$BlogRSDUrl$>
A Praia |
||
|
«I try to be as progressive as I can possibly be, as long as I don't have to try too hard.» (Lou Reed)
Rio
Para quem é apaixonado pelo Brasil e em especial pelo Rio de Janeiro, os brevíssimos filmes da série Ginga, produzidos por Fernando Meirelles, que passam todos os dias na SIC-N antes dos noticiários, são um deslumbramento. No Maracanã, na Rocinha, em Ipanema/ Leblon, onde eu estive, tem as conversas, os sotaques, as expressões próprias do Rio de Janeiro - «até que enfim que tu conseguiu!»; «ah, isso é o de menos!». Não sei onde se arranja isto: se houver quem saiba, diga-me, que eu gostava muito de ter.
Christmas carol
Uma vez por ano, uma canção de natal. «La chanson de Prévert», Serge Gainsbourg, 1961: muito no princípio, quase irreconhecível.Oh je voudrais tant que tu te souviennes Cette chanson était la tienne C'était ta préférée Je crois Qu'elle est de Prévert et Kosma Et chaque fois "Les feuilles mortes" Te rappellent à mon souvenir Jour après jour Les amours mortes N'en finissent pas de mourir. Avec d'autres bien sûr je m'abandonne Mais leur chanson est monotone Et peu à peu je m'indiffère A cela il n'est rien À faire Car chaque fois "Les feuilles mortes" Te rappellent à mon souvenir Jour après jour Les amours mortes N'en finissent pas de mourir. Peut-on jamais savoir par où commence Et quand finit l'indifférence Passe l'automne vienne L'hiver Et que la chanson de Prévert Cette chanson "Les feuilles mortes" S'efface de mon souvenir Et ce jour là Mes amours mortes En auront fini de mourir repeat, repeat, repeat, repeat (a ver se pega)
You are angelic
Isto foi um dia muito estranho. Começa porque uma pessoa disse, espontaneamente, com ar franco, que eu era um «falso mau»; e acaba com um teste de que eu esperava o pior, ao qual eu cheguei a partir dali, e que deu nada menos do que isto:How evil are you?
Balanço do ano
1973 não foi um ano bom para mim.
Ah, flowers
Broken
«Flores partidas» não é uma tradução muito boa para «broken flowers», mas também não era um trabalho fácil. Como se sabe, «broken» em inglês tanto é «partido» quanto «estragado». Mas «flores estragadas» não é uma expressão muito usual em português; dizemos antes flores «velhas» ou «murchas». E se tivessem traduzido o filme por «Flores Velhas» ou «Flores Murchas» seria muito pior, porque se perdia a ambiguidade e dava um resultado pesado, que as «broken flowers» não têm. Seja como for, vejam o filme com alguma atenção.
Listas (2)
Os sete filmes estreados em 2005 que eu vi sem sair do cinema a achar que tinha estado a perder o meu tempo. (Não estou a contar com os filmes do Doc Lx, alguns muito bons, porque não guardo registo.) Os dois primeiros podiam estar na lista (1), e o terceiro quase; o último não chega a ser um filme, o que dá ideia de como foi preencher esta lista:1. Saraband (09.03.2005) 2. Broken Flowers (25.12.2005) 3. Life Aquatic with Steve Zissou (12.05.2005) 4. Nine Songs (05.09.2005) 5. Closer (16.02.2005) 6. Maria Cheia de Graça (01.03.2005) 7. Inside Deep Throat (02.10.2005) Não vi, e gosto de pensar que poderiam estar, Wallace and Gromit - a maldição do Coelhomem, Grizzly Man, Charlie e a Fábrica de Chocolate e talvez mesmo Last Days. Em breve publico a relação completa dos filmes que vi este ano, embora naturalmente sem presumir que isto possa ter qualquer interesse seja para quem for; é coisas que se fazem no dia de Natal à noite.
Listas (1)
Os dez melhores filmes de 2005. Isto de melhores é um bocado relativo:1. O Homem que Matou Liberty Valance (27.06.2005) 2. Os Verdes Anos (29.03.2005) 3. O Caçador (04.11.2005) 4. Mónica e o Desejo (04.03.2005) 5. Mr Deeds goes to Town (14.10.2005) 6. Aurora (11.12.2005) 7. As duas inglesas e o continente (09.06.2005) 8. Les 400 coups (17.05.2005) 9. Baisers Volés (20.05.2005) 10. A Mulher do Lado (31.05.2005)
O espírito da quadra (2)
Se a quadra fosse para ser feliz, tê-la-iam posto no Verão.
Estamos agora no mesmo pelotão dos recém-chegados países do Leste. O que é triste. Mas pode ser ainda mais triste se, daqui a sete anos, em vez de termos aproveitado bem esta última bênção dos fundos, continuarmos no grupo dos mais pobres, correndo o risco de ver alguns dos nossos companheiros de hoje passar pelo agradável "aperto" que a Espanha atravessou neste Conselho Europeu. (...)» [Teresa de Sousa, no Público de hoje]
A ler
«Homenagem ao Prof. Lindley Cintra», por Pedro Mexia.
Ideias na TV
Recomendo que vejam, às quartas, na RTP-N, às dez da noite, as conversas entre Paulo Varela Gomes e a jornalista Sandra Sousa (a espaços interrompidos por Paulo Tunhas), no programa chamado «Choque Ideológico». Estou à vontade para dizer isto porque é frequente eu discordar, e discordar violentamente, das opiniões do Paulo Varela Gomes, já para não falar da embirração estritamente pessoal que ele tem por Mário Soares e que expõe a cada semana. A emissão da noite passada foi das conversas mais inteligentes que tenho visto em televisão em muito tempo. E a pertinência das intervenções da jornalista também contribuiu muito para isso.
O espírito da quadra
Sou um firme defensor da liberdade de celebração religiosa. Chega o Natal, porém, e hesito.
Autobiografia política
Da Política XXI à Política LXXXI.
(...) E é evidente que a inadmissibilidade de crucifixos nas escolas públicas, enquanto tais, nada tem a ver com a sua presença na arquitectura de alguns edifícios escolares, e outros edifícios públicos, outrora com funções religiosas. Relacionar as duas coisas é um puro sofisma, indigno de qualquer argumentação decente. O mesmo se diga, de resto, da invocação dos feriados religiosos, oficialmente reconhecidos, que na sua origem não são mais do que dispensa de obrigações públicas para que os crentes possam cumprir as suas obrigações religiosas. Na medida em que não implicam nenhum compromisso religioso do Estado, nem nenhuma ingerência deste na religião, os feriados religiosos não constituem em si mesmos uma infracção do princípio da laicidade (a não ser na sua vertente da igualdade das confissões, dado que não existem feriados relativos às demais religiões com presença significativa em Portugal). (...) [Vital Moreira, no Público de hoje]
As questões
- Ih, com a barba por fazer! O que é que a sua mãe vai pensar? E o que é que a sua avó vai dizer?[a maquilhadora da RTP, ontem à noite]
O passeio na Avenida
O «passeio na Avenida», em poucas palavras, explica-se assim: acontece-me muitas vezes estar a conversar sobre as presidenciais, até um dado momento em que o meu interlocutor me diz: «quando o tema das eleições estiver encerrado, em Janeiro...». Ao que eu sempre interrompo: «em Fevereiro, em Fevereiro...» Curiosamente, em nenhum outro grupo encontro tanta convicção na vitória de Cavaco Silva como entre os jornalistas. Ora, seria muito surpreendente se deste pressuposto não resultassem quaisquer efeitos.
Do desassossego
Excepcionalmente, o meu debate com Helena Matos na RTP-N é hoje, logo depois do confronto entre Cavaco Silva e Manuel Alegre. A partir da próxima semana, o nosso «choque ideológico» passará a ser às sextas. E entretanto ainda vou à SIC-N esta quinta-feira, discutir com Bernardino Soares (não é um heterónimo de Pessoa) na sequência do debate entre Mário Soares e Jerónimo de Sousa.
À atenção do Henrique Raposo
(do Acidental: na volta, vais ter de mudar de ladaínha)«O modelo multicultural, que é um modelo de exclusão elegante, mas de exclusão pela diferenciação, é um modelo fracassado.» [Francisco Louçã em entrevista ao Público, 1.12.2005]
Acredite, se ler no Expresso
Dizem-me que o Expresso noticia hoje que a candidatura de Mário Soares é a única que ainda não reuniu as 7500 assinaturas necessárias para se oficializar. Dizem que é um sinal evidente de desorganização. Não duvido: sinal de desorganização é não haver na candidatura de Soares quem meta notícias no Expresso.O prazo para recolha de assinaturas termina daqui por mais de três semanas; a notícia sai hoje vá lá saber-se porquê. De qualquer forma, se quiser colaborar (é um processo chato, mas a causa é boa), pode fazer download ali.
Adenda
«O João Pedro George diz que "Um leitor minimamente exigente tem o direito de reclamar muito mais de uma intelectual prestigiada como Maria Filomena Mónica". Ela é uma intelectual prestigiada? Onde? Acho que o livro vale como diário duma pessoa qualquer, e realmente não se nota nada que é escrito por uma "intelectual prestigiada". Nesse aspecto, concordo que é decepcionante. Agora, quantos diários de betas dos anos 1960 existiam até hoje?»
Mission accomplished
[do editorial do Economist desta semana, «Why America Must Stay»](...) Two-and-a-half years after Mr Bush stood beneath a banner proclaiming “Mission Accomplished”, the insurgency is as strong as ever. More than 2,000 Americans, some 3,600 Iraqi troops, perhaps 30,000 Iraqi civilians and an unknown number of Iraqi insurgents have lost their lives, and conditions of life for the “liberated” remain woeful. All this makes Mr Bush's refusal to sack the people responsible for this mess, especially his defence secretary, Donald Rumsfeld, alarming. (...) Over time, American numbers should fall. But that should happen because the Iraqis are getting stronger, not because the Americans are feeling weaker. Nor should a fixed timetable be set, for that would embolden the insurgents. The cost to America of staying in Iraq may be high, but the cost of retreat would be higher. By fleeing, America would not buy itself peace. Mr Zarqawi and his fellow fanatics have promised to hound America around the globe. Driving America out of Iraq would grant militant Islam a huge victory. Arabs who want to modernise their region would know that they could not count on America to stand by its friends. If such reasoning sounds negative — America must stay because the consequences of leaving would be too awful — treat that as a sad reflection of how Mr Bush's vision for the Middle East has soured. The road ahead looks bloody and costly. (...)
Um testemunho indispensável sobre a vida duma beta gira
(...) um testemunho indispensável sobre a vida duma beta gira entre o princípio dos anos 1960 e meados dos anos 1970, que acaba, bastante por acaso, por transformar-se em intelectual, entre as eras pré-pílula e pós-pílula, o salazarismo e a democracia, entre os betos de Cascais e os intelectuais da avenida de Roma, com umas passagens por Oxford e Cabanas de Tavira, num tom sempre algo autocrítico, quase humilde por vezes, que desarma quaisquer bocas que apeteça mandar. (...)
Frases para impor respeito
[série do bombyx-mori, adaptada]«Eu só me interesso por política internacional.»
PdI
«Está um gajo na tv que parece o Ivan mas em gordo.»[uma das centenas de mensagens de saudação que recebi desde 3ª feira]
Podem dizer o que quiserem, com aquela parte sobre o talento está feita a lisonja
You Are... The Jesus And Mary Chain. You are moody and unpredictable. You are the underdog who refuses to sink to the bottom. You have more talent than you ever really let anyone know. It almost seems as if you try and sabotage whatever good things may be going on in your life, and you often feel like you may be giving people a bit too much of yourself. Being in the spotlight is something you find to be rather uncomfortable though you secretly yearn to be loved by everyone. You lean toward things of a darker nature and are prone to self destructive tendencies. You struggle with happiness for the simple fact that you seem to be in love with your misery. You are a realist. what Creation Records band are you? (complete with text and images) brought to you by Quizilla
Impeach Mexia
Não vou dizer que é o pior filme do ano, porque este ano tem sido pródigo em filmes péssimos, e mais que todos vi os quinze primeiros minutos de Tarnation (depois, evidentemente, saí). Mas Elizabethtown é certamente o mais cretino - desengraçado, mal representado, piroso (a banda sonora é de antologia). O filme é tão mau que até tem o Alec Baldwin. Isto é um aviso. Talvez você, estimado leitor, seja um adolescente de 14 anos, and not very much on the brainy side, e imagine que o filme é para si; foi, pelo menos, o que eu imaginei durante uma hora. Mas depois da cena final do sapateado ficou claro que não era: talvez doze, se não for do género de puxar pela cabeça.Bem sei que Mexia, o crítico de cinema, o bom amigo, gostou muito. Impeach Mexia. A partir da próxima 3ª, estarei na RTP-N todas as semanas, às dez da noite. Choque ideológico com Helena Matos.
Evitar o sectarismo
O combate político tem muitas ratoeiras. Uma tem que ver com a animosidade que se gera de parte a parte. Nem sequer estou a dizer que não devia ser assim. Ao contrário de outros, eu sei que algumas das nossas posições políticas contêm uma dimensão de escolha moral. Nem todas as posições políticas podem ser vestidas de um ponto de vista moral, e duas pessoas podem perfeitamente discordar respeitando-se, colocando-se perfeitamente no lugar do outro. Mas nem todas. Algumas são escolhas morais.Portanto, gera-se animosidade, indignação, às vezes sectarismo. Mas por outro lado é preciso ter espaço para respirar, porque se não se sai do registo da indignação acaba por se perder muita coisa, por não se perceber muita coisa. Pacheco Pereira, por exemplo: não só discordo dele em muitos aspectos, mas frequentemente o que ele diz provoca-me indignação. Vejo, ou julgo ver, os truques. Por outro lado, tem inúmeras qualidades, há imensas coisas de que ele fala, para que ele chama atenção, com as quais se aprende. O Abrupto, por exemplo: veja-se aqui, aqui, aqui. Estas notas não se encontram noutros lugares, e são sinais de uma inteligência atenta. Para mim são também um intervalo na campanha eleitoral.
Salvo pela amiga (o que há num nome)
Não sei quem é a amiga, mas gostava de lhe mandar um abraço, por me ter resgatado à justa da não-existência.Este tipo de coisas faz-me lembrar um episódio da minha juventude. Teria uns 15 ou 16 anos e um amigo convidou-me a ir a casa dele, em Campo de Ourique. Era uma casa muito chique. Chegado lá, apresentou-me: - «Avó, este é o Ivan.» - «Ivan? Que horror! O seu pai é comuna?» - «É.»
Curso rápido de cultura clássica
Eu tinha avisado para a hubris. Parece que agora o Lomba encontrou a sua nemesis: aqui, aqui e aqui.
Rectificação
[dali, texto do André Belo]O nome deste bistrot: «Garedelest» é uma alcunha dada, em circuitos notoriamente não sarkozyanos, aos portugueses de Paris. É uma alcunha que nunca ouvi dita, mas que só pode ser verdadeira porque é muito fiel. Não se deve ler o nome com gravidade, à francesa — «Gare de l'Est» —, mas sim com toda a adulteração, suave e radical ao mesmo tempo, mariosoarezesca, do francês quando ele é falado pelo português. Pronunciando-se assim: gárdeléchte. Com o R como em "Guarda". Com o S antes do T como nós o dizemos, como se fosse X ou CH. Com o L que mal toca no palato, blasé, como se não quisesse ser L. E com as vogais mudas comidas pelas consoantes. Enfim, à portuguesa. Acho que é uma alcunha afectuosa, uma homenagem à nossa língua. «Gare de L'Est» — a autêntica — daria um blogue mal frequentado, um bistrot onde se bebe e fuma muito desde manhã cedo, perto de sex-shops e boulevards poluídos. Isto seria o blogue se reproduzisse a realidade. E eu sou só o dono do bistrot. Mas os blogues reproduzem fantasias. Que, por sua vez, são realidades muito palpáveis.
O regresso da Rita
Tenho visto muitas declarações de intenção a iniciar blogs; editoriais; proclamações de princípio. Mas merece que se destaque esta:«A autora acredita que é possível contar todos os dias uma história de amor diferente.» Vamos ver. No sorriso do bisturi.
Gare de l'est
«La France, tu l'aimes ou tu la quittes. A mensagem é para todos os franceses? Claro que não: é para os "árabes" e é para os "pretos". Quem mais é que De Villiers, esse senhor da Vendeia reaccionária, trataria condescentemente por tu?»[Esta e outras questões no novo blog do André Belo, oportunamente escrito a partir de Paris]
Ai Portugal, se fosses só três nomes
Não eras um país. Eras, provavelmente, um blogger de direita.
A campanha vai ser realmente difícil
Está visto que o Prof. Cavaco não vai abrir a boca, a não ser a comer.
25 de Abril de 1975, dia em que o PS ganhou as eleições para a Assembleia Constituinte. Foto de Jean Gaumy. Clique na imagem
Trabalhinho de casa, sff
[outro texto por cortesia do André Belo]Não digo que se tenha de estar em Paris para escrever sobre o que se passa, mas pode fazer-se um mínimo de trabalho de casa. Colocar em título, como fez o Público na sexta, "Paris em estado de sítio" é o contrário de informar. Não estava, não está, e foi perfeitamente possível, nestes dias que passaram, ser turista português em trânsito para a Euro-Disney e não saber nada do que se passa, a não ser pela televisão. Os parisienses também não conhecem as cités da "banlieue" norte. É isso mesmo: são guetos ou cidades-dormitório. Mas à volta de Lisboa é muito diferente? Hoje, no mesmo jornal, um colunista (não identificado na edição online) escreve que o Estado francês "há muito desistiu de manter a lei no metro". Qualquer que pessoa que conheça minimamente o metro de Paris, mesmo só como turista, sabe que isto é totalmente falso. Há sete anos que vivo nesta cidade e nunca me senti inseguro no metro (nem no resto da cidade, aliás) uma única vez.
Debaixo de Sarkozy o fogo
[Directamente de Paris, um post escrito pelo André Belo]Explicar não é justificar. Explicar é tentar perceber por que razão as coisas acontecem. Sem se perceber por que razão as coisas acontecem, não se pode lutar contra o que há de mau no que acontece. Tem-se dito na imprensa e nos blogues portugueses, e com muita razão, que a actual violência urbana nos subúrbios de Paris e noutras cidades francesas exprime as contradições flagrantes entre a retórica da integração existente neste país e a dura realidade da forte segregação de uma parte da sociedade. Mas se o objectivo for fazer uma análise política da actual situação, então teremos de fazer algumas distinções essenciais. Se não as fizermos, todos são responsáveis e ao mesmo tempo não é ninguém. Ou então resume-se tudo a um caso de vandalismo e de polícia — e é deixar a nossa sociedade arder. A expressão criminosa da cólera social por jovens adolescentes suburbanos representa não a rejeição do modelo social francês — os jovens violentos das "cités" são precisamente os que ficam à porta da integração nesse modelo; é por isso que, de forma cega mas significativa, atacam alguns dos símbolos dessa integração —, mas o falhanço da agenda securitária musculada conduzida nos últimos anos por Nicolas Sarkozy, o ministro da administração interna dos governos do partido de Chirac. As causas da cólera são profundas, vêm de trás e têm muitos responsáveis, à esquerda e à direita, mas não é por acaso que os jovens entrevistados nas escolas e nos bairros dos subúrbios — por vezes familiares, amigos, conhecidos de quem incendeia os carros — apontam o dedo a Sarkozy e pedem a sua demissão. Eis uma reivindicação perfeitamente racional. Aos olhos deles, Sarkozy é, nos últimos anos, o rosto da não integração e, pior, da provocação vinda do Estado. Não se trata de diluir outras responsabilidades nem de propôr o diálogo contra cocktails molotof. Mas as políticas exclusivamente policiais conduzidas por Sarkozy não só não atenuaram o sentimento de insegurança como o reforçaram, como agora se vê, de modo espectacular. É preciso perceber o que significa Sarkozy politicamente. Este é o "homem forte" que foi louvado por tantos, inclusive por uma parte da esquerda francesa, por não revelar a "tibieza" do governo de Jospin diante dos problemas de insegurança. Foi ele quem disse aos eleitores de Le Pen que tinha entendido a sua mensagem quando este passou à segunda volta nas presidencias de 2002. Foi ele quem decidiu passar à acção e meter ordem "nisto". É ele quem hoje trata, num verdadeiro lepenismo de contrabando, politicamente legitimado, os jovens cidadãos franceses como "racaille" ("escumalha"). Da República, Sarkozy não guardou sequer a retórica da igualdade. Guardou apenas a polícia, e no seu sentido pré-moderno: trata-se de "limpar" os bairros perigosos. Nos últimos anos, retirou das "cités" a polícia de proximidade e apostou tudo na polícia de intervenção, fortemente armada e com uma lógica de confronto. É esse hoje o rosto do Estado francês nos subúrbios difíceis; o resto é corte de subsídios às associações locais, ausência ou degradação visível das instituições públicas de integração social, sobretudo as escolas. O resultado está à vista: um incidente envolvendo a presença da polícia levou à morte de dois adolescentes. Nas "cités", a identificação clara do rosto do inimigo ateou o rastilho dum incêndio enorme que o governo agora vai ter que apagar, sabe se lá com que meios. PS. Acabo de ver uma peça do telejornal da televisão portuguesa mostrando alarmante linguagem insultuosa e apelos à vingança de blogues franceses de homenagem aos dois jovens que morreram em Clichy-sous-Bois. Esqueceram-se apenas de dizer (embora se pudesse ver pelas imagens) que esses insultos vinham essencialmente do espaço de comentários, a coberto do anonimato, onde todo o vandalismo verbal é possível. Esperemos que Pacheco Pereira, na sua infinita imparcialidade analítica, tenha anotado mais este exemplo de "bloquismo de esquerda" da RTP.
Um exemplo de ética
Todos os maus escritores deviam ter a decência da Inês Pedrosa, e avisar-nos colocando um grande cliché no título. Fica comigo esta noite. Fazes-me falta. Como literatura será péssimo, mas do ponto de vista ético é exemplar. Quem, entre os leitores, poderá dizer que não estava avisado?
Terremoto
São nove e meia da manhã e estão a tocar os sinos. É para anunciar que começou mais um grande blog do pequeno Rui Tavares. Já está muito bonito, muito profissional. Bem vindo.
Este ano
(imagem roubada ao Sancho Pança da Trafaria) Enquanto o talento de um extraordinário jogador de futebol dura, dá a ilusão de que vai durar para sempre. (As mulheres muito bonitas criam a mesma impressão.) Mas o apogeu são três, quatro anos. E um jogador verdadeiramente extraordinário - um Pelé, um Maradona - só aparece geralmente de duas em duas décadas. Portanto, é agora, e especialmente este ano que é ano de Mundial, que é preciso estar atento.
Solitária
A autocomiseração é a tarefa mais solitária que existe.
Procura-se
Acontecimento extraordinário, se possível com carácter de epifania, que dentro de anos possa vir a ser relatado à rubrica «momentos decisivos» da revista Pública. Assunto sério.
A caixa
Encontro críticas violentas aos blogs que (como o meu) não têm caixa de comentários em blogs que têm caixa de comentários. Geralmente só não têm comentários.
São boas notícias para a candidatura de Alegre
It's good news for traditional (...) men. The metrosexual is dead: long live the übersexual. After dominating US style and fashion for several years, the ideal of the modern male as someone who cared about fashion and skin care as much as a woman did is about to be swept aside by a return to old-fashioned, masculine values: fine wines, cigars and red-blooded heterosexuality... [Continuar a ler aqui.]
+2
Moreno na esquerda, Domenico na direita, Kassin ao meio (e depois o contrário) [Moreno +2, «Deusa do Amor», em Máquina de Escrever Música, 2001. Se isto aqui tocar será graças a ela.] Estes rapazes são a coisa que mais me entusiasma na música brasileira dos últimos anos. (Além deles, havia o Chico Science, tragicamente morto num acidente de automóvel em 1997, com apenas dois discos publicados.) Moreno Veloso, Domenico Lancelloti e Alexandre Kassin tomaram uma decisão que, tanto quanto conheço, é inédita: a banda muda de nome de disco para disco. O primeiro disco, pensado e cantado por Moreno, numa espécie de nova bossa-nova, tem autoria de Moreno+2; o segundo, mais electrónico, é de Domenico+2; e o terceiro, no próximo ano, será de Kassin+2. Imagino que isto não ajude muito ao trabalho de promoção, nem facilita a arrumação dos discos nas prateleiras das lojas. Para o quarto cd está previsto um verdadeiro trabalho de banda, nessa altura com o simples nome de +2. O concerto no Forum Lisboa, na passada sexta-feira, foi uma misturada destas coisas todas, talvez com uma certa predominância do Domenico do último disco. Mas, como a distribuição é fraca (em Portugal é quase impossível encontrar o segundo cd, no Brasil não se acha o primeiro) e como os concertos por aqui ainda são raros, juntaram-se coisas dos discos passados e dos futuros. O resultado foi uma banda de cariocas tocando com muito gosto, público relativamente escasso mas entusiasta, uma grande curtição. A acompanhar os três da banda, estavam, naturalmente, +2: Stephane San Juan e Pedro Sá, o extraordinário guitarrista que nos últimos anos tem tocado com Caetano Veloso.
Cavacologia
A crónica de Ana Sá Lopes no Público de ontem é brilhante. Quantas vezes é que eu já tinha usado o adjectivo «brilhante» neste blog? Pois não: nenhuma.Ninguém da família vai fazer campanha Ana Sá Lopes Público, 23 de Outubro de 2005 Ontem, a primeira página do Expresso era dominada por uma notícia interessante: "Maria Cavaco Silva antecipa campanha presidencial do marido - One Man Show". O Expresso, que passou o "dia d" com o casal Cavaco e quatro netos, recolheu uma informação preciosa da mulher do candidato a Presidente: "Ninguém da família vai fazer campanha". A possibilidade de desenvolver uma qualquer mitologia, política ou outra, passa por criar o efeito de "verosimilhança". Não interessa se for falso, desde que seja verosímil. A ideia de verdade não é para aqui chamada, nem nunca foi. De resto, a verdade obriga a um grande esforço de recolha de elementos e não tem lugar no tempo veloz da tomada de uma decisão política (que, como toda a gente sabe, é uma decisão que resvala habitualmente para o campo da irracionalidade, próprio da tomada de uma decisão afectiva). É no efeito de verosimilhança, e não na velha dicotomia verdadeiro-falso, que se desenrola boa parte da acção política. Mas isto não é novo, está particularmente bem explicado nos "simulacros" de Baudrillard e, de resto, sempre assim foi, desde os primórdios da democracia romana. A peça do Expresso de ontem é um monumento a essa "sabedoria". Não é qualquer sujeito político que põe a família a fazer campanha, abre as portas ao semanário mais vendido em Portugal, mostra os netos e as suas conversas com os netos, e consegue depois transmitir ao povo uma informação superior: "Ninguém na família vai fazer campanha". É quase comovente a ingenuidade colectiva que leva a um assentimento perante a formulação que se anula a si própria. O acontecimento revelado pelo Expresso - Cavaco a explicar aritmética aos netos: "Se o João tem sete balões e dá três à Maria com quantos fica?" e Maria a esclarecer que "se for letras é com a avó", a família fotografada feliz na primeira página - convive serenamente com a tonitruante declaração de Maria: "Ninguém na família vai fazer campanha". O acto de campanha que enuncia a não campanha pode ficar nos anais do "marketing". A mensagem que está subjacente é exactamente a mesma do famoso vídeo Dinis-Bárbara-Carrilho, com a diferença de que Cavaco Silva percebe muito mais do assunto e não leva o recato do lar para a apresentação da candidatura. Mostra-o, simplesmente, ao Expresso. "One man show", é Maria quem o diz. A mitologia cavaquista - e a adesão popular que conseguiu durante quase 10 anos - é um dos fenómenos mais interessantes da política contemporânea portuguesa. Vinte anos depois de ter chegado ao poder com a aura de "político não profissional" e "especialista em finanças", Cavaco Silva regressa invocando a sua categoria de "político não profissional" e "especialista em finanças". É como se o hiato de dez anos em que Cavaco Silva esteve afastado da vida política activa, depois de ter sido derrotado nas presidenciais por Jorge Sampaio, tivessem o condão de apagar todo o "disco rígido" do passado profissional de Cavaco Silva enquanto político e enquanto gestor de finanças do país. Ao candidato só faltou, no Centro Cultural de Belém, vestir a toga branca e virginal com que os candidatos ao senado de Roma se passeavam na rua de modo a ser facilmente identificados. O cavaquismo nunca existiu e o disco rígido nacional, aparentemente, foi destruído por uma qualquer incapacidade do cérebro informático.
A Vanessa
Esqueçam Vasco Pulido Valente, Sousa Tavares, João Pereira Coutinho: a mais perspicaz dos cronistas políticos portugueses é, provavelmente, Ana Sá Lopes. As crónicas da Vanessa, em particular, são o melhor retrato do ambiente político do pós-guterrismo, entre finais de 2001 e 2004. É uma pena que a edição em livro destas crónicas seja tão descuidada: falo do facto de haver crónicas claramente mal datadas, e também de o Público ter promovido o livro sob o tema das «mulheres». A inteligência das crónicas da Vanessa está em elas serem um retrato do quotidiano que ao mesmo tempo se desenrola sobre um pano de fundo político; em fazerem rimar a banalidade e a superficialidade do quotidiano com a banalidade e a superficialidade do ambiente político.É uma pena que quem editou o livro não tenha percebido isto - promovendo-o, por exemplo, no âmbito do Dia Internacional da Mulher. O texto da contracapa é dolorosamente estúpido. Vai ao ponto de explicar que o Cavia, esse magnífico personagem com quem a Vanessa andou (e quem é que nunca na vida andou com o Cavia?), é afinal «o-que-havia», o que estava disponível. Para completar, cita-se uma frase de Pacheco Pereira (no abrupto) triplamente infeliz: de tão mal escrita, tão redutora (trata as crónicas como mero «protótipo das relações afectivas modernas») e tão moralista (como se Pacheco tivesse no bolso a solução das relações afectivas profundas e boas). Onde os textos são subtis, irónicos, funcionam a vários níveis, a contracapa é explícita, moralista e redutora. Ana Sá Lopes continua em grande forma. A crónica de ontem no Público é um modelo de inteligência e concisão. Vou reproduzi-la no post a seguir.
Isto é uma informação especialmente para quem não gosta de bola
Ronaldinho Gaúcho fez o passe para o terceiro golo do Barcelona, ontem, com as costas. Não foi de costas, foi com as costas. Um passe de 8 ou 10 metros.
Ele nesta foto até faz lembrar o pai.
Os clássicos
Se isto não é a XII tese sobre Feuerbach, não sei o que será. A Charlotte continua a fazer justiça aos clássicos.Adenda: A história mais divertida (que eu nunca resisto a contar) sobre as Teses sobre Feuerbach é a de um artigo de José Manuel Fernandes, no âmbito de um dossier (de resto, belíssimo) que o Público dedicou aos 150 anos do Manifesto Comunista, em 1998, em que se dizia que tinha sido nestas teses (de duas páginas) que Marx pela primeira vez tinha introduzido o conceito de «ditadura do proletariado».
E a seguir
O presidencialismo seria reclamado por quem não estivesse a pensar conquistar a Presidência.
Por um novo elitismo de esquerda
Num texto no Público, há dois dias, o Marquês de Fronteira enunciava os pilares da sua concepção da esquerda, incluindo a ideia de que «deve haver elites». Eu acho muito bem. Só gostava de ver alguém dizer o mesmo e, a seguir, colocar-se fora das elites: «Deve haver elites e não se preocupem comigo. Se eu sou Marquês é para engraxar os sapatos e tratar da louça.»É uma pena que neste país só as elites tenham o sentido de responsabilidade suficiente para constatar a necessidade de haver elites. O elitismo devia ser um movimento de massas, um verdadeiro anseio do nosso povo.
É pessoal e é político
66 Seasons, de Peter Kerekes Começou muitíssimo bem a minha semana no DocLisboa, com um documentário sobre a guerra civil na Libéria, em especial sobre os episódios de Julho e Agosto de 2003. Por coincidência, a exibição em Lisboa deu-se na semana em que os liberianos votaram finalmente para a 1ª volta das eleições presidenciais no seu país, onde está destacada a maior missão da ONU existente no mundo neste momento. No filme são entrevistados indivíduos locais, trabalhadores humanitários, responsáveis políticos, soldados; ia jurar, pelo sotaque, que uma das raparigas da cruz vermelha que ali aparecia era portuguesa. A narrativa desenrola-se acompanhando de muito perto os dois exércitos rivais, com o realizador Jonathan Stack de um lado e o co-realizador James Barbazon a seguir o outro. Sempre me surpreende e baralha o relativo desinteresse que manifestam por este festival de documentário pessoas que em geral se preocupam com a política internacional. Sem querer marcar pontos, não encontro explicação para praticamente não se ver uma alma de direita na Culturgest por estes dias. O documentário é uma forma muito rica, que permite observar e investigar aspectos da política internacional durante períodos relativamente longos, de uma forma que geralmente não é acessível à imprensa (e muito menos à imprensa portuguesa, que raramente tem sequer dinheiro para mandar alguém em reportagem ao exterior). Aprende-se muito com o documentário, o doclx já tinha sido excelente no ano passado, e parece-me que este ano pelo menos repete. Ontem à noite, vi um filme com uma estrutura narrativa muito menos convencional e que incidia sobre acontecimentos políticos por um caminho indirecto. 66 seasons ocupa-se dos antigos frequentadores de uma piscina eslovaca há mais de 60 anos atrás, levando-os ao local e pondo-os a contar as memórias das suas vidas quotidianas nos tempos da II GM e subsequente invasão soviética. Para mostrar como o passado se transforma no presente, como ele envelhece no presente, como ele se mistura no presente, o filme aposta numa espécie de confluência de tempos históricos, pedindo aos banhistas de há 60 anos para identificarem personagens que os representem entre os banhistas jovens e adolescentes do presente, que assim assumem por vezes as vozes dos mais velhos. Um documentário muito engraçado, muito inteligente, um pouco morettiano na forma como realizador e personagens se interpelam e no ambiente quotidiano do filme.
O soarismo - e eu
A minha entrada na campanha eleitoral foi saudada com irritação por alguns blogues de direita. Há os adjectivos do costume - «inefável», chama-me o portugal dos pequeninos, prestimosamente recomendado pelo Paulo Gorjão. Mas há também questões sérias, blogs que recordam o meu histórico, o meu ancestral anti-soarismo, em particular reflectido num texto que escrevi em 1995 e em que criticava Soares com muita violência, por ocasião do seu encontro com Craxi na Tunísia. Nessa altura, Soares interrompeu uma visita de Estado para cumprimentar Bettino Craxi, antigo primeiro-ministro socialista italiano, à época foragido à justiça do seu país, e entretanto falecido. E o texto que nessa ocasião escrevi no Público foi porventura dos mais severamente críticos para Soares que apareceram na imprensa portuguesa.Hoje acho que tinha razão nalgumas coisas, não tinha razão noutras, e que aquelas em que ainda me encontro distante de Soares não são, para o caso das eleições que se avizinham, o mais importante. Tentarei explicar. A parte em que eu tinha razão desdobra-se em duas. Evidentemente, continuo a achar que Soares não devia ter feito o que fez naquela ocasião. Mais do que isso, continuo a achar que isso só foi possível na medida em que Soares tinha adquirido nos anos 1990 um estatuto de quase impunidade, uma condição de pai-da-pátria, dono-da-república, que quase o punha acima de qualquer crítica. Esse estatuto era pernicioso, era doentio - e, no entanto, quem não se lembrar dele não pode hoje imaginá-lo, olhando para a imprensa portuguesa dos dias que correm. Bastantes soaristas de então estão hoje na primeira fila do cavaquismo. Num outro aspecto eu não tinha razão. A apreciação que na altura eu fazia do papel histórico de Soares não é a que faço hoje. Essa apreciação, parece-me agora, era estreita: só isso explica, por exemplo, que para castigar Soares eu tivesse escolhido (entre muitos outros adjectivos) chamar-lhe «titubeante», porventura a classificação mais disparatada que se pode atribuir ao personagem, considerando o seu percurso. Soares sempre foi um táctico e, com um bocado de desatenção à história, mesmo com algum sectarismo, é possível confundir tacticismo com ausência de norte. Isso que eu antes pensava de modo nenhum o penso hoje. E o terceiro aspecto é que as eleições presidenciais de 2006 não se jogam na visita a Craxi de 1995. Não preciso de me converter a uma posição acrítica relativamente ao meu candidato, para achar que ele é o melhor em presença; para achar mesmo, como de facto acho, que, hoje, a esquerda não poderia ter melhor candidato. Até porque - e isto é um aspecto que para mim tem a sua importância - foi o próprio Soares que se desligou do unanimismo que tinha montado à sua volta, que embarcou num combate eleitoral de destino incerto, por um conjunto de valores e de convicções. Sou dos que pensam que a esquerda não tinha outro candidato presidencial - e que os que poderia ter tido (Guterres, Vitorino) eram infinitamente menos satisfatórios do que Soares para desempenhar o lugar. E sou dos que admiram - posso mesmo dizer: admiro extraordinariamente - o facto de um homem que já teve todas as glórias políticas a que podia aspirar voltar mais uma vez ao combate, numa situação difícil, numa situação em que, se for derrotado, não haverá possibilidade de redenção futura. Soares esteve lá em cima com os níveis de popularidade nos 70% e mais, durante muitos anos, e desceu por sua própria iniciativa, pela convicção de que em política há combates por aquilo em que se acredita. E também (não vejo vergonha em dizer isto) porque há combates contra aquilo que se acredita que é errado, negativo, aquilo com que não se está disposto a conviver. O contraste entre esta atitude e a de Cavaco Silva, esse Messias sempre acima da política, essa figura que tem nojo da política, esse actor principal do nosso regime que sempre pretende não ter nada que ver com ele, esse político que evita todo o debate - o contraste não podia ser maior. E também é por isso que acho que Soares será não apenas o Presidente da República mais capaz, mas também o melhor candidato para, pelo contraste, esclarecer o que está em jogo. Claro que o balanço global que faço hoje dos dez anos de presidência de Mário Soares é muito diferente do que fazia no passado. «Atrás de mim virá...», pode-se dizer; ou, simplesmente, ganhei recuo histórico para uma avaliação global. Estou com Soares e a candidatura de alma e coração, sem prejuízo do que escrevi no passado, sem prejuízo de eu ter errado nalguns adjectivos, sem prejuízo mesmo dos aspectos em que fui e até hoje continuaria a ser crítico de Soares. A escolha de Janeiro, para mim, é suficientemente boa e suficientemente clara. Com o maior gosto pela companhia e pela caminhada, estou aqui.
O regresso (3)
O Pedro Lomba novamente cheio de hubris.
Esse blog é bom
O Mexia escreve bem e o Barthes escreve ainda melhor.
Algum consolo encontro nas desgraças alheias
[do Blogo Existo]Co Adriaanse voltou a aplicar a táctica que tem usado com tanto sucesso na sua já longa carreira: o 4-0-6, com a peculiaridade de os 4 de trás também serem uns zeros.
Resposta a Vital Moreira
Coimbra B ao domingo à noite: no dia seguinte não haverá sequer chocolates.
O regresso (2)
[A entrevista de Morais Sarmento ao Diário Económico, seguindo a pista de Vital Moreira]Do dr. Mário Soares não espero nada, nem acho que seja correcto perguntar como é que ele vê o país nos próximos dez anos por respeito pela idade que tem. (...) Todos devemos querer o bem do dr. Mário Soares. E que a sua longevidade seja muita. Mas enfim... (...) Na situação em que o país se encontra, o Presidente da República é talvez o mais forte ponto de arranque de um processo de reformas. Aquilo que eu acho que o prof. Cavaco Silva é capaz de concretizar é o projecto e a tarefa mais difíceis desde 1976. (...) Apresentando-se desta forma ao país, o Presidente deixa de estar às quintas-feiras a receber o primeiro-ministro para comentar a situação do país e passa a estar às quintas-feiras a receber o PM para julgar em que medida o Governo está ou não a cumprir as directrizes. Enquanto estes pontos forem respeitados na livre decisão do Governo, tudo bem. Quando qualquer destes pontos for tocado, o Governo terminou nesse dia. Com ou sem maioria. A encruzilhada em que o país se encontra exige mais. Há um programa presidencial que se deve sobrepor à acção dos governos, balizando-o. E é pelo respeito por essas balizas que o Presidente da República passa a avaliar o desempenho de qualquer governo. E daqui decorre um ponto essencial: o mandato presidencial tem de ser para dez anos e não para cinco. E a única maneira deste processo ser possível é legitimá-lo na eleição presidencial. Os portugueses têm de legitimar este projecto e este modelo de funções presidenciais. No momento em que um Governo actue de forma contrária a estas referências pré-determinadas, esse Governo deve ser dissolvido imediatamente. Se, depois, esse Governo for reconduzido, o mandato do Presidente termina nesse momento.
Isto não é bem um post. É mais um email para duas pessoas mas com informações que são de interesse geral
Como dizia Vinícius, «eu gosto muito de São Paulo. O único defeito dessa cidade é que você anda, anda, anda e nunca chega a Ipanema.»A partir de sábado, tenciono estabelecer escritório ali.
Leituras importantes
Dois colunistas de direita no DN de hoje: um deles está a mentir e não me parece difícil perceber qual é. Se a campanha for bem conduzida, esclarecedora, se Cavaco for obrigado a vir a terreiro defender-se, se a candidatura de Soares for percebida como uma alternativa clara, esta ambiguidade não poderá durar para sempre. Nessas circunstâncias Cavaco perderá votos, muitos votos; a minha convicção é de que poderá até perder as eleições. Mas para isso é necessário que comece a discutir-se alguma coisa, o que, dada a quase unanimidade actual da imprensa contra Soares, por enquanto só acontece por iniciativa da ala mais à direita do cavaquismo.
[Jacques Brel, La Statue, 1962. Para quando uma festa só com chanson française?]
A grande coligação
CDS e esquerda moderada voltam a encontrar-se na pista de dança: hoje há festa no Frágil a partir da meia-noite.
Diálogos da vida real (2)
- Tu não te queres casar?- Quero. Só não quero com ninguém que eu conheça.
Diálogos da vida real
- Como é que é a moral sexual por aqui?- Acho que não há.
Moral sexual
As mulheres simulam; os homens disfarçam.
Link, deslinque
Um deslinque errado e acabou-se. Pode ser o equivalente blogosférico do bombismo suicida.(V. tb. aqui.)
Imaginar o passado
Gary Cooper e Jean Harlow, em Mr Deeds goes to Town (1936) É geralmente curtíssima a memória que subsiste à morte de cada um. Não consigo sequer dizer o nome de todos os pais dos meus avós, ter uma ideia precisa sobre as datas em que viveram, enquadrá-los ao certo do ponto de vista histórico e social, conhecer os aspectos cruciais das suas biografias. Tudo o que fica são fragmentos, pequenas histórias, que para quem os conheceu diz tudo, e para quem não os conheceu não diz praticamente nada. Assim, quando ontem fui à Cinemateca ver Doido com Juízo, uma das comédias de carácter «social» de Capra dos anos 1930, foi também com a curiosidade adicional de ter sabido (por um desses fragmentos de biografias) que o meu bisavô que morreu em 1970 era um fã destas comédias de Capra. Andei por lá a adivinhar nas sombras, a imaginar o que lhe teria agradado. Não cheguei longe. O filme de Capra - de que, de resto, gostei muitíssimo - está fortemente impregnado de uma ideologia democrática, igualitária, f-d-rooseveltiana, que eu não sei ao certo como encaixa com o resto. E isto num familiar tão próximo, que andou precisamente pelas mesmas ruas e casas que eu até há tão pouco tempo, que marcará até ao fim a personalidade de pessoas com quem me relaciono todos os dias. Uma vida inteira desaparece como uma tenda: desfaz-se num instantinho.
O regresso
Como um espectro, regressa. Para quem se lembra, os próximos três meses serão dolorosos. Quem não se lembra provavelmente voltará a lembrar-se. Pensei, pensámos muitos, que há dez anos teríamos superado de vez esta fase - a constante invocação do superior «interesse de Portugal» para cobrir todas as suas conveniências (como voltámos já a ouvir por estes dias), aquele farisaísmo, aquele paternalismo antipolítico e antidemocrático. Mas, em dez anos, a direita não descobriu outro chefe, e a esquerda hipotecou o seu tempo com António Guterres, que até há poucos meses conseguiu deixar o PS ainda suspenso de uma putativa candidatura presidencial. Há razões para a depressão, e não é só o défice. Mas também há razões para a acção. Há dez anos que eu não tenho empenhamento político. Suponho que andava a faltar-me qualquer coisa. (Ver também aqui.)
Ironia & sarcasmo
Azeite & Azia, irónico: «Era tão assobiada pelos homens lá da rua, que as outras - engendrando a inveja - lhe chamavam Peseiro.»José Mota, sarcástico: «Peseiro tem o perfil ideal para treinar o Sporting.»
Entrevista Lieven
It’s fascinating. Many Americans seriously believe that Tocqueville settled in America, became an American citizen and died in America. They cannot believe that he only spent like 18 months in America, then went home to France – and never dreamed of settling in America. Já está nas bancas o número da Relações Internacionais que inclui uma longa entrevista que o Pedro Oliveira e eu fizemos ao Anatol Lieven, jornalista, analista de política internacional, especializado na Ásia Central e ultimamente nos Estados Unidos. Melhor que isso, já está online, acesso gratuito, a versão mais longa desta entrevista - e no original, em inglês. Lieven discorre bastante livremente sobre as questões e perspectivas da «democratização» como estratégia da administração Bush, sobre a guerra à al-Qaeda, sobre a política interna americana. Sinceramente, contactei com esta entrevista em três momentos - quando a fizemos, quando a transcrevemos e agora - e fico sempre surpreendido e entusiasmado com a quantidade de coisas interessantes que ele nos disse naquela conversa. Aqui, imprimir, que como digo é longo.
Uma ideia para Alegre
Dado que, no dia em que apresentou a sua candidatura presidencial, Manuel Alegre viu reduzir-se o número dos seus apoiantes de cinco (Alberto Martins, Vera Jardim, Maria de Belém, Osvaldo de Castro) para uma (Helena Roseta), a solução era talvez substituir a campanha por um bed-in. Sai barato e dispensa perfeitamente os «directórios partidários».
De noite a minha digestão parou*
Está aí em exibição um filme que faz o maior sucesso de público e de crítica. Eu também estou demasiado preguiçoso para perder muito tempo a explicar o meu ponto de vista. Baste dizer que o realizador tem a subtileza de quem filma com as patas - atente-se, só para dar um entre mil exemplos, na forma como o protagonista falha na audição de piano: ele não se limita a errar nas teclas, tem que fazer o disparate completo não fosse dar-se o caso de nós não termos percebido. A história assenta numa acumulação confrangedora de lugares-comuns: temos um rapaz cuja mãe já morreu e era pianista e cujo pai ainda é vivo e é bêbado e ganha a vida com base em violência e delinquências; o rapaz começa por seguir a carreira do pai, mas progressivamente vai-se dedicando à inspiração deixada pela mãe; no mesmo trajecto passa de relações fugazes com raparigas bonitas (sobretudo esta) sem dimensão «espiritual» para uma relação intensamente espiritual com a sua assexuada professora de piano, que para ser mais espiritual é chinesa. Temos assim o bom (mãe, infância, memória, «espírito», arte, cultura) e o mau (pai, realidade, dinheiro, violência, raparigas bonitas, sexo). Tudo isto é filmado com a câmara colada à cara do protagonista (simpático, mas feio) durante 120 minutos seguidos.Vá-se lá saber porquê esta acumulação muito francesa de clichés fez as delícias da nossa crítica. E o título - todos disseram: «belíssimo, belíssimo» - dava para desconfiar, não dava? É que se aplica tanto a este filme como a outro qualquer, é uma frase para soar bem. * Foi mesmo.
Magnanimidade
Coluna, Chico Buarque, Eusébio, circa 1970 (método de datação: pela bola) Há horas para tudo, e até para ser magnânimo. Hoje comprei esta foto, em formato 20x30 cm., numa moldura estragada e sem vidro, numa feira aqui ao lado de casa, para oferecer a uma benfiquista que não merece (mas eu não sou magnânimo porque haja benfiquistas que mereçam: ser magnânimo é uma escolha cá minha). E entendi estender este gesto largo à comunidade dos meus leitores, em especial àqueles que por estes dias andam de barriguinha cheia com os golos do Bruno Gomes.
Um texto indispensável
Este. E para provar que afinal os juristas ainda servem para alguma coisa (e o Marques Mendes é dr. em quê?), este, este, este e este.
O resultado certo
Sempre que o Sporting não ganha um jogo, o seu treinador começa a flash-interview por dizer qual teria sido «o resultado certo», sem que ninguém lho pergunte. Talvez Peseiro acredite no poder mágico das palavras para, na sua cabeça, reconstruir o mundo como deveria ter sido; na minha, porém, não reconstroi.
O gato Varandas
Achei que esta casa em Riga era porreira para ti. Parabéns!
À escala
Tenho tanta simpatia pela bandeira do Brasil em tamanho gigante que existe junto do Palácio do Planalto quanto me agride a bandeira gigante de Portugal que agora puseram no alto do Parque Eduardo VII. Deviam pelo menos fazer as bandeiras à escala dos países.
Spartacus
Estive na manif antigay. Éramos para cima de vinte pessoas. Estava um ambiente tão bom para o engate que sugiro que o evento seja incluído na próxima edição do guia Spartacus.
Vai, Alegre
[ou: a birra do morto]Os apoiantes da candidatura de Mário Soares - entre os quais, evidentemente, me incluo - não devem estar nada preocupados com a possibilidade de Manuel Alegre também se candidatar. Pelo contrário: têm todas as razões para estar preocupados porque têm a forte suspeita de que Alegre não se candidatará. Fora da eleição, Alegre pode continuar a fazer estragos, e já se viu que não lhe falta disposição para isso. Com uma candidatura, o deputado-poeta teria que se preocupar em contar apoios, e aí é que viria o sarilho. Até a imprensa havia de começar a dar-se conta do embuste, ao passo que agora segue com avidez cada gesto teatral do bardo. Do ponto de vista eleitoral, os votos que Alegre roubasse seriam um problema? Sem dúvida, sem dúvida. Mas, com toda a probabilidade, um problema menor se comparado com Louçã e Jerónimo, e talvez não decisivo para a questão da segunda volta. Sem contar votos, o prejuízo que a birra de Alegre está a causar à candidatura de Soares é evidente; aliás, suspeito que é maior.
O país e a ideia
"O país" não gosta da ideia: as eleições legislativas foram há demasiado pouco tempo para que haja hoje um empenhamento maioritário num projecto de tipo governativo comandado por Cavaco a partir da Presidência da República. É isso que a direita lhe pede, é essa a vocação de Cavaco, mas é justamente por ele saber que não estamos em 1987, quando ele corporizava a salvação, a autoridade, a estabilidade, que hesita. Mas, por outro lado, as divisões e a desmobilização à esquerda podem ser suficientes para desferir o golpe de misericórdia na candidatura de Soares (por agora, é isso que as sondagens dizem).Vasco Pulido Valente, Público, sexta: «A teoria parece ser a de que na 1.ª volta Jerónimo de Sousa e Francisco Louçã "fixarão" o eleitorado do PC e do Bloco e que na 2.ª volta o mandarão votar contra Cavaco. As sondagens dizem o contrário e o que dizem - que uma parte apreciável do voto do PC e do Bloco passará directamente para Cavaco -, à primeira vista, é lógico. Pelo que se vê na televisão e se lê nos jornais, Jerónimo de Sousa está a "fixar" o eleitorado do PC contra o PS, ponto em que Louçã o irá forçosamente seguir. Como podem eles depois pedir a uma gente em pé de guerra com o PS o voto no candidato do PS? (...) O medo da direita, que deixou de ser "material", volta a funcionar? Não volta. Por duas razões. Para metade da esquerda a direita é Sócrates, com a agravante da inépcia. E para o Bloco e o PC a sobrevivência depende da preservação da sua identidade e não da espécie de "frentismo" que Soares representa e propõe, e que, em última análise, apagando as diferenças, beneficia o PS. Resta evidentemente o espectro de um Cavaco autoritário e "gaullista", pronto a subverter a República e a varrer a politicagem. Há, no entanto, um perigo nisso: e se o país gosta da ideia?»
Videovigilância em zonas perigosas
A SIC levou à prática a proposta de Carrilho, filmando os bastidores a seguir ao debate entre os dois candidatos. Por justiça poética, o próprio Carrilho foi a primeira vítima.
A Ana Drago é o Ivan Nunes
[um email]Não leve a mal o que lhe vou dizer, mas estive a assistir a um programa de televisão, uma entrevista que a Ana Drago deu ao Pedro Rolo Duarte na Sic-mulher, e foi uma experiência arrepiante, freakish, porque me fez lembrar de si. Para ser sincero, achei que estava a assistir à reincarnação daquele rapaz que apareceu aí há uns dez anos na Política XXI. São ambos muito bem articulados na maneira de falar, com um certo ar de novidade e falam com um contentamento um pouco excessivo. Não é que digam grandes disparates, mas nota-se que as ideias estão um bocado coladas com cuspo. Talvez nem acreditem em tudo o que dizem, a última coisa que leram ou lhes entrou pelo ouvido; mas «funciona bem em televisão», é escorreito, permite agradar aos media. Acho que no geral até são bem-intencionados e, como digo, nem tudo o que lhes ouço é tolice. Quer-me até parecer que às vezes lhes encontro uma certa inclinação para a ironia. E mesmo fisicamente os acho parecidos: corte de cabelo, formato da cara. Esta, ao contrário de si, não tem problemas de dicção, e, não me leve a mal, é mais desembaraçada. Será que há uma fábrica onde estes jovens são produzidos? Estive a ver com atenção, e o vosso percurso tem semelhanças incríveis. Não é só serem evidentemente os dois de Lisboa, calculo que de meios sociais parecidos: foram ambos para Coimbra fazer teses em sociologia, ambos sob orientação de Boaventura Sousa Santos; ambos cairam sob a sombra política do Francisco Louçã e a orientação mais directa do Miguel Portas (o que é chato, sem ser trágico). E ambos, reparei agora, começaram no mesmo programa de televisão, «Lentes de Contacto», uma coisa para adolescentes e feita por adolescentes no segundo canal do início dos anos 90, embora não ao mesmo tempo, porque creio que você é um bocado mais velho. Eu tinha uma certa simpatia por si, tanto que cheguei a votar na Política XXI (também, eram umas eleições sem importância nenhuma, não se decidia nada). Mas, de certa maneira, para dizer com franqueza até simpatizo mais consigo por ter desaparecido. Suspeito que deve ter reparado que ser criatura dos media não é vida para ninguém, um boneco articulado a papaguear entretenimento sob a forma de discurso político; e lá foi à sua vida. Para ser uma celebridade, só se for em grande estilo, tipo Scarlett Johansson, Jude Law ou Pimpinha Jardim (desculpe: houve aqui interferência de uma parte do cérebro que devia estar a descansar). Mas você, na política, como celebridade não chega nem para entrar na Quinta; e, para isso, mais vale estar em casa, levar a sua vida, sossegadinho.
Realmente não sei como é que ainda não tinha reparado nisso
É preciso/é urgente/Jerónimo/a Presidente.[palavra de ordem ensaiada no Altis ontem à tarde]
RTP Memória Recente
Se eu mandasse na RTP-Memória, a esta hora estavam a passar o jogo de ontem à noite.
Isaiah Berlin em Riga (2)
Nesta foto, a figura do lado direito da porta saiu cortada E aqui foram as patas que foram à vida A sua memória do lugar onde nasceu estava enquadrada por duas esfinges que guardavam a entrada do apartamento da Albertstrasse, duas figuras reclinadas, em gesso, com patas, peitos e penteados de faraó. Ainda lá estão, cheias de musgo, por causa da humidade, e lascadas pelo tempo – a guardar o prédio de Arte Nova onde ele nasceu a 6 de Junho de 1909. (...) Os primeiros seis anos de vida passou-os no apartamento da Albertstrasse. A governanta letã levava-o por entre as esfinges, pela rua abaixo, até ao jardim grandiosamente chamado de passeio público, onde veteranos da Crimeia apanhavam sol e reviviam Inkerman e Sebastopol. Riga era então a capital da Livónia, uma província do império dos czares. A presença imperial russa compunha-se de uma guarnição militar, de um destacamento de cavalaria, de uma catedral ortodoxa recentemente construída, de uma pequena administração de escriturários e copistas, presidida por um governador com staff, comitiva e carruagem. Os russos não tinham feito muito para alterar a velha identidade de Riga como cidade comercial hanseática, com o alemão como língua de cultura e comércio. (…) Na Riga de 1909, o russo era a língua da administração, mas o número de russos na cidade era pequeno, e as línguas que se ouviam nas ruas, para além do alemão, seriam o letão e o ídiche. No topo da pirâmide social da Riga czarista estavam os barões do Báltico, alemães que falavam russo - os Korffs e os Beckendorfs, os Keyserlings e Budbergs -, dinastias familiares construídas ao serviço de Pedro, o Grande, e czares seguintes. Eram donos das maiores propriedades da região e das melhores casas da cidade. Abaixo deles vinham os mercadores alemães da Bolsa e os comerciantes estrangeiros de madeira. Depois, os mercadores judeus e os profissionais liberais judaicos; abaixo, os artesãos judeus que vivam no ghetto de Red Dvina. No fim de tudo os letões: gente do campo recentemente urbanizada, com uma cultura camponesa. Representavam a maioria, mas não tinham direitos na sua própria terra. Em Riga, eram empregados domésticos, trabalhadores e governantas. Albertstrasse ficava na nova Riga, para lá do rio em relação às ruas empedradas da velha cidade hanseática, numa área de prédios de apartamentos Arte Nova em estilo parisiense. O pai de Sergei Eisenstein – um judeu convertido de Riga – tinha desenhado alguns destes prédios, e o próprio Eisenstein passou a sua infância em Riga. Havia escolas judaicas na área nova de Riga, mas não se tratava de um bairro exclusiva, ou sequer especialmente, judaico. [Michael Ignatieff, 1998, Isaiah Berlin - a life, NY: Metropolitan Books, pp.10-12. Traduzido, um bocado toscamente, por mim.] Estas são fotos de outros prédios, no mesmo bairro
Riga
Este é o prédio em Riga onde nasceu Isaiah Berlin.Cheguei lá por acaso: andava a passear por uma zona da cidade onde existem muitos prédios de Arte Nova construídos na transição do século XIX para o XX, até que dei com a placa. Sou muito fã deste género de visitas, o local onde nasceu Berlin, a casa onde viveu E. H. Carr no fim dos anos 1920 (não encontrei), o cemitério onde estão enterrados Dostoevski e Tchaikovski (em São Petersburgo, fica para outro post). O ambiente de Riga não tem nada que ver com o de Tallin também graças à expansão industrial que Riga conheceu muito antes da anexação soviética. Riga era uma das cidades mais importantes do império dos czares no início do séc.XX, tendo praticamente duplicado de tamanho nos quinze anos anteriores à I GM, para mais de 500 mil habitantes (quase o mesmo que tem actualmente). Não tem aquele ambiente medieval, preservado, de Tallin, mas uma arquitectura muito mais moderna. O ambiente é também mais cosmopolita, e mais russo - e não há maneira de eu não dizer isto como um elogio. Percentualmente, há mais russos em Tallin que em Riga, mas curiosamente em Riga são mais os russos (43%) do que os próprios letões (41%). De acordo com todas as crónicas, a tensão entre russos e locais é ainda mais grave na Letónia - que de resto é um país mais pobre do que a Estónia - mas não foi nada essa a percepção que eu tive andando nas ruas. Ouve-se falar russo com muito mais frequência, e há lugares onde praticamente só se fala russo. Por exemplo, umas salas de chá imperdíveis, onde se fumam cachimbos de água e passam videoclips de música indiana na televisão. Isto não exclui o facto de que as fracturas são sensíveis, e de que não há, por exemplo, celebrações políticas comuns. Coincidentemente, no dia em que escrevi aquele post longo sobre a Estónia, ao sair do cibercafé para a rua deparei com uma cerimónia que assinalava os 66 anos do pacto Molotov-Ribbentrop. Ali não havia russos, naturalmente, e nas celebrações da vitória sobre os nazis tão pouco se encontram letões. Nem a minha simpatia pró-russa deve ocultar que, se se chegar a Riga e se cair nas mãos de um taxista russo, de uma senhora que aluga quartos russa e de um funcionário de hotel russo (como me aconteceu), rapidamente se percebe que aquela comunidade tem uma relação na melhor das hipóteses flexível com a legalidade, e que os estereótipos racistas dos «nativos» sobre os russos se alimentam de alguma coisa. Há algumas precisões que ficaram por fazer no longo post que escrevi no outro dia. Por um lado, cometi uma relativa injustiça quando me referi ao extermínio dos judeus. É verdade, como dizia, que eles foram dizimados nos três países do Báltico de um dia para o outro, mas os números envolvidos variam consideravelmente de país para país: na Estónia estima-se em cerca de cinco mil o número de judeus mortos em 1940-41; na Letónia, noventa mil; e, na Lituânia, Vilnius tinha uma das maiores comunidades judaicas do mundo antes da II GM, onde entre 135 mil e 300 mil pessoas terão desaparecido (os nazis não perdiam aparentemente muito tempo com estes recenseamentos). É portanto relativamente compreensível que os estónios dediquem menos atenção a esta página da sua história que os lituanos ou os letões. Por outro lado, a situação dos russos da Estónia é, do ponto de vista dos direitos de cidadania, ainda um bocado pior ainda do que eu a pintei. Em 2002, havia cerca de 100 mil russos da Estónia que tinham adquirido cidadania, mas 270 mil não a tinham, sendo que, destes, 180 mil não tinham cidadania de país nenhum. Não sei se disse que os russos não têm representação política própria - o partido pró-russo não tem absolutamente nenhuma expressão eleitoral - nem há, aparentemente, nenhum deputado russo no parlamento da Estónia. Das melhores paisagens de Riga não pude, infelizmente, fazer fotos. Há um filme do Truffaut (O Homem que Gostava de Mulheres) que começa, salvo erro, com o protagonista numa cave, a ver, pela janela, passar pernas de mulheres, até que, a certa altura, resolve seguir um desses pares de pernas, mesmo sem ver mais nada da mulher a que pertencem. Creio que deve ser possível fazer um walking tour completo de Riga simplesmente seguindo esta nobre metodologia.
Post-soviet gloom
Riga, Agosto de 2005 Deixar a URSS ao fim de três semanas foi uma experiência estranha. 70 anos, faço ideia.
Education campaign to preserve the advanced nature of Communist Party members
Ler o Economist também é um prazer por causa dos pequenos detalhes que se aprendem. Por exemplo, que em espanhol existe a expressão «callarse como una puta», e que os cursos de doutrinação ideológica do Partido Comunista Chinês se chamam (na tradução inglesa) «education campaign to preserve the advanced nature of Communist Party members». Outro dia também havia um texto que colocava, a propósito da Polónia, muitos dos problemas que eu tinha encontrado na Estónia:Poland, Russia and Germany - The burden of history Aug 18th 2005 | WARSAW From The Economist print edition A testy relationship with the two big neighbours POLAND'S misfortune has been to be sandwiched between two big and often unfriendly powers, Germany and Russia (Poles say wryly that their historical mission is to kill Germans for duty and Russians for pleasure). Modern diplomacy with both is correspondingly tricky. The latest row is with Russia, where three Poles—two embassy officials and a journalist—have been beaten up within a week. This was in retaliation for the mugging of three teenagers, children of Russian diplomats, late at night in Warsaw. It was an echo of cold-war habits, when any perceived harassment of Soviet diplomats abroad was swiftly matched in Moscow. The incident in Warsaw seemed sad but unremarkable. But the Russian reaction was extraordinary. An angry President Vladimir Putin went on television to condemn the mugging. The Polish ambassador was summoned to the foreign ministry, which demanded an official apology. “This disgraceful incident cannot be called a coincidence,” said a spokesman. Dmitry Kosachev, head of the foreign affairs committee of the Russian parliament, the Duma, blamed it on anti-Russian hysteria. Another Duma deputy said the attack was facilitated by Polish attempts to revise the history of the second world war. Poland and Russia certainly see history differently. To most Poles, Stalin's Soviet Union was first a co-conspirator with Hitler's Germany, and then a murderous occupying power. Under Mr Putin, Russia glorifies the Soviet Union's defeat of Hitler, and whitewashes everything else. Newer issues grate too. Some Polish politicians have backed Chechen rebels. Poland strongly supported the “orange revolution” in Ukraine, which Russia resisted. The Poles champion their persecuted ethnic kin in Belarus, whose authoritarian regime is one of Russia's closest allies. The Russians accordingly see the Poles as ungrateful, meddling American lackeys. This places Poland in a bind. The obvious thing to do is to protest, but that only strengthens Russia's argument that Poland (like the Baltic states) is a shrill Russophobe that is out of line with the rest of the European Union. This argument seems to sway the EU, which regards all the ex-captive nations' rows with their former master as bilateral matters. Germany's chancellor, Gerhard Schröder, in particular, has seen good relations with Mr Putin as more important than Polish neuroses. That could change if Angela Merkel, the centre-right candidate, replaces Mr Schröder after next month's German election. Ms Merkel was in Warsaw this week, promising that Germany would treat Poland with equal consideration to France and that the EU's eastern policy would not be made over Poland's head. A Merkel win would be good news for conservatives in Poland, whose foreign-policy stance is overshadowed by the savvy ex-communist president, Aleksander Kwasniewski. But there's a problem with Ms Merkel too. She supports the building of a museum in Berlin to commemorate the expulsion of millions of Germans from her country's eastern territories (now mostly part of Poland) after the war. This is a favourite cause of the German right, but it is anathema to Poles, most of whom think the Germans got what they deserved.
Sexo
- algum, por assim dizer, lirismo -Gostei do Nine Songs. Não se passa nada: nove canções pop (não as contei, mas presumo) são intercaladas com a relação sexual entre um rapaz e uma rapariga. Não há (que eu desse por isso) nenhuma ligação especial entre as canções e os dois amantes. O filme mostra a relação entre os dois na sua dimensão estritamente física; e com mais detalhe de sexo explícito do que eu alguma vez tinha visto no cinema. No entanto, sendo estritamente física, a relação entre os dois parceiros não tem nada de atlético; e, sendo o filme explícito nos seus conteúdos sexuais, a estética nunca se aproxima do cinema pornográfico habitual. Não pretendo convencer ninguém da justeza desta minha afeição. Suspeito que, especialmente perante um filme como este, todas as tentativas de persuasão seriam desperdiçadas. Quase toda a gente que conheço, e os críticos que li, achou o filme deplorável. (Embora eu esteja efectivamente convencido de que este Michael Winterbottom não é parvo nenhum, sabe filmar, e que os dois actores têm, como é visível, um excelente desempenho.) O que acho é que as bolas pretas dos críticos não devem desencorajar o eventual espectador hesitante de ir ao cinema e formar o seu juízo, como eu formei o meu. Pode ser que ache o filme uma inanidade, como os meus amigos acharam, ou pode ser que encontre lá pretextos para se emocionar, para simpatizar, mesmo para se comover. Mas é só sexo, não é? Há registos.
Reverse cultural shock
(Lisboa.) Cheguei, evidentemente, a Nápoles.
Reacção à chegada
Eu não fico.
A incúria
Estive mais de 30 dias sem aceder à conta do hotmail. Em consequência, a conta desapareceu, com todas as mensagens que tinha cuidadosamente guardado durante anos. Tenho a certeza de que faço estas coisas de propósito: ciclicamente, perco tudo. De forma consciente não mandaria nada para o lixo, de modo que a incúria é a forma que me resta de seguir em frente.(Ah, dou-me agora conta: o acesso ao msn e ao hi5 também devem ter desaparecido. Não vou morrer com as saudades.)
O misantropo
Nao é que gostasse de andar sozinho; evitava era andar acompanhado.
Aventuras na Rússia
Um russo chamado Joaquim faria em Portugal o maior sucesso.
Temos aqui um belo caldinho
Tallin é um parque temático. O centro histórico da cidade é medieval, cheio de construções dos séculos XIII e XIV. Mais do que as casas e as muralhas, o que se vê lá por agora são excursões de turistas de mais de meia-idade, italianos, espanhóis e até portugueses. Há muitas flores, vendidas profusamente 24 horas por dia (literalmente), que são uma especie de imagem de marca da cidade. É preciso sair um bocadinho para fora deste circuito para ver a coisa que realmente tem um mínimo de interesse na região: a relação, tensa, entre os russos e os estónios. Os russos, claro está, da Estónia. Das primeiras vezes que falei com russos da Estónia não os percebi muito bem quando me disseram que eram russos e em seguida, à pergunta sobre de onde, me responderam que da Estónia. Eu imaginei que fossem Estónios. Regra geral, não são: embora componham cerca de metade da população de Tallin, e um terço da população do país, os russos da Estónia falam russo, raramente se casam com Estónios e, em grande número, não têm cidadania plena no país em que vivem. Aliás, não têm cidadania plena em país nenhum: têm um passaporte cinzento, de segunda categoria. Só obtiveram cidadania estónia depois de 1991 os cidadãos que faziam parte da Estónia até 1940 (ou os seus descendentes), excluindo assim as centenas de milhares de russos que o regime soviético incentivou a emigrar para a Estónia – dando-lhes em troca tratamento privilegiado nos empregos, no acesso a casas, etc. O ressentimento russo-estónio parece nao ter fim. Tivemos a sorte de, num sábado, ir parar por acaso à catedral ortodoxa (russa) de Tallin, chamada Alexandre Nevski. Por coincidência, tínhamos acabado de sair do museu Estónio dedicado à ocupação russa (e, marginalmente, à ocupação nazi), que é, como se imagina, uma peça de propaganda nacionalista mas não desprovida de todo o interesse. (Os contactos com as memórias da URSS – sedes do KGB, fotografias, etc. – são sempre instrutivos: mandam arrepios pela espinha. Embora, por outro lado, ao fim de meia-hora lá dentro eu dê sempre por mim a fazer piadas sobre o assunto.) A Estónia é internacionalmente vendida como um milagre económico, e talvez o seja. O milagre, contudo, não se estende igualmente a toda a população. Não houve uma única pessoa com quem eu falasse – russa ou estónia – que encarasse o problema nacional com indiferença. (Nem mesmo os russos com quem falei sobre o assunto em São Petersburgo.) Os estónios não parecem dispostos a expulsar a população russa, à boa maneira das deportações do sec.XX – nem têm, presumivelmente, força para isso. Mas sem dúvida que gostavam que os russos fossem embora. Os russos aceitam mal o fim da União Soviética, o facto de, de um dia para o outro, terem deixado de poder falar russo e terem passado a ser discretamente mal-tratados pelo Estado. Num passeio num dos últimos dias em Tallin fui levado a ver um memorial aos soldados mortos na II Guerra Mundial. Em 1970, a URSS erigiu um horrendo memorial aos seus soldados, aparentemente sem prestar atenção ao facto de que por ali estavam enterrados soldados que tinham combatido pelo lado nazi. Em 1995, o governo da Estónia resolveu erigir um memorial, mesmo ao lado, aos soldados nazis mortos na II GM, e aos estónios que morreram combatendo ao lado deles. O memorial soviético está a cair aos pedaços, o nazi impecavelmente cuidado. A mensagem latente é que os estónios preferiam os nazis aos soviéticos, e de resto ninguém duvida da humilhação que um tal memorial representa para os russos, que fazem da vitória contra os nazis na II GM um pilar fundamental do seu orgulho patriótico. Durante a ocupação nazi, os judeus da Estónia foram dizimados quase de um dia para o outro, aparentemente com a colaboração genuína dos Estónios. Dizem-me que noutro lugar, fora da cidade, há um memorial a esses judeus mortos, mas eu não o vi, e de qualquer forma é evidente que não é esse pedaço da história que os estónios estão interessados em recordar. Mas estão sem dúvida interessados em recordar a história. Lamentam que os russos não tenham feito nenhuma ruptura com o seu passado soviético, que não tenham pedido desculpa da mesma forma que os alemães o fizeram pelo seu passado nazi. Uma miúda queixa-se de que, num recente jogo de futebol Estónia-Rússia (para o nosso grupo de qualificação para o mundial), havia adeptos russos com as velhas camisas CCCP, num gesto de provocação evidente. De facto, para os russos a história da URSS e o seu passado como potência mundial parecem ocupar um espaço central no seu orgulho patriótico. Os russos queixam-se de serem tratados como cidadãos de segunda, dos obstáculos que lhes levantam, da sua situação económica subprivilegiada. E assinalam que, nos tempos da URSS, a Estónia sempre viveu bem melhor que a maior parte do país. Os russos da Estonia não querem aprender estónio. Os estónios – mesmo os que aprenderam russo na escola – frequentemente hoje não querem falar russo. As escolas, aliás (e isto é uma coisa que me impressiona), sempre foram e são até hoje separadas. Há russos e há estónios: sobre isso ninguém tem a menor dúvida. Durante vários anos dei algumas aulas sobre nacionalismo. O programa era estruturado à volta de uma santíssima trindade – Gellner, Anthony D. Smith e Benedict Anderson – e eu procurava transmitir algum entusiasmo aos estudantes por via dos textos que eram realmente bons. (O materialismo do Gellner continua a ser um pilar na minha forma de perceber o mundo, e não apenas na questão do nacionalismo). No entanto, a matéria nunca me entusiasmou verdadeiramente. Duvido que alguma vez tenha sequer percebido cabalmente a questão que estávamos a tratar, embora eu conhecesse bem os temas e as principais polémicas nesta área de estudos. Para alguém com uma experiência portuguesa, pelo menos contemporânea, as questões do nacionalismo permanecem impenetravelmente abstractas. Faltava-lhes «flesh and blood», que na Estónia se encontram a cada passo. Na rua – nas ruas que não estão pejadas de turistas italianos, espanhóis, finlandeses – consigo reconhecer os russos praticamente um por um: pelas características faciais (os estónios são mais nórdicos, não são eslavos), pela condição económica, pela maneira de vestir – e, sim, também por uma espécie de amargura, de agressividade, que é uma imagem de marca dos russos aqui (e de que não vi nem traços em São Petersburgo). A questão do nacionalismo é muito simples: uma resposta à pergunta «Quem manda?». Infelizmente para os marxistas, e para a esquerda em geral, a pertença linguística e cultural parece ser muito mais sólida do que a identidade de classe para organizar as pessoas de forma a dominar outras. A vontade de dominar, a ausência de reconhecimento da igualdade das pessoas, aqui sente-se à flor da pele. Os estónios e os russos com quem falei deram-me os seus pontos de vista sobre a história, totalmente irreconciliáveis embora os factos fossem basicamente os mesmos. A versão que ouvi em cada momento sempre me pareceu tão sincera a ponto de ser quase irrefutável: o meu desejo foi concordar com os dois, coisa que muito raramente me acontece. No fim das contas acho que não consegui evitar uma certa inclinação pró-russa. Perguntei-me a mim mesmo por que seria isso, se seriam reminescências de uma certa identificação da esquerda com a URSS. Suponho que não. Enquanto a URSS existiu nunca lhe tive a menor simpatia (nem no futebol, por exemplo), e conscientemente não me parece que a esquerda tenha absolutamente nada de positivo a aprender da experiência soviética. (Sim: de um ponto de vista progressista, acho que foi tudo mau.) Mas a Rússia é grande demais, poderosa demais, consciente da sua importância histórica e da vitalidade da sua cultura, para que os russos possam ser por muito tempo tratados como cidadãos inferiores em relação aos outros, sejam os nativos estónios, os turistas alemães, ou seja quem for. Simplesmente não me parece sensato que a Estónia pretenda consolidar a sua independência nacional na base da hostilização dos russos. A prazo não me parece sequer sustentável. Saí da Estónia no dia 20 de agosto, data da independência nacional Estónia (de 1991). Muitas, muitas casas tinham bandeiras estónias nos mastros - não bandeirinhas nas janelas, à portuguesa, mas em mastros propriamente ditos, que aparentemente todas as casas particulares têm. Claro, metade da população de Tallinn não participa na celebração. Esse género de imagem, assim como entrar na catedral ortodoxa em hora de celebração, a 60 metros do parlamento da Estónia, sentir a hostilidade e a diferença - esse género de coisas também manda arrepios pela espinha. [camarada maradona, ligeiramente revisto por causa das gralhas]
Férias
Chego a acreditar que um dos prazeres de viajar sozinho é ter oportunidade de ler o Economist de ponta a ponta. Este texto está até disponível para não-assinantes.
The trouble with environmentalism
Sweden is a completely no-waist society.
Blame it on al-Qaeda
(...) An ITV News investigation claims that when Mr de Menezes, 27, was challenged by police on the Northern Line train at Stockwell he did not make any aggressive move. Police claims at the time that the electrician was “behaving erratically” are alleged to be false.The blunders began as Mr de Menezes emerged from his flat in Tulse Hill in South London at 9.30am. The undercover officer who was meant to identify anyone leaving the flats admitted that he had left his post, so could not communicate observations or take video footage. His advice was, “It would be worth someone else having a look”, to ensure that they had the right man. No other officer apparently took a picture of him, although Mr de Menezes had to take a bus to the station. Even so, Gold Command at Scotland Yard, which ran this operation, declared a “code red” and handed responsibility to CO19 — the firearms team. This armed team had been given photographs of alleged bombers, yet no one realised that Mr de Menezes bore no resemblance to them. The report states that the firearms unit had been told that “unusual tactics” might be required and if they “were deployed to intercept a subject and there was an opportunity to challenge, but if the subject was non-compliant, a critical shot may be taken”. CCTV footage shows that Mr de Menezes was wearing a thin denim jacket that could not conceal a bomb, and he was not carrying a bag. Far from running from police, he did not realise that anyone was following him and even picked up a free newspaper before using his season ticket to pass through the barrier. He began to run only when he saw his train pull into the station. At the time of the shooting, Scotland Yard said that Mr de Menezes’s “clothing and his behaviour at the station added to their suspicions”. It was only when Mr de Menezes boarded the train that a surveillance officer guided four armed police into the same carriage. (...) CONTRADICTIONS Police de Menezes wearing suspicious clothing Evidence to inquiry Wearing only thin denim jacket Police Acting suspiciously on way to Stockwell station Evidence to inquiry Nothing odd in his behaviour Police Challenged at station and refused to obey instructions Evidence Challenged for first time while seated on train Police de Menezes vaulted ticket barrier to escape Evidence Did not vault. Ran only to catch train Police Eight shots fired into him Evidence Eleven shots fired, three missed [do Times, de 17 de agosto] [os terroristas da Al-Qaida] eles sim mataram o infeliz trabalhador brasileiro, eles sim lhe roubaram a “dignidade” e “respeito”, [e nao] a polícia londrina para quem todas as indignações se dirigem. [do Abrupto] Oiço dizer que há dias, no blog de José Manuel Fernandes, Vasco Pulido Valente «explicou» a imprescindibilidade das bombas atómicas de 1945 sobre Hiroxima e Nagasáqui. Às vezes quando se está no estrangeiro torna-se quase difícil de acreditar no nível de insanidade em que se processam os debates portugueses. For while Hoffmann is generally dead on target in his condemnation of the Bush administration, the conceptual idiocy of the “war on terror,” and the wider chauvinism, ignorance, and Francophobia of the U.S. establishment and media, Bozo also makes some good points concerning French arrogance and self-delusion, unfortunately summed up in the figure of the new prime minister, Dominique de Villepin, whose obsession with Napoleon would be sinister if it weren’t silly. [desta recensão de Anatol Lieven na American Prospect]
Da série «Frases que impõem respeito»
Este blog acaba aqui.(No panorama dos blogs colectivos, o Fora do Mundo era um caso realmente singular. Tento seguir tudo o que o Mexia escreve: adeus, e até já. Com o fecho do Aviz fico triste, não apenas porque o Francisco José Viegas me tem tratado excessivamente bem, mas porque mesmo estando na Rússia eu corria ao blog à procura de notícias do Brasil. Temos, evidentemente, perspectivas políticas muito diferentes, e eu de forma alguma partilho a antipatia dele em relação à esquerda e ao PT, mas o aviz era provavelmente a fonte mais útil e mais interessante que tinha para seguir a politica brasileira. Obrigado - e conto que regresses.)
Museu do Vodka
Mais uns dias por aqui, e ao voltar a Lisboa o museu do vodka era eu.
Esquerda
Quando nos acusarem de optimismo antropológico, temos sempre os bolcheviques todos com que nos defender.
Superpotência
Com mulheres destas nao é difícil ser uma super-potência.
Make love not war
Se a Guerra Fria se tivesse decidido num concurso de misses, a URSS limpava isto com uma perna às costas. No Ocidente ocultaram-nos a verdade durante demasiado tempo.
Links
Abrupto |
A Causa Foi Modificada |
Agrafo ponto net |
Alexandre Soares Silva |
A Sexta Coluna |
Blogo Existo |
Bomba Inteligente |
Buba |
Canhoto |
Causa Nossa |
Estado Civil |
Garedelest |
Margens de Erro |
O Céu sobre Lisboa |
Verões passados A Coluna Infame |
Barnabé |
Caderneta da Bola |
Cristóvão de Moura |
Fora do Mundo |
Gato Fedorento |
País Relativo |
Super Mário |
Umbigo
Para depois da praia
Anatol Lieven |
Anatol Lieven (entrevista) |
Antonio Cassese |
Arts & Letters Daily |
David Harvey |
Javier Marías |
John Kenneth Galbraith |
John Mearsheimer |
Kenneth Waltz |
Kenneth Waltz (entrevista) |
Michael Mann |
New York Review of Books |
Niall Ferguson |
Open Democracy |
Paul Krugman |
Pedro Magalhães |
Pedro Magalhães (2) |
Perry Anderson |
Political Theory Daily Review |
Rui Tavares |
Seyla Benhabib |
Susan Strange |
Timothy Garton Ash
Archivesjulho 2003 agosto 2003 setembro 2003 outubro 2003 novembro 2003 dezembro 2003 janeiro 2004 fevereiro 2004 março 2004 abril 2004 maio 2004 junho 2004 julho 2004 agosto 2004 setembro 2004 outubro 2004 novembro 2004 dezembro 2004 janeiro 2005 fevereiro 2005 março 2005 abril 2005 maio 2005 junho 2005 julho 2005 agosto 2005 setembro 2005 outubro 2005 novembro 2005 dezembro 2005 janeiro 2006 fevereiro 2006 março 2006 abril 2006 maio 2006 junho 2006 julho 2006 setembro 2006 outubro 2006 novembro 2006 dezembro 2006 janeiro 2007 fevereiro 2007 maio 2007 janeiro 2017 |
||
|
|