução de uma cadeira de Cultura Geral no Secundário foi proposta por Freitas do Amaral — numa coluna da Visão. Há algumas reacções a propósito do assunto e do que aqui se escreveu; o Nuno B. Almeida e Sousa do Fogotabrase, por exemplo, diz que «o professor Freitas do Amaral só pode estar a brincar ou então está senil de todo. Se eu tivesse tido aulas de cultura geral no secundário, provavelmente teria tido as mesmas notas medíocres que tive a Latim, a Português ou a Antropologia Cultural. Converso hoje com colegas do Secundário, que eram alunos de 19 e tomara eles saberem metade do que eu sei, tomara eles saberem utilizar o que aprenderam em Latim como eu uso, tomara alguns dos que apanhavam 20 a matemática, utilizá-la como eu a utilizo; eu que quase sempre passei “coxo” a matemática.»
O Pedro Peixoto também escreve sobre o assunto: «Acerca de Freitas do Amaral (F.A.) e da introdução de uma nova disciplina, intitulada Cultura Geral, no ensino secundário, penso que tal propósito é, actualmente, impraticável no sentido que F.A. lhe dá. No entanto, caso as nossas escolas fossem dotadas em cada uma das salas de aula com um computador ligado à Internet com Data-Show incluído e outro material audiovisual, esta ideia poderia ser posta em prática. Mais uma vez teria a instituição Escola que se substituir aos pais e à família, no sentido de dar a conhecer aos alunos conteúdos realmente pertininentes que envolvem o cidadão. Bastava debater com os alunos temas que estão na ordem do dia, facilmente apoiados em documentários que passam por exemplo nos canais Odisseia ou SIC Notícias para que os alunos pudessem contextualizar a realidade que os rodeia. Agora estar a debitar conceitos nas disciplinas de História, Filosofia ou Geografia para que os alunos os despejem nos exames não os motiva para a tal Cultura Geral.»

novembro 21, 2003

UMA BOA NOTÍCIA. Ouvi na rádio a ameaça, os argumentos e as lamentações: parece que, este ano, a «queima das fitas» pode não se realizar em Coimbra.

CULTURA GERAL. Eu não concordo com a ideia de Freitas do Amaral, defendida ontem na Visão sobre a inclusão (que suponho imaginária — só pode) de uma cadeira de cultura geral no ensino Secundário (a tese vem de Hirsch, por exemplo). Mas, como quase nunca concordo com Freitas do Amaral, distingo uma ideia sua que me parece premonitória: daqui a uns anos, pelo caminho que as coisas levam no Secundário, talvez passemos «da cauda da Europa dos 15 para o terço inferior da Europa dos 25».

A ideia da Cultura Geral, de qualquer modo, pode fascinar algumas pessoas — pelo seu carácter «democrático», suponho. O problema é que a cultura geral verdadeira não é uma especificidade mas uma generalidade que resulta do interesse pessoal; esse interesse vem da frequência das «disciplinas do Cânone». O apelo constante para ceder à mediocridade na escola, na televisão, nos jornais, na vida política, é que destruiu a cultura geral. Saber onde fica Vilnius, onde desagua o Tâmega, qual a nacionalidade de Ibsen ou quem foi Tucídides, é uma coisa que se aprende num trivial pursuit — mas que se procura saber mais profundamente se a escola, a televisão, os jornais e a vida política não desvalorizarem quem tiver interesse em saber isso (a não ser no «Quem Quer Ser Milionário», naturalmente...).

ISTAMBUL. Os atentados de Istambul não são contra a Europa pela única razão plausível nestas circunstâncias: a Europa, para efeitos políticos e culturais, já tinha posto Istambul fora do circuito. Mas, na sua perversidade e na sua devastação, são atentados contra o melhor da tradição islâmica, que tinha na velha Constantinopla um símbolo derradeiro. As sinagogas — onde há marcas portuguesas, as que foram deixadas por Grazia Nási, aliás Beatriz de Luna, por exemplo — destruídas são uma dessas imagens de convivência arrasada. Transportando o pânico do Médio Oriente para as fronteiras da Europa (para o séquito de Giscard d’Estaing, essa fronteira aparece nos Balcãs — porque está aí o primeiro dos conflitos que a Europa não pôde nem quis tratar), os atentados são, de facto, crimes contra a convivência e os limites de dois mundos.
Se as bombas contra «interesses britânicos» estão já a ser justificados abertamente («Vêem, vêem?...») pela participação da Inglaterra na guerra do Iraque («É bem feito...»), já os ataques às sinagogas mostram a face abjecta da guerra civilizacional (religiosa incluída) que nos aproxima da barbárie. Explico: as sinagogas sempre fizeram parte da paisagem de Istambul; do Islão do século VIII, onde os judeus foram bem tratados como nunca o foram na cristandade que atravessa os primeiros séculos europeus, até à Constantinopla que recebia os exilados de Sefarad, essa presença foi constante. A ideia de que uns pagam pelos outros — e de que as sinagogas pagam por Sharon — é ainda mais perversa mas acho que nem assim a Europa vai compreender que não pode praticar permanentemente a hipocrisia que manda fechar os olhos em nome de todos os seus confortos.
Há um desânimo que vem da desilusão pelo que fizemos ou pelo que não fizemos; há um outro desânimo, mais profundo, quando a história confirma o pessimismo que atravessa todas as fronteiras. A primeira vez que justificarmos o ressentimento será, provavelmente, a primeira perda da nossa dignidade.

RAPAZIADA. Eu não devia escrever sobre futebol mas acontece-me. A rapaziada foi a França ganhar um jogo de futebol aos franceses. Os franceses, habituados a vários tipos de direito divino, não gostaram de perder — e o treinador local fez uma pequena demonstração dos tiques habituais dos franceses (aquela pequenina arrogância da la France, depois de, em campo, ter provado que merecia perder por mais só por ter recomendado aos jogadores que lutassem pela ida a penaltis. Houve ainda aquele episódio caricato de o maire local ter ordenado um controle anti-doping particular e não-oficial. Adiante. O que nos devia interessar foi a dimensão dos festejos da rapaziada portuguesa, que parece ter-se portado mal e destruído parte do balneário. É uma tradição. Se perdemos, esmurramos os árbitros. Se ganhamos, partimos os balneários. Dá gosto.

TEATRO. Leio na imprensa de hoje que houve gente escandalizada por ter sido impedida de entrar no teatro. Conte-se a história em poucas linhas: António Fagundes esteve em Lisboa e no Porto com a sua peça Sete Minutos. À hora de a peça começar, as portas do teatro fecharam e os retardatários não puderam entrar, como acontece em qualquer país civilizado em que há respeito pelos actores e pela peça (que é sobre espectadores que chegam atrasados ao teatro, parece). Alguns Vip, como agora se chama à pessoas que são reconhecidas por aparecerem nas revistas de televisão, ficaram indignados; leio, inclusive, que alguns murmuraram coisas como «estes tipos, pá, vêm do Brasil e acham que são muito importantes» — o costume. O assunto não serve para nada, senão para abençoar Fagundes por pôr esta gente na ordem.

novembro 19, 2003

A NOITE, O QUE É?, 25. Os primeiros dias são tristes, as primeiras noites, há ainda qualquer coisa sem nome a rodear a vigília, livros amontoados, perdidos, poemas soltos, nenhum respira verdadeiramente. Penduradas sobre a varanda, as trepadeiras, o jasmim, o café, o pão, os passos às primeiras horas do dia, as primeiras coisas vindas da janela aberta, sempre aberta. Tudo o resto é aquele silêncio onde os olhos ficam mais perdidos, aquilo de que raramente sabemos dizer o nome.

A NOITE, O QUE É?, 24. Quase nada. Sons vindos das matas, trabalhos leves, flores — plantas — que se compram à beira da estrada para plantar depois. Elas crescerão de Verão a Verão, hão-de conhecer o sentido da palavra solstício, o sentido da palavra equinócio, o sentido da palavra que espera a altura de ser dita. Há uma grande ventania neste lado do mundo, neste lado do mar. Chove, arrumo jornais e folhas de papel, há uma certa brutalidade nisto tudo, mas a verdade é que tudo o que tenho pertence agora a esse dicionário: uma mesa, o cheiro da erva, o ruído que vem de dentro de casa. Se não durmo, se a noite se estende, é porque as coisas me acordam de cada vez que isto acontece.

ANTES DA NOITE. Trago agarradas pelos dedos duas canções antigas dos Titãs: «Insensível» e «Toda a Cor». Pop chiclete, rock chiclete.

DOIS. Dois blogs a não deixar de visitar: Notícias do Cais e Seta Despedida (o título do livro não parece despropositado).

DUAS PALAVRAS. O Duas Linhas pede, no seu blog, que eu dê a minha opinião sobre o interessante artigo de Tony Judt na The New York Review of Books. Sinceramente, só há duas novidades no texto em relação ao que Judt tinha escrito antes, e isso deve-se à velocidade que as coisas tomaram: 1) O sonho sionista foi frustrado nas suas ambições e nos seus objectivos a ponto de tornar-se um anacronismo; 2) assistimos ao enterro da solução «dois estados-dois povos». A ideia do «anacronismo» é, por outro lado, muito duvidosa: não pode pedir-se a Israel que seja um «estado judaico» à medida do contexto de 1948 e, simultaneamente, acusá-lo de ser «predominantemente teocrático» em vez de «democrático» por manter algumas das linhas do «sonho sionista». Até ao ressurgimento da extrema-direita israelita (com o sucesso do Shaas e do NRP — este, o mais perigoso, sem dúvida) a orientação geral ia no sentido da definição de Israel como estado democrático; de certa forma, o assassínio de Rabin e a emigração maciça de judeus vindos do Leste da Europa, onde tinham sido perseguidos e chacinados nos regimes comunistas e anti-semitas, correspondeu a esse abismo letal que reconduziu à discussão sobre «o Israel bíblico». Só quem nunca assistiu a discussões sobre o assunto, entre colonos e imigrantes dos partidos haredim, é que ignora o problema. A verdade é que o «sonho sionista» actual correspondeu a um período histórico pós-1939-1945, mais do que ao sonho de Herzl — o sionismo de Ben-Gurion não tinha nada a ver com o sionismo do «grande Israel Bíblico». Não querendo partir do princípio de que existe uma «virtude democrática garantida», não é possível esconder aquilo que Judt esquece só porque vive nos EUA: Israel é a única sociedade democrática (com imprensa livre, com liberdade de expressão e onde os governos podem cair por vontade popular expressa) em todo o Médio Oriente e essa é também a sua fraqueza no contexto do actual «perdão aos tiranos» e do fascínio pelo terrorismo. A segunda ideia de Judt — a de que a solução «dois estados-dois povos» perdeu a oportunidade — parece-me completamente estapafúrdia. Creio, mesmo, que não há outra solução senão essa, daí ser necessário defender a criação de um estado palestiniano democrático, com instituições políticas estáveis e uma economia que dependa dessa estabilidade.

BOLA. O Manuel Falcão não delira com a bola e, num texto sobre o assunto, pede desculpa ao Aviz por estar irritado com a inauguração do Estádio do Dragão na RTP. Ó Manuel, mas até eu — que gosto de bola — me irritaria com aquele festival. Eu gosto do Estádio do Dragão (preferia outro nome: Antas, por exemplo) — mas não me peçam muito mais. Portugal está a sofrer com este excesso de bola que leva a televisão pública a competir com a TVI na transmissão de inaugurações de estádios e os políticos a delirar com convites e desconvites, ofensas e desplantes, indignidades e patifarias, estar ou não estar presente. Tanto me faz que estivessem lá os representantes da Nação como se tivessem pirado para a Bolívia no cumprimento do seu dever: aquilo era só bola e era assim que devia continuar a ser. Hei-de ir lá um dia, porque é o estádio do meu clube, porque gosto que o meu clube ganhe e provoque invejas, mas não há maneira de atinar com estas contradanças da política & da bola. De resto, também acho que o Euro 2004 não era lá muito preciso (bastava irmos jogar lá fora).
Também o M. Marujo, do Cibertúlia, se interroga sobre o assunto: a resposta está dada, tal como o fiz há duas semanas — ah, ditosa Pátria que em tantos estádios fenece.

novembro 18, 2003

REGRESSAR PARA QUÊ? Vantagens de alguns dias sem saber notícias: não vi a inauguração do Estádio do Dragão, cheguei atrasado à paranóia iraquiana, perdi uma entrevista de Ferro Rodrigues, continuei sem saber o que diz o Expresso ao sábado, não vi as manchetes dos jornais desportivos (nem o contexto daquele ar de queixinhas do Pauleta, do Figo e do Rui Costa), perdi mais 1% de défice. Só vantagens.

novembro 11, 2003

NOITE. A Ana Gomes Ferreira enviou-me um poema, publicado na antologia Um Poeta Faz-se ao 10 anos (Assírio & Alvim, 1973), onde um miúdo dessa idade, Nuno, escreve um poema sobre a noite. Há uma passagem assim:

«Existe ainda outra forma/ de classificar a noite,/ diz-se que é a plataforma/ da vinda áspera do coiote.»

novembro 10, 2003

SHAKESPEARE. «Is it thy will, thy image sould keep open/ My heavy eyelids to the weary night?»

QUESTÃO DE PRINCÍPIOS. Um homem, de telemóvel na mão, fala sobre uma prenda «que têm de oferecer» a um miúdo. Vai andando pelo corredor do centro comercial. Alguém lhe sugere qualquer coisa tão obscena que ele, finalmente, pára diante da livraria. E diz: «Harry Potter? Nem pensar. Isso não ofereço porque é contra os meus princípios.» Muito vai sofrer esse miúdo.

POR ACASO, FALANDO DISSO. Anteontem à noite, a RTP-1 levantou, com aquele arzinho de «escândalo que se aproxima», a hipótese de nem o primeiro-ministro nem o presidente da República estarem presentes na inauguração do Estádio do Dragão. Já se sabia há algum tempo que ia ser assim, uma vez que a cimeira da Bolívia iria impedir essa «presença institucional». Pessoalmente, não me incomoda nada essa ausência. Até acho despropositado estar a valorizar-se a ida à bola do presidente do Parlamento, como segunda figura do Estado. Depois de ver aquela coisa alarve na inauguração do Estádio da Luz, com a República representada ao mais alto nível —o que me lembra as palhaçadas no Estádio Nacional de cada vez que há Taça de Portugal —, até agradeço que seja só mesmo futebol. Tenho saudades dos políticos que achavam que dois cantos seguidos davam direito a penalty (já agora, havia um que pensava isso, mas não gostava de o ver de volta).

novembro 09, 2003

A NOITE, O QUE É?, 23. A meio da noite pergunto se posso dizer esse nome. Quando adormecer será perto dele, segredo dos segredos, relâmpago dos relâmpagos. A casa da minha vida, a vida da minha vida. Penso nisso também, é por ela que desperto a meio da noite e já não faço perguntas. Rodeado de calendários, sonho com o tempo das florestas, os caminhos que levam aos jardins, as tardes de calor caindo sobre a relva, coisas que me dizem esse nome.

novembro 08, 2003

ELE NÃO TOMOU OS MEDICAMENTOS. Foi através do Contra-a-Corrente e do Picuinhas que li — no site da TSF — as declarações de um dirigente da Quercus, Hugo Tente, sobre as desvantagens do TGV: «As pessoas ficam com a noção de que é muito mais fácil, por exemplo, ir de Lisboa ao Porto. Em vez de fazerem uma viagem para outro local qualquer, se calhar muito mais curta, passam a fazer aquela», disse o ecologista. «No somatório total de um ano estas novas vontades das pessoas se deslocarem acabam por se reflectir em muito mais viagens», adiantou Hugo Tente. A Quercus defende ainda que para evitar esse possível aumento da poluição, sejam adoptadas medidas para dissuadir o uso do avião e também do automóvel.»
Eu, sinceramente, o TGV acho uma trapalhada — mas fiquei com muita simpatia por ele depois desta palermice. E dou comigo a repetir: «Em vez de fazerem uma viagem para outro local qualquer, se calhar muito mais curta, passam a fazer aquela...» Ó amigo Tente, veja lá, não se esqueça de tomar os comprimidos. Essa ideia de pensar que as pessoas que querem ir a Arruda dos Vinhos vão ao Porto, ou as que só querem ir comer besugos a Espinho vão a Lisboa, parece-me excelente. Eu até era capaz de fazer essa viagem só para não o ouvir.

MARRETADAS. O Animal reedita a sua marretada sobre greves estudantis.

POSTA RESTANTE SOBRE ELOGIOS. Escreve — num mail — o Pedro Peixoto, de O Intimista: «Deixe-me discordar de si, quando, em relação ao recente artigo de Álvaro Cunhal no Avante!, afirma que “o Cunhal de ontem é o Cunhal de hoje, nunca deixou de ser”. De facto, penso que, se analisarmos com seriedade e sem qualquer tipo de constrangimentos as palavras do fundador do PCP, se evidencia com extrema clareza um abrandamento na postura e na forma como as ideias marxistas-leninistas de Cunhal são passadas. Cunhal é extremamente clarificador quando, propositadamente, deixa de referir-se ao marxismo-leninismo e quando faz um “piscar de olho” à força dos sindicatos. Cunhal dá a ideia de que está desiludido com o comunismo, por este não ter seguido o rumo com que Cunhal sonhou. Este é um Cunhal amordaçado em relação ao seu passado e angustiado com o presente. […]»

BAÍA. O O Cafajeste pergunta se não estou de acordo com mais um elogio a Vítor Baía. Com quase todos, com quase todos. Se Baía tivesse cometido metade das fífias de Ricardo, o que não se diria?

DISCUTIR COM SERIEDADE. O Nuno Mendes comenta o texto do Aviz sobre «a questão estudantil», terminando desta forma: «Por último gostava de concluir dizendo que já é tempo de discutir os assuntos seriamente sem demagogias e fogos de artifício de ambas as partes. Enquanto uns fazem figuras tristes e outros fecham os olhos para não ver, continuamos com universidades mal equipadas, com bolsas miseráveis e que nunca se sabe quando chegam, péssimas condições para os muito estudantes deslocados, laboratórios sem garantias de financiamento e com aparelhos burocráticos dignos de um romance de Kafka. É já mais que tempo de amanharmos o assunto e passarmos ao que interessa...» Ora, sobre isso eu não duvido. Já quanto ao resto, mantenho tudo o que disse.

DESESPERO. Não. Posso desesperar de vez em quando, mas não é com a democracia. E, quanto a pôr na ordem seja quem for, aviso desde já que não é comigo; estou-me nas tintas, desde que não queiram que eu pense exactamente pelas palavras deles — só para ficarmos todos contentinhos com «jornalistas benevolentes» e «estudantes insolentes». Tiro na água, caro Daniel.